O ingresso de R$ 12.500 e a lógica do “tem quem pague”

, por Alexandre Matias

Um dos assuntos que pintaram quando o show do Sabbath no Brasil foi anunciado dizia respeito à sua localização – quais seriam os palcos que abrigariam a turnê dos pais do heavy metal? É papo pra estádio, mas em ano pré-Copa e estádios pela metade, as opções são bem restritas – não apenas para o Black Sabbath, mas também para outros artistas de médio e grande porte que podem passar por aqui.

A outra questão que surgiu, claro, diz respeito sobre o preço do ingresso. A discussão sobre o mercado de shows no Brasil, com o cancelamento do Sónar e a transferência do Cure do Morumbi para o Anhembi, voltou à pauta no último mês e, inevitavelmente, cai-se no círculo vicioso que, não importa quanto for o ingresso, “tem quem pague”. Até que chega o Skol Sensation desse ano com um ingresso que custa

RS12500

R$ 12.500. Doze mil e quinhentos reais. Isso é o equivalente a quantos salários mínimos? “Mas é pra seis pessoas”. Ah tá, fica só dois mil e oitenta e três reais por cabeça. E isso não parte de um evento “diferenciado”, em que o clima importa mais que as atrações estrangeiras. Poderia vir num musical da Broadway adaptado para São Paulo e Rio de Janeiro. Num concerto de música erudita ou num show de dance music qualquer. O “tem quem pague” não existe sem o “tem quem cobre” – e neste caso o Skol Sensation ultrapassou a barreira dos cinco dígitos no preço de um ingresso. Infelizmente, não vai parar por aí.

Há quem urubuze e diga que a bolha dos shows internacionais vai estourar e o país vai sair da escala de muitos artistas, caso os cachês diminuam, por exemplo. Sim, há uma bolha financeira, principalmente no que diz respeito ao preço que se paga pelos artistas e aos preços de ingressos repassados para o público, mas isso não significa que os shows internacionais vão parar de acontecer no Brasil, principalmente às vésperas de Copa do Mundo e Olimpíada.

E essa bolha financeira não tem a ver apenas com shows, claro. Tem a ver com ascensão da nova classe C também, mas também tem a ver com o tal “capital cultural” que eu citei outro dia. Mas o principal é essa elite de araque que se mede por dinheiro, que escaneia qualquer pessoa pelas marcas que ela tem ao seu redor, do relógio no pulso ao carro na garagem. Gente que usa o dinheiro para se diferenciar dos outros. Devíamos fazer como sugeriu o Knife naquele quadrinho que linkei ontem – tratar essas pessoas como portadoras de um problema psicológico, uma compulsão psicótica por acumular dinheiro e precificar tudo.

Isso também não é restrito ao Brasil, é um problema mundial. Que tem mudar.

Tags:

16 thoughts on “O ingresso de R$ 12.500 e a lógica do “tem quem pague”

  1. Ricardo disse:

    E a “backstagização” da balada?

  2. Daniel Araujo disse:

    Cara, isso não tem o menor sentido! O que uma balada, um show ou sei lá o que poderia oferecer que pudesse valer essa grana? A única regalia que esse custo dá acesso é a oportunidade de… gastar 12 paus!

    1. Leonardo disse:

      A regalia, meu caro Daniel, é a certeza de estar rodeado de pessoas que obviamente tem grana sobrando para pagar o mesmo preço para estar ali. Obrigado, mas eu prefiro ficar no meio dos que não escolhem suas amizades e companhias pelo quanto elas têm de dinheiro. Até porque essas amizades fúteis acabam rapidinho se um dia o dinheiro também acabar.

    2. Paulo disse:

      oque pra gente é uma absurdo, tem muito playboy que gasta isso por noite em uma baladinha, imagina num evento desses, não vejo tanto problema no 12 mil, desde que tenha uma pista e uma area premium com um preço mais democratico…

  3. Fra tura disse:

    Vô comprar 80 desses aí………

  4. Chris Calvet disse:

    Vizinho, te citei no meu blogue. Curti teu texto. Se quiser, sinta-se em casa. Abs!

    http://www.oesquema.com.br/resistro/2013/04/04/gente-diferenciada/

  5. tony disse:

    hahaha… que piada.

    Lixo esse skol sensation. 6 horas de festa.
    Tem festivais ótimos pelo país , respeitados no mundo todo, que duram 6,7,8 DIAS e custam 200, 300 reais, como o Universo Paralello.

    Sem falar que são DJs de Jovem Pan, que tocam uns plek plek bem sem graça, tb conhecido como “psicodelia do teleco teco”.

    Alguns dos principais festivais de musica eletronica do planeta nao custam um decimo disso.

    Boom festival em Portugal custa 120 euros e são 9 DIAS.
    OZORA na Hungria custa 90 euros e são uns 8,9 dias tb.

    Sem falar que vc pode entrar com o que vc quiser de bebida e comida nos 2, na quantidade que quiser.

    Esse skol sensation é uma piada

  6. desaparecendo disse:

    meia que não é metade, diamond exclusive table premium filter plus. Vamos agradecer aos organizadores do evento por prenderem todo mundo que cai nesse tipo de bobagem em um só lugar e fazerem do resto do mundo um lugar melhor por algumas horas.

  7. japaOne disse:

    Meu…dá pra comprar um carro – batidinho…mas dá!
    Quem paga isso é retardado, na boa….

  8. Grilo disse:

    Vou comprar tudo e levar meus chapas da crackolândia pra esse evento.

  9. Bruno disse:

    Mas o lance é que tem MTA gente que paga!

    O RiR esgotou geral! E custa 300 pratas por dia, tá louco!

    http://oglobo.globo.com/cultura/ingressos-para-rock-in-rio-sao-leiloados-na-internet-8025936

  10. Tiago disse:

    Mercado funciona pela boa e velha ‘lei da oferta e da procura’, e é desse ‘luxo imbutido’ que a marca constitui sua demanda por público elitista.

    Ou a calça jeans da marca fulana vale de fato quase mil reais…? Ou o telefone da maçã vale de fato os dois mil e poucos cobrados Brasil afora?

    “Ah, mas isso são produtos físicos, o que é diferente de um evento”, ao que eu posso comparar com a cobrança de qualquer serviço imaterial que nós temos.

    Seja cinco reais mensais de manutenção de uma conta corrente (que eu sei que é bem mais) ou o preço de portaria de uma balada, são valores que não se justificam, sendo baixos ou assombrosos.
    Só se justificam porque… Bem… Tem quem pague.

  11. Malheiros disse:

    Ótimas as observacões do último parágrafo. Tanto sobre a elite de araque, quanto sobre os psicóticos da grana.

  12. Delfin disse:

    #BoicotaSP

    É pra isso que serve.
    É pra isso que foi criado.
    Pessoalmente (e infelizmente) boicoto esses shows há 15 anos. O último a que fui foi o Planeta Terra, primeira edição. Porque ganhei o ingresso.

  13. Delfin disse:

    (Em tempo: dá pra comprar um ótimo carro, basta procurar. O meu custou menos que isso, está original e sensacional. E ainda não preciso mais pagar IPVA do bom e velho Monza.) 🙂

Comentários fechados.