Brasil

“Acho que África Brasil dialoga com o Brasil de 2020 em vários momentos: primeiro com as músicas que falam de personagens negros ou de orgulho negro, como ‘Ponta de Lança Africano’, ‘Xica da Silva’ e ‘África Brasil (Zumbi)’, que têm tudo a ver com as questões raciais que a gente tá vendo hoje, com a questão de dar visibilidade pra personagens negros, a gente sabe que as figuras negras sofreram um apagamento na história do Brasil e que a gente tem um afastamento da África”, enumera Kamille Viola, que acaba de lançar o livro África Brasil – Um Dia Jorge Ben voou para toda a gente ver, dentro da coleção Discos da Música Brasileira (Edições Sesc SP). “Eu brinco que no dia que tiver o ‘fogo nos racistas’ que o Djonga canta, a trilha vai ser a versão de ‘Zumbi’ do África Brasil, que é uma versão com uma guitarrona bem marcante, o Jorge berrando, conclamando os povos negros que foram trazidos escravizados para o Brasil para uma vingança.” Ela antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo o primeiro capítulo do livro, O Bob Marley brasileiro, que conta sobre o interesse que o descobridor do rei do reggae, o dono da gravadora Island, Chris Blackwell, teve no monstro sagrado brasileiro.

“Quis começar por essa história, que muita gente não conhece e não é inédita, mas que não é muito falada e dá a importância do Jorge Ben e como ele é visto no mundo, como sua música chega longe. Ela mostra muita coisa, como ele é admirado, como ele tem a personalidade forte e quer ter o controle pelo trabalho dele, como ele era recebido – era e é – com pompa nas viagens internacionais”, resume Kamille, que só conseguiu entrevistar Jorge Ben durante a quarentena, quando o livro, que começou a ser feito no ano passado, estava sendo finalizado. Mas não foi a primeira vez que ela falou com ele, longe disso.

“Eu o conheci em 2008, quando fui cobrir um desfile em que a Gisele Bundchen estaria e ele sentou do meu lado. Aí eu puxei papo com ele e depois disso esbarrei com ele algumas vezes, em festas de premiações, backstage de show e no Corujão da Poesia, um sarau que acontece de madrugada aqui no Rio”, lembra. Ela chegou inclusive a cogitar uma biografia do ídolo, ao lado da amiga Karla Prado, mas deixou para lá depois que a família de Jorge achou melhor não contar essa história.” Não bastasse isso, ela, que entrevistou Jorge Ben no Copacabana Palace em 2011, ainda teve de perceber que Jorge Ben não lembrava mais dela, diferente de dez anos atrás, quando a chamava pelo nome.

Mas isso nem de longe ofusca a admiração que Kamille tem pelo artista. “Ele criou um som único, mesmo tendo mudado a sua sonoridade ao longo do tempo, o tipo de mistura que ele fez ninguém conseguiu fazer. Fora a famosa capacidade dele de musicar qualquer texto, que ele traduziu com um estilo próprio, como o blues e os spirituals fizeram”, conta a jornalista. “Além de que o Jorge impactou demais alguns movimentos. Os tropicalistas consideram que seu disco Bidu é um disco tropicalista antes do tropicalismo existir. Gilberto Gil quando ouviu Samba Esquema Novo disse que ia parar de compor e ficar tocando só a obra do Jorge Ben, porque ele fez tudo que já podia ser feito. O Mano Brown fala que ele influenciou o rap na temática, porque ele tem uma importância gigantesca sobre a questão racial e da negritude.”

Ela reforça a importância de Jorge para a cultura brasileira neste sentido. “Ele exalta personagens negros, a cultura negra e fala desse embate entre negros e brancos, lembra da escravidão, exalta a mulher negra… A gente sabe que a cultura negra – a capoeira, o jongo – já falava sobre isso, só que o Jorge fez isso sendo um artista mainstream, que tocava no rádio, na TV, vendia milhares de cópias. Sem contar em termos estéticos: ele é um dos precursores do canto falado no Brasil, já tinha o spoken word nos Estados Unidos, nos anos 60 e 70, mas no Brasil o Jorge foi um dos primeiros, que vai impactar no rap, no axé… Ele foi precursor de muita coisa. Além de ser um artista muito prestigiado internacionalmente, regravado, sampleado, é uma referência muito grande. Sempre que eu entrevistava artistas gringos moderninhos que tavam vindo pra cá, como o Beck ou o Vampire Weekend, e eu perguntava sobre música brasileira, sempre respondiam Jorge Ben.”

Kamille, que agora está escrevendo uma biografia sobre Martinho da Vila, não consegue cravar que África, lançado em 1976, é o primeiro disco em que Jorge toca guitarra, referindo-se ao disco O Bidú, cuja ficha técnica deixa tudo meio nebuloso – ela prefere acreditar que é um violão Ovation em vez de uma guitarra, mas confirma que é a partir do disco que pesquisou que Jorge começa a usar a guitarra com distorção e peso, assumindo essa linguagem para seu som – e nunca mais volta ao violão. Mas não consegue cravar que África é seu disco favorito de Jorge. “Eu não consigo escolher um só, durante um tempo eu dizia que meu preferido era o Força Bruta, mas eu amo o África, o Tábua, Ben, Samba Esquema Novo…”

O Bob Marley Brasileiro *

Por Kamille Viola

O estúdio, grande, próprio para a gravação de orquestras, iria receber uma festa. Músicos das bandas Traffic e Bad Company estavam entre os convidados. Chris Blackwell, fundador da Island Records, cuidava pessoalmente dos detalhes. Ele, que dois anos antes tinha revelado Bob Marley ao mundo com o disco Catch a Fire, agora estava gravando em seus estúdios um disco de Jorge Ben. No espaço, um palco montado.

A ideia era apresentar Jorge ao público inglês. Os integrantes da banda do artista, Admiral Jorge V, estavam maravilhados com tudo aquilo – principalmente Dadi Carvalho e Gustavo Schroeter, fãs das bandas de rock britânico. Não bastasse a qualidade técnica do estúdio onde vinham trabalhando, muito superior aos do Brasil, agora estavam frente a frente com alguns de seus maiores ídolos. O único que não parecia estar nada animado com a ideia era o próprio Ben.

A chegada tinha sido com pompa: quando aterrissaram em Londres, os músicos de Jorge Ben foram recebidos por dois carros de luxo, um Bentley e uma Mercedes 600, estilo limusine, para levá-los ao hotel. O artista, sua esposa, Domingas, e o produtor Armando Pittigliani, que estava viajando como road manager, tinham ficado em Paris: quando a banda embarcou para a capital inglesa, o casal ainda não tinha entrado no avião. Pittigliani foi atrás dos dois e acabou sendo deixado de fora do voo também.

Naquela noite, os músicos jantaram com Robin Geoffrey Cable, que havia trabalhado em discos de nomes como Carly Simon e Queen, sua esposa, a portuguesa Tina – que seria a intérprete e tradutora das gravações – e Blackwell com sua primeira mulher, Ada Blackwell. O dono da Island Records comentou com Dadi sobre sua expectativa para as gravações e contou de seus planos de fazer um show de Jorge para apresentá-lo a músicos ingleses e grandes nomes do show business local.

Ben chegou cansado para o jantar e disse, em tom de brincadeira, que tinha achado seu quarto pequeno. Pudera: nas turnês internacionais, ele sempre ficava hospedado em hotéis de luxo, tendo chegado a passar uma longa temporada no suntuoso George V, em Paris. Na noite seguinte, todos se reuniram no estúdio – o mesmo onde tinham sido mixados os discos mais recentes de Bob Marley e onde ele viria a gravar os clássicos álbuns Exodus (1977) e Kaya (1978) – para discutir detalhes das gravações. Blackwell ofereceu um cigarro de haxixe para os músicos e todos os brasileiros recusaram. Depois, Dadi explicou à intérprete que eles não fumavam na frente de Jorge, que era abstêmio.

A gravação correu bem, com o registro feito como se fosse ao vivo, no estúdio de 24 canais. A fita rolava e eles iam tocando repetidamente cada faixa até que Cable considerasse que tinha a melhor versão. Assim, tudo soaria mais natural.

Até o dia da festa, que contaria com um pocket show, Jorge não tinha sido avisado de que iria se apresentar. Depois de emendar a maratona de shows em Paris com as gravações, ele sentia que sua voz estava rouca. Além de tudo, não gostou de ser surpreendido. Então disse que não tinha ido ali para fazer show, e sim para gravar. “Pensa num troço enorme. […] E ele botou um palco lá dentro, para homenagear o Jorge. Aí convidou a elite brasileira lá, turma da embaixada, uns duzentos caras, fez uma puta festa, comilança e o caralho. E o Jorge ficou puto! O Jorge falou: ‘Eu não vim aqui para isso, para ficar tocando, vim aqui para gravar um disco!’”, conta Gustavo, o baterista.

“Ele estava cansado, meio de mau humor – porque o Jorge tem isso, quando ele está de mau humor, não tem saco para nada. Aí é difícil, sabe? Lá em Londres, ele estava um pouco assim. O Chris Blackwell falou para mim: ‘Adoro todo mundo do Brasil, adoro o Gil, adoro o Caetano, mas quem tem condição de fazer sucesso no mundo inteiro é o Jorge Ben’”, lembra Dadi. “O que ele tinha já estava bom pra ele, sabe? Ele ia lá, fazia uns shows, voltava, não queria mais que isso, não, eu acho. Ele curte na hora em que está ali, gravando. Até o momento que teve essa festa: aí ele ficou de mau humor, ficou sem saco. Tanto é que tocou duas músicas, jogou a guitarra e foi embora”, recorda.

Empolgados por estar lado a lado com artistas que admiravam, os roqueiros Dadi e Gustavo seguiram numa jam session com Steve Winwood no piano Rhodes, o baterista Jim Capaldi (que Dadi já conhecia do Brasil, pois ele era casado com a brasileira Ana Campos), ambos ex-Traffic, e músicos do Bad Company. A festa foi até cinco da manhã.

Quando voltaram ao hotel, encontraram Jorge, Armando, João e Joãozinho no restaurante, com uma garrafa de champanhe vazia. O pai de Dadi, com saudade, ligou para o hotel em busca dele. “Ele quis falar com todo mundo, e ficamos no telefone quase uma hora, rindo muito. Fomos dormir lá pelas oito da manhã”, conta9.

Blackwell tinha conhecido Jorge Ben em sua vinda ao Brasil em novembro de 1974, acompanhado por Capaldi (que no ano seguinte se casaria com Ana) e Chris Wood, do então recém-extinto Traffic. Segundo a imprensa brasileira da época, Blackwell teria vindo ao Rio de Janeiro atrás de Cat Stevens, que já estava na cidade havia dois meses. Depois de um jantar na casa de André Midani, que presidia a gravadora Philips – onde conheceu Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Rita Lee –, o fundador da Island Records convidou Jorge para fazer um disco na Inglaterra.

Os músicos passaram vinte dias gravando no estúdio, com produção e mixagem de Robin Geoffrey Cable. Jorge foi acompanhado pela banda que havia acabado de formar, Admiral Jorge V, com Dadi (baixo), João Roberto Vandaluz (teclado), João Baptista Pereira, o Joãozinho da Percussão (percussão) e Gustavo (bateria). Três cantoras de estúdio locais (as britânicas Barry St. John e Liza Strike, e a neozelandesa Joy Yates) fizeram os vocais de apoio, e o trabalho ainda contou com sax e sintetizador de cordas, tocados por artistas locais (Chris Mercer e Ann Odell, respectivamente).

O baterista lembra que eles ficaram encantados com a estrutura do lugar: “Eram 24 canais, em 1975. Aqui não tinha oito (risos)! Já tinha aquele estúdio maneiro, grande, aquele mesão. […] Só eu tinha oito canais de bateria. Eu! Tinha oito canais para mim, aaaah! Bumbo, caixa, cada tom-tom absurdo, pratos, contratempo. […] Eu nunca vi isso na minha vida. Eu falei: ‘Eu estou aqui no paraíso! Aqui é o paraíso’! (risos)”.

No disco, tudo ganhou uma sonoridade mais pop. Foram gravadas “Taj Mahal” (em versão roqueira e com sopros bem influenciados pelo reggae), “Os alquimistas estão chegando s alquimistas”, “Chove chuva”, “O namorado da viúva”, “Mas que nada” e “País tropical”. Completavam o repertório as inéditas “Jesus de Praga” e “Georgia” (sendo o nome da musa falado em inglês), além de uma faixa em inglês, “My Lady”, cantada com a pronúncia deliciosamente macarrônica de Ben, que havia saído na trilha da novela As divinas… e maravilhosas, da TV Tupi, em 1973.

Em novembro do mesmo ano, os músicos ainda voltaram a Londres para fazer os overdubs do álbum. Dessa vez, ficaram em um hotel cinco estrelas, o Skyline Park. Mas, aparentemente, a “lua de mel” do produtor inglês com Jorge Ben tinha acabado no episódio da festa. Tropical sairia no ano seguinte na Inglaterra (e em 1977 no Brasil), sem grande alarde. Não se tem notícia de que Blackwell tenha voltado a falar em Jorge Ben.

A situação evidenciava algo que se repetiria ao longo da carreira de Jorge: para o bem ou para o mal, ele faria apenas aquilo que quisesse. Dono de uma personalidade forte, quando ele cisma com algo, dizem, não há quem o convença do contrário.

Ele tinha passado um período fora do Brasil pela primeira vez dez anos antes, quando se apresentou em clubes e universidades norte-americanos. A temporada, no entanto, acabou sendo menor do que o previsto, como o próprio artista contaria anos depois, em 1978:

“A minha primeira experiência internacional foi em 1965, quando o Itamaraty enviou alguns músicos, entre eles o Sergio Mendes, em missão cultural aos Estados Unidos. Fui incluído e ganhei uma bolsa para estudar música. Não cheguei a fazer o curso, pois não falava inglês. Não fiz muita coisa por lá, pois fiquei pouco tempo. É que para trabalhar por lá era necessário adquirir o Green Card, e acabei tendo que me alistar no Exército Americano. Fiz isso por pura formalidade, para conseguir trabalho. Só que acabei convocado para ir ao Vietnã e tive que voltar às pressas.”

Em entrevista ao Pasquim, em 1969, ele afirmara, já demonstrando consciência racial: “Negro e estrangeiro, lá nos Estados Unidos, são os primeiros a ir pro Vietnã”.

Em 1966, Mendes lançou uma versão de “Mas que nada” no álbum Herb Alpert Presents Sergio Mendes & Brasil ’66. A música se tornou um grande sucesso, chegando ao quarto lugar da parada Adult Contemporary da Billboard. Ela ganharia versões feitas por nomes do quilate de Dizzy Gillespie (em 1967) e Ella Fitzgerald (1970), entre inúmeras outras. Em 1969, Jorge comentou que só nos Estados Unidos a canção tinha 47 regravações.

Ele teve mais três composições entre as mais vendidas e executadas naquele país: “Zazueira”, com Herb Alpert, “Nena Naná”, com José Feliciano, e “Chove chuva”, com Sergio Mendes. No Brasil, em 1969, Herb Alpert disse que o artista estava desperdiçando uma chance por não aproveitar a onda: “ele poderia ocupar hoje, tranquilamente, o lugar que José Feliciano tem no mercado latino dos Estados Unidos”.

Jorge conta que outra virada em sua carreira aconteceu quando se apresentou no Midem, na França, em 1970: “Quando subi ao palco e vi aquelas pessoas seriíssimas, engomadas, pensei: ‘o que é que eu faço agora?’. A minha sorte é que ‘Mas que nada’ era sucesso com o Sergio Mendes e todo mundo conhecia. Bastou eu começar a cantar pra sentir que todo mundo tava na minha. Fui bisado e a partir dali choveram propostas de trabalho”. O show ficou marcado por seu choro intenso enquanto apresentava “Domingas” (do álbum Jorge Ben, de 1969).

Jornal do Brasil noticiou na época: “Com relação à apresentação de Jorge Ben, o empresário norte-americano George Grief, responsável comercial por José Feliciano e outros cantores famosos, disse que foi a coisa mais importante que vira no festival, sugerindo ao mesmo tempo que Jorge Ben fizesse uma excursão pelos Estados Unidos e Europa”. O próprio artista, de volta ao Brasil, confirmaria o convite.

Em um artigo no Pasquim naquele ano, Chico Buarque, exilado em Roma, contava o encontro que teve com Jorge e o Trio Mocotó na capital italiana logo após o Midem.

“Mas Jorge e seus Mocotós partiram depressa sem explicar direito como foi o negócio lá em Cannes, no festival do “Midem”. Agora cá está o jornal italiano que não me deixa nem exagerar. “O pranto de Jorge Ben” é a manchete. “Não é sempre que a gente vê – diz o jornal – um grande negro de calças escarlates chorar tão desconsoladamente como chorava esta noite o cantor brasileiro. Seus próprios acompanhantes pareciam preocupados, embora continuassem sorrindo ao público para tranquilizá-lo. Jorge Ben chorava sobretudo com o nariz que se lhe dilatou e inchou…” e vai por aí afora. O enorme sucesso de sua música, para o jornalista europeu, é de menos, estava previsto. Inédita é a sinceridade, a ingenuidade de Jorge chorando, enquanto sua cotação subia tantos pontos e seu nome era cogitado, cochichado, pechinchado, revendido e valorizado no mercado internacional do disco. O que parece melancólico, mas é ótimo, é de morrer de rir. É de mandá o piá pegá o tutu, comprá outro fu, machucá as escô e beliscá o mocotó das criô do pa tropi.”

Simonal e Astrud Gilberto também se apresentaram na mesma edição do Midem, e Eliana Pittman foi uma das apresentadoras. Mas Ben foi quem deu o que falar.

Apesar do projeto frustrado de Blackwell de tornar Jorge “o novo Bob Marley”, o artista nunca deixou de se apresentar fora do Brasil. Até hoje, viaja frequentemente à Europa. Em novembro daquele mesmo ano, ele e a Admiral estavam de volta à França para uma nova temporada em Paris. Também foram ao programa Micky Metamorfosis, da TVE, a TV pública espanhola, onde o apresentador Micky diz ao cantor, que vestia uma camisa do Flamengo e já usava os inseparáveis óculos escuros: “Eu, cada vez que te escuto tocar, cantar e improvisar, é como se fosse o Pelé da música. Então bem-vindo ao meu programa e oxalá ganhes esse primeiro encontro com o público espanhol por uma grande, grande goleada”.

Jorge e seus músicos apresentam um medley (ele já usava esse formato pelo menos desde 1973, quando o registrou em disco) com “Por causa de você, menina”, “Chove chuva” e “Mas que nada”, com direito a solos de cada um dos instrumentistas. O artista já aparece tocando um violão Ovation, plugado.

Gustavo Schroeter recorda um episódio em Hamburgo, na Alemanha. Acostumado a reações efusivas da plateia em seus shows, o cantor ficou preocupado, pois o público só aplaudia, educadamente, ao fim de cada música. “O que está acontecendo?”, ele perguntava à banda. Resolveu dar uma pausa. “O Jorge nunca deu intervalo. Era pau dentro, pá, direto, show inteiro, pum (risos)”, diz. No camarim, se mostrou preocupado. Armando Pittigliani, produtor dos três primeiros discos do artista e então diretor de marketing da Philips, contemporizou, dizendo que alemães tinham mesmo reações diferentes.

O segundo set teve um pouco mais de efusividade, mas nada comparado à resposta das plateias com que estavam acostumados. Dali, foram a um restaurante badalado, próximo do local da apresentação. Quando Jorge e banda entraram, todos se levantaram e começaram a aplaudi-los. “Fico arrepiado (de lembrar). Nunca vi isso na minha vida. Nunca vou esquecer”, jura o baterista.

Em uma turnê no México – uma temporada em um hotel –, o percussionista Laudir de Oliveira (morto em 2017) foi assistir a uma apresentação. O músico tinha integrado a banda Brasil ’77 de Sergio Mendes e então estava com o grupo norte-americano Chicago, no qual ficaria por oito anos. Convidou todos para assistir a um show da banda. Gustavo e Joãozinho foram. Na sequência, foram para uma festinha com a banda. “Eu e o Joãozinho saímos numa limusine do Laudir. Cada limusine com um integrante! E fomos para um hotel lá, acho que Sol de América, Sol de… alguma coisa. […] Duplex, tudo enorme, os quartos. Altas farras fizemos lá depois”, lembra Schroeter. Já Joãozinho conta que foi chamado para acompanhar o Chicago em suas turnês, mas seguiu com Jorge Ben.”

Primeiro capítulo do livro África Brasil – Um Dia Jorge Ben voou para toda a gente ver.

A MC brasiliense Flora Matos está aproveitando a quarentena para produzir músicas novas e lançou “Boy Magia” no mês passado, depois de mostrar “I Love You” em setembro

Duas faixas deliciosas que parecem apontar o rumo de seu novo álbum – que parece que ainda vem esse ano… Será?

O MC paulista Edgar começa a apontar para o ano que vem ao antecipar o primeiro single do segundo disco da trilogia O Novíssimo Edgar, Ultraleve. O novo disco, que também terá produção de Pupillo, como o anterior Ultrassom, começa a ser mostrado agora, com a distópica “Também Quero Diversão!”, que mistura toques orientais, beats quadrados e um deprimente diagnóstico de onde estamos agora.

Depois de dois discos reflexivos- tanto seu primeiro disco solo Recomeçar quanto o Atrás/Além de sua banda O Terno -, Tim Bernardes começou 2020 pensando em seu próximo disco solo, mas a quarentena o obrigou a voltar ao modo introspectivo que já vinha atravessando nos anos passados. Aproveitei para conversar com ele na edição desta semana do Tudo Tanto sobre o diálogo entre este 2020 e sua jornada interior recente, quando falamos sobre criação, composição e perspectiva de carreira, também a partir do ponto de vista de sua geração, num papo em que ele ainda falou de suas novas parcerias – de Gal Costa a Fleet Foxes – e de suas perspectivas de futuro.

Fazendo contraponto a outro programa quinzenal deste canal, o Jornalismo-Arte, apresento agora o Artejornalismo, que também disseca alguns dos principais nomes do jornalismo que cobre música no Brasil, só que com ênfase na geração que surgiu neste século, já fora das redações e com a internet em suas veias. E para abrir este programa, convidei um dos fundadores do site Outros Críticos, o pernambucano Carlos Gomes, para falar de como seu site passou a provocar discussões aprofundadas sobre a música brasileira atual tanto online quanto em versões para além do digital, sejam impressas ou presenciais. E anuncia mais uma mudança de fase no projeto.

O coletivo carioca Digitaldubs convoca o MC britânico YT para recriar a faixa-título do disco de 2016 do grupo baiano Baianasystem em duas versões – uma mais tradicional e outra deformada pelos ecos do dub.

Sonzeira!

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Velho compadre de outros carnavais, já fiz muita coisa junto com o Bruno Natal e a primeira edição brasileira da Wired, que acaba de sair, foi só mais uma delas. Bruno foi meu sócio no falecido consórcio de blogs OEsquema, capitaneou por um dos principais blogs de música do Brasil (o URBe, que anda num outro ritmo) e fundou a plataforma de shows Queremos. Mas em vez de falar de sua trajetória, assunto para um outro programa futuro, resolvi focar em seu filhote mais recente, o podcast Resumido, e entender sua relação com as notícias, a urgência do jornalismo, o excesso de ofertas e o papel da internet.

PaulinhoViola

Que alento assistir à apresentação de Paulinho da Viola ao vivo no meio desta quarentena às vésperas de uma eleição tão improvável. Um segundo turno de eleições para prefeito em algumas das principais cidades do Brasil que mostra novos nomes de uma esquerda nada reacionária, positiva e pra frente, funciona como um horizonte possível neste tétrico 2020 e a aparição sensível e delicada de Paulinho na noite deste sábado, agiu como um portal para um Brasil que vem sendo vilipendiado desde que tiraram Dilma à força da presidência. Com um tato específico seu, ele nos conduziu a um repertório invejável que mostra não apenas toda sua majestade, como o quanto a cultura brasileira é mais forte que o lado mais abjeto do país numa apresentação memorável, que segue disponível online (embora a Globoplay ainda não tenha descoberto a tecnologia que permite incorporar seus vídeos em outros sites). Olha esse rosário de hits:

“Onde a Dor Não Tem Razão”
“Peregrino”
“Ruas Que Sonhei”
“Vela no Breu”
“Coração Imprudente”
“Amor à Natureza”
“Ela Sabe Quem Eu Sou”
“Retiro”
“Para um Amor no Recife”
“Dança da Solidão”
“Roendo as Unhas”
“Coisas do Mundo, Minha Nega”
“Ainda Mais”
“Pecado Capital”
“Argumento”
“Eu Canto Samba”
“Talismã”
“Coração Leviano”
“Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”
“Timoneiro”
“Sinal Fechado”

wired-brasil-20220

Enorme prazer de fazer parte da primeira edição da Wired no Brasil. Fui incumbido de uma maratona profissional: entrevistar e perfilar os 50 brasileiros mais criativos de 2020, uma lista que chegou pronta mas que pude interferir à medida em que me inteirava de todo o processo. E este foi junto de uma equipe dos sonhos: a querida Cris Namouvs no comando da espaçonave, o compadre Bruno Natal na edição, a comadre Juliana Azevedo no design e a capa assinada por Laurindo Feliciano (sem contar outros que conheci no processo, como o fotógrafo Wendy Andrade e a produtora Karina Mendes Cardoso). Mas a saga de entrevistar 50 universos pessoais em plena expansão, ainda mais num ano como 2020, abriu minha cabeça em múltiplas camadas e este trabalho tornou-se especialmente mais enriquecedor por acontecer neste ano pandêmico. Encontros, virtuais claros, com gente tão diferente e ativa como Ailton Krenak, Teresa Cristina, Emicida, Miguel Nicolelis, Silvio Almeida, Yasmin Thainá, Iana Chan, Sidarta Ribeiro, Nath Finanças, Marcelo D’Salete, Kaique Britto, Felipe Neto, Alê Santos, entre vários outros, me fizeram recuperar a sensação de horizonte que parecia ter sido perdida desde o início do ano. Abaixo, o texto que escrevi na apresentação da revista, que está sendo distribuída gratuitamente em alguns pontos de venda no Rio e em São Paulo (e não vai ser vendida em bancas) e a relação dos 50 nomes escolhidos, com os respectivos links para cada uma das matérias.

50 Horizontes

Entrevistar os 50 brasileiros mais criativos de 2020 não foi só uma tarefa hercúlea como inspiradora. Incumbido desta missão, encontrei 50 universos únicos, 50 pontos de vista singulares e 50 perspectivas distintas, mas todos, sem exceção, esperançosos em relação ao seu papel no futuro do Brasil.

Foram quase 50 videoconferências (só três responderam por email e só um pelo telefone) em que pude conferir olhares curiosos e empolgados, ver sorrisos e caras sérias para descrever altos e baixos de um ano que ficou na história de todos nós. A ausência do encontro presencial, crucial quando se faz esse tipo de entrevista, mostrou, por outro lado, que todos estavam à vontade com a rotina da quarentena.

Muitos entediados, outros exaustos, alguns felizes pela convivência com os filhos, outros tensos pela tragédia sanitária, mas todos dispostos a seguir fazendo seus trabalhos, que encontraram, neste ano, um ponto de inflexão definitivo.

50 indivíduos que tiveram que se reinventar para adequar-se ao novo ano, 50 pontos de conexão com redes exponenciais – vários inclusive conectando-se entre si -, 50 biografias que deram um salto no ano que está chegando ao fim.

Mais do que isso: 50 olhares dispostos a tirar o país do atraso conceitual que se encontra, 50 horizontes possíveis que creem em um Brasil que, mesmo na adversidade, só melhora.

Os 50:

jornalismo-arte-06-gaia-passarelli

E pela primeira vez neste programa dedicado a falar sobre o jornalismo que cobre música, convido alguém que começou já na internet. Embora Gaía Passarelli tenha passagens pelo impresso e pela TV, foi na internet que ela começou e onde se estabeleceu. Primeiro com o primordial Rraurl, site referência na divulgação e cobertura do início da música eletrônica e sua cultura intensa no Brasil, para depois passar pela MTV, se aventurar pelo YouTube, lançar um livro sobre viajar sozinha – o que a fez refletir sobre o papel da mulher nesta cena jornalística – até chegar ao Buzzfeed Brasil, onde trabalha atualmente. Refaço esta trajetória com sua ajuda buscando também refletir sobre seu interesse por música, se tornar uma personalidade televisiva e entender o que estamos atravessamos durante esta quarentena.