As 50 melhores músicas de 2008: 18) Britney Spears – “Womanizer”

A introdução composta por um zunido repetitivo abre a música como se o Daft Punk da fase “Robot Rock” estivesse experimentando uma áudio-hipnose gerada por uma furadeira. E quando Britney começa a cantar – monocórdica, monótona, robótica, mecânica – a faixa ganha ainda mais contornos artificiais, mesmo que sua sensualidade de plástico atice algum vestígio de humanidade. Quando ela entra no refrão – “Womanizer” quer dizer “Mulherengo”, imagina um refrão que repete essa palavra nove vezes seguidas -, Britney já extrapolou as fronteiras entre jingle e o single, o hit e o repeat. Termos como “comercial” e “pop” ganham novas dimensões à medida em que a diva fake dispensa outro jovem popstar que vem bater em sua porta com uma música incrivelmente grudenta, bubblegum para a era eletrônica. “Womanizer” não chega nem aos calcanhares das melhores faixas de Britney (“Toxic”, “Baby One More Time”, “Slave 4 U”, “Gimme More”), mas é boa o suficiente para figurar entre as melhores do ano. E sedimentar a carreira cada vez mais sólida de Britney Spears.

18) Britney Spears – “Womanizer

As 50 melhores músicas de 2008: 19) Ting Tings – “Great DJ (Calvin Harris Remix)”

Vamos aos fatos: o que salva o Ting Tings é o refrão de “Great DJ”. Sem ele, os hits da banda (“DJ”, “Shut Up and Let Me Go” e “That’s Not My Name”) seriam só a repetição de uma fórmula que o Ting Tings descobriu, que transforma o White Stripes em pomponetes de torcida de futebol americano. Graças a uma vocalista loira e magra que funciona no vídeo, a fórmula vem sendo repetida com tanta insistência que, não fosse o tal refrão, a dupla inglesa conseguiria ser mais chata do que a Peaches. Mas há o refrão de “Great DJ”: “Imagine all the boys/ And the girls/ And the strings/ And the drums, the drums, the drums” com todos seus “a-a-a-a” e “i-i-i-i” que tornam a música memorável. Aí vem o Calvin Harris e sacrifica uma das melhores partes da música (o trecho guitar), distorcendo-o e entortando-o de um jeito que a música ganha um par de quadris até então não utilizados. O remix chacoalha a dupla inglesa formada por Katie White e Jules De Martino de tal forma que se eles insistirem no formato riff-e-bateria por mais um disco, não vão muito longe. Calvin deu a dica – rebolem.

19) Ting Tings – “Great DJ (Calvin Harris Remix)

As 50 melhores músicas de 2008: 20) MGMT – “Electric Feel”

Por mais desleixado e relaxado que os dois MGMT pareçam, eles são um projeto – algo entre um minucioso relatório nerd sobre a era psicodélica e suas relações com as ciências ocultas e um estudo fashion sobre o resgate das cores e do despojo durante os anos 60. Usam toda a mitologia sessentista como os góticos se referem aos poetas românticos, os metaleiros do mal se debruçam sobre o satanismo e algumas bandas de música eletrônica deixam-se levar por clássicos da ficção científica. Assim, vêem a década que deu ao mundo o flower power, os mods, o arcadismo hippie, a transgressão política, a esquerda rebelde e o rock como estilo de vida como uma coisa só – e traduzem hinos pop que poderiam ser gravados pelo Cure, pelo Kiss ou pelo Abba sob arranjos descaradamente retrô. “Electric Feel” é sua ode à selva, ao paganismo naturista, de sacrifícios a deuses-animais e confins do planeta. Mas, no fundo, no fundo, é só uma canção de amor. E das boas.


20) MGMT – “Electric Feel

As 50 melhores músicas de 2008: 21) Supercordas – “Mágica”

Dono de um dos melhores discos nacionais de 2006 (só ficou atrás do Kassin, na minha votação), os Supercordas adiaram seu terceiro disco para 2009, mas não passaram por 2008 sem antes deixá-lo com um doce na boca. “Mágica” afasta o mofo celebrado em Seres Verdes ao Redor em uma canção tanto ensolarada quanto mística, usando guitarras e efeitos sonoros para levar o ouvinte a uma utopia primaveril, de psicodelia brasileira setentista, que mescla, sem preconceito, o Clube da Esquina com os Secos & Molhados, os Mutantes menos engraçadinhos com o Raul Seixas mais sério, reverberando melodia, acordes e solos que poderiam ter saído do Magical Mystery Tour, do Pet Sounds, do Odissey & Oracle ou de qualquer banda da Elephant Six. E o que dizer de uma letra que enfileira o rio São Francisco, a Califórnia, o Peloponeso, igarapés espaciais, cápsulas de sonho, formigas e dragões para culminar em “toda a mágica deriva dos elefantes” e desembocar em uma coda que poderia ser tanto da fase de transição do Pink Floyd quanto do final dos Beatles. Nota 10.


Supercordas – “Mágica

As 50 melhores músicas de 2008: 22) Black Kids – “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How to Dance with You (Twelves Remix)”

Não é senso de composição que falta aos Black Kids. O grupo americano tem noção do que faz uma música tornar-se memorável e realmente trabalha nesse sentido – seu disco de estréia, Partie Traumatic, é um esforço louvável de se fazer música pop pura e simples no século 21 e seu vocalista Reggie Youngblood tenha a voz com mais personalidade entre as bandas que não têm mais de dois discos de carreira. Mas a banda ainda não chegou lá – “I’ve Underestimated My Charm (Again)” e “Hurricane Jane” tem refrões irresistíveis, mas instrumentação frouxa, preguiçosa, desleixada – o que pra muitos é estilo. Mas a dupla carioca Twelves mata a charada ao costurar as pontas que sobram, subir um pouquinho o tempo e o pitch da faixa original e finalmente envernizá-la com um brilho oitentista, que, se sozinho reflete e brilha, sobre os Black Kids dá a textura ideal para que a banda aspire para além da própria vizinhança. Questão de postura – tem gente que prefere andar encurvado, tem gente que prefere esticar os ombros e estufar o peito. Os Twelves fazem os Black Kids andarem nos trilhos.


22) Black Kids – “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How to Dance with You (Twelves Remix)

As 50 melhores músicas de 2008: 23) Snoop Dogg – "Sensual Seduction"

O que acontece quando um dos gangstas da velha guarda resolve dar seu pitaco nessa conversa de revival dos anos 80? Pois Daft Punk e Chromeo bebem da mesma fonte de vocoders, sintetizadores e suíngue quadrado que o próprio gangsta reinventa há vinte anos – e que foi justamente o ponto de atrito entre aquele novo rap e a soul music dos anos 90, dando origem a esse cenário R&B de Beyoncés, John Legends e Chris Browns. Por isso quando Snoop Dogg surge no horizonte, antes de perguntar-se se aquilo tudo é fumaça branca ou gelo seco, preste atenção. Preguiçoso e cantando (rá!), o velho Snoop espreguiça-se em uma rede de cordas sintetizadas, deixando seu vocal modular-se pelo Autotune tendo como espelho mais a dupla Roger & Zapp do que Cher (chupa, Kanye West!). Fora o clipe, retrô no talo, que também é – fácil, fácil – um dos melhores do ano passado.


23) Snoop Dogg – “Sensual Seduction

As 50 melhores músicas de 2008: 24) MGMT – "Kids"

Se o MGMT pode ser encarado como o filho improvável do LCD Soundsystem com os Flaming Lips, “Kids” é o desenho colorido que ele vem mostrar feliz. Construída ao redor de uma única frase musical, um mantra repetido num teclado cafona, ela é uma espécie de busca ao tempo perdido da infância através da dança, encontrando paralelos no quase autismo de qualquer criança no pequeno universo de seu quarto e a dança de olhos fechados na pista de dança indie. Synthpop disfarçado de psicodelia dance, “Kids” existe desde 2003 (quando o grupo ainda se chamava The Management) e funcionou como a base dos três pilares que tornaram a dupla nova-iorquina em um dos principais nomes de 2008.


MGMT – “Kids

As 50 melhores músicas de 2008: 25) Does it Offend You Yeah? – "We Are Rockstars"

Qual é o melhor exemplo do maximalismo que toma conta da música de pista hoje em dia? Os riffs metal do Justice? O pânico desenfreado do Goose? O quase-rock do Digitalism? O brutalismo ritmico do MSTRFKRFT? Embora surja em diferentes praias (as bandas listadas vêm da França, Bélgica, Alemanha e Canadá), a música que talvez melhor sintetize essa tendência, que começou a desenrolar a partir do raivoso Robot Rock do Daft Punk, seja o hit do quarteto inglês Does it Offend You Yeah?, que, no meio de bordoadas sintetizadas, sirenes, efeitos, vocoders, cowbell e levada de rock ainda resume, bem ou mal, o que anda acontecendo com a música em tempos de redes sociais:

You’re all rock stars now in a network town
theres no place to go,
to be on your own
making friends and foes
watch the network grow,

Will you find a time
when you’re not online
standing all alone,

Where’s your real friends now?
you have let them down
you’re a download pal.

Yeah.

25) Does it Offend You Yeah? – “We Are Rockstars

As 50 melhores músicas de 2008: 26) Empire of the Sun – "Walking on a Dream"

Um novo redesenho na geopolítica da música pop vem lentamente valorizando a canção tradicional – e ele vem, improvavelmente, da mesma música eletrônica que ajudou a demolir o formato introdução-estrofe-refrão-estrofe-refrão-instrumental-refrão-fim. E à medida em que duas cenas tradicionalmente coadjuvantes à história da música pop, a França e a Austrália, vão se movendo para o centro do palco principal graças às suas recentes safras de dance music, juntos trazem na bagagem o apreço pela canção perfeitinha, com começo, meio e fim. Os sabores utilizados para esse resgate, no entanto, passam longe do pop clássico dos anos 60, preferindo buscar, como base, o power pop dos anos 70 e o pop sintético dos 80. É essa melodia que faz bandas tão diferentes entre si soarem como uma cena – o que une, na França, Daft Punk, Air, Phoenix, Justice, Yelle e Stardust e, na Austrália, Cut Copy, Van She, Midnight Juggernauts, Ladyhawke e Presets. A dupla Empire of the Sun, formada por integrantes de outras bandas australianas (Luke Steele, líder do Sleepy Jackson, e Nick Littlemore, que toca no Pnau e no Teenager), batizou seu disco de estréia com o nome de sua melhor canção, que resume rapidamente o tipo de resgate que essa cena vem provocando. E à medida em que Sydney e Paris se aproximam, ecos desta nova canção aos poucos surgem em diferentes partes do planeta, seja na Nova York do MGMT e do Yeasayer ou na Inglaterra que viu sugir o Friendly Fires e o Late to the Pier.

26) Empire of the Sun – “Walking on a Dream

As 50 melhores músicas de 2008: 27) Hercules & Love Affair – "Blind"

A percussão começa levinha, devagar, e em menos de dez segundos, o baixo e os efeitos nos jogam em um trecho dos anos 70 em que a disco music ainda não tinha sido efetivada como gênero musical e caminhava à espreita por inferninhos nova-iorquinos que nunca imaginariam que aquele som poderia atingir um público massivo. Mas o aspecto retrô de “Blind” começa a se desfazer assim que Anthony começa a cantar – com seu timbre operístico e tom sóbrio avançam anos à frente, ultrapassando tanto o techno de Detroit quanto a house de Chicago, descambando em samples de metais que se misturam e pulsam à medida em que chegamos aos “feeling…” cantandos no refrão. Com melodia discreta, letra indie e produção precisa, A faixa resume a tensão de 2008 sem cair apenas na melancolia pessimista ou no desespero vazio característicos do ano. Uma canção introspectiva construída sobre uma base igualmente militar e funky, “Blind” é um clássico instantâneo.

27) Hercules & Love Affair – “Blind