Pedro Pastoriz sonhando acordado

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Alegria que o grande Pedro Pastoriz finalmente vê seu Pingue-Pongue com o Abismo ver a luz do dia, três meses depois da data que havíamos pensado originalmente, em abril, devido, claro, à quarentena e à pandemia. Neste processo, com o qual trabalho venho trabalhando como diretor artístico do lançamento junto ao cantor e compositor gaúcho, repensamos como o disco poderia ser apresentado nos meses seguintes e Pedro começou a explorar outros caminhos longe do palco, especialmente a partir de entrevistas Linha Cruzada feitas através Instagram ou do programa de humor Comitê. Tais ações conversam com o clima onírico e inquieto do disco, qualidades que parecem contraditórias mas que, a partir dos novos horizontes enxergados por Pedro, é um saque com efeito contra as expectativas. Abaixo, o release que escrevi para o lançamento, que foi produzido pelos mesmos músicos que o acompanham no disco (Arthur Decloedt, do Música de Selvagem, e Charles Tixier, produtor que trabalha com Luiza Lian) e ainda conta com participações de Fausto Fawcett, Lydia Del Picchia e Tomas Oliveira. Discão.

Pedro Pastoriz – Pingue-Pongue com o Abismo

Pingue-Pongue com o Abismo é um lugar imaginário, uma metrópole de papelão, uma tarde ensolarada numa paisagem cinzenta, um brinquedo sério. Como em seus discos anteriores, Pedro Pastoriz condensa sensações e situações em canções que soam como crônicas, contos ou conversas, que descrevem relacionamentos, memórias e ansiedades. Mas neste terceiro álbum, o cantor e compositor gaúcho, que também é vocalista do Mustache e os Apaches desbrava fronteiras conceituais e invade outros territórios narrativos, como a poesia, a publicidade, o teatro, a comunicação institucional, a auto-ajuda, o jingle, o rap, o esquete de comédia e outras possíveis formas de texto musicado que nunca havia cogitado em seus discos anteriores, num disco influenciado por outras disciplinas, por acontecimentos pessoais e seu próprio subconsciente. É um salto que consolida sua carreira solo e aumenta seu espectro de atuação para muito além da canção.

O título – meio niilista, meio dadaísta – foi emprestado de uma referência do poeta beat Allen Ginsberg a uma de suas inspirações, o escritor Carl Solomon, tema da terceira parte de sua obra mais importante, Uivo, a quem ele dedicou todo o poema. Seu trabalho foi reunido pela primeira vez no meio dos anos 60 em dois livros, Mishaps, Perhaps (1966) e More Mishaps (1968), que formaram a base de seu único livro publicado no Brasil, De Repente Acidentes (lançado em 1989). Ginsberg citava-o nominalmente na terceira parte de Uivo (“I’m with you in Rockland / where you scream in a straight jacket that you’re losing the game of the actual ping pong of the abyss”, “Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo”) e esta imagem, além de outras levantadas por este livro, grudou no inconsciente de Pedro desde que ele o conheceu, ainda em sua adolescência, quando apaixonou-se pela obra a ponto de andar com ela para cima e para baixo e ser reconhecido como seu leitor apaixonado.

A lógica daquele livro renasceu no fazer deste terceiro disco e sua apresentação não-linear, com textos de diferentes tamanhos, humores e intensidades, funcionou como inspiração inconsciente para seu novo álbum, principalmente na utilização de vinhetas, pedaços de textos musicados que não chegam a se tornar canções, acentuando a natureza polifônica do disco.

Outra influência crucial foi a mutação da banda que o acompanhou em seu disco anterior, Projeções (2016). Originalmente um quarteto formado por Pedro, o baixista Arthur Decloedt (Música de Selvagem), o guitarrista Artur Vac (Grand Bazar) e o vocalista do grupo O Terno, Tim Bernardes, fazendo as vezes de baterista, ela passou por duas mudanças de formação que trouxeram o produtor Charles Tixier (Luiza Lian) para a bateria, metamorfoseando o quarteto em um novo trio, que ainda contava com Arthur e Pedro.

Foi este trio que decantou o repertório escolhido para o disco, enxugando bastante o número de canções e materializando as vinhetas a partir das ideias que o autor tinha de outros formatos musicais. A improvável união de violão, contrabaixo elétrico e MPC firmou-se durante as gravações no estúdio Canoa, sob os auspícios do produtor Gui Jesus Toledo, grande entusiasta do trabalho de Pedro e sócio do selo RISCO, que apostou nessa aventura. Juntos, Pedro, Arthur e Charles, que também produziram o disco, passearam por outros instrumentos, tocando synths, mellotrons, teclados de baixa fidelidade, harpa paraguaia, fazendo colagens, usando samples e enfileirando efeitos sonoros, criando esse lugar mental ao mesmo tempo verdadeiro, artesanal e artificial. Todas as vozes são de Pedro Pastoriz.

Durante a produção, Pedro soube da morte da sua mãe e a perda inevitavelmente abalou o disco – e sua cabeça. Em pouco tempo, ele viu-se num lugar em que espiritualidade, meditação, luto, misticismo e saudade misturavam-se de forma tão díspar e sintética quanto a linguagem que estava desenvolvendo para o disco. Isso não tirou o disco do prumo, e sim acentuou sua natureza plural, forçando Pedro a um amadurecimento artístico que não previa, mas que consolida-se no resultado, cuja sonoridade parece o tempo todo muito familiar e incomum.

Neste processo, Pedro entrou num buraco de minhoca que o lançou de volta à sua adolescência e passou a buscar respostas racionais para seu drama pessoal em diferentes fontes: a meditação, a psicologia, a espiritualidade e a arte foram veículos nesta busca infrutífera, que só foi render algo quando Pedro regurgitou tudo aquilo em seu inconsciente. Pingue-Pongue com o Abismo é um disco que foi composto quase todo em sonhos.

“Eram sonhos loucos que ressignificavam todas as informações de um jeito improvável, absurdo, geralmente beirando a comédia”, lembra Pedro, citando como o texto de Freud “Recordar, Repetir, Elaborar” parece ter originado um sobre um serviço que encenava memórias antigas com atores em um palco, tema de uma das canções. Neste processo, houve a constatação de que a repetição funcionava como uma prisão, uma dificuldade de se quebrar um comportamento, um vício, um hábito – e o disco passou a ser encarado como o desafio de sair deste loop.

De sonoridade ímpar, Pingue-Pongue com o Abismo é tanto um disco de variedades da metade do século passado quanto uma colagem pós-moderna no início do século 20 e uma provocação conceitual aos limites da canção neste novo século. Usando a repetição como conceito e tentando, paradoxalmente, não se repetir, ele passeia por baladas idílicas, chavões, levadas latinas, timbres retrô, frases assobiáveis, refrães pegajosos, instrumentos improváveis, copy and paste absurdistas, palavras de ordem, mensagens subliminares e propagandas surreais. As presenças da atriz Lydia Del Picchia, do poeta Fausto Fawcett e do tocador de taças Tomas Oliveira soam tão improváveis quanto familiares fazendo o disco aprofundar o cancioneiro de Pedro para além da linhagem trovadora que atravessou seus dois discos, criando um universo sonoro próprio, jocoso e introspectivo, irônico e minimalista, melancólico e palhaço, expondo contradições que descortinam um novo compositor, pronto para iniciar uma nova fase de sua carreira.

Pingue-Pongue com o Abismo, por Pedro Pastoriz

“Dolores”
“Foi uma das primeiras do novo repertório, fiz a melodia dela no quarto de um hotel no Rio de Janeiro em uma noite tocando assistindo TV sem volume. Foi uma busca de tentar reproduzir aquele mundo praiano pintado em aquarela, uma espécie de mundo da doçura do Harry Belafonte, do Henri Salvador, e aquela coisa das harpas bolivianas do Pájaro Campana, que Charles conseguiu traduzir na maestria, com harpas sintetizadas. A letra fala de uma maneira naïf de alguém que se foi sem avisar e deixou pra trás memórias e objetos, algo que pode ter relação com os dias que vivi arrumando as coisas da minha mãe depois de sua morte. Foram dias que fiquei sozinho em sua casa, li cartas e abri caixinhas de uma pessoa que eu amava tanto, e que pude conhecer ainda mais enquanto organizava esses objetos. “

“Fricção”
“Começamos a tocá-la no início da ser turnê do Projeções, meu disco anterior, ainda com Tim na bateria e Vac na guitarra. A intenção é que ela tivesse essa coisa cool francesa, meio Françoise Hardy, um tanto Burt Bacharach. Um ponto alto são as linhas vertiginosas de baixos do Arthur e as taças, instrumento criado e tocado pelo meu parceiro de Mustache e os Apaches, Tomas Oliveira.”

“Sessão das Sete”
“Foi a música que veio por último. Eu e minha namorada, Talita, pegamos algumas sessões das sete em semanas seguidas no Belas Artes e isso me lembrou uma época dos meus 20 anos lá em Porto Alegre, onde tinha esse hábito semanal de ir no cinema. Achei que precisava puxar esse clima pro disco, e ela tem essas referências de uma noite que parece que já foi vivida, de um filme que já foi visto. Me surpreendi com a combinação dos arranjos com os elementos que pintaram, usei um violão de 12 cordas nessa música, e achei que casou com o MPC do Charles, a sonoridade ficou bem nova pra mim.”

“Chicletes Replay”
“Essa música foi feita a partir de um poema curtinho que tinha escrito, em uma volta de show na madrugada, dia nascendo. Deixei uma cidade na noite anterior, dormi na van depois de um show, dormi, acordei naquela solidão ancestral e contemplativa de quem viaja no escuridão de uma estrada no meio da noite. Dormi de novo, sonhei profundamente, acordei no susto, parei em um posto, voltei pra estrada. E chegando na cidade tive essa revelação de como as coisas se repetem consecutivamente desde sempre – grandes manchetes, possíveis novos finais de mundo, novas eleições, novas promessas de esperança, que é justamente o que possibilita que as coisas continuem sendo como são. Acredito que em Roma ou na China antiga as coisas e os sentimentos e as expectativas eram muito parecidas com as de agora. Os personagens e as ações estão aí desde sempre, e a gente se limita com essas cobranças complicadas e repetidas de apego a uma identidade, uma história que a gente imagina serem únicas, essas coisas. Ela tem esse discurso publicitário e traz esse produto que promete unir histórias tão dissonantes, experiências de vida tão diferentes a partir do consumo de algo fácil, rápido e descartável, um chiclete. Foi uma música feita em sonho, em parte. “

“Lydia Réplica”
“Nós e Outros foram duas peças que vi no ano passado e que me pegaram muito. Vi mais de uma vez e levei caderninhos pra anotar várias coisas, no escuro do teatro. Depois de algum tempo achei as anotações e eram totalmente incompreensíveis. As duas peças são uma parceria do Grupo Galpão de Minas Gerais, com o diretor Márcio Abreu. Nós tem elementos de repetição no texto, quase um remix de palavras, e uma história de despedida amarga e engraçada, e queria trazer isso pro disco de alguma forma. Então convidei a Lydia Del Picchia, diretora e atriz do Grupo, pra participar e “remixar” um texto comigo, uma réplica / reprise / continuação de Chicletes Replay. E foi de primeira, fácil como descobri que as coisas podem ser.”

“Alzira”
Quando componho uma música raramente falo da minha vida pessoal de forma direta, pelo menos. E essa música saiu espontaneamente, é sobre minha mãe. Tinha uma conexão muito forte com ela, e durante os meses de composição pra esse disco eu tinha muita dificuldade de sentar pra compor. As idéias vinham em sonhos, quando meu superego cochilava. Minha mãe morreu um acidente de carro, e muita coisa mudou na minha vida, noites ficaram muito longas e dias muito curtos. Essa música eu levei num ensaio já me desculpando, achando que não devia entrar e que gostava mais da melodia, algo assim. E foi Charles quem me falou: ‘justamente por ser uma história tão pessoal que tu deveria cogitar trazer ela pro repertório, pensa nisso’. Acho que se eu quisesse escrever uma música pra uma coisa tão forte e tão complexa, iria querer florear demais. E isso é impossível, então aceitei essa música como ela veio, porque é importante pra mim.”

“Cachorro Replay”
“Essa vinheta fala por si, do meu animal com o animal em si.”

“Janela”
“Na rua onde eu moro – ou melhor, na rua onde minha janela está presa – conheço quase todos os personagens, vendedores das lojas de música, algumas pessoas que esperam o ônibus barulhento sempre na mesma hora, alguns casais reincidentes que brigam na entrada do hotel, um sujeito que entrega água de bicicleta e todos os dias desce o pequeno declive com uma excitação admirável, gritando: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer!’ Todos gritam, aplaudem, jogam qualquer tipo de energia de volta pra esse sujeito. E são raros os momentos, infelizmente, que eu desejo ver essas pessoas. Então geralmente fumo um cigarrinho e ouço um som ao final do dia, quando as pessoas já voltaram pra casa. Essa música foi feita em um desses, dias, um exercício de composição. Fumava meu cigarrinho e olhava pra rua, e assisti alguém que ficou embaixo da minha janela, excessivamente imóvel, uma figura híbrida de existencialismo e alienação total, o que me sugeriu muitas possibilidades possíveis pro futuro e pro passado daquela pessoa. No final das contas é tudo um tanto de projeção, achei justo ela estar no disco.”

“Replay Esportes”
“Li sobre budismo e espiritismo e outros ismos, seguindo a vida depois do trauma da perda da minha mãe. Fiquei mais tempo interessado na meditação transcendental. A idéia de ficar em silêncio, entrar em contato com os pensamentos de outra forma, e de aceitar alguns vazios que estão ali. É relativamente difícil entrar em contato com a informação do como fazer, com a prática e os exercícios. São muitos livros falando sobre os benefícios, como pode mudar sua vida. Mas não ensinam muito sobre a prática. Tem aplicativos que jogam uma ansiedade estranha na prática, com programas de metas e de desempenho, o que pra mim é o oposto de ouvir sua própria respiração e investigar o que está acontecendo em seu corpo. E em algum momento meditando voltei com essa cena do esporte de alto rendimento no abismo na meditação e uma mistura totalmente improvável de tudo isso.

“Teatro Replay”
“Fazendo terapia no ano passado, conheci um texto do Freud que fala sobre Recordar, Repetir e Elaborar, e em alguns momentos minha terapia foi em um caminho de como tendemos a repetir ações na intenção de superá-las. Racionalmente era isso. Mas então algo bem mais legal aconteceu. Sonhei com esse serviço de uma companhia de teatro que prometia ajudar as pessoas a reviverem melhores momentos de suas famílias através de atuações em um teatro, e achei que que tinha algo ali. Foi uma das primeiras músicas do disco e foi outra música feita em sonho, em grande parte.”

“Resposta sobre Hostel Replay”
“Esse é um reclame do meu disco anterior, misturado com um comercial. É também importante afirmar o que não se é.”

“Faroeste Dançante”
“Essa música é uma parceria com o Fausto Fawcett, que admiro muito e que mensalmente acompanho suas participações nos sarau Trovadores do Miocárdio. Em uma das edições levei meu exemplar do livro Santa Clara Poltergeist pra ele e disse que estava fazendo uma música que eu estava tentando emular algo Fausto Fawcett. Ele riu e me falou pra mandar a música pra ele. O processo foi fácil, todo a distância. Foi minha primeira parceria com outro letrista, ouço e ainda fico maravilhado com a idéia de ter um fonograma com o man. Tem um solo de MPC cabuloso do Charles, eu uso um violão de 12 cordas nessa faixa, e Arthur toca um controlador synth bass.”

“Sol”
“Essa veio de um desses exercícios de meditação, tem qualquer coisa de influência naquela linguagem do Instituto Dharma, do seriado Lost.”

“Boogaloo”
“Essa música era uma das preferidas do público na turnê de 15 shows que fiz na Alemanha em setembro de 2019. Ela surgiu a partir da idéia de eu ensinar português pros alemães, formando uma grande miniorquestra junto com as palmas e os calcanhares batendo no chão. E eu gritava “Napoleão”, e eles repetiam, e eu mandava “A egiptologia!”, e eles morriam de rir com os fonemas. Ela fecha o disco, com solo de liquidificador.”

Uma ilha em forma de música

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O músico catarinense exilado na Itália Ricardo Seola acaba de lançar seu primeiro álbum, Santa Monica, disco instrumental tocado apenas ao violão, e pediu para que eu escrevesse um texto de apresentação para este trabalho, um mergulho nostálgico numa Floripa sentimental.

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“A calma melancólica de uma ilha como Florianópolis”, assim o multiinstrumentista e compositor catarinense radicado na Itália Ricardo Seola resume seu disco Santa Monica, que lança nas plataformas digitais. Músico e designer, ele mora em Milão há três anos e criou este projeto como uma forma de voltar à atmosfera bucólica de Florianópolis, cidade que adotou como sua à medida em que desenvolvia sua carreira musical. “Cada nota foi pensada e executada pra que o ouvinte se transportasse comigo pra uma lugar que, na nossa cabeça, seja como essa ilha. A melancolia talvez more no fato de que talvez essa ilha nem exista mais, mas na nossa imaginação ela é perfeita. É como Isidora, cidade invisível do Calvino”, conclui.

São canções instrumentais que abrem janelas mentais que ecoam outros paraísos acústicos, como o Rio de Janeiro da bossa nova, a Bahia de Dorival Caymmi e João Gilberto, a Inglaterra outonal de Nick Drake ou as incursões folk do Radiohead. Oito canções que evocam tanto a atmosfera viva e natural de uma cidade praiana quanto o clima melancólico e introspectivo de uma região fria do Brasil. Ao misturar estes dois polos aparentemente distintos, Ricardo Seola encontra um equilíbrio que traduz-se musicalmente em pequenas odes a uma paisagem musical utópica.

Com passagens por pequenas bandas catarinenses, Seola nasceu em Florianópolis mas começou sua carreira musical há quase 25 anos, no interior de Santa Catarina, em Rio do Sul, com uma banda chamada Insaney, cujo grande trunfo foi ter sido resenhada pela revista Rock Brigade. Ao mudar-se para Florianópolis, criou a banda Z?, que, como diz, “teve um discreto sucesso”, citando o prêmio de Melhor Videoclipe Independente no festival Gramado Cinevídeo, para a música “Deixa o Tempo”, em 2007, que fez o clipe tocar em canais como MTV e Multishow e a música ser incluída na programação de algumas rádios no Brasil.

“O formato solo foi quase uma necessidade”, ele explica a nova formação. “Quando saí do Brasil na primeira vez, em 2008, fiquei sem banda. Eu toco violão, guitarra e piano, mas como componho pra cinema, acabo ‘tocando’ virtualmente todos os outros instrumentos de orquestra. Isso me dá uma boa noção de como são executados, embora não saiba tocá-los. Aprender a compor virtualmente, orquestrar e me expressar apenas com um instrumento foi uma consequência. O fato de ser violão é uma vontade de não depender tanto de máquina, eletricidade e software. Gosto muito de tudo isso e acho incrível tirar uma trilha sonora completa de um notebook, mas quando chego em casa e sento no sofá, preciso de algo que produza som em si só.”

Entre as influências e inspirações, ele cita nomes da música brasileira e internacional de diferentes áreas e épocas que encontram-se justamente nas composições acústicas para o instrumento escolhido como protagonista, como Caetano Veloso, Villa Lobos, Luiz Bonfá, Yamandú Costa, Kurt Cobain, Marcelo Camelo, Jonny Greenwood e Ed O’Brien (estes últimos guitarristas do grupo Radiohead)

Atualmente está em sua segunda temporada em Milão. A primeira aconteceu entre 2008 e 2011, quando foi estudar design e acabou criando um laço sentimental com a cidade italiana, onde ganhou um iF Award como designer e outros como músico e fotógrafo. Voltou para o Brasil, mas retornou ao velho continente em 2016, onde reside atualmente, na mesma cidade que o acolheu. “Santa Monica é um disco que começou assim que cheguei em Milão em 2016. Era uma forma de me colocar mentalmente de novo na atmosfera que me proporcionava Florianópolis. Fiz questão, inclusive, de gravar o disco na ilha pra que essa essência estivesse presente”, lembra.

O disco ainda não existe como show, algo que Seola planeja para o ano que vem, trazendo também outras composições para o piano e talvez peças eletrônicas e experimentais. Mas, para ele, conclui um período artístico. “Gravando o disco me sinto livre pra planejar outros projetos. No momento tenho como prioridades compor um álbum pra quarteto de cordas e paralelamente um projeto ao vivo experimental com eletrônica e synths. Em algum momento, quando tudo isso fizer sentido junto, tudo acaba virando um só trabalho, que pode ser mostrado ao mesmo tempo de forma homogênea.”

A voz de Miranda Kassin

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Finalmente Miranda Kassin assume a própria voz e renasce em seu segundo disco Submersa, lançado na semana passada, que ela me chamou para escrever o texto de apresentação, que segue abaixo.

Um zumbido eletrônico ronda os ouvidos. Ele se aproxima e se distancia, quase que um radar pairando sobre o ouvinte, até crescer e abrir espaço para baixo e bateria marcarem o andamento, marcial e constante. “Outro dia você, eu não mereço isso!”, Miranda Kassin deixa sua voz doce e firme tomar conta da canção. “E se eu pudesse escolher, mas não vai ser possível”. A faixa que abre seu segundo disco Submersa não é de sua própria autoria e localiza-se no exato ponto em que está sua carreira – apesar de já ter um primeiro disco de canções autorais (Aurora, lançado em 2012) – ela ainda é uma intérprete no início deste novo trabalho – uma música de Fabio Goes e André Lima que poderia tranquilamente ter sido escrita pela própria Miranda.

Revelada há dez anos em um show em homenagem à cantora Amy Winehouse, Miranda já tinha uma carreira de atriz antes de se dedicar apenas à música. Ela começou sua carreira nos palcos norte-americanos quando foi escolhida para interpretar uma das protagonistas de um musical que um grupo da universidade em que cursava estava montando – foi acompanhar um amigo, não tinha pretensão de entrar no elenco, mas foi escolhida e logo depois estava emendando uma produção na outra. Voltou para o Brasil e não tinha mais como: havia assumido a arte como carreira e encontrou na cantora inglesa um norte – e uma forma de homenagear sua grande paixão musical, a soul music norte-americana.

O espetáculo em que encarnava a autora de clássicos como “Rehab” e “You Know I’m No Good” a transformou em uma estrela da noite paulistana e em pouco tempo levava sua voz para todo o Brasil. Feliz com o papel de intérprete, foi provocada por músicos e amigos a assumir sua própria carreira autoral – e assim surgiu Aurora, sete anos atrás. Mas logo depois deste primeiro disco, ela foi mãe duas vezes consecutivas e a maternidade lhe afastou da música. Até agora.

O novo disco é o resultado deste novo momento de sua carreira e tem este título justamente por ter sido uma imersão de volta à sua carreira autoral. Ela novamente conta com a produção de Fabio Pinczowski, que foi coprodutor do disco anterior, e que ajudou-a a redefinir o caminho sonoro escolhido desta vez: o mesmo soul que a trouxe para a música, mas agora sintético e minimalista, de timbres eletrônicos, teclados discretos, beats quebrados e linhas de baixo sinuosas. Ao lado dos dois, o multiinstrumentista Piero Damiani, que acompanhava Kassin nos shows em homenagem à Amy, surge como preparador vocal do álbum e coautor de boa parte das canções do novo repertório, além de integrar a banda que ajuda Miranda a levar o disco para o palco.

Ao lado do trio central formado por Miranda, Fabio e Piero, um time de músicos que inclui o tecladista Danilo Andrade, o baixista Rubinho Tavares, o baterista Breno Silveira e os próprios Pinczowski (dividido entre o baixo e os teclados) e Damiani (nos backing vocals) torna o acompanhamento sonoro enxuto e coeso, abrindo brechas para as eventuais presenças do saxofonista Marcelo Freitas, dos teclados de André Lima, do percussionista Felipe Roseno e do guitarrista João Erbetta, além da única participação especial do disco, quando Miranda recebe o guitarrista paraense Felipe Cordeiro na versão de em uma das primeiras canções que compôs na vida, a quase adolescente “Vacilão”, num dos poucos momentos do disco em que a guitarra ganha voz – na imensa maioria de Submersa não há guitarras.

A submersão sugerida pelo título não diz respeito apenas à musicalidade e ao papel da cantora como compositora – ela é autora de quase todas as músicas do disco, dividindo parcerias com outros compositores conhecidos, como o vocalista do Vanguart Helio Flanders, César Lacerda e o marido André Frateschi, além de cantar canções assinadas por André Lima, Fabio Goes, Chico Salem e Paulo Carvalho. A grande revelação de Submersa é pessoal, quando ela se redescobre como uma nova mulher depois de passar pela maternidade, reencontrando sentimentos e sensações de forma adulta. É esta constatação que dá o tom de todo o disco, deixando-a mais à vontade com esta nova personalidade, plena deste novo estágio em sua vida.

E é a fusão destas duas realidades – uma musical e outra individual – que é a base de sustentação de Submersa. De um lado, a sonoridade negra norte-americana do século passado relida com instrumentos sintéticos, timbres artificiais e arranjos simples e precisos, ressaltando a beleza das canções e da doce e clara voz de Miranda. Do outro, a própria cantora e compositora reencontrando-se após a maternidade, voltando de uma jornada da heroína parente daquela de Joseph Campbell em que a viagem, neste caso, é para dentro – pois é a própria maternidade. Redescobrindo-se depois de mãe com a possibilidade de deixar-se levar por sentimentos que suas canções ajudam a externar, Submersa é quente e intimista, sincero e entregue, mas comedido o suficiente para não exagerar nesta plenitude. Da simplicidade direta de “Fudeu” à balada derramada “Doentinha”, da sinuosa “Eu Quero de Novo” à intensa “Vou com Você”, passando pelo groove ameaçador de “Segunda ou Terça”, a paixão intensa de “Simplesmente”, o trip hop pensativo de “Acaba com Isso”, a latinidade intensa de “Vacilão” e o pop radiofônico de “Correio”. Miranda está feliz e segura de seu novo momento pessoal – e seu segundo disco é o casulo em que ela convida o ouvinte para acompanhar sua metamorfose. É só vir.

Uma outra Céu

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Mais uma vez Céu me chamou para escrever o texto de apresentação de seu disco – e em seu quinto álbum, chamado Apká! e lançado de surpresa nesta sexta-feira, a cantora paulista repete o time de produtores que inclui Pupillo e Hervé Salters, resumindo sua trajetória musical ao mesmo tempo em que aponta para novos caminhos para seu futuro próximo – inclusive, como intérprete, lançando canções que Caetano e Dinho dos Boogarins fizeram para ela.

Timbres sintéticos, beat digital, vazios sônicos, um “olá” dissimulado, uma protagonista artificial – “Off (Sad Siri)”, faixa que abre o quinto disco da cantora paulistana Céu, parece dar uma ideia oposta à vibração que paira sobre esta nova obra. Composto logo após o nascimento de seu segundo filho e gravado no início deste ano, APKÁ! – assim mesmo, com maiúsculas e exclamação – consolida a jornada inicial da carreira da cantora e compositora mais importante de sua geração num disco quente e minimalista, que junta extremos sonoros, temáticos, musicais e conceituais como se repassasse as viagens que ela fez em seus discos anteriores. E faz com que ela deixe esta crisálida transformada em uma nova compositora e intérprete, pronta para começar uma nova fase de sua carreira.

O título veio do caçula Antonino, uma expressão gritada pelo bebê de apenas um ano para designar satisfação plena. Sorrindo feliz, o filho de Céu com o produtor e baterista Pupillo berra a estranha palavra inventada para mostrar que está feliz com tudo que acabou de acontecer, seja uma refeição ou uma brincadeira, num misto de excitação, plenitude e agradecimento. E, de certa forma, APKÁ! é Céu fazendo exatamente isso – em forma de música.

Ainda em “Off (Sad Siri)”, ela já começa a mostrar a colcha musical que compõe o novo trabalho, reunindo teclados chorosos e um violão melancólico aos seus vocais sussurrados e entrelaçados com os do vocalista congolês Leonardo Matumona, um dos poucos convidados do disco. Ao seu redor, ela repete o mesmo time do festejado Tropix, seu disco anterior: o francês Hervé Salters, da banda General Elektriks, repete seu papel como coprodutor e tecladista, bem como o baixista e fiel cúmplice Lucas Martins e Pupillo na bateria, programações e coprodução. O guitarrista Pedro Sá, que já tinha participado do disco de 2016, consolida o quarteto que acompanha Céu por quase todas as faixas. Aliadas à primeira, as duas faixas seguintes, “Coreto” (que foi composta com Gal Costa na cabeça) e “Forçar o Verão” fazem a ponte direta com o universo noturno da pista de dança do disco anterior, mas APKÁ! está longe de um Tropix 2.

Isso começa a se provar a partir da difusa “Corpocontinente”, que abre um atalho inusitado no percurso fluido que o disco parecia optar. Psicodélica em câmera lenta, ela começa a mostrar que Céu passa a experimentar para além do que poderia ser facilmente associado à sua produção: a partir da quarta canção, as composições, os vocais e os arranjos musicais – tudo inspecionado pessoalmente pela própria Céu -, começam a fundir as diferentes influências e referências musicais que exibiu em toda discografia.

Seus discos anteriores poderiam ser resumidos em determinadas paisagens: enquanto o homônimo disco de estreia apresentava-a ao lado de sua paleta inicial de influências (do samba ao reggae, passando por rock, MPB, soul, pop e música africana), os seguintes a fizeram percorrer por diferentes ambientes, quase todos imaginários: Vagarosa descia pela árvore genealógica do reggae, Caravana Sereia Bloom explorava o deserto e a estrada, Tropix era noturno, sintético e dançante. APKÁ! converge estes diferentes universos ao mesmo tempo em que apresenta novas experiências musicais. No novo disco, Céu experimenta novas formas de composição e novas formas de utilização de sua voz, cada vez mais segura de sua personalidade artística e de como consegue trazê-la para a superfície.

Dois dos bons exemplos estão nas duas únicas versões do disco – momentos desafiadores especificamente para Céu. Ela que é uma das principais responsáveis por mostrar para toda uma geração de cantoras que era possível compor em vez de apenas interpretar – papel das principais vozes femininas da história da música brasileira -, em APKÁ! se reinventa como intérprete a partir de composições inéditas que pediu para que dois compositores distintos – Caetano Veloso e Dinho, dos Boogarins.

“Pardo”, de Caetano, é uma das grandes composições do baiano neste século e ganha um corpo quase mágico na voz de Céu, que convidou Seu Jorge para cantarolar seu refrão sem palavras. “Make Sure Your Head is Above” foi uma encomenda inédita que Céu fez para Dinho – compor em inglês. O resultado é uma das melhores canções da carreira do compositor goiano, jogando uma luz solar pouco vista em seu grupo original. Esta faixa, um dos pontos centrais do disco, conta com um convidado de luxo, o guitarrista norte-americano Marc Ribot, que acompanha a cantora e Pupillo, fazendo discretos beats, numa canção deslumbrante. Nas duas composições, momentos únicos de APKÁ!, Céu domina seu timbre criando universos sonoros únicos a partir da relação de sua voz com os outros instrumentos – mostrando como já está partindo para outra forma de lidar com as canções, mesmo apenas como intérprete.

Como autora, mantém este amálgama musical pelo resto do disco, buscando graves gordos da Jamaica, guitarras desérticas, beats artificiais, em que seu surge cada vez mais confiante de si. “Nada Irreal” sobe ao espaço sideral em belos arpeggios digitais, “Fênix do Amor” resume um renascimento artístico ecoando tecnopop, pós-punk e electro, a deliciosa “Rotação” é tão radiofônica quanto experimental. Quase ao fim do disco, “Ocitocina (Charged)”, entrega sua principal influência. É uma canção sobre o parto de seu filho mais novo, cheia de metáforas e analogias que tornam-se evidentes na hora em que ela a batizou com o nome do hormônio liberado pelas gestantes pouco antes de dar a luz. Ela quis capturar a sensação mágica do parto, que joga a mulher para um lugar “fisicamente inexistente, mas sensorialmente real – pra dentro de si mesma”, um lugar imaginário que ela chama brincando de “partolândia” (que quase foi o título da canção).

O disco não foi apenas batizado por Antonino, mas puxado por sua existência. Gerido musicalmente enquanto o filho era gestado, começou a tomar forma logo que o menino nasceu. “Ocitocina” foi a primeira música a tomar forma quando ela começou a pensar no disco, no segundo semestre de 2018, e logo que ela conseguiu o primeiro rascunho de canções, pegou o filho e foi sozinha para Berlim, cidade em que mora Hervé, amigo e um dos produtores do disco, depois de trabalhar várias músicas com o outro produtor, Pupillo, ainda no Brasil. O pouco tempo que ficaram sozinhos – acompanhados do recém-nascido – serviu para consolidar as canções que foram finalizadas no Brasil no início de 2019. O disco termina tão artificial quanto começou, com a dupla Tropkillaz, transformando Céu numa diva dance androide.

APKÁ! parece inofensivo – como um bebê – mas é cheio de camadas de interpretação – como um bebê. “Alpha by night” é um programa de rádio ou uma senha para uma caçada noturna? Quem são os protagonistas de “Pardo”? As faixas de abertura e encerramento são irmãs? “Forçar o Verão” é uma música sobre o momento político atual do Brasil? “Fênix do Amor” é sobre a própria Céu? Ela dá as respostas, nem se importa com elas, só provoca.

Bárbara Eugenia na pista

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A querida Bárbara Eugenia me chamou mais uma vez para escrever um release de seu disco, o dançante e apaixonado Tuda, que consolida a ascensão crescente da discografia da cantora compositora e agora produtora.

“Eu vim, eu vim saudar… Os seres da mata e os seres do mar…”, Bárbara Eugenia canta entre percussões e as vozes das mulheres de seu bloco Pagu – Soledad, Julia Valiengo, Mariana Bastos, Verônica Borges, Bruna Amaro, Thereza Menezes e Isadora Id. “Eu vim, eu vim saudar… Tudo que vem do fogo, da terra, da água e do ar” – o andamento rítmico e o canto circular remetem a uma celebração pagã na floresta, uma grande ciranda solta em meio à mãe natureza, celebrando as virtudes femininas da criação. Mas o ritual de entrada em Tuda, quarto disco da cantora nascida em Niterói que celebra mais de uma década de carreira e de São Paulo, faz o disco surgir no meio do mato para logo em seguida ir para o meio da rua, a pista de dança, a cidade grande, o século 21.

“Perdi” começa o disco propriamente depois de um piano à espreita e logo dá o rumo de Tuda: as programações e guitarra de Dustan Gallas e a bateria eletrônica de Clayton Martin, dois velhos cúmplices da cantora na produção do disco, determinam uma realidade musical sintética que conversa tanto com a moderna música eletrônica quanto com a disco music dos anos 70 e o tecnopop da década seguinte. A canção, composta pelos três, no entanto ecoa um cancioneiro popular brasileiro que é transmitido em rádios de pilha e programas de auditório, uma jovem guarda temporã, com glitter e cílios postiços. Tal musicalidade – retrô e popular ao mesmo tempo – é característica das canções de Bárbara, que encarna a vida noturna e um balanço boêmio em seu novo disco. Logo ela nos conduz para um outro universo, igualmente dançante, mas com pés de chinelo em piso de terra, percussão de samba-reggae (a cargo de Lenis Rino, Thereza Menezes, Zezinho Maracutaia aka Clayton Martin e Isadora Id), guitarras caribenhas (de Davi Bernardo) e calor tropical.

E assim Tuda vai se reinventando a cada faixa, sempre com os pés na pista de dança e o coração apaixonado. “As Maçãs Que Vêm” é o mais próximo que o disco tem de uma balada e parece mudar mais uma vez o percurso, mas o andamento latino logo chega, reúne os mesmos músicos (Davi, Dustan, Clayton e Lenis) aos synths de Cris Botarelli (do Far from Alaska) para deslizar em uma rumba apaixonante – e de tons psicodélicos. “Tantas luzes, cores, tudo brilha, pulsa, integra no ar / Era entrega e era tuda, eu era o todo e era nada”, canta enquanto move lentamente o quadril, “Na minha cabeça, seja lá o que for, faz todo sentido / Meu corpo está ardendo, será que é do sol? Ou será que ardo eu?” O ardor latino esquenta ainda mais na balada “Sol de Verano”, composição brasileira de Carlos Colla e Luís Alberto Ferri vertida para o espanhol Luis Gómez Escolar para o repertório do disco Reluz que a cantora anglo-
espanhola Jeanette lançou em 1983, uma balada dançante e caliente em que Bárbara recebe outros velhos amigos, o baixista Jesus Sanchez e o tecladista Astronauta Pinguim.

Em “Bagunça”, ela aproxima os extremos mostrados no disco: a latinidade bailante, a disco music retrô e quase robótica, as melodias do inerente pop oitentista – tudo se funde no dueto e parceria com Zeca Baleiro, que ainda conta com um solo de sax rasgadamente vintage por conta de Filipe Nader. Ela segue desconstruindo a própria fórmula numa faixa com três partes: “Querência” começa com os pés na pista do reggaeton para depois cair numa aldeia vodu (com vocalizes de Iara Rennó) e mais à frente deixar o grave cair pesado – para logo suspender a gravidade e voltar à pista retrô eletrônica. A expectativa mais uma vez dá uma volta quando o grupo argentino Onda Vaga surge no disco para cantar “Por La Luz y Por Tierra”, um número acústico. O bloco latino termina com a participação do guitarrista paraense Felipe Cordeiro, que trouxe o DJ Tide para temperar com bases eletrônicas o carimbó caribenho “Confusão”.

O disco vai chegando ao fim com a inquieta “Apaixonada Feito Gente Não”, que resume os sentimentos do disco ao se dividir em duas partes. “Foi além do que eu podia imaginar, você chegou e eu quase perdi os sentidos”, ela canta pensativa no início da canção, longe do calor da festa. “foi além do que eu podia esperar, eu nunca esperei por nada, não esperava você chegar e me tocar assim”. Logo depois cede à dança e vai direto ao assunto: “Você me viciou
na tua pele”, canta.

Tuda enfim termina com “Eu Vim Saudar”, faixa de despedida que, apesar de eletrônica (composta por Clayton, com ajuda de Bárbara e Dustan) mantém a mesma vibração de “Saudação” que abre o disco. Juntas, estas duas minicanções parecem ser exatamente opostas ao que Tudase propõe, mantras de introdução e encerramento que reforçam uma orientação pessoal recente de Bárbara, cada vez mais mística e espiritualmente centrada, e brincam com a expectativa do ouvinte. Mas a conversa entre as duas reforça o equilíbrio do disco, e dança apaixonada com uma sabedoria ancestral: “E eu só vou fazer, daqui pra frente, o que me faz bem”.

Clima de sonho

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Yma me convidou para escrever o texto de apresentação de seu belo disco de estreia, Par de Olhos, lançado nesta sexta-feira, uma viagem onírica que fica entre a psicodelia noir, o vintage anos 80 e um certo ar de mistério.

Uma guitarra torta rasga o horizonte como um raio em câmera lenta numa noite fria – mas não há sinal de chuva. Bateria e baixo marcam o andamento, ponteado por outra guitarra, à espreita, dedilhada, como se soubesse de algo que não podemos saber. É uma canção dos anos 80 e também é uma viagem de carro à noite, o vento batendo no rosto enquanto mistura camadas de emoções num mesmo bloco de sentimentos. “Seus olhos no escuro, dançando pelo avesso, as paredes se derretem devagar”, a doce voz de Yma sussurra a melodia principal desta introdução, acrescentando uma inusitada psicodelia noir àquela cena. Não há estrada nem horizonte, apenas um quarto no escuro e todo o imaginário evocado pela canção é ilusão. “Tenho medo de você evaporar”, ela canta na introdução deste primeiro disco, “Par de Olhos”, lançado bem no começo de 2019, deixando claro que estamos entrando num território onírico.

O disco de estreia da cantora e compositora paulistana começa de verdade na segunda faixa, que batiza o álbum. Todos os elementos que formam a dissimulada vinheta “Evaporar” se realinham criando uma atmosfera completamente diferente, que mantém-se moderna e retrô sem medo da contradição. A psicodelia noir, o romantismo anos 80, a guitarra dedilhada, o ar de fantasia, o baixo e a bateria de uma canção de amor – e até a guitarra de um dos convidados, o líder do Cidadão Instigado Fernando Catatau. A canção “Par de Olhos” brinca com o flerte para hipnotizar o ouvinte rumo a um território estranho e familiar, impreciso e reconfortante, como um predador que encanta a presa para que ela não perceba o que está para acontecer.

O clima de sonho é determinante para este primeiro registro de Yma. “Há uma exploração do universo onírico, em que eu uso os mecanismos do mundo dos sonhos para distorcer – e dar graça – às situações cotidianas que me inspiram a escrever”, explica. “O mistério sempre me instigou, e por mais que tenhamos o sentido da visão, acredito não sermos capaz de enxergar tudo que está à nossa volta. Gosto de interpretar as lacunas do que está por trás da vista imediata, buscar o imaterial. Talvez esta seja a melhor definição de Par de Olhos, essa tentativa de investigar os cantos escuros da realidade”.

O disco continua com a já conhecida “Vampiro”, uma das três faixas que Yma já havia lançado antes deste primeiro registro oficial. O ar de estranheza melancólica desta canção apresentou-a a um público maior, transformando-a em hit online, que ainda emplacou “Sabiá” e “Summer Lover” (que não estão no álbum), criando um pequeno séquito de fãs que a acompanha para onde for. Apesar das referências oitentista e do ar retrô (ou talvez justamente por isso), seu público é majoritariamente adolescente, que encontra-se na doce rebeldia de suas letras “Acho até que eu perdi o meu caminho e eu não quero voltar, porque aqui eu sou normal”, canta entre a inocência e o blasé, “vamos fugir junto que o tempo é curto e eu não quero mais morrer, eu quero dançar com você…”

Produzido por Fernando Rischbieter, que também é guitarrista, toca teclados e dirige musicalmente o trabalho ao lado de Yma, Par de Olhos conta com uma banda formada por Uiu Lopes no baixo, Dreg na guitarra, Leon nos synths e Marco Trintinalha na bateria, além de synths da própria vocalista e compositora e participações de músicos como Gustavo Ruiz, Zé Ruivo, Gongom, João Antunes e Elísio Freitas. Nascida em São Paulo, a cantora e compositora tem formação erudita, mas sua queda pelo pop a trouxe para este universo musical fluido, que segue em outras paragens musicais, misturando sempre a sensação de familiaridade com a de vazio e costura existencialismos que se refletem em canções que vão da pista de dança (“Shake It”) à praia (“Sun and Soul”, um dueto delicioso com o vocalista Lau, do grupo Lau e Eu), do cemitério (“Colapso Invisível”) ao espaço sideral (“Nowhere Here”), encerrando com a absorta “Pequenos Rios”, composta ao lado de César Lacerda. “As luzes da cidade que cobrem essa noite, eu quero te levar comigo”, ela segue cantando, lembrando que tudo é ilusão, “as sombras nas paredes, os passos em silêncio, eu quero te guardar comigo”.

Não mexe com ela!

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Com seu novo disco Todxs, Ana Cañas chega ao seu melhor álbum ao assumir as rédeas de sua própria carreira – e ela me chamou para escrever o release deste seu novo lançamento.

Ana Cañas vem sorrateira sob um teclado elétrico quente que vai desenhando um ambiente que simultaneamente soa suntuoso e aconchegante. Baixo e beat eletrônico surgem milimétricos, marcando o tempo à espera de algo tenso que parece se avizinhar. A cantora e compositora paulistana entra sussurrando e gritando a letra de “Declaro My Love”, soul de lavar a alma que compôs com Arnaldo Antunes. É o início de Todxs, seu quinto disco, seu trabalho mais ousado e o melhor álbum de sua carreira, que muda completamente o patamar onde ela está atualmente.

O clima romântico cai por terra logo na segunda faixa, “Eu Dou”, quando ela muda completamente o rumo do álbum, colocando o dedo em várias feridas comportamentais, cuspindo frases que sintetizam os interesses que coloca em jogo no álbum: “Dou uns pega, dou uns trago /Nas idéia, dou um trato / Dou pros lek, dou pras manas / Corpo laico, a gente ganha / Dou uns beijo, uns abraçaço / Demorô, bora orgasmo / Quatro e vinte, tô brisando / Tiro a zika e saio andando.” O groove, desenhado mais uma vez pelo teclado, desta vez conta com scratches de uma vitrola para sair do clima intimista da faixa de abertura – afinal é uma canção que fala, sem meios termos, “sou a buceta, não o caralho”.

A faixa-título, que conta com a participação do rapper Sombra, do grupo SNJ, confirma a suspeita: Todxs é um disco minimalista na sonoridade, delicado e sutil, embora tenha peso e groove. Esta aura musical é traduzida também nas letras, concluindo um processo de dois anos desde que ela começou a pensar no disco que sucederia seu Tô Na Vida, de 2015.

Ana começou a entender melhor o rumo que iria seguir a partir de seu envolvimento com o rap e com causas sociais. O marco deste envolvimento é o single “Respeita”, lançado no ano passado, em que ela rimava pela primeira vez e convidava a dupla Instituto (que revelou Sabotage, entre outros nomes do gênero) para produzi-la. Mas mais do que um rap, “Respeita” era uma conexão que Ana fazia com sua própria feminilidade e começar a levantar a bandeira do feminismo e traçar vínculos com movimentos negros, sem teto e de periferia.

Esta nova atitude seria revigorada pela série de shows em homenagem a Belchior, que fez ao lado de Karina Buhr e Taciana Barros (que também coassina a faixa de abertura). Esta última que apresentou Ana a Thiago Barromeu, e que veio acompanhar o trio de cantoras no tributo ao ao cantor e compositor cearense. A conexão com Thiago foi quase que imediata e aos poucos os dois começaram a conversar e a trabalhar juntos – fazendo shows apenas com violão ou experimentando com bases eletrônicas. Foi quando Ana o chamou para produzir o disco – o primeiro trabalho de Thiago nesta função.

Todxs também foi uma oportunidade de Ana se reencontrar como novos e velhos conhecidos, como Tim Maia, Itamar Assumpção, Carlos Posada e Chico Chico. O síndico ressurge em outro momento romântico do disco, na versão que Ana fez para “Eu Amo Você”, que foi eternizada por Tim. Já Itamar vem junto com Chico Chico, filho de Cássia Eller e novo parceiro de Ana, com quem tem feito shows em parceria (num destes, inclusive, conheceu o rapper Sombra, que chamou para rimar no disco). Chico e Ana consolidam este laço com a irresistível “Tua Boca”. O novo cantor e compositor Carlos Posada também é agraciado no disco com seu tocante poema “Tijolo”.

Mas são as novas canções de Ana Cañas que dão a cara do álbum. “Eu Dou”, “Todxs”, “Tão Sua”, a didática e hilária “Lambe-Lambe”, “Independer” (outra parceria com Arnaldo e Taciana) e o hit “A Onça e o Escorpião” mostram a cantora completamente à vontade com sua nova faceta, segura de si e de suas ideias, dando as cartas e determinando as regras de seu próprio jogo. Todxs consagra a maturidade dela tanto como cantora, compositora e personalidade pop e ela está pronta para enfrentar os dragões da maldade que aparecerem em seu caminho (coitado deles). Ana Cañas não está pra brincadeira – seu sorriso de canto e o olhar penetrante são apenas a tradução de canções prontas para conquistar um novo público. Não mexe com ela!

Paula Santisteban no Rio e em São Paulo

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Autora do último disco produzido pelo meu irmão Miranda, Paula Santisteban se apresenta nesta quarta na Unibes Cultural em Sâo Paulo, com a participação da Tiê (mais informações aqui) e na quinta no Blue Note Rio, com a participação da Nina Becker e do mestre Kassin (mais informações aqui). Os dois shows seguem o calendário de lançamento de seu primeiro álbum, desta vez no formato que Paula compôs o disco, com guitarra (Eduardo Bologna), teclados (Marcos Romera), baixo (Eric Budney) e bateria (Daniel de Paula). Estou tendo o prazer de trabalhar na direção deste lançamento e fui a ponte entre Paula e estas duas grandes cantoras brasileiras deste século. Antes do show de São Paulo, às 19h, eu bato um papo com ela sobre o processo de criação desta bela e delicada coleção de baladas que é seu disco de estreia, no lounge da Unibes Cultural (do lado do Metrô Sumaré), de graça. É só chegar. A Débora da Unibes conversou com Paula numa entrevista que está no site do espaço e abaixo segue o release que escrevi sobre o disco que leva seu nome.

Onde tudo se perdeu? Quando o encanto se quebrou? O que aconteceu com a magia da vida, antes tão presente e tão sentida, hoje soterrada pela banalidade dos números, das medidas, dos fatos, do mal. O pequeno tornou-se insignificante, o diferente, desprezível, o simples, ruim.

A longa e intensa jornada deste início de século parece pegar a todos pelo pescoço para que se perceba a necessidade da valorização do que é corriqueiro, rotineiro, comum. Há um ambiente tóxico criado pelo excesso de adjetivos deste novo agora que exige que tudo se destaque de forma desproporcional. Não sabemos mais o que é genial, o que é incrível, o que é único de fato – tudo é vendido desta forma ao cubo, aumentando nossos anseios e expectativas para um futuro que inevitavelmente nos causará frustrações.

Mas, como já cantava um saudoso bardo do século passado, há uma brecha em tudo e é por ela em que entra a luz. Por mais intensos e sufocantes tenham sido os últimos anos, esta sensação aos poucos cria antídotos naturais em diferentes esferas, produzindo alentos espirituais que podem vir de muitas formas – e a música é uma delas.

Paula Santisteban sabe disso. Dona de uma personalidade musical única no atual cenário musical brasileiro, ela condensa em seu primeiro disco um conjunto de sentimentos e impressões que vai de encontro à massa cultural produzida atualmente. Usando sua voz como estandarte deste manifesto, ela nos conduz à entrada de um lugar quase secreto e dado como perdido: a consciência da beleza do simples.

No conjunto de dez faixas reunidas sob seu nome, ela acalenta o ouvinte com sua voz sabendo exatamente onde o levar. São dez baladas apaixonantes e refinadas, tocadas por uma banda de músicos de primeira, gravadas como há muito não se gravava, com arranjos deslumbrantes tocados por cordas, madeiras e metais. Tudo construindo um pedestal para uma voz que prefere descer deste posto e juntar-se aos músicos como mais um instrumento – mas sem nunca perder sua centralidade.

Como queria o amigo Carlos Eduardo Miranda, um dos principais nomes da indústria fonográfica brasileira dos últimos vinte anos, responsável pela produção do disco – foi o último registro a levar sua assinatura, antes de sua morte prematura aos 56 anos, no início deste ano. Responsável por revelar nomes tão diferentes quanto Raimundos e Otto, Miranda foi crucial para o estabelecimento das carreiras como Skank, O Rappa, Chico Science e Nação Zumbi, além de personalidade-chave para o desenvolvimento de cenas independentes em Porto Alegre (sua cidade-natal), Recife, São Paulo, Brasília e Belém. Redesenhou o mapa do pop brasileiro das últimas décadas e era conhecido pela personalidade carismática, pelo enorme coração, pelo amor pela cultura pop, pelo apreço à esquisitice e pelas histórias deliciosas, sempre contadas às gargalhadas e lágrimas.

Mas Miranda tinha um lado pouco conhecido do grande público. Suas camisas floridas, seus comentários no programa de calouros Ídolos e o fato de ter lançado artistas tão jovens e jocosos como Cansei de Ser Sexy e Virgulóides escondia uma paixão pela refinação, uma verdadeira devoção pelo esmero, pelo capricho, pelo delicado e pela sofisticação. Fã incondicional da sonoridade analógica dos anos 70, ele já havia demonstrado sua excelência neste tipo de produção ao assinar os trabalhos de artistas como Nina Becker, Estela Cassilatti e da banda mineira Transmissor. E sabia que o trabalho com Paula Santisteban seria o ápice desta sua faceta como produtor. Só não sabia que iria ser seu último – e também um legado formidável para encerrar sua discografia e para lançar a carreira desta nova artista.

“O Miranda falava que esse disco seria um disco pra quem gosta de som”, me explica Paula, ao contar todo o processo que culminou com seu primeiro disco, que tomou dois anos de ensaios com sua banda – formada pelo guitarrista Eduardo Bologna, que também é o diretor musical do álbum, pelo tecladista Roberto Pollo, pelo baixista Eric Budney e pelo baterista Daniel de Paula – para escolher repertório e construir um álbum que Miranda queria que tivesse cara de LP, com quarenta e cinco minutos de duração e com uma separação entre o que era lado A e lado B.

Tinham vinte canções e destas escolheram dez. Miranda comentou as letras, ajudou a escolher os músicos e os instrumentos, além do arranjador para este trabalho, o músico Ed Côrtes. “O Miranda dizia que foi muito acertado trazer o Ed, pois ele trouxe uma atmosfera cinematográfica, visual, e até algo das orquestras do pai dele, Edmundo Villani Côrtes, um dos maiores compositores eruditos brasileiros, vivo, que também fazia arranjos para grandes orquestras de televisão e bailes”, continua Paula.

O processo de gravação ecoa a era analógica e quase tudo foi gravado em takes inteiros, sem edição, sem overdubs, sem efeitos ou nada que transformasse o som dos instrumentos originais – nem mesmo o próprio instrumento dobrado. Quase nenhuma compressão, nada que ressaltasse um instrumento em relação ao outro, como se o ouvinte pudesse estar no mesmo ambiente que os músicos. Primeiro gravaram baixo, guitarra e bateria, depois teclados, depois a orquestra e finalmente a voz.

“A maior participação do Miranda foi na construção da voz”, segue explicando Paula. “Ele simplesmente me fez olhar para minha voz verdadeira, sem truques, sem maquiagem. Foi reduzindo tudo o que não fosse a minha voz de verdade. Isso fez com que ela ficasse muito contida: era o que eu não cantava, e não o que eu cantava, que trazia a emoção nas canções. A entrega das palavras e a expressão e não a interpretação. Fui zero intérprete, fui eu!” A excelência chegou à precisão do microfone específico para aquele registro, um Neumann valvulado de 1952.

A mixagem de Maurício Cersosimo ressaltou este aspecto intimista, próprio das canções de Paula, sem perder um aspecto épico e espaçoso, devido aos respiros entre instrumentos feitos nesta fase da gravação. Greg Calbi, dos EUA, masterizou o disco respeitando estas qualidades, colocando a cantora no meio da banda como se fosse ela mesma uma instrumentista.

“Venho de uma família de artistas, não só de instrumentistas, o que me fez trazer para o meu trabalho, algo visual, tátil, além da partitura”, Paula reforça. “Os andamentos são muito lentos, pois essa ideia de desacelerar está no disco. É um disco de baladas que falam da vida, de separações, de momentos de tristeza, de constatações, de calma, de amor calmo, profundo, de maternidade, de vida e morte, de amor de casal. É um disco maduro, adulto, de uma mulher mãe, de uma cantora e compositora que vive a música na sua essência. Um disco muito humano, na essência da palavra, pois usamos muito pouco de tecnologia, somente usamos como suporte para nossas ideias. E também humano, por conta da coletividade e do amor e amizade que trouxemos através dos encontros que o disco proporcionou.”

Neste sentido, o papel de Miranda foi muito além do que se espera de um mero produtor fonográfico. “Ele foi como um guru, um guia de amor o tempo todo, trazendo o caminho certo de tudo”. Inclusive na minha participação no disco. Velho amigo, Miranda me falava o tempo todo sobre o processo do disco de Paula, ressaltando que eu só iria ouvi-lo quando estivesse pronto. No dia em que morreu, conversamos pela parte da manhã e ele reforçou que queria que eu participasse deste processo – e estava conversando com Paula também sobre isso. Após sua morte, nos encontramos e ela pode me mostrar o disco, que havia acabado de ser gravado e começava a ser mixado – a começar pela tocante “As Janelas da Cidade”, o primeiro single do disco. Juntos, começamos a desenhar o lançamento deste último gesto artístico de nosso querido compadre. E a partir daí vieram as fotos de Bob Wolfenson para a capa do álbum, a assinatura com a gravadora Warner, o lançamento do álbum no Auditório Ibirapuera – e assim Paula Santisteban vai deixando sua marca, que também é a marca antevista por seu produtor.

“Acredito que o disco, em sua essência, traz essa cor laranja, azulada de um fim de tarde”, ela conclui. “Essa vontade de caminhar, de olhar paisagens, de desacelerar, de entrar em um lugar dentro, em águas profundas. Música, tocada, cantada, sem glamour. É um disco que abraça e não que afasta.”

No coração da máquina

Foto: Fábio Bitão

Foto: Fábio Bitão

Guizado antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo “Cidade Neon”, o segundo single de seu mais novo álbum, O Multiverso em Colapso, que ele desenvolveu na temporada que fez no Centro da Terra em maio deste ano e que será lançado na semana que vem. Ele também me chamou para escrever o release do disco, que reproduzo abaixo.

Não lembro quem falou primeiro, mas tanto Guizado quanto Miranda me avisaram mais ou menos na mesma semana que estavam começando a trabalhar juntos. O trompetista já é um dos principais nomes no Brasil em seu instrumento e o dividiu palco com alguns dos principais nomes da nossa música neste século, além de ter desenvolvido uma sólida carreira solo pop e instrumental, artefato raro na paisagem musical daqui. Imaginar que ele entregaria um capítulo de sua carreira a um dos grandes produtores da história da nossa indústria fonográfica abria inúmeras possibilidades sonoras. Um universo em expansão – multiversos!

Duas cabeças intensas e prolíficas, Guizado e Miranda bateram de frente para entender o rumo que iriam tomar juntos. Nesta colisão, o produtor gaúcho puxou o músico paulistano do free jazz e do espaço sideral para trazê-lo de volta à Terra. Embarcaram em uma jornada para um passado que ambos viveram e curtiram: os anos 80 que viram a formação do músico e do produtor em suas respectivas cidades e áreas de atuação.

Com isso, as referências contínuas das duas cabeças começaram a jorrar uma sobre a outra: discos, filmes, quadrinhos e livros daquele período acabaram dando uma tônica de ficção científica completamente diferente da viagem interestelar que Guizado havia feito em seu disco anterior, Guizadorbital. Juntos, partiram para um viagem no tempo que lhes valeu uma completa invertida na sonoridade do músico.

Este ainda vinha acompanhado por uma banda magistral: Richard Ribeiro na bateria, Meno Del Picchia no baixo, Allen Alencar em uma guitarra, Regis Damasceno na outra e Zé Ruivo nos teclados talvez seja um dos melhores conjuntos instrumentais de São Paulo, cada um com suas referências e backgrounds que se fundem em uma sonoridade pesada e límpida, livre e pop, agressiva e reluzente. Encontrei com Guizado no início do ano e ele me falou sobre os rumos do novo disco, que vinha com influência de quadrinhos apocalípticos dos anos 80 e deveria se chamar O Multiverso em Colapso. No mesmo encontro, o convidei para tomar conta de uma das temporadas de segunda-feira no Centro da Terra, espaço de resistência cultural escondido no bairro paulistano do Sumaré, em que atuo como curador de música, dando-lhe a oportunidade de concluir o processo que estava realizando no disco antes de sua gravação.

Entre o encontro e a temporada, veio a morte de Miranda, sobre quem havíamos conversado naquele papo no início do ano. Guizado me contou que o produtor gaúcho já andava mal de saúde e só conseguia acompanhar aquela etapa do processo em conversas remotas, mas sua influência paira por todo disco O Multiverso em Colapso, que leva as duas assinaturas na produção e foi gravado em uma das semanas de maio de 2018, no meio do mês em que celebrava o final daquele processo na temporada batizada com o nome do disco.

Nas apresentações de segunda-feira, Guizado recebeu a presença de nomes ilustres da nova música brasileira, como o rapper Edgar, o grupo instrumental Ema Stoned, o guitarrista Kiko Dinucci, o baterista Maurício Takara, o guitarrista Júnior Boca, além de outros que acabaram entrando nas gravações do próprio disco, como Ava Rocha, Sandra Coutinho, Rômulo Froes, Lucas Santanna, Thiago França, Angela Merkel e Negro Léo.

O resultado é um disco noturno e paranoico, pop e frenético – e com muitos vocais. É o disco de Guizado com mais canções tradicionais, incluindo refrões que poderiam estar no rádio. Por todo o percurso, Guizado mostra o rumo com seu trompete como se ele fosse um cursor de um velho computador, abrindo programas e pastas de passados remotos que ainda se mostram atualíssimos. Os timbres das guitarras são prateados ou néon, como o caminho traçado pelo trompete, e brilham num escuro que não para de ferver composto por uma cozinha por vezes fria e robótica, por outra esparsa e vulcânica.

No meio de tudo, o instrumento de Guizado funciona como holofote para sua própria voz (que canta em “Sobre Deuses e Demônios”, “Sonho Delírio”, “Tengo Piel”, “Coração Caverna” e no primeiro singfle, “Modern Fears”) e para as de Negro Léo, Ava Rocha e Sandra Coutinho, bem como para as presenças cortantes dos músicos de sua banda.

O Multiverso em Colapso é um passeio por um futuro que não aconteceu, em que carros voadores e jazz fusion coexistem com corporações sem rosto e vendedores de rua. Resvala pelos futuros tech noir de Blade Runner e cyberpunk de Akira, mas sem perder uma identidade brasileira, urbana e cerebral. Um robô que sonha ser uma pessoa – ou justo o contrário. É nesta zona intermediária que faz seu coração binário pulsar.

O momento solitário da recriação

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Em Avante Delírio, Saulo Duarte se despede da Unidade em busca de uma nova sonoridade – bucólica porém solar. Ele me convidou para escrever o texto de apresentação de seu primeiro disco solo, que reproduzo a seguir.

Saulo Duarte queria ouvir a própria voz e não era a voz com a qual cantava n’A Unidade, usina paraense de groove que havia fundado no bairro do Cambuci, em São Paulo, no início da década. A quantidade de músicos no grupo e a energia intensa de suas apresentações fizeram-no separar um material musical próprio, que pouco a pouco ia ganhando cara e corpo longe de seus colegas de banda. Queria, no entanto, explorar novos ares para aquelas canções bem como traduzir essa nova sonoridade para além da festa que era a Unidade.

Foi quando o convidei para realizar uma temporada no Centro da Terra, pequeno foco de resistência cultural no bairro do Sumaré, também na capital paulista. Na curadoria de música do local desde o início do ano, transformei suas segundas-feiras em um laboratório musical para músicos, intérpretes e compositores experimentarem possibilidades estéticas para além dos discos, clipes, shows e turnês. E a dúvida que Saulo me apresentava – cogitar caminhos diferentes para sua musicalidade a partir de formações que iam de encontros com banda até a voz e o violão – se encaixava perfeitamente com a proposta do Segundamente, nome de batismo destas temporadas.

Assim, Saulo bolou a temporada Persigo São Paulo, nomeada em homenagem a Itamar Assumpção, em outubro de 2017, quando usava as segundas-feiras para encontros de diferentes natureza com vários parceiros, desde irmãos de longa data a novos músicos com quem se identificava. Reuniu Giovani Cidreira, João Leão, Bruno Capinan, Russo Passapusso, Igor Caracas, Victor Bluhm, Josyara e Curumin e se a princípio ele parecia estar em dúvida para definir por qual daquelas quatro frentes atuaria, a temporada lhe revelou que o rumo era um híbrido de todas apresentações.

O disco que depois se tornaria Avante Delírio começou a ser gravado em seguida: em dezembro do ano passado no estúdio Navegas Cantareira com Zé Nigro e Lenis Rino, em janeiro do ano seguinte no estúdio YB com Fernando Rischbieter, no mês seguinte no Klaus Haus Studio com Klaus Sena e no Matraca Records em março com Pedro Vinci, além de recuperar gravações que havia feito no Red Bull Studio com Rodrigo ‘Funai’ Costa e Alejandra Luciani no meio do ano passado.

Em comum, o astral aberto característico de suas composições n’A Unidade, mas com um quê de melancolia e uma dose de realismo duro. No mesmo período, saiu dos holofotes como guitarrista ao assumir o instrumento que lhe consagrou no trabalho do casal de amigos Anelis Assumpção e Curumin, tornando-se integrante temporário das bandas respectivas, Os Amigos Imaginários de Anelis e os Aipins de Curumin. Ao emprestar seus timbres elétricos para os velhos compadre e comadre, tirou-os de sua dianteira para abraçar o instrumento que dá rumo, sabor e textura a seu primeiro disco solo – o violão de nylon.

Esse velho companheiro é o cajado no qual Saulo se escora para trilhar novos rumos – e para com ele diminui o impacto de sua energia para uma esfera quase familiar, doméstica. Saem os festivais a céu aberto repletos de multidões aos berros e o sol entra por uma fresta matutina em um apartamento espaçoso, plantas, tapetes, quadros, cinzeiros, incensos e discos de vinil espalhados por mesas no canto. Mesmo quando o clima é mais soturno ou sisudo (há sombras mesmo nos momentos mais ensolarados do disco), ele não é nem grandioso nem pessimista.

E assim ele recebe um time de amigos como quem abre sua casa para um almojanta de sábado à tarde, todos se espalhando pelo disco como se pegassem um canto da sala – um banco, uma rede, um pufe, o sofá. Além do violão e vocais de Saulo e do baixo e bateria dos coprodutores do discos, os bróders Zé Nigro e Curumin, deslizam pelos discos as percussões de Maurício Badê e Igor Caracas, os sopros de Ed Trombone, Luca Raele, Jorge Ceruto e Fernando Bastos, as teclas de Pepe Cisneros e Marcelo Jeneci, os baixos de Betão Aguiar e Gustavo Ruiz e a presença de Negro Leo, além dos compadres de Unidade João Leão e Klaus Sena.

O violão de Saulo é a batuta que rege este encontro, mas ele é desconstruído e reconstruído pelo próprio e seus compadres Curumin e Zé Nigro, com quem Saulo divide a produção do disco. As levadas rítmicas mudam constantemente: o samba rock torto que vira um baião no meio de “Ela Foi Ver a Lua”, o jazz livre do início de “Tapume” logo bate continência a uma marchinha pós-apocalíptica, a levada suave de “Praça de Guerra” que se desdobra em uma bad trip de discos tocados de trás pra frente, o refrão delicado de “Estrela D’Água” é recriado como um arrastão lek lóki puxado por Negro Leo.

Primeiro disco solo de Saulo Duarte, Avante Delírio é um deleite musical – por vezes bucólico, por outras festeiro – que visa dissipar o clima pesado que paira sobre o Brasil no ano de seu lançamento. É um disco solar, animado, feliz, em que Saulo assume o violão como principal parceiro, disposto a atravessar as piores intempéries para trazer boas novas em forma de canção.

Os instrumentos se entrelaçam e se sobrepõem; o ritmo e melodia sempre protagonistas, seja nos momentos mais incisivos (como em “Rebuliço”, “Flor do Sonho” e “Se Esqueça Não”), nos mais tensos (“As Luzes da Cidade”, “Praça de Guerra”, “Tapume” e “Ela Foi Ver a Lua”) e nos mais tranquilos, como “Estrela D’Água”, a lindíssima faixa-título e “Não Existe Resposta para ‘Eu Te Amo’”, estas duas talvez os melhores retratos do disco: enquanto a última ecoa samba-jazz, funk nacional, João Donato, Marcos Valle e até um ar de pagode romântico, “Avante Delírio” resume magistralmente o disco, ecoando o clima intimista e familiar de Gilberto Gil e Jorge Ben com uma leve bruma psicodélica no ar. Saulo Duarte está em casa.