Direção artística

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Seguindo as comemorações dos 20 anos da Ybmusic, a série de encontros Sotaques YB segue às quartas-feiras com música no Centro da Terra com apresentações que promovem encontros inéditos entre duplas de artistas do elenco da gravadora (mais informações aqui). Na segunda noite, dia 9 de outubro, assistiremos ao encontro inédito entre a paulistana Iara Rennó e o pernambucano Siba, que misturarão repertórios e sotaques pela primeira vez juntos no palco. Conversei com os dois sobre o encontro, e antes pergunto ao capitão da YB, Maurício Tagliari, sobre a ideia de fazer este encontro.

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Como parte das comemorações dos 20 anos da Ybmusic, a série de encontros Sotaques YB inaugura as quartas-feiras com música no Centro da Terra e, durante o mês de outubro, traz apresentações ao vivo que promovem encontros inéditos entre duplas de artistas do elenco da gravadora (mais informações aqui). O primeiro deles acontece na primeira quarta do mês, dia 2 de outubro, e reúne a cantora sergipana Héloa com o compositor e guitarrista paraense Saulo Duarte, que já trabalharam juntos mas nunca dividiram o mesmo palco. Conversei com os dois sobre o encontro, além de pegar uma palavra com o capo da YB, Maurício Tagliari, sobre a escolha desta dupla.

20 anos de YB

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Um dos principais hubs paulistanos da nova música brasileira prepara uma série de eventos para celebrar duas décadas. Criada como estúdio e gravadora em 1999, a YBmusic comemora vinte anos de atividade em uma série de shows em que desfila sua história e seu elenco. Fiz a direção artística desta programação, que atravessará o mês de outubro em pelo menos cinco palcos da cidade, ao lado do fundador e capitão da gravadora, o músico, compositor e produtor Maurício Tagliari. Juntos pensamos em um série de encontros no Centro da Terra nas quartas-feiras do mês (uma série chamada Sotaques YB, que reúne nomes como Negro Leo, Iara Rennó, Nina Becker, Héloa, Saulo Duarte, Rogerman, Siba e Tika), em dois shows no Estúdio Bixiga (um com o próprio Maurício ao lado de Kiko Dinucci e Thomas Harres, outro com o rapper Zudizilla), um no Mundo Pensante (com a banda Samuca e a Selva recebendo Thalma de Freitas), um no Bona (com shows infantis dos artistas Fera Neném, Iara Rennó e Luz Marina) e um grande show reunindo vinte nomes que fizeram parte da história da gravadora, incluindo Luedji Luna, Nereu, Rodrigo Campos, Romulo Fróes, Guizado, Juliana Perdigão, Luca Raele, Marco Mattoli, entre outros). A Adriana de Barros detalha mais a programação em sua coluna no UOL. Vai ser foda!

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Imenso prazer em receber o grande Pedro Pastoriz no Centro da Terra, quando o cantor e compositor gaúcho começa a descortinar seu próximo álbum solo em uma série de experimentos ao vivo que começam nesta terça-feira, a partir das 20h (mais informações aqui). Ele apresenta Esse Show é um Teste ao lado dos músicos que também estão na produção deste novo álbum, ainda sem nome: o baixista Arthur Decloedt e o baterista Charles Tixier. A apresentação também é fruto da parceria que armei com Pedro, uma vez que estou fazendo a direção artística deste seu novo trabalho, e explora possibilidades no palco para além das simples canções tocadas em frente ao público, explorando outros espaços, sonoros e físicos, desta apresentação. Conversei com ele sobre este primeiro show de uma nova fase.

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O musical Os Bambas, concebido por Leandro Lehart para seu grupo Art Popular, tem mais duas apresentações neste sábado e domingo no Auditório Ibirapuera (mais informações aqui). O espetáculo, que conta com a minha direção artística, conta a história de um fictício grupo de samba que viaja no passado, presente e futuro do gênero e os shows deste fim de semana contam com a participação de Leci Brandão. Os ingressos estão quase no fim!

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Desde a primeira conversa, deu pra ver que Lia Paris não para. Resumir sua atuação como cantora e compositora é só uma forma de sintetizar seus talentos mais aparentes, mas ela gerencia a própria carreira como um dínamo, cuidando dos shows, de turnês internacionais, de projetos paralelos e parcerias de forma intensa e incansável. O fruto mais recente desta usina de criatividade – seu segundo disco MultiVerso, que ela lançou na semana passada – é mais um passo na construção de sua carreira e seu trabalho mais pop e ela começa a colocá-lo em prática nesta sexta-feira, dia 5 de julho, no Auditório Ibirapuera, quando traz pela primeira vez este trabalho para o palco, com as presenças de convidados como o rapper Luccas Carlos, o produtor Daniel Hunt e o vocalista John Evans, alguns dos convidados do disco – que ainda conta com as presenças de L_cio, Dudu Marote, Ugot, entre outros. Assino a direção artística deste lançamento, que ainda terá a luz de Helô Duran, som de Polako Brandão, produção das Pepper Cultural e cenário de Rose Bazo e Zé Carratu. Os ingressos estão à venda aqui e há mais informações sobre o show aqui. Abaixo, o release que escrevi sobre este novo disco de Lia, que segue em turnê pela Europa logo em seguida.

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“Salto em plena escuridão, segue outra direção, sentimento” – a voz de Lia Paris flutua sozinha sem gravidade num vazio musical contornada apenas por um teclado. Ao seu redor, aos poucos, elementos musicais vão construindo o cenário de “Coração Cigano” – ecos, estalos, a levada de um violão, beats eletrônicos -, o primeiro single de seu novo álbum, lançado ainda em 2018. É o começo de MultiVerso, que parece abrir-se em diferentes facetas, gêneros musicais e participações especiais para construir uma personalidade artística a partir de fragmentos de experiências da cantora, compositora e performer paulistana.

“Coração Cigano” é o início desta nova fase que é seu segundo disco independente. Lançado com um clipe gravado na Islândia no meio de 2018, o single encerrava o ciclo que Lia abrira com Lva Vermelha, EP de 2016 que a levou para diferentes cantos do planeta a criar rituais que lhe deram a compreensão da performance em sua arte. Com o Lva Vermelha realizou diferentes formatos de performances artísticas musicais passando por Portugal, pela cidade medieval da Tuscania na Itália, França, Alemanha, Colômbia, Espanha, Portugal, Estados Unidos, além de passear por muitos palcos do Brasil, sempre criando situações artísticas com parceiros locais que somaram visual e musicalmente com seu trabalho. “Eu vou te levar pra outra dimensão”, resume em outro verso.

O novo álbum sintetiza esta nova fase em um disco com múltiplas personalidades, que paradoxalmente mostram sua coesão estética e musical, cada vez mais afiada – e pop. Ele mantém a abordagem lúdica, surrealista e misteriosa da artista, mas pousa em solo terrestre com canções cada vez mais diretas ao mesmo tempo que desafiam gêneros musicais. É um caldeirão orgânico e eletrônico que funde música brasileira, dance music, trip hop, soul music, reggaeton, rap e dream pop. Trabalhando com produtores e parceiros musicais com bagagens e influências diferentes entre si, ela coproduziu todo o álbum, como vem fazendo com toda sua carreira.

MultiVerso proporciona encontros improváveis como a produção de L_cio e Dudu Marote em (“Inocente Violência”), do produtor U-Got com o rapper Luccas Carlos (“Meus Caminhos”), do vocalista John Evans com o produtor Dudinha (“No Name”), dos produtores Spaniol e Daniel Carlomagno (“Nosso Trato”), do produtor Daniel Hunt com o trompetista Felipe Aires (“A Roda”). “Gosto muito de promover esses encontros e chegar a resultados inusitados a partir da
intersecção do meu universo de criação com o desses caras”, lembra a Lia. São paisagens etéreas surreais e experiências intensas que se contrapõe a diferentes temperaturas de sotaques e grooves, arriscadas misturas que poderiam fazer com que o disco soasse díspar e desconexo.

Mas é justamente o contrário. MultiVerso junta as pontas da carreira de Lia mostrando uma artista ciente de sua missão e de sua natureza plural. “Meu trabalho é bastante autobiográfico, mas busco me conectar com as pessoas explorando as metáforas e sutilezas dos sentimentos e sensações misteriosas que muita gente também pode se identificar”, conta. A sofisticação palpável de seus trabalhos anteriores permanece intactas, ainda com proposta conceitual mas mais palatável, aberta a um público ainda mais amplo. O corte transversal deste novo disco reúne diferentes parceiros e compadres que ela conheceu na carreira, unindo suas “diferentes vidas” – que já foi trapezista, estilista e roqueira – em uma cantora pop pronta para abraçar o Brasil – e o mundo.

No show de lançamento de MultiVerso, que acontece no dia 5 de julho de 2019 no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, ela conta com as presenças do rapper Luccas Carlos, do produtor Daniel Hunt, do vocalista John Evans (do grupo Lumen Craft) e do dançarino Ricardo Januário, além de iluminação de Helô Duran, cenário de Zé Carratu e Rose Baso e figurino assinado por Rodolfo Beltrão. De lá, ela segue para a tour europeia do disco com estreia no icônico clube de David Lynch, Silencio, em Paris na França. A segunda data será no Festival Tangerine em uma floresta nos arredores de Paris, e a terceira no festival Sonido Tropico em Berlim, selo conhecido por exportar ao mundo música brasileira eletrônica contemporânea. A segunda parte da turnê acontecerá em Portugal onde Lia se apresenta na clássica Casa Da Música em Porto, no Music Box em Lisboa, no Texas Club em Leiria até o último show em Ponte de Sor, no anfiteatro de Montargil.

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Conheci o Leandro Lehart no início do ano passado, quando ele levou o show em que visita o grupo Fundo de Quintal apenas como voz e violão ao Centro Cultural São Paulo, mas já acompanhava sua carreira à distância, ciente que mais que líder de um grupo de pagode dos anos 90, ele também era um dos grandes conhecedores da história do samba. Esta aproximação tornou-se amizade e pude conhecê-lo de perto: workaholic mas sempre de alto astral, exigente mas sempre preocupado com os outros, paciente e cheio de histórias para contar, um poço de conhecimento musical, uma generosidade rara para um artista de sua magnitude comercial e um monte de ideias na cabeça. Uma delas transformava o Art Popular em uma banda de samba dos anos 60, Os Bambas, que contaria a história do samba em um filme que havia escrito. Ele tinha tudo pronto, uma febre criativa que bateu nele no fim do ano passado e o fez surgir com roteiro, premissa, figurino, nomes dos personagens, repertório, tudo. Os Bambas era uma comédia musical que estrearia nos cinemas no final deste ano. Mas percebi que ele poderia queimar uma etapa importante: transformar aquele material num espetáculo. Assumir que Os Bambas eram uma banda de verdade que faria shows pelo Brasil e que o Art Popular poderia se tornar algo ainda maior com essa transformação. E assim ele me convidou para fazer a direção artística deste show, que estreia nestas quinta, sexta e sábado em apresentações gratuitas no Itaú Cultural (mais informações aqui). É só o começo da viagem! Obrigado Leandro por permitir fazer parte disso.

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Neste sábado, Paula Santisteban lança a versão física de seu álbum de estreia no Sesc Belenzinho, a partir das 21h. Um trabalho incrível e sensível que me foi passado pelo mestre Miranda, produtor do disco, que me colocou no mundo mágico e lúdico das canções de Paula e Edu Bologna fazendo a direção artística deste lançamento, um universo tão específico e especial que só tenho a agradecer por fazer parte disso tudo.

Paula Santisteban
Sábado, 9 de março de 2019
Teatro, às 21h
Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000. São Paulo
(11) 2076-9700
R$ 6 a R$ 20

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direcaoartistica

Há este desafio em minha frente. Quis o destino que eu começasse a lidar com shows para entender apresentações ao vivo como espetáculos únicos, obras que funcionam como um fim em si mesmo e cogitasse trabalhar nestes formatos juntos a artistas que, em outros tempos, só abririam seus processos (incluindo corações e mentes) quando tudo estivesse transformado em produto. Aos poucos venho acompanhando estes movimentos criativos dando palpites e sugerindo ideias, ouvindo conceitos ainda crus e ajudando bandas, intérpretes, compositores e músicos a darem passos rumo ao desconhecido. São conversas que começam em almoços e cafés e continuam no estúdio ou em passagens de som, passam por audições individuais e links trocados por wetransfer, longas DRs em áudios de whatsapp e enxurrada de referências para chegar a um único consenso. Funcionar como válvula de escape e câmara de eco para a criação alheia é parte do trabalho de curadoria, mas quando estas trocas são o ponto de partida da história, em vez de apenas reações a ideias já definidas, tudo fica mais fácil – inclusive a experimentação. A direção artística foi uma revelação inusitada de 2018 mas que afiou meu olhar para além do jornalismo na música – mas sem perdê-lo de vista – e me ocorreu quase simultaneamente entre o show Professor Duprat e o lançamento do disco de Paula Santisteban, ambos em setembro deste ano. E os dois são só os primeiros exemplos do que mostrarei mais em 2019.

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Minha maior aventura profissional de 2018 foi inventar um show. Uma dúvida já acompanhava o início do ano quando me perguntava sobre a execução do trabalho de curadoria para além de um espaço físico específico, como já vinha fazendo em 2017, quando consegui me explicar a separação entre programação e curadoria, sempre provocando artistas a fazer algo diferente ou único ao apresentar-se para onde estava o convidando, seja no CCSP ou no Centro da Terra. Mas vislumbrava em buscar outros espaços para mostrar obras em que eu poderia influenciar em sua criação, mais do que simplesmente abrir espaço para a criação alheia. Foi quando pensei no gancho dos 50 anos da Tropicália e como ir além da celebração da invasão baiana de São Paulo, da reverência aos Mutantes ou ao disco-manifesto que fundou o movimento. Foi quando me veio à lembrança a importância de Duprat.

Quase vinte anos antes, eu havia entrevistado o próprio Rogério Duprat pessoalmente em uma matéria sobre os Mutantes para a falecida revista Bizz. Na pesquisa para fazer a entrevista com aquele que então conhecia como um dos mentores acadêmicos do tropicalismo, descobri um maestro erudito rebelde, progressista que flertava com o cinema e a publicidade e que tinha assinado obras históricas da música brasileira que iam para além da ebulição tropicalista. Ao cogitar um espetáculo que celebrasse a importância de Duprat, eu também estava reverenciando um personagem pouco lembrando nas homenagens clássicas da música brasileira, que quase sempre comemoram o intérprete, o compositor ou o músico. Era a possibilidade de festejar um arranjador – e transformar esta festa em um reforço sobre a importância deste personagem.

Chamei o João Bagdadi, do selo Risco, com quem havia trabalhado no ano anterior no Centro da Terra, e ele colocou o produtor Charles Tixier e o músico Arthur Decloedt para pensar como fazer este projeto. Os dois assumiriam a bateria e o baixo de uma banda que recriaria as obras arranjadas por Duprat no palco e também assinariam os arranjos e a direção musical do espetáculo. Juntos, pensamos em uma obra que pudesse ser apresentada como uma composição erudita, sem espaço para apresentações ou palmas, enfileirando diferentes aspectos da produção de Duprat à medida em que os convidados entravam. Juntos, nós quatro e o produtor Gui Jesus, pensamos em outros aspectos da apresentação: quem seria a banda, os intérpretes, quem assinaria o figurino, a iluminação, a direção de palco, o som, qual seria o repertório e quem tocaria qual instrumento. Assim nascia o Professor Duprat – Maestro da Invenção.

O resultado foram duas apresentações memoráveis no Sesc Pompeia que reuniram alguns dos maiores nomes da atual música brasileira cantando clássicos de nosso cancioneiro devidamente reverenciados pelas referências de Duprat. O time que reunimos desenvolveu-se muito tranquilamente, sem nenhum atrito e em pouco tempo tínhamos uma senhora apresentação de pé. Foi minha primeira assinatura com diretor artístico, atividade que irei exercer mais nos próximos anos, e também o primeiro trabalho com novos amigos que certamente me ajudarão a criar mais coisas.

E o Professor Duprat não ficou apenas em 2018 não – devemos ter novidades no ano que vem.