Indie

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Aos poucos os Flaming Lips vêm antecipando seu próximo disco, American Head, no contagotas. Depois de mostrar “Flowers of Neptune 6“, “My Religion is You” e “Dinosaurs On The Mountain“, o grupo psicodélico norte-americano lança a bucólica “You n Me Sellin’ Weed”, que tem um estranho flerte com a country music.

Billie-Eilish-2020

Billie Eilish lançou sua “My Future” na calada da noite e ela a princípio parece ser só mais uma balada triste com as que lançou depois que seu When We All Fall Asleep, Where Do We Go? se tornou um fenômeno – a lilyallenesca “Everything I Wanted” e a música-tema do próximo filme de James Bond, “No Time to Die“. Mas aí, antes de chegar nos dois minutos de música, ela engata um groovezinho macio e aponta para um futuro improvável para ela mesma, entre o soul, o funk e a disco music, como se vislumbrasse sua versão para o Melodrama da Lorde – um segundo disco suntuoso e classudo, bem diferente do minimalismo do primeiro.

Fora que esse singelo clipe em animação também abre outras possibilidades de formato…

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A musa Angel Olsen anunciou nesta terça-feira que lança no final de agosto um disco-irmão do suntuoso All Mirrors, o melhor disco do ano passado. Quando ela começou a trabalhar neste disco, havia comentado que as músicas novas pediam dois caminhos diferentes: um mais cru e solitário, com poucos instrumentos, outro mais orquestrado e deslumbrante. Por um momento imaginava-se que o disco do ano passado poderia ser duplo, mas quando All Mirrors foi lançado ficou evidente que ela havia descartado a parte mais intimista do disco. Ao anunciar Whole New Mess mostrando sua faixa-título, ela também mostra capa e a ordem das músicas (abaixo), mostrando que grande parte do repertório do novo disco também está em All Mirrors – “Whole New Mess” é uma das raras exceções.

As faixas do novo disco são variações das do disco anterior, com títulos quase idênticos, às vezes mudando só o acréscimo de parênteses. Assim, “Lark” vira “Lark Song”, “New Love Cassette” é “(New Love) Cassette”, “All Mirrors” torna-se “(We Are All Mirrors)”, “Summer” se transforma em “(Summer Song)”, “Too Easy” vira “Too Easy (Bigger than Us)”, “Tonight” se metamorfoseia em “Tonight (Without You)” e por aí vai. As versões do novo disco foram gravadas apenas por Olsen com suas guitarras pelo produtor Michael Harris em uma igreja convertida em estúdio no estado de Washington chamada The Unknown. O disco sairá no dia 28 de agosto e já está em pré-venda.

angel-olsen-whole-new-mess

“Whole New Mess”
“Too Easy (Bigger Than Us)”
“(New Love) Cassette”
“(We Are All Mirrors)”
“(Summer Song)”
“Waving, Smiling”
“Tonight (Without You)”
“Lark Song”
“Impasse (Workin’ For The Name)”
“Chance (Forever Love)”
“What It Is (What It Is)”

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Alegria que o grande Pedro Pastoriz finalmente vê seu Pingue-Pongue com o Abismo ver a luz do dia, três meses depois da data que havíamos pensado originalmente, em abril, devido, claro, à quarentena e à pandemia. Neste processo, com o qual trabalho venho trabalhando como diretor artístico do lançamento junto ao cantor e compositor gaúcho, repensamos como o disco poderia ser apresentado nos meses seguintes e Pedro começou a explorar outros caminhos longe do palco, especialmente a partir de entrevistas Linha Cruzada feitas através Instagram ou do programa de humor Comitê. Tais ações conversam com o clima onírico e inquieto do disco, qualidades que parecem contraditórias mas que, a partir dos novos horizontes enxergados por Pedro, é um saque com efeito contra as expectativas. Abaixo, o release que escrevi para o lançamento, que foi produzido pelos mesmos músicos que o acompanham no disco (Arthur Decloedt, do Música de Selvagem, e Charles Tixier, produtor que trabalha com Luiza Lian) e ainda conta com participações de Fausto Fawcett, Lydia Del Picchia e Tomas Oliveira. Discão.

Pedro Pastoriz – Pingue-Pongue com o Abismo

Pingue-Pongue com o Abismo é um lugar imaginário, uma metrópole de papelão, uma tarde ensolarada numa paisagem cinzenta, um brinquedo sério. Como em seus discos anteriores, Pedro Pastoriz condensa sensações e situações em canções que soam como crônicas, contos ou conversas, que descrevem relacionamentos, memórias e ansiedades. Mas neste terceiro álbum, o cantor e compositor gaúcho, que também é vocalista do Mustache e os Apaches desbrava fronteiras conceituais e invade outros territórios narrativos, como a poesia, a publicidade, o teatro, a comunicação institucional, a auto-ajuda, o jingle, o rap, o esquete de comédia e outras possíveis formas de texto musicado que nunca havia cogitado em seus discos anteriores, num disco influenciado por outras disciplinas, por acontecimentos pessoais e seu próprio subconsciente. É um salto que consolida sua carreira solo e aumenta seu espectro de atuação para muito além da canção.

O título – meio niilista, meio dadaísta – foi emprestado de uma referência do poeta beat Allen Ginsberg a uma de suas inspirações, o escritor Carl Solomon, tema da terceira parte de sua obra mais importante, Uivo, a quem ele dedicou todo o poema. Seu trabalho foi reunido pela primeira vez no meio dos anos 60 em dois livros, Mishaps, Perhaps (1966) e More Mishaps (1968), que formaram a base de seu único livro publicado no Brasil, De Repente Acidentes (lançado em 1989). Ginsberg citava-o nominalmente na terceira parte de Uivo (“I’m with you in Rockland / where you scream in a straight jacket that you’re losing the game of the actual ping pong of the abyss”, “Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo”) e esta imagem, além de outras levantadas por este livro, grudou no inconsciente de Pedro desde que ele o conheceu, ainda em sua adolescência, quando apaixonou-se pela obra a ponto de andar com ela para cima e para baixo e ser reconhecido como seu leitor apaixonado.

A lógica daquele livro renasceu no fazer deste terceiro disco e sua apresentação não-linear, com textos de diferentes tamanhos, humores e intensidades, funcionou como inspiração inconsciente para seu novo álbum, principalmente na utilização de vinhetas, pedaços de textos musicados que não chegam a se tornar canções, acentuando a natureza polifônica do disco.

Outra influência crucial foi a mutação da banda que o acompanhou em seu disco anterior, Projeções (2016). Originalmente um quarteto formado por Pedro, o baixista Arthur Decloedt (Música de Selvagem), o guitarrista Artur Vac (Grand Bazar) e o vocalista do grupo O Terno, Tim Bernardes, fazendo as vezes de baterista, ela passou por duas mudanças de formação que trouxeram o produtor Charles Tixier (Luiza Lian) para a bateria, metamorfoseando o quarteto em um novo trio, que ainda contava com Arthur e Pedro.

Foi este trio que decantou o repertório escolhido para o disco, enxugando bastante o número de canções e materializando as vinhetas a partir das ideias que o autor tinha de outros formatos musicais. A improvável união de violão, contrabaixo elétrico e MPC firmou-se durante as gravações no estúdio Canoa, sob os auspícios do produtor Gui Jesus Toledo, grande entusiasta do trabalho de Pedro e sócio do selo RISCO, que apostou nessa aventura. Juntos, Pedro, Arthur e Charles, que também produziram o disco, passearam por outros instrumentos, tocando synths, mellotrons, teclados de baixa fidelidade, harpa paraguaia, fazendo colagens, usando samples e enfileirando efeitos sonoros, criando esse lugar mental ao mesmo tempo verdadeiro, artesanal e artificial. Todas as vozes são de Pedro Pastoriz.

Durante a produção, Pedro soube da morte da sua mãe e a perda inevitavelmente abalou o disco – e sua cabeça. Em pouco tempo, ele viu-se num lugar em que espiritualidade, meditação, luto, misticismo e saudade misturavam-se de forma tão díspar e sintética quanto a linguagem que estava desenvolvendo para o disco. Isso não tirou o disco do prumo, e sim acentuou sua natureza plural, forçando Pedro a um amadurecimento artístico que não previa, mas que consolida-se no resultado, cuja sonoridade parece o tempo todo muito familiar e incomum.

Neste processo, Pedro entrou num buraco de minhoca que o lançou de volta à sua adolescência e passou a buscar respostas racionais para seu drama pessoal em diferentes fontes: a meditação, a psicologia, a espiritualidade e a arte foram veículos nesta busca infrutífera, que só foi render algo quando Pedro regurgitou tudo aquilo em seu inconsciente. Pingue-Pongue com o Abismo é um disco que foi composto quase todo em sonhos.

“Eram sonhos loucos que ressignificavam todas as informações de um jeito improvável, absurdo, geralmente beirando a comédia”, lembra Pedro, citando como o texto de Freud “Recordar, Repetir, Elaborar” parece ter originado um sobre um serviço que encenava memórias antigas com atores em um palco, tema de uma das canções. Neste processo, houve a constatação de que a repetição funcionava como uma prisão, uma dificuldade de se quebrar um comportamento, um vício, um hábito – e o disco passou a ser encarado como o desafio de sair deste loop.

De sonoridade ímpar, Pingue-Pongue com o Abismo é tanto um disco de variedades da metade do século passado quanto uma colagem pós-moderna no início do século 20 e uma provocação conceitual aos limites da canção neste novo século. Usando a repetição como conceito e tentando, paradoxalmente, não se repetir, ele passeia por baladas idílicas, chavões, levadas latinas, timbres retrô, frases assobiáveis, refrães pegajosos, instrumentos improváveis, copy and paste absurdistas, palavras de ordem, mensagens subliminares e propagandas surreais. As presenças da atriz Lydia Del Picchia, do poeta Fausto Fawcett e do tocador de taças Tomas Oliveira soam tão improváveis quanto familiares fazendo o disco aprofundar o cancioneiro de Pedro para além da linhagem trovadora que atravessou seus dois discos, criando um universo sonoro próprio, jocoso e introspectivo, irônico e minimalista, melancólico e palhaço, expondo contradições que descortinam um novo compositor, pronto para iniciar uma nova fase de sua carreira.

Pingue-Pongue com o Abismo, por Pedro Pastoriz

“Dolores”
“Foi uma das primeiras do novo repertório, fiz a melodia dela no quarto de um hotel no Rio de Janeiro em uma noite tocando assistindo TV sem volume. Foi uma busca de tentar reproduzir aquele mundo praiano pintado em aquarela, uma espécie de mundo da doçura do Harry Belafonte, do Henri Salvador, e aquela coisa das harpas bolivianas do Pájaro Campana, que Charles conseguiu traduzir na maestria, com harpas sintetizadas. A letra fala de uma maneira naïf de alguém que se foi sem avisar e deixou pra trás memórias e objetos, algo que pode ter relação com os dias que vivi arrumando as coisas da minha mãe depois de sua morte. Foram dias que fiquei sozinho em sua casa, li cartas e abri caixinhas de uma pessoa que eu amava tanto, e que pude conhecer ainda mais enquanto organizava esses objetos. “

“Fricção”
“Começamos a tocá-la no início da ser turnê do Projeções, meu disco anterior, ainda com Tim na bateria e Vac na guitarra. A intenção é que ela tivesse essa coisa cool francesa, meio Françoise Hardy, um tanto Burt Bacharach. Um ponto alto são as linhas vertiginosas de baixos do Arthur e as taças, instrumento criado e tocado pelo meu parceiro de Mustache e os Apaches, Tomas Oliveira.”

“Sessão das Sete”
“Foi a música que veio por último. Eu e minha namorada, Talita, pegamos algumas sessões das sete em semanas seguidas no Belas Artes e isso me lembrou uma época dos meus 20 anos lá em Porto Alegre, onde tinha esse hábito semanal de ir no cinema. Achei que precisava puxar esse clima pro disco, e ela tem essas referências de uma noite que parece que já foi vivida, de um filme que já foi visto. Me surpreendi com a combinação dos arranjos com os elementos que pintaram, usei um violão de 12 cordas nessa música, e achei que casou com o MPC do Charles, a sonoridade ficou bem nova pra mim.”

“Chicletes Replay”
“Essa música foi feita a partir de um poema curtinho que tinha escrito, em uma volta de show na madrugada, dia nascendo. Deixei uma cidade na noite anterior, dormi na van depois de um show, dormi, acordei naquela solidão ancestral e contemplativa de quem viaja no escuridão de uma estrada no meio da noite. Dormi de novo, sonhei profundamente, acordei no susto, parei em um posto, voltei pra estrada. E chegando na cidade tive essa revelação de como as coisas se repetem consecutivamente desde sempre – grandes manchetes, possíveis novos finais de mundo, novas eleições, novas promessas de esperança, que é justamente o que possibilita que as coisas continuem sendo como são. Acredito que em Roma ou na China antiga as coisas e os sentimentos e as expectativas eram muito parecidas com as de agora. Os personagens e as ações estão aí desde sempre, e a gente se limita com essas cobranças complicadas e repetidas de apego a uma identidade, uma história que a gente imagina serem únicas, essas coisas. Ela tem esse discurso publicitário e traz esse produto que promete unir histórias tão dissonantes, experiências de vida tão diferentes a partir do consumo de algo fácil, rápido e descartável, um chiclete. Foi uma música feita em sonho, em parte. “

“Lydia Réplica”
“Nós e Outros foram duas peças que vi no ano passado e que me pegaram muito. Vi mais de uma vez e levei caderninhos pra anotar várias coisas, no escuro do teatro. Depois de algum tempo achei as anotações e eram totalmente incompreensíveis. As duas peças são uma parceria do Grupo Galpão de Minas Gerais, com o diretor Márcio Abreu. Nós tem elementos de repetição no texto, quase um remix de palavras, e uma história de despedida amarga e engraçada, e queria trazer isso pro disco de alguma forma. Então convidei a Lydia Del Picchia, diretora e atriz do Grupo, pra participar e “remixar” um texto comigo, uma réplica / reprise / continuação de Chicletes Replay. E foi de primeira, fácil como descobri que as coisas podem ser.”

“Alzira”
Quando componho uma música raramente falo da minha vida pessoal de forma direta, pelo menos. E essa música saiu espontaneamente, é sobre minha mãe. Tinha uma conexão muito forte com ela, e durante os meses de composição pra esse disco eu tinha muita dificuldade de sentar pra compor. As idéias vinham em sonhos, quando meu superego cochilava. Minha mãe morreu um acidente de carro, e muita coisa mudou na minha vida, noites ficaram muito longas e dias muito curtos. Essa música eu levei num ensaio já me desculpando, achando que não devia entrar e que gostava mais da melodia, algo assim. E foi Charles quem me falou: ‘justamente por ser uma história tão pessoal que tu deveria cogitar trazer ela pro repertório, pensa nisso’. Acho que se eu quisesse escrever uma música pra uma coisa tão forte e tão complexa, iria querer florear demais. E isso é impossível, então aceitei essa música como ela veio, porque é importante pra mim.”

“Cachorro Replay”
“Essa vinheta fala por si, do meu animal com o animal em si.”

“Janela”
“Na rua onde eu moro – ou melhor, na rua onde minha janela está presa – conheço quase todos os personagens, vendedores das lojas de música, algumas pessoas que esperam o ônibus barulhento sempre na mesma hora, alguns casais reincidentes que brigam na entrada do hotel, um sujeito que entrega água de bicicleta e todos os dias desce o pequeno declive com uma excitação admirável, gritando: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer!’ Todos gritam, aplaudem, jogam qualquer tipo de energia de volta pra esse sujeito. E são raros os momentos, infelizmente, que eu desejo ver essas pessoas. Então geralmente fumo um cigarrinho e ouço um som ao final do dia, quando as pessoas já voltaram pra casa. Essa música foi feita em um desses, dias, um exercício de composição. Fumava meu cigarrinho e olhava pra rua, e assisti alguém que ficou embaixo da minha janela, excessivamente imóvel, uma figura híbrida de existencialismo e alienação total, o que me sugeriu muitas possibilidades possíveis pro futuro e pro passado daquela pessoa. No final das contas é tudo um tanto de projeção, achei justo ela estar no disco.”

“Replay Esportes”
“Li sobre budismo e espiritismo e outros ismos, seguindo a vida depois do trauma da perda da minha mãe. Fiquei mais tempo interessado na meditação transcendental. A idéia de ficar em silêncio, entrar em contato com os pensamentos de outra forma, e de aceitar alguns vazios que estão ali. É relativamente difícil entrar em contato com a informação do como fazer, com a prática e os exercícios. São muitos livros falando sobre os benefícios, como pode mudar sua vida. Mas não ensinam muito sobre a prática. Tem aplicativos que jogam uma ansiedade estranha na prática, com programas de metas e de desempenho, o que pra mim é o oposto de ouvir sua própria respiração e investigar o que está acontecendo em seu corpo. E em algum momento meditando voltei com essa cena do esporte de alto rendimento no abismo na meditação e uma mistura totalmente improvável de tudo isso.

“Teatro Replay”
“Fazendo terapia no ano passado, conheci um texto do Freud que fala sobre Recordar, Repetir e Elaborar, e em alguns momentos minha terapia foi em um caminho de como tendemos a repetir ações na intenção de superá-las. Racionalmente era isso. Mas então algo bem mais legal aconteceu. Sonhei com esse serviço de uma companhia de teatro que prometia ajudar as pessoas a reviverem melhores momentos de suas famílias através de atuações em um teatro, e achei que que tinha algo ali. Foi uma das primeiras músicas do disco e foi outra música feita em sonho, em grande parte.”

“Resposta sobre Hostel Replay”
“Esse é um reclame do meu disco anterior, misturado com um comercial. É também importante afirmar o que não se é.”

“Faroeste Dançante”
“Essa música é uma parceria com o Fausto Fawcett, que admiro muito e que mensalmente acompanho suas participações nos sarau Trovadores do Miocárdio. Em uma das edições levei meu exemplar do livro Santa Clara Poltergeist pra ele e disse que estava fazendo uma música que eu estava tentando emular algo Fausto Fawcett. Ele riu e me falou pra mandar a música pra ele. O processo foi fácil, todo a distância. Foi minha primeira parceria com outro letrista, ouço e ainda fico maravilhado com a idéia de ter um fonograma com o man. Tem um solo de MPC cabuloso do Charles, eu uso um violão de 12 cordas nessa faixa, e Arthur toca um controlador synth bass.”

“Sol”
“Essa veio de um desses exercícios de meditação, tem qualquer coisa de influência naquela linguagem do Instituto Dharma, do seriado Lost.”

“Boogaloo”
“Essa música era uma das preferidas do público na turnê de 15 shows que fiz na Alemanha em setembro de 2019. Ela surgiu a partir da idéia de eu ensinar português pros alemães, formando uma grande miniorquestra junto com as palmas e os calcanhares batendo no chão. E eu gritava “Napoleão”, e eles repetiam, e eu mandava “A egiptologia!”, e eles morriam de rir com os fonemas. Ela fecha o disco, com solo de liquidificador.”

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O belo Lover, de 2019, já havia feito Taylor Swift se reerguer do tropeço que foi Reputation, de 2017, e agora ela parecia que iria colher os frutos disso, numa ascendente contínua que seria consagrada com a turnê do disco do ano passado, que encerraria este ano com ela no topo do elenco do festival de Glastonbury deste ano, mas aí veio o coronavírus – e todos os planos foram pro brejo. Mas de forma inesperada, ela consegue retomar a escalada majestática que acompanha sua discografia nos últimos dez anos lançando algo completamente improvável: um disco-surpresa produzido durante a quarentena. Não bastasse fugir de toda a calculada estratégia que ela faz em sua carreira, Folklore, anunciado poucas horas antes de ser lançado nas plataformas digitais, é uma pequena obra-prima acústica e foi gravado ao lado de pouquíssimos – e improváveis – colaboradores, Aaron Dessner do National, Justin Vernon (o Bon Iver, você sabe) e seu produtor de longa data Jack Antonoff, além de um certo William Bowery – que muitos supõem ser seu atual namorado, o ator Joe Alwyn. É isso: Taylor Swift lançou um disco de indie folk no meio do maior evento global desde a Segunda Guerra Mundial.

E que maravilha de disco. Ela recolhe-se ao tom intimista da quarentena e cerca-se de mestres da canção que voltam-se para o acústico com a mesma curiosidade que ela, mas sem tirar o pé do século 21, que paira sobre o disco como um fog eletrônico, que pixela a visão como uma versão digital das ondas de calor que distorcem a imagem que vemos através das chamas. Folklore está longe de ser um disco ortodoxo, como se quisesse abraçar a utopia de um tempo que nunca viveu, e por mais que evoque cordas cátedras (“Epiphany”), ar country (“Betty”) ou dedilhados solenes (“Illicit Affairs”), se localiza essencialmente no século 21, depois que o gênero passou pela feliz deformação alt.country no final na virada do milênio. É um disco de folk que reverencia o Nixon do Lambchop e o Summerteeth do Wilco tanto quanto Nashville, Johnny Cash ou Woody Guthrie. Conversa, de alguma forma, com o primeiro single do excelente 1989, “Out in the Woods”, quando prenunciou que iria lançar algo completamente diferente em 2014. E é com este auxílio instrumental que ela compõe algumas de suas melhores canções: “Cardigan”, “Seven”, “Mad Woman”, “August”, o dueto com Bon Iver em “Exile” e a magistral “The Last Great American Dinasty”, que é o mais perto que Taylor Swift chegou de Bob Dylan. E isso não é pouco – ela está criando seu próprio folclore, precioso o suficiente para que ela retome sua ascensão rumo ao topo do pop. E fazer isso em plena pandemia é admirável.

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Reunindo alguns dos principais nomes da nova cena independente mineira, o quarteto Ginge é um pequeno supergrupo local ao parear duas ex-integrantes do grupo Miêta (Bruna Vilela e Marcela Lopes) ao lado de Vítor Brauer (que além de sua carreira solo, também é da Lupe de Lupe) e do guitarrista Fernando Motta, que também tem seu trabalho solo. “Eu e o Vitor tínhamos acabado de voltar da turnê de quatro meses que fizemos em 2017”, lembra o guitarrista e vocalista Fernando Motta, que tem seu próprio trabalho solo. “A gente ouviu muita música no carro durante as viagens e comentava que sentia falta de músicas pop boas, tanto no nosso nicho quanto de uma maneira mais geral mesmo do rock. Chamamos primeiro a Bruna, que compartilhou dessa impressão com a gente. Aí inicialmente a banda seria nós três: eu tocaria baixo, a Bruna guitarra e o Vitor, bateria. Mas a banda ainda não tava completa, a gente queria várias harmonias de voz. Aí tivemos a ideia de chamar a Marcela e ela pilhou. Foi perfeito porque ela canta muito e é muito inventiva com as melodias pra backing vocal também. Ela passou pro baixo e eu fui pra segunda guitarra. No primeiro encontro na casa dela, a gente fez ‘Marília’, que ela canta. Gostamos tanto que escolhemos pra ser o primeiro single. A sintonia entre a gente foi muito forte e ali a gente viu que a gente tinha uma banda completa mesmo.”

Juntos, escolheram o nome de Ginge para o novo grupo, a partir desta incomum palavra em português. “A primeira definição que a gente viu no dicionário era ‘calafrio de emoção; frenesi’. Mas depois eu descobri que muitas pessoas falam isso quando têm gastura de alguma coisa, aqueles ‘arrepiaços’, tipo quando alguém arranha o quadro”, ri Fernando. “Acho que a primeira definição leva pra um lado mais poético da coisa, enquanto a outra leva pra um lado mais provocativo. Eu acho bom porque, querendo ou não, a gente é um pouco das duas coisas.” O grupo lança seu primeiro EP, gravado no final do ano passado, ainda presencialmente, nesta quinta-feira: as quatro músicas de Pré-Jogo têm clipe e duas delas (“Marília” e “Kaft Kapum”) anteciparam o lançamento do novo disco, as duas restantes (“Pergunta” e “Qualquer Um Sabe Fazer Shoegaze”) dão as caras em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

Apesar do ineditismo do grupo, eles já haviam tocado juntos em diferentes formações e ocasiões. “Ano passado, eu e a Bruna Vilela fomos guitarristas na banda suporte do Vitor Brauer num show que ele fez durante a turnê com a mãe dele”, continua Fernando. “Eu também já toquei com a Miêta, ex-banda das meninas, em um festival na Matriz. Elas foram minha banda de apoio em algumas músicas e eu fiz um guitarrista adicional nas músicas delas. Basicamente a gente já era grandes amigos de dar rolês em BH. Então pode ser que tenha até outras vezes que a gente tocou junto e que eu não esteja me lembrando. Já fomos em milhões de shows uns dos outros e sempre saíamos pra resenha depois.”

Disco lançado, o grupo não vê a hora de fazer shows: “A gente conversa sempre dizendo que tá louco pra tocar essas músicas, fazer um show propriamente dito, mas enquanto tá longe disso, a gente ainda não tem nada de concreto pra anunciar”, lamenta o guitarrista. “Até agora a gente estava focado em lançar esse EP da melhor maneira possível e acho que conseguimos. Com a ajuda dos nossos amigos, conseguimos tirar quatro clipes muito fodas da cartola em plena pandemia. Então não tivemos muito tempo pra pensar no que dá pra fazer depois. Agora é divulgar o máximo possível e ver como vai ser a repercussão. Quem sabe a gente não tem alguma ideia viável de produzir algum conteúdo mais pra frente.”

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E as faixas que o Yo La Tengo começou a soltar na semana passada no fim se transformaram num EP, We Have Amnesia, que eles disponibilizaram em sua página no Bandcamp. São só os três no estúdio, deixando o som rolar, em faixas com títulos que descrevem seus métodos de improviso, uma para cada dia da semana: “James and Ira demonstrate mysticism and some confusion holds”, “Georgia thinks it’s probably okay”, “James gets up and watches mourning birds with Abraham”, “Georgia considers the two blue ones” e “Ira searches for the slide, sort of”. O resultado, você já sabe, aquele calorzinho noise sossegado que gostamos de ouvir…

O quinto disco dos Replacements, Pleased to Meet Me, lançado originalmente em 1987, ganha tratamento de luxo através da gravadora Rhino, que reempacota o disco em uma caixa com três CDs e um vinil. Entre as raridades, a caixa as últimas gravações de Bob Stinson com o grupo, entre outras faixas inéditas, que também incluem as sessões que o grupo fez no ano anterior, gravações do grupo com o trio depois da morte de Stinson, um remix de Jimmy Iovine para “Can’t Hardly Wait”, além de faixas que ficaram de fora do disco e um livro escrito pelo biógrafo da banda, Bob Mehr, sobre as gravações de Pleased to Meet Me. Entre as várias opções de compra da caixa oferecidas pela gravadora – que podem incluir camiseta, sacola, adesivos, entre outros brindes – há uma fita cassete com uma entrevista inédita dada pelo vocalista Paul Westerberg que aparece pela primeira vez. O grupo liberou uma trailer da faixa e uma versão crua pra uma das minhas faixas favoritas do disco, “Alex Chilton”, em que resumem seu legado com a frase “estou apaixonado por esta canção”.

A caixa chega às lojas no início de outubro e já está em pré-venda. Veja a capa e o conteúdo abaixo:

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CD1: Pleased to Meet Me (2020 Remaster) + Rare, Single-Only Tracks
“I.O.U.”
“Alex Chilton”
“I Don’t Know”
“Nightclub Jitters”
“The Ledge”
“Never Mind”
“Valentine”
“Shooting Dirty Pool”
“Red Red Wine”
“Skyway”
“Can’t Hardly Wait”
“Election Day”
“Jungle Rock”
“Route 66”
“Tossin’ n’ Turnin’”
“Cool Water”
“Can’t Hardly Wait – Jimmy Iovine Remix”

CD2: Blackberry Way Demos
“Bundle Up – Demo”
“Birthday Gal – Demo”
“I.O.U. – Demo”
“Red Red Wine – Demo”
“Photo – Demo”
“Time Is Killing Us – Demo”
“Valentine – Demo”
“Awake Tonight – Demo”
“Hey Shadow – Demo”
“I Don’t Know – Demo”
“Kick It In – Demo 1”
“Shooting Dirty Pool – Demo”
“Kick It In – Demo 2”
“All He Wants To Do Is Fish – Demo”
“Even If It’s Cheap – Demo”

CD3: Rough Mixes, Outtakes, & Alternates
“Valentine – Rough Mix”
“Never Mind – Rough Mix”
“Birthday Gal – Rough Mix”
“Alex Chilton – Rough Mix”
“Election Day – Rough Mix”
“Kick It In – Rough Mix”
“Red Red Wine – Rough Mix”
“The Ledge – Rough Mix”
“I.O.U. – Rough Mix”
“Can’t Hardly Wait – Rough Mix”
“Nightclub Jitters – Rough Mix”
“Skyway – Rough Mix”
“Cool Water – Rough Mix”
“Birthday Gal”
“Learn How To Fail”
“Run For The Country”
“All He Wants To Do Is Fish”
“I Can Help – Outtake”
“Lift Your Skirt”
“‘Til We’re Nude”
“Beer For Breakfast”
“Trouble On The Way”
“I Don’t Know – Outtake”

LP
Lado A
“Valentine – Rough Mix”
“Never Mind – Rough Mix”
“Birthday Gal – Rough Mix”
“Alex Chilton – Rough Mix”
“Election Day – Rough Mix”
“Kick It In – Rough Mix”

Lado B
“Red Red Wine – Rough Mix”
“The Ledge – Rough Mix”
“I.O.U. – Rough Mix”
“Can’t Hardly Wait – Rough Mix”
“Nightclub Jitters – Rough Mix”
“Skyway – Rough Mix”
“Cool Water – Rough Mix”

beabadoobee-care

A sensação indie inglesa Beabadoobee, que surgiu no ano passado reverenciando o papa Stephen Malkmus, anuncia seu próximo álbum, Fake It Flowers, com “Care”, um doce single, barulhento e irresistível, que nos lembra quando Kurt Cobain ensinou uma década inteira a fórmula Pixies com seus acordes pesados, paradas dramáticas e vocal açucarado.

O disco deve sair ainda este ano, mas não tem data definida de lançamento.

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O inquieto Rafael Castro não conseguiu se conter e lança “Adrian”, música inspirada na namorada do protagonista do filme Rocky – Um Lutador, que consagrou Sylvester Stallone, canção inspirada pelo nocaute que a pandemia nos deu: “No meio da pandemia tudo quanto é artista tá sobrevivendo no vermelho, se ferrando legal e cortando um dobrado pra se manter com o auxílio mixaria do Paulo Guedes”, ele explica no texto que acompanha o novo clipe, em que sai de skate e máscara pela noite nas ruas de São Paulo.

“Nessa situaçãozinha é inevitável não lembrar do Rocky Balboa: o lutador fracassado que acaba lutando contra o campeão e tem como único objetivo ficar em pé até o final da luta, e quando consegue, completamente arrebentado, tudo que ele precisa é de um carinho da sua mina. Assim, ele grita ‘Adriaaaan’ e a audiência vai às lágrimas com essa ressignificação doída e doida do paradigma de vitória”, ele continua. “A música lembra desse Rocky e assunta com as vitórias, derrotas, apostas e lutas da nossa vida, da infância de maloqueiragem até hoje, de pobre contra pobre, desde quando cheirávamos cola e tentávamos tirar manobras no skate. Em 2020, todo dia é uma luta contra o Apollo Creed, mas a Adrian vai cuidar de tudo. Ela dá o backflip.”