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Hora de republicar as edições da minha coluna Tudo Tanto que escrevi para a revista Caros Amigos nos útimos meses. A primeira da safra é a do mês de junho, quando escrevi sobre o Tropix da Céu.

Céu imprevisível
Em seu quarto disco, a cantora paulista se firma como o João Gilberto da música brasileira deste século

Encontrei com a Céu logo depois de ela ter terminado seu quarto disco e ela quase não cabia em si. Queria falar sobre o disco, queria mostrar o disco, queria dizer o nome do disco, dizer o que estava experimentando, o que havia inventado, quem havia participado. Mas sabia o quanto o sigilo era importante naquele estágio de gestação do álbum, que ainda estava tendo seu cronograma de lançamento agendado. A obra já estava terminada, o produto ainda não. Mas a vontade para mostrar o disco novo era tanta que ela preferiu trabalhar no campo subliminar, indo me encontrar vestida com uma camiseta do grupo paulistano Fellini. Confesso que a visão dela com a camiseta de uma banda tão importante para a cena independente brasileira quanto desconhecida do grande público me causou certo estranhamento, tanto que perguntei logo depois de nos cumprimentarmos. “Conheci faz pouco tempo”, ela me contou, empolgada, dizendo que estava escutando todos os discos da banda. Por mais que pudesse ter traçado uma conexão entre a banda paulistana e o novo disco dela (Céu lo-fi?) a dica invisível nunca me diria que ela estivesse prestes a lançar uma versão para uma das músicas do grupo. “Foi difícil escolher uma das músicas pra regravar”, ela me contou num outro encontro, quando já podia falar sobre o assunto.

Tropix, o disco que Céu revelou ao mundo no final de março, no entanto, passa longe das gravações de baixa fidelidade do Velvet Underground paulistano. O quarto disco da cantora é seu salto mais ousado, um mergulho na disco music e na pista de dança, na eletrônica e na vida noturna, no mundo digital e nos beats e loops. Um universo completamente avesso à aura rústica que ela carregava em seus ombros musicais, uma ambiência que cruzava a singularidade do reggae mais roots com a aspereza do samba mais cru, a tonalidade mais sépia da música latina e a candura da canção brasileira. Depois de discos de cores neutras, ela veio com um álbum preto, branco e prata, brincando com timbres sintéticos e com a linguagem digital.

E é tudo Céu. O disco foi produzido pela dupla Pupilo, o pulso preciso da Nação Zumbi, e Hervé Salters, o mago francês dos timbres eletrônicos por trás de projetos como General Elektriks e Honeycut. Conta com participações do guitarrista carioca Pedro Sá e da cantora paulista Tulipa Ruiz, tem canções coescritas com o goiano Dinho da banda psicodélica Boogarins e o pernambucano Jorge Du Peixe, vocalista da mesma Nação de Pupilo. Mas é tudo Céu.

A tradição do canto feminino no Brasil nos acostumou a tratar cantoras como intérpretes – que vão da simples definição do termo (em que basicamente cantam músicas compostas, arranjadas e produzidas por outros – quase sempre homens) ao limite da canção com o teatro (quando cantoras como Elis Regina e Maria Bethânia se entregam corporalmente à música). Mais uma das inúmeras facetas do secular machismo enraizado em nossas entranhas (e isso, de forma alguma, é demérito exclusivo do Brasil), sempre que pensamos em mulheres fazendo música, as vemos como musas escolhidas por homens talentosos ou controladores. Céu vira esse jogo. Porque seu disco é todo seu. Foi ela quem começou rascunhando as canções no computador, foi ela quem escolheu músicos e produtores, foi ela quem determinou o rumo a ser seguido, quem compôs as canções e deu o tom do novo álbum. Como em todos seus álbuns.

Ela é o João Gilberto de vestido que inventou essa nova bossa nova que gosto de chamar de música brasileira do século 21. Foi ela que mostrou para diferentes novas cantoras que não era preciso ter homens nos bastidores para determinar seu rumo. Foi ela também quem estabeleceu o parâmetro musical que não é preciso sublinhar forte os gêneros musicais em formação para se determinar pertencente a um clube A ou B de estilo musical, misturando tudo numa mesma sonoridade indefinível, ousada, mas, principalmente, pop. Tropix não é a nova joia em sua coroa de rainha da música brasileira: é o farol que determina o rumo daqui pra frente. Em seus três primeiros discos (Céu, Vagarosa e Caravana Sereia Bloom) ela traçou um perfil que ajudou a moldar a cena musical brasileira atual. Tal como João Gilberto cinquenta anos antes, não o fez de forma consciente, apenas deixou sua sensibilidade guiar o rumo. Mas acertou um nervo artístico que ecoou por diferentes artistas, cenas musicais, discos e shows. Injetou autoestima em uma cena musical que vivia sob a sombra de um cânone que parecia imutável. E mudou a cara da música brasileira.

Tanto que Tropix parece-se com outros dois discos de cantoras e compositoras que vieram depois dela. Tanto o Dancê de Tulipa Ruiz e Frou Frou de Bárbara Eugenia, ambos lançados no ano passado, disfar- çam-se de fúteis para passar mensagens bem fortes. Cada um apresenta uma sonoridade específica, todos os três fundados em cima de uma musicalidade brasileira que sucedeu a MPB dos anos 1970 e antecedeu o rock dos anos 1980. Uma atmosfera de pista de dança que ecoa a discoteca e os arranjos de Lincoln Olivetti, a carreira de Rita Lee após o grupo Tutti Frutti e os anos dance music de Gilberto Gil, a frugalidade de uma sonoridade de fácil absorção e com alto astral. Cada um deles chega dançando do seu jeito para revelar verdades mais difíceis de ser assimiladas do que o simples pop: Tulipa traz mestres como João Donato, Lanny Gordin e novos titãs como Felipe Cordeiro e o trio Metá Metá; Barbara entrega-se a mantras de autoconhecimento e às baladas intensas de Fernando Catatau e Tatá Aeroplano.

A superfície sintética e dance de Tropix guarda segredos densos e realidades flutuantes, como a própria versão que ela fez para “Chico Buarque Song”, dos acima citados Fellini, a latinidade teatral de “Sangria” e as três músicas que fecham o disco “Camadas”, “A Nave Vai” e “Rapsodia Brasilis”, cheias de cordas deslumbrantes, que apontam para um rumo completamente diferente da pista de dança (embora as duas últimas façam dançar). O que ela fará a seguir? Uma viagem à África? Um disco de música baiana? Uma visita ao Caribe? Uma busca pela canção interiorizada? Nem ela sabe. E assim ela consagra a imprevisibilidade não apenas como uma de suas principais características, como a de toda essa nova geração.

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Como o diretor revolucionou a TV, a música e o jornalismo ao sair de cena e como esta estratégia o torna vivo para sempre – escrevi sobre este incrível legado em minha coluna de maio da revista Caros Amigos.

O ego de fora

Ele era mesmo baixo e chamava a todos por este seu apelido – ou por variações dele. “Baixo, baixa, baixinha, baixinho” – não importava a estatura de seu interlocutor. Este quase sempre o via de cima, pois Fernando Faro, que morreu no final do mês de abril, sempre se sentava próximo ao chão quando ia entrevistar seus convidados.

Era um esperto macete de cena que quebrava completamente o gelo das apresentações de seu programa Ensaio, que fazia na TV Cultura desde o início dos anos 1970, depois de lançar o programa na falecida TV Tupi na década anterior. Ao sentar-se um nível abaixo de seus entrevistados, Faro – ou Baixo, como todos o conheciam – quebrava a defensiva típica erguida por quem faz música quando chamado para falar sobre sua vocação. Aquilo tirava a solenidade do estúdio, fazia músicos se esquecerem das câmeras, deixava a atmosfera mais casual, branda, leve – e a música fluía melhor, mais emotiva, mais próxima e mais quente.

E este nem era seu grande truque. Seu Ensaio entrou para a história quando ele mesmo se colocou fora das câmeras. E até dos microfones. Criador e apresentador do programa, Faro não aparecia. Nem sequer sua voz. Muito menos quando perguntava. As perguntas – que ele entendia como redundantes e achava que causavam certo ruído no fluxo da fala de seus convidados – não eram ouvidas durante o programa. Víamos os músicos assentindo com a cabeça, calados ouvindo as colocações do mestre de cerimônias, mas em momento algum víamos quem perguntava ou ouvíamos o que era perguntado. A questão vinha embutida na resposta, por vezes literalmente, mas em muitos casos só entendíamos a pergunta com o desenrolar da explicação dada pelo artista.

A ausência das perguntas em um programa de entrevistas era a marca registrada de seu Ensaio, mas não era a única. A ambientação meio escura, quase sempre com sombras carregadas, mesmo com as cores da TV colorida, davam um clima preto e branco que conversava tanto com o cinema europeu do final dos anos 1960 quanto com o cinema da Boca do Lixo paulistana. As imagens ganhavam profundidade ao revelar as minúcias de seus entrevistados. Músicos olhando para o lado, quase nunca olhando para a câmera, cobertos por uma escuridão acolhedora, que, como a posição de Faro, também tornava o clima do estúdio menos hostil e mais familiar. Os closes nas mãos dos instrumentistas, na textura da pele de seus entrevistados, nas rugas e recôncavos faciais, nas rachaduras dos lábios dos cantores. Havia uma proximidade intensa entre a câmera e seu foco que aproximava o telespectador do entrevistado. Não era um show, não havia maquiagem, figurino nem efeito especial – eram pessoas tocando em sua própria casa.

Havia ainda a amplitude do leque musical de Faro, um rígido crítico musical que não precisava de adjetivos ou notas para mensurar o trabalho alheio. Bastava ser chamado para o Ensaio para entrar num enorme panteão que recebia sambistas, chorões, sertanejos, roqueiros, bossanovistas, virtuosos, rappers, intérpretes e instrumentistas sem a menor distinção de hierarquia ou degraus de importância. Só o fato de estar lá já significava fazer parte de um grupo específico designado pela escolha do dono da festa. Tanto faz se fosse Cartola, Elis Regina, Los Hermanos, Racionais MCs e inúmeros artistas quase anônimos que o tempo esqueceu – Baixo tratava-os todos da mesma forma.

E também havia a longevidade do programa. Foram quase cinco décadas ininterruptas de shows semanais, ladeando artistas em ascensão que se tornaram os mestres de hoje em dia com novatos que despontaram para o anonimato, músicos de imenso apelo popular ou queridinhos da crítica musical, veteranos que não foram celebrados em seu auge e conjuntos instrumentais. A estética, o estilo, a mensagem que o meio passava, tudo se mantinha quase idêntico por todos esses anos. Essa longevidade na TV brasileira necessariamente depende de um apresentador carismático para esticar-se por décadas (como Fausto Silva, Sérgio Groissman ou Inezita Barroso) e são raros os programas que se esticaram por tanto tempo sem depender de um rosto conhecido ou mesmo mantendo a própria assinatura.

O foco no entrevistado, o clima intimista, a estética como assinatura, a amplitude de gêneros e a firmeza em manter o próprio trabalho eram as qualidades intrínsecas ao Ensaio, que é o grande legado que Faro nos deixa. Agora interrompido por questões biológicas, todo o acervo do programa – que já começou a ser lançado em DVD, tem um próprio canal no YouTube, mas não está inteiro disponível on-line – surge como uma imensa obra única, uma herança monumental sobre uma das principais contribuições da cultura brasileira para o mundo, a música.

A sacada de Faro para entrar para a história da TV, do jornalismo e da música brasileira foi sair de cena. Décadas antes de Quincy Jones colocar uma plaquinha na porta do estúdio de gravação do encontro de popstars dos anos 1980 USA for Africa, em que pedia para os intérpretes da música “We Are the World” (figurões do quilate de Michael Jackson, Bob Dylan, Stevie Wonder e Bruce Springsteen) deixarem seus egos do lado de fora do estúdio, Faro deixou o próprio ego fora da história que queria contar para que seus personagens brilhassem mais que ele.

É claro que sua ausência será sentida, mas não vista – como era em sua vida. Seu legado é um olhar lúdico sobre a diversidade e profundidade emocional e viva da música brasileira e seus autores e intérpretes, deixando que estes falassem por si. Mesmo morto Faro continuará fazendo as perguntas que ninguém ouve – e seu Ensaio continua mesmo que não seja mais gravado.

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Mais uma edição de minha coluna Tudo Tanto na revista Caros Amigos que republico atrasado por aqui, esta é sobre o novo disco de João Donato, que pude ver ao vivo no começo do ano (e os vídeos vêm a seguir). A coluna saiu na edição de abril.

De volta à eletricidade
João Donato volta ao vigor de seus anos 70 com o disco Donato Elétrico

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João Donato aceitou o convite de Ronaldo Evangelista para voltar à eletricidade. O jornalista – meu amigo pessoal, não preciso esconder isso – já vinha apontando sua transição do texto para o estúdio ao se propor o desafio de transformar seu projeto Goma Laca – em que artistas recriavam pérolas esquecidas da música brasileira que só foram registradas em compactos de 78 rotações – em um disco. Sua primeira produção reuniu nomes de peso como Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso e Juçara Marçal para recriar músicas com quase um século de idade. O próximo estágio seria produzir um disco de um único artista e aproveitou a aproximação com Donato para fazer sua estréia como produtor em grande estilo.

Foi um lento processo de convencimento, sem pressa nem pressão, bem ao estilo do velho músico. Donato é destes alicerces da música brasileira que poucos prestam a devida atenção – ele se adequa à expressão inglesa que o qualifica como um “musician’s musician”, um músico apreciado mais por outros músicos do que pelo grande público, não sem razão. Mestre da suavidade e do sossego, é uma das claras inspirações da bossa nova, tendo influenciado tanto João Gilberto quanto Tom Jobim quando estes ainda começavam suas carreiras. Depois teceu uma carreira paralela entre o Brasil e o exterior, levando a música brasileira embalada a uma latinidade própria sua, que foi desenvolvendo e curtindo com o passar dos anos.

O primeiro disco de inéditas de João Donato deste século começou com um acerto de contas com o passado, quando Ronaldo conseguiu uma boa desculpa para fazer o músico voltar aos instrumentos elétricos, essência de sua sequência de discos clássicos dos anos 1970. Descobriu que o disco Quem é Quem, lançado em 1973, não teve um show de lançamento de fato e resolveu aproveitar o aniversário do disco para finalmente lançá-lo. Para isso cercou-o dos músicos do grupo paulistano Bixiga 70 e convocou amigos do arranjador para subir ao palco – além do veterano compadre Marcos Valle, que produziu o disco original, também chamou as cantoras Tulipa Ruiz e Mariana Aydar para cantar os clássicos do disco do mestre, que incluem canções como “A Rã”, “Cala Boca Menino”, “Me Deixa”, “Amazonas” e “Cadê Jodel?” No ritmo de Donato, o show só foi acontecer no início de 2014, em duas apresentações emocionantes no Sesc Pinheiros.

Era o primeiro passo para uma impressionante aproximação entre o buda do groove brasileiro e a fina flor da nova música instrumental brasileira. Além de músicos do Bixiga, que incluem o baterista Décio 7, o baixista Marcelo Dworeck, os guitarristas Cris Scabello e Maurício Fleury (que também toca teclado no Bixiga mas preferiu não chegar perto do instrumento do mestre), o naipe de metais formado por Cuca Ferreira (sax e flautim), Daniel Nogueira (sax), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete) e os percussionistas Rômulo Nardes e Gustavo Cecci, o disco contou com outras presenças de peso, como o baterista Bruno Buarque (que tocava com a Céu e hoje toca com Anelis Assumpção), o saxofonista Anderson Quevedo, os percussionistas Mauro Refosco e Guilherme Kastrup (este idealizador do disco mais recente de Elza Soares, Mulher do Fim do Mundo), o guitarrista Gustavo Ruiz (irmão de Tulipa, que toca com ela), o trombonista Richard Fermino, o vibrafonista Beto Montag e o baixista Zé Nigro (que toca com Curumin) e um quarteto de cordas formado por Aramís Rocha, Robson Rocha, Daniel Pires e Renato de Sá, que em uma das músicas seguiu os arranjos de Marcelo Cabral, baixista que toca com Criolo e com o Metá Metá.

Chamado de Donato Elétrico, o disco foi gravado no ano passado no bunker do Bixiga, o estúdio Traquitana que sedia as sessões de alquimia musical do coletivo paulistano de groovezeira, localizado no bairro que batiza o grupo, mas só viu a luz do dia no início deste ano. É um inevitável reencontro de Donato não apenas com instrumentos que havia deixado de lado – teclados Rhodes, Farfisa, Clavinet e até um Moog – mas com uma espontaneidade que solta faíscas. Há a clara vibração de discos como A Bad Donato, Quem é Quem e o clássico Donato/Deodato, em que encontrou-se com outro monstro maestro brasileiro, Eumir Deodato. Mas ela tem uma luz mais clara que a daqueles discos, que são propriamente carregados. O novo disco não é parte de uma evolução natural de sua musicalidade como aconteceu nos anos 70 e sim um reencontro com uma essência jovem que talvez tivesse dada como perdida. Donato vinha tranquilamente apresentando-se ao lado de um baixista acústico e um baterista, quando muito chamando uma vocalista ao encontro, e de repente viu-se cercado de músicos com sangue nos olhos, secos para deitar e rolar ao lado do mestre. João, envolto em sua tradicional névoa branca, com seus bonés e tênis coloridos escancarava o sorriso nas apresentações ao vivo com o grupo de novos músicos, alheio aos seus mais de oitenta anos de idade.

Pude vê-lo em ação duas vezes nesta nova fase. Uma delas, no ano passado, tocando para pouquíssimos num palco menor daquele shopping center chamado Rock in Rio, pérolas aos porcos que esperavam na fila para cantar no karaokê de uma marca de refrigerante. Em outra, no lançamento do disco, toda a choperia do Sesc Pompeia lotada, reverenciava o encontro do mestre com os pupilos. Em ambas apresentações, em dado momento Donato levantava-se do banquinho de trás dos teclados e brincava com os botões dos sintetizadores, explorando efeitos, transformando melodia em ritmo, claramente divertindo-se e divertindo o público.

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Outra coluna que publiquei na revista Caros Amigos, esta é de março deste ano e fala sobre o BaianaSystem às vésperas de lançar seu segundo disco, Duas Cidades, que ainda não tinha nome na época.

A ascensão do BaianaSystem
Maior nome da música pop atual de Salvador, o grupo está prestes a conquistar o Brasil com seu segundo disco

“Também”, ri o guitarrista Beto Barreto quando pergunto se a faixa “Playsom”, uma das melhores músicas de 2015, mostrava o rumo para o disco de sua banda, o BaianaSystem. Ele emenda a explicação: “Costumamos falar isso sempre que perguntam se o som é segue numa determinada direção. O novo disco tem na verdade uma série de referências e transita por muitos lugares. Tem uma forte presença da percussão e dos beats, e um amadurecimento no diálogo entre a guitarra baiana, que trabalha novas timbragens e participações de outros instrumentos, e a voz, com a poesia mais forte e rimas também caminhando por referencias que vão do repente ao samba reggae, da canção popular ligada com o universo pop.”

Descrito assim, o grupo BaianaSystem parece um mero projeto de pesquisa que tenta equilibrar diferentes tradições em um novo formato musical – e não a usina de som cuja força vem crescendo a cada ano, culminando com o carnaval deste ano, em que as saídas do trio elétrico pilotado pelo grupo – a Nau Pirata – levaram mais de 50 mil pessoas às praças públicas. Escolhendo estrategicamente o mês de março para lançar seu segundo disco, o grupo preferiu fugir da saída que seria convencional – lançar o disco novo antes do carnaval e ver toda essa multidão se impregnar das músicas novas. Querem ir um passo de cada vez, sem sede ao pote.

Eles utilizam a já clássica velocidade baiana em seu próprio benefício, sem dar passos apressados e caminhando em seu próprio ritmo rumo ao topo do pop da Bahia e – por que não? – do Brasil. A escalada do BaianaSystem começa desde sua concepção quando, ao final da década passada, resolveram reunir duas linguagens no mesmo conceito sonoro – a guitarra baiana e os soundsystems jamaicanos.

A guitarra baiana é uma versão elétrica de um híbrido de bandolim com cavaquinho, um violão que foi eletrificado antes mesmo da guitarra elétrica existir. Tudo começou com a dupla Dodô (Antonio Adolfo Nascimento) e Osmar (Osmar Macedo), que resolveu trazer para o carnaval da Bahia algo que tivesse a mesma energia dos blocos de frevo do Recife. Eletrificaram a viola graças aos conhecimentos de Osmar em engenharia elétrica e ainda nos anos quarenta desfilaram tocando o estranhíssimo novo instrumento em cima de um automóvel, o hoje histórico Ford apelidado de Fobica. Na época ele era chamado apenas de “pau elétrico”, o que justificava a eletricidade no novo formato. A dupla, que originalmente era um trio (ainda formado por Temístocles Aragão, que saiu no ano seguinte – daí a segunda parte do nome), foi a primeira banda a se apresentar no carnaval sobre um carro, arrastando multidões já naquele carnaval histórico de 1951.

A guitarra baiana ganhou esse nome nos anos seguintes e tinha um papel central naqueles primeiros carnavais – ela cantava a melodia das canções, papel que nos blocos de frevo pernambucanos ficava com o naipe de metais. O som estridente da guitarra, ao ser eletrificado, podia ser ouvido a quilômetros de distância, atraindo primeiro curiosos e depois todos os foliões, e aos poucos consolidando o carnaval da primeira capital do Brasil como um dos mais peculiares – e, posteriormente, populares – do Brasil.

Ao mesmo tempo, na Jamaica, uma nova cultura começava a se desenvolver. Músicos e cantores da ilha caribenha, inspirados pelo início da música pop nos anos 50, começaram a fazer suas versões para a soul music que vinha dos Estados Unidos, fundido-a com suas tradições africanas e latinas, presentes ali há séculos. Essa mistura deu origens a gêneros musicais novíssimos, como ska e o rocksteady e aos poucos o mento jamaicano, eletrificado, deu origem ao reggae. Em comum com a cultura baiana havia não apenas a massiva quantidade gerações de herdeiros de africanos expatriados mas também o fato de ter sua cultura musical difundida através de enormes sistemas de som que disputavam a audiência do público.

Os soundsystem eram versões jamaicanas dos trios elétricos e podiam ou não ser montados sobre veículos, mas, como os trios baianos, ostentavas amplificadores e caixas de som para chamar atenção do público transeunte. Os soundsystem faziam as vezes de emissoras de rádio e festas ambulantes, se tornando plataformas para o lançamento de novos artistas. A diferena crucial entre a experiência jamaicana e a baiana da cultura de rua elétrica dizia a respeito da voz e dos instrumentos musicais. Enquanto na Bahia o trio era formado por uma banda instrumental sem nenhum cantor, os soundsystems jamaicanos não tinham banda e apenas tocavam discos de vinil, mas sempre possuíam um vocalista (ou toaster, no linguajar local) que apresentava as músicas, falava por sobre bases instrumentais, fazia propaganda do próprio sistema de som e eventualmente cantava. Não por acaso os soundsystems jamaicanos são considerados precursores do hip hop, criando as figuras do DJ e do MC bem antes das gangues da periferia de Nova York cairem no som.

Em Salvador, no entanto, na mesma época em que o hip hop começava a acontecer nos guetos de Nova York, uma outra transformação acontecia: o guitarrista Armandinho, filho de Osmar, e um verdadeiro guitar hero da guitarra baiana, resolve levar a estética do rock para o trio elétrico e chama sua banda, os Novos Baianos, para subir sobre o carro de som no 25° aniversário da dupla Dodô e Osmar, no carnaval de 1975. Foi ali que, pela primeira vez, ouviu-se uma voz vindo de um trio – era Moraes Moreira cantando a importância dos pioneiros que homenageava. No ano seguinte, os Novos Baianos saíram com seu próprio trio elétrico e Baby Consuelo foi a primeira voz feminina a puxar um trio elétrico em Salvador. Os trios deixavam de ser instrumentais e começava uma mudança crucial na história do carnaval baiano que culminaria com a consagração nacional e internacional da axé music, quase vinte anos depois.

O BaianaSystem, desde seu nome, guarda as características destas duas tradições – os soundsystems e a guitarra baiana – e conclama pela retomada da rua como velho palco. Ele vai de encontro à indústria da axé music, que pasteurizou diferentes gêneros locais (do samba reggae ao pagode baiano) para criar um modelo de negócios que transformava Salvador em uma ilha da fantasia, ao separar os foliões de rua daqueles que compraram o abadá para pular nos camarotes ou na segurança da corda. O trio do Baiana é avesso à concepção da corda e é aberto a todos – e a cada carnaval aumenta sua audiência à medida em que a indústria do axé patina em um formato datado.

O carnaval de 2016 já mostrou que o grupo dominou Salvador. Agora em março lançam seu segundo disco, ainda sem nome, produzido por Daniel “Ganjaman” Takara. E vão começar aos poucos dominar o Brasil.

Imagina no carnaval de 2017…

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Mais uma coluna para a Caros Amigos do começo do ano ressuscitada aqui, esta sobre o show que Jeneci e Tulipa fizeram juntos em janeiro. Abaixo, os vídeos que fiz no show. A foto acima, de divulgação, é da Beatriz Besseler,

A maturidade de uma geração
Reencontro no palco de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci consagra o início de uma nova fase da atual cara da música brasileira

2016 começou com um show duplo apaixonado, quando as carreiras de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci se reencontraram mais uma vez em uma pequena turnê realizada no início de janeiro. Os dois cantores e compositores começaram suas carreiras meio que ao mesmo tempo, no final da década passada. Se embrenharam na picada aberta por Céu alguns anos antes e começaram a pavimentar o terreno e começar a erguer os alicerces para uma nova geração de artistas brasileiros, que a preguiçosa crítica musical da época ainda se referia como “nova MPB”.

Suas primeiras temporadas de show aconteceram no pequeno Grazie a Dio, casa de shows na Vila Madalena, em São Paulo, que viu aparecer toda esta geração que hoje toma conta do cenário musical brasileiro. Os dois revezavam shows naquele palco pelos idos de 2009, bem antes de lançarem seus respectivos discos de estreia – o Efêmera de Tulipa aparece no meio de 2010, o Feito Pra Acabar de Jeneci do mesmo ano. E consagraram a infância de suas carreiras com um show conjunto, em que apresentaram uma canção feita a dois – “Dia a Dia, Lado a Lado”.

Lançaram seus discos, trilharam seus rumos e ergueram suas próprias carreiras separados um do outro. Nos últimos cinco anos, firmaram suas discografias – Tulipa lançou o terceiro disco no ano passado, Jeneci está rascunhando seu terceiro disco neste semestre – e se estabeleceram como dois dos principais nomes da música brasileira desta década. Mas pairava sobre eles a expectativa não apenas pelo reencontro nos palcos mas também da oficialização da parceria de 2009, registrada apenas em vídeos no YouTube feitos por fãs.

A hora aconteceu no final de 2015. Os dois artistas se reuniram para finalmente registrar a versão da música e anunciar uma pequena turnê juntos. Passaram por Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, quando tocaram três vezes no Sesc Pompeia. Pude assistir à noite de estreia do espetáculo no Teatro do Sesc.

Mais do que um simples reencontro das duas carreiras, o show também serviu de balanço para os dois artistas. Cada um trouxe uma dezena de canções de seu próprio repertório para o show, que foi encadeado de forma que as músicas mais simples se encontrassem mais próximas entre si enquanto os momentos mais arrebatadores foram deixados para o fim do espetáculo. Assim “Efêmera” e “Felicidade” abriram a noite que foi chegando para o final juntando “Nada a Ver” com “Like This” e “É” com “Sorriso Madeira”.

A banda de apoio – “banda híbrida”, brincou Tulipa – reunia dois músicos de cada banda, além de ter Jeneci como instrumentista, indo dos teclas do acordeão às dos teclados elétricos. E o show teve dois momentos em que a dupla visitou a canção que deu origem ao encontro: uma primeira versão tímida e distante, quase teatral, com os dois cantando alternando o cantar de frente e de costas um para o outro. E uma última, final, no bis, quando improvisaram um mergulho em separado no público. Logo que a música começou Tulipa e Jeneci se separaram no palco e cada um foi para um dos lados do anfiteatro duplo imaginado por Lina Bo Bardi. Cada embrenhou-se em uma dos lados da plateia dupla e atravessou as galerias laterais para descer na plateia oposta e se reencontrar novamente no palco, dando ao público a oportunidade de ver seus ídolos bem de perto. Num bis emocionante.

E embora o show fosse um longo dueto, cada um deles pisava um pouco atrás para deixar o dono de cada canção brilhar. Uma bela dança em que os dois se alternavam entre os papéis de protagonista e coadjuvante para realçar a primazia de cada composição, ocasionalmente dividindo refrões e cantos livres. Jeneci até pode apresentar uma música inédita – “Rei do Tempo”, em que Tulipa recolheu-se backing vocal -, mostrando que ambos sabiam que o show não era só um encontro, mas um reconhecimento mútuo da importância dos dois.

E um sinal de maturidade de toda uma geração. E não apenas nos dois protagonistas da noite. A tal banda híbrida é outro sintoma perfeito deste momento. Um dos guitarrista é Gustavo Ruiz, irmão de Tulipa e diretor artístico de seus trabalhos, além de seu principal parceiro, e sua trajetória antecede à da irmã, quando ele tocava no DonaZica, que tinha Anelis Assumpção, Iara Rennó e Andreia Dias (hoje todas em carreiras solo estabelecidas). O outro guitarrista, Regis Damasceno, toca com Jeneci além de ser um dos fundadores do grupo cearense Cidadão Instigado e parceiro do compositor Pélico. O baterista de Jeneci, Samuel Fraga, também toca com Regis em projetos como Lamber Vision e Catatau e o Instrumental, além de tocar com Marcia Castro. O baixista de Tulipa, Marcio Arantes, é produtor do excelente Ná e Zé, disco que reuniu Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik no ano passado.

Não é só Tulipa e Jeneci, mas toda uma geração. Os dois são apenas os nomes mais conhecidos de uma safra de músicos que inclui nomes como Emicida, Karina Buhr, Siba, Mariana Aydar, Apanhador Só, Tiê, entre outros, e que já pode ser considerada a atual cara da música brasileira. Uma geração que já está consolidada e que está prestes a compor seus primeiros clássicos.

O reencontro de Tulipa com Jeneci é claramente isso. Eles já têm a consciência que não sao mais novidades, não são mais apostas. Percebem cada vez mais como desequilibraram a história da música brasileira com o início de suas carreiras – e não se intimidam. É o início de uma nova fase, o fim da adolescência e o começo da maturidade artística de toda essa geração.

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Fiquei sem atualizar minhas colunas da Caros Amigos desde o início do ano, por isso vou começar a compartilhá-las aqui. A primeira do ano foi sobre a aproximação da nova música brasileira a um novo protesto, que começava a surgir nas ocupações das escolas que aconteceram no ano passado e que anteciparam os protestos deste tenso 2016.

A volta do protesto

Há um tempo que a música brasileira não protesta. Uma conjunção de fatores diferentes fez a voz dos descontentes perder eco na música no início deste século. A derrocada das gravadoras fez que boa parte dos artistas passassem a depender de empresas e do poder público para gravar discos e fazer shows e, com isso, temáticas como provocação, cobrança e vingança desapareceram do cancioneiro nacional no início do século. A ótima fase econômica que o país atravessou na década passada ativou o sempre alerta otimismo brasileiro, que também ajudou a desligar as ganas da contestação. O rock deixou de ser a voz do contra e mesmo bandas de hardcore começaram a falar de amor. E a crise que o hip hop nacional enfrentou após incidentes violentos no meio dos anos 00 o fez repensar todo aquele sangue nos olhos.

Tudo isso transformou a temática da música brasileira do início do século em algo menos agressivo, incisivo, contestador. O amor assumiu de vez o papel de principal tema, abrindo espaços para outras platitudes – e os artistas que antes falavam apenas de amor começaram a falar de sexo no lugar. E logo a música brasileira para as massas se referia mais à pegação, balada e vida noturna, tanto em gêneros que sempre apostaram nestes temas (como a axé music e o funk carioca) até em estilos mais tradicionais (como o sertanejo e o samba).

Mas do mesmo jeito que essa conjunção de fatores fez diminuir o clima de contestação na década passada, ela foi se desfazendo à medida em que entramos na década atual. As chamadas jornadas de junho de 2013, a crise econômica no País, a insatisfação com o governo Dilma, os protestos contra a Copa do Mundo e os nervos à flor da pele nas redes sociais tornaram o país mais belicoso e agressivo. O brasileiro voltou a tomar às ruas como não acontecia há muito tempo e as pautas destes protestos eram – e são – as mais díspares possíveis.

E aí que parte daquela geração que cresceu à sombra dos artistas que falavam de amor e outros assuntos menos sérios começou a botar suas manguinhas de fora. Artistas que já vinham falando de temas menos óbvios e mais interessantes, buscando horizontes musicais mais amplos e desafios pessoais através da arte. Foi justamente a safra que culminou no ótimo 2015 que eu comentei na coluna anterior. Uma rápida audição em cada um daqueles álbuns deixam claro um clima de descontentamento, de não aceitação, de exigência – cada um à sua maneira, cada um do seu ponto de vista.

Assim, o Fortaleza do grupo cearense Cidadão Instigado é um desabafo agoniado sobre a forma como sua cidade-natal foi consumida pela violência, pelo consumismo e pela especulação imobiliária, usando-a como metáfora para esse estilo de vida de jecas brasileiros se sentindo melhores que seus conterrâneos porque falam inglês errado. O mesmo sentimento atravessa o fantástico De Baile Solto do pernambucano Siba, um disco feito em protesto contra a lei de segurança pública que proibiu o maracatu de tocar até o sol raiar – quando a própria definição de maracatu pressupõe a noite virada e o sol raiando. Dois discos feitos às próprias custas, sem gravadora, incentivo fiscal, apoio cultural, nada – justamente para não ser acusado de ter o rabo preso com alguém.

Os discos de Emicida e Karina Buhr são bombas-relógio que partem de dois temas – racismo e feminismo, respectivamente – mas que vão aos poucos mostrando a presença de ambos em diferentes aspectos de nossas rotinas. Outros discos abordam a política em nossos gestos, hábitos e comportamento, longe de siglas, ideologias e líderes – TransmutAção de BNegão e seus Seletores de Frequência fala sobre a mudança interior, o autoestranhamento de Rodrigo Campos em Conversas com Toshiro, A Terceira Terra dos Supercordas é sobre como passar para o próximo estágio da vida em sociedade, Estilhaça do Letuce transforma problematiza a vida a dois como uma tensão em busca de um equilíbrio e o Violar do Instituto pressupõe um incômodo, algo que destoa e desarmoniza. Até o instrumental do Bixiga 70 também “fala” isso, seja nos títulos de suas músicas ou no andamento mais pesado de seu terceiro disco.

Até os trabalhos mais experimentais do ano passado carregam esse tom. Discos como Niños Heroes de Negro Léo, o improviso interminável de Abismu de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thomas Harres, o encontro de tirar o fôlego entre a mesma Juçara e Cadu Tenório, a alma livre e torta do Voo do Dragão do trompetista Guizado e até o transe telúrico de Ava Rocha em seu disco de estreia Ava Patrya Yndia Yracema – estão todos alinhando-se com o coro dos contrários, cada um vindo de uma direção diferente. Bárbara Eugenia e Tulipa Ruiz vão pelo caminho oposto, fingindo-se de pop em seus respectivos Frou Frou e Dancê para falar sério sem que a gente perceba.

Essa produção artística toda culmina no instigante Mulher do Fim do Mundo, que Elza Soares gravou com alguns dos músicos acima citados e que parece sintetizar o clima de descontentamento atual que todos os discos acima sublinham. Mas mais do que celebrar o encontro de Elza com uma geração mais nova, 2015 talvez tenha sido importante por mostrar para essa geração mais nova que uma geração ainda mais nova pode ser seu novo público.

Foi o que se viu no início do mês de dezembro do ano passado, quando a atual geração da música brasileira resolveu entrar de cabeça na luta das ocupações das escolas públicas de São Paulo, realizadas por adolescentes alunos das mesmas. Revoltados contra a decisão unilateral do governador Geraldo Alckmin de fechar escolas, os alunos foram lá e tomaram conta das instituições, assumindo a gestão e a rotina de mais de 200 escolas em todo o estado. E os artistas mais velhos se reuniram para fazer shows para arrecadar mantimentos para essa nova geração rebelde.

Pude assistir a uma de várias destas apresentações ao ar livre e gratuitas que aconteceram na cidade. Artistas como Céu, Cidadão Instigado, Bárbara Eugênia, Vanguart, Criolo, Maria Gadu, Tiê e até veteranos como Paulo Miklos e Arnaldo Antunes se reuniram num domingo em uma praça no Sumaré para celebrar esse novo momento de resistência – e aos poucos criava-se uma conexão improvável entre adolescentes que não conheciam uma geração mais velha de artistas que se dispunha a fazer shows de graça para eles. Um elo que parece ingênuo e frágil à primeira instância, mas que pode fazer com que estas duas gerações cresçam juntas, se respeitando e construindo um país melhor do que esse que tentam nos empurrar entre anúncios comerciais.

tudotanto2015

Na edição de janeiro da minha coluna na revista Caros Amigos, eu escrevi sobre o grande ano que foi 2015 para a música brasileira.

A consagração de 2015
O ano firmou toda uma safra de artistas que lançou discos que reverberarão pelos próximos anos

Alguma coisa aconteceu na música brasileira em 2015. Uma conjunção de fatores diferentes fez que vários artistas, cenas musicais, produtores e ouvintes se unissem para tornar públicos trabalhos de diferentes tempos de gestação que desembocaram coincidentemente neste mesmo período de doze meses e é fácil notar que esta produção terá um impacto duradouro pelos próximos anos. O melhor termômetro para estas transformações são os discos lançados durante este ano.

Os treze anos de espera do disco novo do Instituto, o terceiro disco pelo terceiro ano seguido do Bixiga 70, os seis anos de espera do disco novo do Cidadão Instigado, o disco que Emicida gravou na África, um disco que BNegão e seus Seletores de Frequência nem estavam pensando em fazer, o surgimento inesperado da carreira solo de Ava Rocha, o disco mais político de Siba, o espetacular segundo disco do grupo goiano Boogarins, os discos pop de Tulipa Ruiz e Barbara Eugênia, a década à espera do segundo disco solo de Black Alien, o majestoso disco primeiro disco de inéditas de Elza Soares, os quase seis anos de espera pelo disco novo do rapper Rodrigo Ogi, dos Supercordas e do grupo Letuce e um projeto paralelo de Mariana Aydar que tornou-se seu melhor disco. Mais que um ano de revelação de novos talentos (o que também aconteceu), 2015 marcou a consolidação de uma nova cara da música brasileira, bem típica desta década.

São álbuns lançados às dezenas, semanalmente, que deixam até o mais empenhado completista atordoado de tanta produção. É inevitável que entre as centenas de discos lançados no Brasil este ano haja uma enorme quantidade de material irrelevante, genérico, sem graça ou simplesmente ruim. Mas também impressiona a enorme quantidade de discos que são pelo menos bons – consigo citar quase uma centena sem me esforçar demais – e que foram feitos por artistas jovens, ainda buscando seu lugar no cenário, o que apenas é uma tradução desta que talvez seja a geração mais rica da música brasileira. A quantidade de produção – reflexo da qualidade das novas tecnologias tanto para gravação e divulgação dos trabalhos – não é mais meramente quantitativa. O salto de qualidade aos poucos vem acompanhando a curva de ascensão dos números de produção.

Outro diferencial desta nova geração é sua transversalidade. São músicos, compositores, intérpretes e produtores que atravessam diferentes gêneros, colaboram entre si, dialogam, trocam experiências. Não é apenas uma cena local, um encontro geográfico num bar, numa garagem, numa casa noturna, num apartamento. É uma troca constante de informações e ideias que, graças à internet, transforma os bastidores da vida de cada um em um imenso reality show divulgado pelas redes sociais, em clipes feitos para web, registros amadores de shows, MP3 inéditos, discussões e textões posts dos outros.

A lista de melhores discos que acompanha este texto não é, de forma alguma, uma lista definitiva, mesmo porque ela passa pelo meu recorte editorial, humano, que contempla uma série de fatores e dispensa outros. Qualquer outro observador da produção nacional pode criar uma lista de discos tão importantes e variada quanto estes 25 que separei no meu recorte. Dezenas de ótimos discos ficaram de fora, fora artistas que não chegaram a lançar discos de fato – e sim existem na internet apenas pelo registros dos outros de seus próprios trabalhos. E em qualquer recorte feito é inevitável perceber a teia de contatos e referências pessoais que todo artista cria hoje em dia. Poucos trabalham sozinhos ou num núcleo muito fechado. A maioria abre sua obra em movimento para parcerias, colaborações, participações especiais, duetos, jam sessions.

E não é uma panelinha. Não são poucos amigos que se conhecem faz tempo e podem se dar ao luxo de fazer isso por serem bem nascidos. É gente que vem de todos os extratos sociais e luta ferrenhamente para sobreviver fazendo apenas música. Gente que conhece cada vez mais gente que está do seu lado – e quer materializar essa aliança num palco, numa faixa, num mesmo momento. Esse é o diferencial desta geração: ela vai lá e faz.

Desligue o rádio e a TV para procurar o que há de melhor na música brasileira deste ano.

Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema
BNegão e os Seletores de Frequência – TransmutAção
Barbara Eugênia – Frou Frou
Bixiga 70 – III
Boogarins – Manual ou Guia Prático de Livre Dissolução de Sonhos
Cidadão Instigado – Fortaleza
Diogo Strauss – Spectrum
Elza Soares – Mulher do Fim do Mundo
Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Guizado – O Vôo do Dragão
Ian Ramil – Derivacivilização
Instituto – Violar
Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thomas Harres – Abismu
Karina Buhr – Selvática
Letuce – Estilhaça
Mariana Aydar – Pedaço Duma Asa
Negro Leo – Niños Heroes
Passo Torto e Ná Ozzeti – Thiago França
Rodrigo Campos – Conversas com Toshiro
Rodrigo Ogi – Rá!
Siba – De Baile Solto
Space Charanga – R.A.N.
Supercordas – A Terceira Terra
Tulipa Ruiz – Dancê

marianaaydar

Escrevi sobre o impressionante Pedaço Duma Asa, o disco mais ousado de Mariana Aydar, na última edição do ano da minha coluna da revista Caros Amigos.

Sem rede de segurança
Mariana Aydar arrisca-se como nunca em seu disco Pedaço Duma Asa e o resultado surpreende

Não espere a Mariana Aydar sorridente e solar. Mesmo que seu novo disco – Pedaço Duma Asa – comece com as palavras “Mamãe, papai”, elas soam mais como desafio e desprendimento do que colo e porto seguro. Sua voz soa implacável e imponente, mas sem deixar de expor fragilidades e sutilezas própria do universo que se propôs a retratar.

Pedaço Duma Asa é o mergulho que Mariana deu na obra de Nuno Ramos, artista plástico que cada vez mais vem se firmando como um dos principais compositores da nova música paulistana. Quase sempre em parceria com seu dupla Clima, a obra de Nuno começou a ser investigada por Rômulo Fróes e pouco a pouco conquistou diferentes compositores e intérpretes que estão reinventando a música brasileira. Mariana foi uma das pioneiras.

“Gravo o Nuno desde o segundo disco, gravei duas no meu segundo disco e uma no terceiro”, ela me conta. “Mas eu deixei, por exemplo, passar ‘Barulho Feio’ – eles me mandaram pra gravar no terceiro disco e eu não gravei. Deixei passar e fiquei super arrependida”, comenta sobre a música que acabou batizando o disco de Rômulo de 2014.

A imersão aconteceu por convite de uma série de eventos realizados pelo Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro, chamado Palavras Cruzadas, em que o diretor Marcio Debellian convida artistas de diferentes mídias para se encontrar no palco através do texto. Ao ser convidada, Mariana nem piscou e pensou imediatamente em Nuno: “São canções que já estavam muito comigo.”

E ao entrar em um universo formado por nuvens na cara, dores cegas, cães, olhos gordos, aves pretas, defeitos, bumbos furados, serpentes, ciscos no olho, sambas tristes, solidão, agogôs quebrados, mortalhas e jardins de sal ela não poderia entrar solar como nos seus primeiros disco. E a armadura para atravessar este cenário ríspido foi criada com dois velhos cúmplices: o marido Duani e o amigo Guilherme Held.

Juntos, eles criaram uma sonoridade crua e distante, mas ao mesmo tempo intensa e emotiva, usando poucos pilares: a percussão de Duani, que se entrelaça com linhas de baixo sintetizado programadas pelo marido de Mariana,, a guitarra lisérgica de Gui Held – que ecoa simultaneamente a psicodelia inglesa e o pós-tropicalismo do início dos anos 70 – e a voz de Mariana, cada vez mais segura de si. “Eu vejo muito esse disco como um disco de samba, ele tem um DNA de samba”, explica.

“Acho que essa sonoridade sairia independente do que eu fizesse agora”, ela explica. “A gente vem a construindo, eu, o Duani e o Gui Held junto com o Letieres (Leite, maestro e arranjador baiano), desde o Cavaleiro Selvagem. Mas dá pra pra espremer mais coisa dela. Qualquer coisa que eu fosse fazer agora eu já teria essa formação: a guitarra e os três tambores.”

O casamento desta musicalidade com a temática de Nuno Ramos é precisa, ao mesmo tempo em que atemporal e despatriada. Embora faça questão de se definir como uma artista de música brasileira, Mariana não encontrar fronteiras territoriais em seu universo particular: “A gente brinca que esse caminho é afromântrico. Eu queria fazer uma coisa mais minimalista, bem simples, com poucos instrumentos. E vi que cabia ali. Quando eles (Nuno e Clima) me mandavam as músicas, eu já entendia elas desta forma. E quando eu mostrava para o Duani, ele puxava um batuque e em seguida o Gui vinha com a guitarra.”

É o disco mais ousado da carreira de Mariana e também seu grande salto no escuro – e a ousadia de trabalhar sem rede de segurança não diz respeito apenas à musicalidade. É também o primeiro disco independente dela, que até então havia lançado discos pela gravadora Universal.

“Mas eu sempre tive muita liberdade em grande gravadora, embora sempre tivesse aquela coisa de ‘a música pra rádio’, essas coisas…”, explica. “E nesse disco… Não cabia. Não podia nem fazer isso com a gravadora, porque eles sei que eles investem e esperam um retorno. E eu não vou fazer uma música desse disco pra tocar na rádio. E eu vejo esse disco como um projeto pessoal. A gravadora é uma parceria, e acho que ainda é uma força. Eu não descarto a possibilidade de trabalhar com uma gravadora, se for uma coisa legal pro meu trabalho e se eu tiver essa autonomia que eu sempre quis. E o bom é que se não tiver, a gente tem esse outro caminho, independente.”

O selo, mais uma parceria com o marido, chama-se Brisa, o mesmo nome da filha dos dois, que nasceu em 2013. Mas não foi lançado apenas para este projeto, nem para os próprios trabalhos dela: “Sempre tive vontade de lançar artistas que eu gosto”, conta, “Tem um cara que eu quero muito fazer o disco pra lançar pelo selo Brisa que é o Dió de Araújo, que tem um trio que chama Trio Xamego, que é super tradicional, de forró, e ele tem músicas maravilhosas. Tem uma música que se chama ‘Boto Azul’ que ele me mostrou num forró e eu fiquei, ‘gente, o que que é isso!’. Eu queria muito fazer um disco dele, mas ele tá relutando um pouco, ele quer fazer um disco de forró e eu tô falando pra ele que o disco só vai sair se não for de forró”.

Vamos esperar.

baby-pepeu-2015

E na minha coluna na revista Caros Amigos do mês passado eu falei sobre o reencontro de Baby Consuelo e Pepeu Gomes no palco do Rock in Rio deste ano – e deixo abaixo alguns vídeos que fiz durante esse mítico encontro.

O reencontro de Baby e Pepeu

Baby do Brasil puxou o ex-marido Pepeu Gomes de um lado e o filho Pedro Baby do outro, ambos com guitarras em punho. Haviam acabado de tocar “Mil e Uma Noites de Amor” no palco Sunset do Rock in Rio e Baby não se cabia em si: “Esse é um momento único na história da música brasileira. Talvez mais cem anos pra acontecer alguma coisa parecida”, disse a cantora, emocionada por estar fazendo música com o pai de seu filho e com o próprio filho. E realmente foi um momento tanto histórico quanto emocionante.

Ainda mais se levado em conta que ele aconteceu no imenso shopping a céu aberto que é o Rock in Rio, um parque temático sobre si mesmo em que os patrocinadores e a históriia do festival parecem ser mais importantes do que qualquer um dos artistas que venha subir em qualquer palco. No meio daquela bolha de plástico movida a dinheiro, um casal de ex-hippies reencontra sua energia vital ao se entregar a versões intermináveis de hits imortais que dominavam o rádio brasileiro e pavimentaram o caminho para o pop dos anos 80.

Porque Baby e Pepeu, mais do que integrantes de uma das principais bandas da história do rock brasileiro (os Novos Baianos), têm, juntos, uma carreira digna das melhores bandas de rock dos anos 80 – só que eles vieram antes. Pertencem a uma geração que começa a romper tanto com os valores da ditadura militar quanto os da resistência civil, brincando com o pop (antes visto como “alienante” ou “imperialista”), com instrumentos elétricos, com sexo, drogas e rock’n’roll de forma que afrontavam o status quo da MPB e o tradicional cancioneiro latino-brasileiro.

São bandas e músicos que pavimentaram o caminho para o chamado “pop rock” dos anos 80 na marra, forçando limites estéticos e comportamentais como se assumissem uma missão de retirar o Brasil de um atraso cultural imposto pela relação entre o governo militar e a cultura do protesto, questionando valores e criando polêmicas. Gente como Raul Seixas, Rita Lee (primeiro com o Tutti Frutti e depois com Roberto de Carvalho), Guilherme Arantes, Fagner, Ritchie, Secos e Molhados (e a carreira solo de Ney Matogrosso), Zé Ramalho, Eduardo Dusek, A Cor do Som, Marina Lima e até artistas de gosto duvidoso como Sidney Magal, Gretchen, Fabio Júnior, A Turma do Balão Mágico e até Xuxa – donos de hits que desafiaram a mesmice e a elitização da MPB e prepararam o território para as duas gerações de bandas que chamamos comumente de “rock brasileiro dos anos 80”: a carioca (formada por Lulu Santos, Kid Abelha, Blitz, João Penca, Lobão e os brasilienses Paralamas) e a paulista (formada por Ira!, Titãs, RPM, Ultraje a Rigor e os brasiliense Legião Urbana). A história desta geração é contada com minúcia no recente Pavões Misteriosos, que o jornalista André Barcinski lançou no ano passado pela editora Três Estrelas.

Baby e Pepeu, por terem sido um casal e por terem se divorciado, no entanto, não levaram sua carreira adiante ou se entregaram a um fácil revival. Diferente da maioria dos artistas que tiveram seu auge entre anos 70 e 80, a dupla não arriscou nenhum retorno de sua carreira como casal até o reencontro no Rock in Rio. Até voltaram a subir juntos num palco como Novos Baianos, mas aí era uma química de grupo, não apenas de casal. E os dois seguiram seus rumos: Baby mudando o sobrenome de Baby Consuelo para Baby do Brasil e convertendo-se à religião evangélica, exaltando Deus em todas as possibilidades. Pepeu seguiu sua carreira de guitar hero exibindo-se mais como músico instrumental do que como compositor pop.

O elemento-chave para a reconciliação – puramente artística, os dois nunca foram brigados fora do palco – foi a presença do filho Pedro Baby. Um dos inúmeros filhos do casal, coube a ele a tarefa de reunir pai e mãe novamente num mesmo palco, para celebrar uma carreira e uma parceria que permanece intacta no imaginário brasileiro. E parece que o filho apelou para Deus, desafiando a mãe sobre a naturalidade daquele reencontro. Foi o suficiente para que tudo começasse a funcionar. Para algo aquilo tinha de servir.

Não custa lembrar também que o reencontro foi encomendado pelo Rock in Rio justamente pela autocelebração do próprio festival, que completava 30 anos de vida e que usava isso como desculpa para apostar em atrações que lembrassem outras edições do festival. Baby e Pepeu estiveram na edição inaugural, em 1985, dois anos depois de terem sido barrados na Disneylândia acusados de quererem chamar mais atenção que as atrações daquele parque (sério, o que deu origem à música “Barrados na Disneylândia”). Se não fosse a presença dos dois em 1985, talvez não os veríamos juntos em 2015. Para algo aquilo tinha de servir.

Uma vez juntos no palco, a química musical era impressionante. Baby e Pepeu são praticamente a mesma pessoa em corpos diferentes, mesmo décadas sem tocarem juntos. O transe musical que entravam em todas as músicas – esticando hits de três minutos em versões que chegavam quase aos dez minutos – era contagiante e o público que tinha ido assistir aos Paralamas do Sucesso, Rod Stewart e Elton John (que também tocavam no festival no mesmo dia) logo estava sendo carregado pelos refrões e solos de músicas como “Mil e Uma Noites de Amor”, “Menino do Rio”, “Telúrica”, “Todo Dia Era Dia de Índio” e “Masculino e Feminino”, além de dois clássicos dos Novos Baianos, “Tinindo Trincando” e “A Menina Dança”.

Pepeu se emocionou e chorou logo que entrou no palco, deixando o show ainda mais intenso emocionalmente. Baby tinha que seguir sua pregação, citando o nome de seu salvador a cada intervalo entre as músicas, mas mesmo este exagero não diminuía a celebração musical. Entre os dois, Pedro Baby visivelmente emocionado e orgulhoso de ter realizado e participar daquele encontro, escorregava a bordo de sua guitarra em duelos quentes ao lado do pai, enquanto a mãe sacudia-se entre os dois. Foi um dos grandes momentos do Rock in Rio e da música brasileira em 2015. Tomara que eles repitam a dose em mais shows.

ceu-brasilia

Fui à minha terra natal no fim de agosto e pude ver mais um ótimo show da Céu, que me inspirou a escrever minha coluna do mês passado na revista Caros Amigos. Filmei parte do show também:

Céu em Brasília
O show da cantora na minha cidade natal abriu diversas intersecções entre o estado do Brasil e da música brasileira hoje

Visitei Brasília, minha cidade natal, no final do mês de agosto, e, mais de duas décadas distante, já me acostumei com os pequenos sustos que a transformação da cidade me causa. Era inevitável a ocupação dos intermináveis terrenos baldios por onde caminhava ou andava de bicicleta, sempre em bando, na adolescência. Mas no lugar do hoje quase extinto ecossistema do cerrado surgem prédios que parecem astronaves cubistas de concreto, arremedos caricatos da arquitetura simples e megalomaníaca de Niemeyer. Os pontos cardeais que serviam para separar as asas do Plano Piloto entre Norte e Sul e nomear as avenidas – que nem mesmo este nome tem – W3 e L2 hoje abrem-se em setores Sudoeste, Noroeste e afins ocupando o horizonte do belo mapa de avião idealizado por Lucio Costa, fazendo-o refém de um entorno de prédios que podem, aos poucos, engolir o horizonte 360 graus da cidade. O gigantismo de Águas Claras com suas dezenas prédios de 30 andares de uma cidade-satélite que simplesmente não existia no século passado numa capital famosa por só poder ter prédios de no máximo seis andares.

Há uma estranha leveza em Brasília que vem do simples fato de ela não ser uma cidade natural. Este ponto do planalto central nunca foi entreposto comercial, missão religiosa, abrigo contra intempéries – e sim uma estratégia para evitar levantes populares contra o governo de um país ainda rural e de levar a urbanização e industrialização para além das capitais em seu extenso litoral. Sua localização foi determinada num sonho de um padre católico que virou santo quando Mussolini comandava a Itália e a cidade foi erguida por um presidente mineiro que se via como uma reencarnação do faraó Akhenaton. Não é, de forma alguma, uma cidade normal.

E por ter sido imaginada e desenhada antes mesmo de existir, Brasília, como qualquer condomínio fechado, foi pensada para ser um lugar aprazível, bucólico, para se viver com qualidade de vida antes do termo virar prateleira de consumo. Mas ela não é um condomínio fechado, suas superquadras não têm grades nem muros, transita-se livremente por quase toda a cidade. Essa faceta foi se tornando mais plástica e artificial à medida em que atravessamos os anos 90 e os anos 00, quando a ostentação e o consumo passaram a ditar regras e determinar status. Mas, justamente por não ter muros, há uma vida que sobrevive longe da programação oficial e do funcionalismo público, especialmente a vida social e cultural da cidade.

Enquanto parte dos clubes à beira do Lago Paranoá (que, como a cidade, também não existia antes de 1960), das festas nas embaixadas e os restaurantes são habitados por políticos e empresários de todo o país e pelo colunismo social da cidade, há uma movimentação artística que passa longe dos clichês que definem a cidade como mera “ilha da fantasia”. Repito aqui um conselho que falo para todos que dizem querer conhecer a cidade: conheça algum amigo que seja residente para lhe dar as coordenadas do que fazer. Chegar em Brasília só com informações turísticas e guias de viagem vão lhe apresentar a uma cidade linda com um céu espetacular, mas aparentemente vazia e estéril.

E nem estou falando de circular pelo submundo estético ou urbano da cidade. Brasília sempre teve festas e bandas, festivais e shows, programas de rádio e sites, peças e saraus. Do Clube do Choro ao Cult 22, do blog Quadrado Brasília à PicniK, do Quinto à Balada em Tempos de Crise, do FestClown à Play, do falecido Gate’s Pub à Criolina, do Porão do Rock à Moranga – diferentes épocas tiveram diferentes ímãs de atração que reuniam todo mundo que não se encaixava no estereótipo do playboy funcionário público que parece ser a população média da cidade para quem não conhece ninguém em Brasília.

Pois cheguei na terrinha em plenas comemorações dos 20 anos do festival de teatro Cena Contemporânea, que também conta com uma faixa de shows gratuitos. Meu irmão me levou para a Esplanada dos Ministérios e a alguns metros da Catedral, ao lado do Museu da República (também conhecido pelo apelido de Estrela da Morte, pois seu formato circular lembra a terrível arma de Guerra nas Estrelas), estava acontecendo um show da Céu.

Quando me refiro à música brasileira do século 21 não estou falando em um movimento consciente ou a uma safra específica de músicos, intérpretes, compositores e instrumentistas que apareceu ao mesmo tempo. Me refiro a uma mudança de mentalidade que expande os horizontes da mutante música brasileira para além da caixinha restrita que a trancaram quando criaram o rótulo de MPB. E o marco zero desta mudança, na minha opinião, é Céu.

Uma cantora que não é apenas intérprete, mas também compõe, e que não veio da matriz básica da MPB atual, que é a bossa nova. Ela passa longe do clichê da cantora de barzinho ao requebrar sua musicalidade suavemente entre o samba, o dub, a soul music, a música africana e o reggae.

Seu trânsito por diferentes gêneros também acontece ao compor com diferentes parceiros – Lucas Santtana, Beto Villares, Siba, Gui Amabis, Thalma de Freitas, Fernando Catatau, Jorge Du Peixe, Anelis Assumpção são alguns dos nomes que já compuseram com ela – e ao selecionar as versões para seu repertório, que vão de Erasmo Carlos a Jimi Hendrix. No show que aconteceu num domingo à noite, ela passeou pela versão que Caetano Veloso fez no disco Transa para o samba de Monsueto “Mora na Filosofia”, o molejo original de “Visgo da Jaca” imortalizada por Martinho da Vila, no gingado da irresistível “Piel Canela” do Trio Los Panchos e na deliciosa visita a Pepeu Gomes em “Mil e Uma Noites de Amor”.

Com nova banda – formada por Vítor Gottardi na guitarra, o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo e o mago do ritmo Pupilo, da Nação Zumbi -, Céu também mexeu bem com músicas já conhecidas. “Comadi” perdeu completamente seu sotaque reggae para ganhar um baixo pontiagudo de levada funk setentista. “Cangote” faz uma conexão caribenha com Belém e requebra na batida do carimbo. E pouco antes de cantar uma música do baterista Tony Allen, a usina de ritmo do nigeriano Fela Kuti (“Don’t take my kindness for weakness” – não ache que minha bondade é fraqueza), ela entregou-se à imortal “Concrete Jungle” de Bob Marley e entre versos que falavam de ilusão, corrupção e poluição, ela desabafou com o público.

“Vamos aproveitar que o Brasil está passando por uma limpeza e vamos pensar muito bem nos nossos atos, nossos votos e desconfiar de certas mídias e de coisas que aparecem, vamos analisar”, disse sem sair do ritmo. “Eu vejo isso como uma coisa muito positiva. A gente vai conseguir. Eu realmente acho difícil o que a gente tá passando agora, mas vamos pra frente, porque não tem nada igual ao Brasil, tamo junto”.

E vendo aquela pequena multidão em transe ao som dos doces vocais da paulistana, sob uma enorme Lua crescente e ao lado de imagens projetadas na parede abobadada do Museu, só conseguia pensar em uma onda de esperança que caminha sob as más notícias que pode finalmente mudar a cara de um país sempre em desenvolvimento. Não há nada igual ao Brasil – e estamos todos juntos nessa.