Documentário revê os Rolling Stones jovens

Essa saiu antes do carnaval, mas inda não tinha postado aqui:

Alguém aí ainda agüenta Rolling Stones? Depois da overdose da megacorporação multinacional gerida por Jagger e Richards a que o Brasil foi submetido, voltar a máquina do tempo uns 40 anos e encontrar os atuais CEOs disfarçados de “rock stars” numa festa particular em uma cidade européia talvez seja o antídoto perfeito para anestesiar êxtases superlativos da passagem do grupo.

O documentário “Rolling Like a Stone”, que será exibido no Festival É Tudo Verdade (que começa dia 23 de março), em São Paulo, parte de um curto trecho de filme que registrou a passagem do grupo inglês pela cidade de Malmö, na Suécia, para reconstruir o conceito do grupo do outro lado do espelho. Centrado ao redor de uma festa particular da cena de rhythm’n’blues da minúscula cidade escandinava que contou com a presença ilustre de Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones (1942-69), o filme dos diretores suecos Magnus Gertten e Stefan Barg busca alguns dos coadjuvantes daquele dia para mostrar o que acontece com as pedras que deixam de rolar.

Somos atirados no meio de sexagenários saudosos de seus tempos de rock’n’roll, que recordam -uns com dor, outros com candura- dos tempos em que a sociedade poderia ser desafiada (e, quem sabe, o mundo ser mudado) com ruído elétrico, ritmo insistente e cabelos compridos. Integrantes de bandas anônimas (Gonks, Namelosers) e meninas apaixonadas pelo brilho dos ingleses colocam mais uma peça no quebra-cabeças cuja a imagem é a atual cultura pop –uma peça marginal, irrelevante, mas que mostra com precisão o impacto do rock na rotina do planeta.

Sem o áudio (a trilha sonora é composta por faixas das bandas citadas acima, de rock garageiro sem sal), o documentário é musicalmente insípido –mesmo para os fãs de carteirinha dos Stones (sempre em segundo plano, no filme), “Rolling Like a Stone” é, no máximo, curioso. Lento e enfadonho, o filme vale por mostrar de forma crua a triste realidade daqueles que sonham sonhos alheios. Como muitos no show histórico da praia de Copacabana.

#21

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Disco 21) In Between Dreams – Jack Johnson
“Onde as pessoas boas foram parar?”, pergunta-se Jack Johnson no meio de seu In Between Dreams, “estou mudando de canais e não as vejo nos programas de TV”. Ele está assistindo aos mesmos canais que nós, que passa esse estranho programa chamado CelebRealidade, em que só a vida de pessoas muito esquisitas parecem importar. À medida em que a máscara midiática aos pouco resseca, como avisou Alan Moore no “V de Vingança”, o sorriso revela-se apenas um esgar. Johnson pertence àquela tradição do violãozinho, que reúne hippies disfarçados (ou não), como George Harrison, Dave Gilmour, Renato Russo, Kurt Cobain, Beck e Brad Nowell, gente que, sozinho ou com uma turma, não precisa de mais de um instrumento (talvez um bongô ou palmas, vai), pra mudar a estação. Mas mais do que seus antecessores, o havaiano vem com uma improvável missão: trazer o pop de volta à “normalidade”, tirando piercings, músculos delineados, cabelos coloridos e o ar de bobo que a decadente indústria impingiu ao gênero para garantir sua “juventude”. No caminho, carrega fãs do Bon Jovi de cabelo curto, manezices como Matchbox 20 e outros presentes de grego inventados pela mesma indústria. Mas isso não é motivo para menosprezá-lo – pelo contrário. Juntando entusiastas de bandas insípidas para ouvir algo com um mínimo de tutano, ele também distrai o público das celebridades de seu passatempo predileto (a TV) e, sem querer, nos faz perceber que são as mesmas pessoas. Que mundo melhor seria se essas pessoas percebessem que não há nada de errado em suas vidas e que o que elas precisam é de apenas uma roda de violão em que possam cantar numa boa junto com pessoas de quem elas gostam – sem histeria, sem cabecismos, sem referências.

Música 21) “Music is My Hot Hot Sex” – Cansei de Ser Sexy
Bumbo e caixa eletrônicos se alternam, lentos e monótonos – é o enterro de um robô. Entra a guitarra a gingar, para lá e para cá, ao derreter uma parede de eletricidade em câmera lenta, desenhando o mesmo zigue-zague horizontal que as dançarinas de Robert Palmer no clipe de “Addicted to Love” ‘traçavam com seus quadris, como garotas da abertura do Fantástico nos anos 80 ossificadas por excesso de estilo (anos 80). A vocalista começa a balbuciar monótona sua paixão, perseguida à espreita por uma guitarra princeana. Anima-se um pouco no refrão, mas soa igualmente robótica, desta vez acompanhada por teclados fuleiros à Daft Punk e vocoder. Talvez seja o mais longe de um hit que o disco de estréia do Cansei de Ser Sexy traga entre suas faixas (não tem o kellykeysmo de “Superafim”, a grrlrockidão de “Off the Hook”, os “uh-uh” de “This Month Day 10”, as DFAíscas de “Alala”, a pegada atari disco de “Computer Heat”), mas “Music is My Hot Hot Sex” não é um truque pra fazer meninas bi-curious baixarem MP3s recomendados por um fotolog, nem uma picaretagem electrofoda-se feita pras colunas sociais da crítica muderna. Por um momento, Luísa Lovefoxx e Adriano Cintra desligam as luzes dos monitores dos outros para se declararem apaixonados – sérios, sem brincadeiras, um para o outro e para a música. Olham nos olhos um do outro, tremelicando a pálpebra inferior entre a tentativa de assassinato, o choro irreprimível e a tensão pré-beijo – mas não avançam. Permanecem estáticos, sentindo a vibração entre os dois tornar-se música, psicoterapia de casal racionalizada e transformada em um loop dramático, que une a puta velha do decadente underground paulistano à enfant prodige das ondas wi-fi num mesmo ser – andrógino, moleque, promíscuo, descontrolado e abusado. “Ele é fodão mas eu sei que eu sou também”. Fake e naïf na mesma medida, não coloque no repeat do seu Winamp senão ela atinge a corrente cerebral de seu DNA musical, lembrando porque nós (eles, você, eu) estamos aqui: “Música é minha casa de praia/ Música é minha cidade-natal/ Música é minha cama king-size/ Música é meu banho quente/ Música é meu sexo quente/ Música é minha coçada nas costas/ Música é onde eu quero que você toque”.

Show 21) Grenade no Milo Garage, em São Paulo
Nada como um palquinho pra uma grande banda de rock. Ali, na altura do público, sem degrau de ascensão, o Grenade mostrou sua faceta 2006 no meio de 2005. Findo o processo de sagração do nome do grupo como banda em seu disco de estréia, no ano anterior (a saber: até então “Grenade” era a marca por trás da qual o ex-Killing Chainsaw Rodrigo Guedes compunha suas incursões lo-fi, desde 1998), agora é a vez de dar passos adiante. As novas faixas continuam na linha Lennon/Barrett com aquele pop disfarçadamente torto, que propõe incursões individuais em sua tímida singularidade, mas a entrada do novo guitarrista Adauto Mangue (ex-Mudcracks, apresentado ao público paulistano neste show) deu a pegada 1971 que Rodrigo tanto buscava, equilibrada no primeiro CD (de 2004), mas atingindo uma veia ainda mais country. E o espírito elétrico de Neil Young, que já pairava magnético sobre a banda, encarnou pesado. Rock demoníaco é fácil fazer – microfonia espiritual não é pra qualquer um.

Pernambuco 2006

De volta à metrópole, deixo a capital pernambucana com um aperto no coração – mas sempre há uma hora de se reaclimatar à minha querida Aclimação, onde o vento é brisa, a chuva refresca, o sol doura e o céu resplandece. Recife, mesmo sem vento, com seu calor táctil, seus temporais de verão, um sol que castiga e um céu que queima os olhos de tão brilhante, vai deixar saudades em 17 dias de pura loucura adolescente mesclados com o pós-intelectualismo de sempre e o afã das fãs junto com certo élan de bizness carburado em temperaturas próximas aos quarenta graus. Se você acompanhou o Vida Fodona (que assim que o computador novo nascer, torna-se outra home) tem uma vaga noção do que estou falando. Senão, aqui vão alguns pontos a se destacar:

– Que mané Coachella: Recife no Carnaval tem mais bandas por metro quadrado do que qualquer Roskilde da vida. Artistas do primeiro (Lenine, Antônio Nóbrega, Mombojó, Alceu Valença, Mundo Livre S/A, Martinho da Vila, Elba Ramalho, Nação Zumbi, Cordel) e do segundo (Gabriel O Pensador, Vanessa da Mata, Lula Queiroga, Leci Brandão, Zéia Duncan) escalão do pop nacional (o referencial sou eu, lembre-se!), mestres da velha guarda (Lia de Itamaracá, Carimbó Uirapuru, Riachão e o inacreditável Erasto Vasconcellos) e várias bandas novas do pedaço (Playboys, Barbis, Turbo Trio, 3ETs, La Pupuña, entre várias outras) dividem espaço com rodas de break, emboladores, pagodes de playboy, carros bombando axé music, bandas de frevo, velhinhos tocando marchinhas, repentistas, letras de duplo sentido, rodas de samba, maracatus fakes e de verdade. Fora sua própria Salvador particular – Olinda bomba como se não existisse diferença entre o cordão e a pipoca nos trios elétricos da capital baiana, como se a indústria do axé ainda não tivesse sido inventada, como se o carnaval de Ouro Preto fosse abençoado pelo frescor litorâneo. E toneladas de gente. Pra todos os lados. Uma experiência imperdível;
– Nova safra de velhos pernambucanos tinindo trincando: além do Futura da Nação e do Bêbadogroove do Mundo Livre S/A ainda deu pra saborear os novos do Eddie (Metropolitano), Bonsucesso Samba Clube (Tem Arte na Barbearia) e Mombojó (vai dizer que você ainda não sabe o nome…), além de uma pérola musical que deu a tônica da turnê: “O Baile Betinha”, de Erasto Vasconcellos;
– Mais do que traçar as diretrizes da relação da música brasileira com o mundo, pauta semioficial do Porto Musical, o evento consolidou-se como pólo magnético de atração de algumas das melhores cabeças da cena independente brasileira – do baiano Big Bross ao gaúcho Fernando Rosa, passando pelo Lariú, Thaís Aragão, Alex Antunes, Briuno Ramos, Fabrício Nobre, Luciano Mattos, Messias do Brincando de Deus, Marcos Boffa, Frank Jorge, o pessoal da Funtelpa de Belém… Muita gente boa atraída pela importância do evento, que praticamente criaram um outro Porto Musical, paralelo às salas de conferência;
– Comidas para todos os níveis de paladar: do queijo coalho na Pitombeiras à frescura roots do Chica Pitanga, passando pelo filé de carne de sol d’O Bode, a sinfonia marítima (é o nome do prato) no Camarão do Zito em Brasília Teimosa, a macaxeira de Noca e o incrível LaçaCheddar – só comi mal no tal do Parraxaxá;
– Duas grandes naites comigo na trilha sonora: primeiro na Pitombeiras, em Olinda, dividindo CD players com o Bruno Pedrosa, o cearense Guga e o breasiliense radicado em Petrolina Thales, tocando na última Sonora do verão 2005/2006, pra gringos e famosos locais; depois no bar PoEtico, na primeira balada per se da casa, que fica atrás do árabe Salamaleque, na Casa Amarela. Desta vez, dividi os CDJs com o bamba Fred Leal, e a noite ainda contou com Dani, Flávio e Mone nas picapes, tocando para perdidos na noite, indies recifenses, teens a granel e a galera do psy-trance – noite que amanheceu no papadefunto Garagem, um clássico do rock pernambucano (uma borracharia que vende cerveja);
– Grandes companhias em 17 dias: Fernanda, Renato, Pedro, Vicente,Priscilla, Joli, Naomi, China, Fabinho, Pedrosa (vamo ver aqui em São Paulo), Guga (duplo salvador!), Jenny, Luiz, Débora, Bactéria, Cardoso e Gui, Luciano (cobaia!), Mari, Kélita, Chiquinho, Dani (festão, hein), Aninha, Vivian, Melina, Lariú, Cris, Paulo André, Marcelo Machado, Sérgio, Xico, Gina, Gui Moura (CDF por escrito, mas um tremendo fanfarrão pessoalmente) e Hugo, Hélder, Renata, Nobre, Sílvio, Felipe, Diego e Otávio, Flávio (santo da carona), os Jumbos, Gutie, Frank London, Karine (comentarista fiel!), Marinilda (parceira de entrevista), Marcelo Campello (vi o vídeo! Bizarro!), Pupilo, Bruno, Fernando, Thaís, Aninha e Leide, Carol, Marcela, Yuno, Hermano, Mariana do Estéreoclipe, Carla (relämpago!), Samuel, Tejo, Belma, Shi e Ju, Basa, Zizi e as gringas do Pipa Avoando, Junio Barreto, o Galo e o Rei. E as fãs, de todas as idades, que se desprenderam de suas vergonhas para abraçar a passagem do cronista aleijado por Recife (poizé, era eu de tipóia no meio da multidão) – também, quem mandou aparecer no jornal.. Além de, claro, o buda da malemolência, o Fausto Wolff indie, o monstro Michelin da indústria do cigarro, Fred Leal, hospedeiro do podcast, idealizador da ida a Pernambuco e descolador do chatô Goodtrip, além de parceiro-mor sem rumo de casa, só na autodestruição complacente e ressecamento das juntas oleosas entre as sinapses.
– Teve muito mais coisa, se der, eu lembro depois;
– “Longe de casa há mais de uma semana/ Milhas e milhas distante do meu amor”. Ela estava me esperando na volta, mas eu inda não consegui matar as saudades…
– E fica a pergunta no ar: George Israel é judeu?

Vida Fodona

Enquanto minha mão não volta ao normal, vamos de voz. Tou eu e Fred Leal, o capo da Badtrip, aqui na terra do mangue beat e eu tou mandando flashes de áudio do que acontece em Pernambuco. É meio beta, mas depois vou me enveredar sério por esse rumo. São as tais major changes começando.

Pra decorar: www.badtrip.com.br/vidafodona/

Teste

1, 2… 1, 2…

Se ela dança, eu danço

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Deu certo o esquema do meu aniversário junto com o Ramiro e agora a festa é mensal. Mesmo lance: me manda por email tua lista de convidados que ninguém paga nada. Mas até sexta às 18h, pouco antes da balada.

Romance: Em “Coma”, Alex Garland mistura delírio e realidade

Na Folha de hoje

Romance: Em “Coma”, Alex Garland mistura delírio e realidade

Do mesmo jeito que com uma ruptura violenta em um paraíso terrestre Alex Garland atingiu seu grande momento literário, ao amarrar seu novo protagonista em si mesmo, o autor inglês parece caminhar para um beco sem saída. Felizmente, não é artístico. Ao deixar os conflitos exteriores de seus dois primeiros livros fora do horizonte, Garland e o pai, Nicholas, embarcam numa viagem sem volta em “Coma”, que acaba de sair no Brasil.

A história é simples e o tema é quase clichê: Carl sai tarde do trabalho e toma uma surra ao se meter numa tentativa de assalto. Acorda em coma. A partir daí, imagina alternar momentos de consciência e vazios de razão e a discussão reverte-se nas diferenças entre sono e despertar, fatos e lembranças, vida e morte.

Garland opta por uma estética enxuta, deixando maneirismos filosóficos e intelectuais de lado para discutir sobre a existência, a natureza da consciência e os limites entre ser e não ser usando exemplos corriqueiros, como a lembrança dos pais, um perfume conhecido, uma loja de livros, uma música antiga (no caso, “Good Golly Miss Molly”, de Little Richard). Contado em capítulos curtos, por vezes mínimos, o ritmo do livro choca-se diretamente com o não-ritmo de um coma, o não-movimento contínuo.

Pontuando os capítulos estão 40 xilogravuras feitas pelo pai de Alex, o ilustrador Nicholas Garland, do jornal Daily Telegraph. Escuras, elas são enormes janelas de tinta preta que apontam para o nada e tentam, como Carl, emoldurar alucinações e sonhos para apegar-se à alguma realidade – e saber se o coma, afinal, terminou. A morbidez sóbria das ilustrações, que distorce minimamente o caminho não-linear percorrido, tem um parentesco improvável com os quadrinhos negros do brasileiro Lourenço Mutarelli, este cada vez mais sóbrio e menos mórbido.

Diferente de seu livro de estréia do autor, o aclamado best-seller “A Praia”, “Coma” mergulha num abismo em que até as emoções tornam-se incertas e os olhos nunca parecem estar abertos. Garland, que se envolveu com o mesmo trio dos filmes “Trainspotting” e “Cova Rasa” (o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e o produtor Andrew McDonald) na adaptação de seu primeiro livro para as telas, em 2000, pegou gosto pelo cinema e colaborou na adaptação de seu segundo livro, “O Teressacto” (dirigido pelo cineasta de Hong Kong Oxide Pang Chun, em 2003), além de criar uma história original para o filme seguinte de Boyle, “Extermínio”, de 2002.

“Coma”, com suas extraordinárias imagens simples, prova-se uma adaptação um pouco mais difícil, com o risco de perder-se momentos cruciais da leitura, como o vento no parapeito de um prédio, a sensação de transparência, um cômodo “sentido” em vez de visto, o mergulho no vazio, a perda da razão. Percorrer estas passagens dão ao curto livro um ritmo tenso e familiar, que torna possível deschavar o livro em menos de uma hora num sofá de megastore – e esquecer, por completo, tudo ao redor.

No entanto, é na modalidade clássica da atividade leitora (sozinho, de noite, em casa, um abajur) que “Coma” mostra-se forte. Num mundo hiperlinkado, de comunicadores móveis e exibicionismo histérico, o objeto livro pede que seu usuário entre em seu coma pessoal e desconecte-se do dito “real” para mergulhar em si mesmo.

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“Coma”
Autor: Alex Garland
Editora: Rocco
160 páginas
Preço: R$ 24,00

Stoned

Nessa quinta, na festa da Peligro, tou discotecando antes do show da banda Flaming Moe (num conheço, “bom stoner rock”, disse quem conhece) Depois do show, desafiei o Dago pra mais um duelo naquela base do “quem ganha, é a pista” – o Du não tá na área, aí é mais fácil. 😛 Ali, no Milo.

(Dessa vez não tem lista, porque a festa não é minha, mas semana que vem, tem)

Televisão: Lente de Scorsese redimensiona Dylan em documentário

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Materinha na Folha de hoje do filme que vai passar amanhã. Vê se não perde, ow.

Imagine se João Gilberto virasse um Chico Buarque tropicalista, como se o herói de uma música “refinada” e “adulta” (bom gosto, não custa lembrar, é subjetivo como aspas), pai de uma cena que não conseguia andar sozinha, virasse-se para as guitarras da Jovem Guarda e um surrealismo de araque, e dissesse que aquilo era o futuro de sua carreira. A comparação pode parecer forçada, mas basta ver a reação dos antigos fãs de Bob Dylan ao sair de seu concerto elétrico em maio de 1966 e compará-lo com o esgar permanente de MPBistas ortodoxos a termos como “rock” ou “pop”. Ao canalizar sua veia criativa na força juvenil dos Beatles, Dylan não apenas deixou a insípida e repetitiva cena folk para a história como ampliou seu alcance e importância na segunda metade do século passado.

Não dá nem pra tentar comparações sobre o outro lado da câmera. Enquanto Dylan pode ser descrito como o híbrido mutante do início do texto, melhor evitar achar o que significaria, num parâmetro brasileiro, um dos principais momentos desta carreira ser revisto pela lente cada vez mais classuda de Martin Scorsese. Mais do que a primeira e mais importante parte da história do principal compositor vivo dos EUA pela lente do autor de “Goodfellas”, “Taxi Driver” e “Casino”, “No Direction Home”, que o Telecine Premium exibe amanhã (segunda) às 23h40, é a dança perfeita entre dos mestres da manipulação – e o resultado é um dos melhores documentários, não apenas sobre rock, não apenas sobre música, já feitos.

Dividido em duas partes distintas, o filme do ano passado mostra como o franzino Robert Zimmerman, saiu de uma pequena cidade do interior de Minnesotta para se tornar “Bob Dylan”, o messias da geração folk do Village nova-iorquino. A primeira parte vem repleta de vasto material audiovisual inédito sobre o cantor (Scorsese teve acesso aos arquivos pessoais de Bob, pela primeira vez aberto a alguém de fora de seu diminuto círculo pessoal) e o diretor recria geneticamente a persona Dylan, comparando maneirismos de suas influências confessas (Woody Guthrie, Hank Williams, Billie Holliday) com o jogo de cena adotado após ser descoberto pela intelligentsia folk.

Mas é na segunda parte que está o filé mignon, quando o compositor, encurralado com o título de voz de sua geração, puxa um cavalo-de-pau na própria história e abraça o rock’n’roll como estética, ideologia e válvula de escape. Assume as rédeas de sua vida, ciente das responsabilidades e conseqüências, sem rumo, mas livre. “Liberdade é um sinônimo para nada a perder”, rezaria um adágio no final daquela década, e Dylan não tinha nada a perder. Como na própria carreira, é a partir de 1964 que o filme decola num crescendo quase abrupto.

Não faltam imagens raras, entrevistas inéditas, apresentações históricas, sobras de filmes da época, em especial da turnê entre 65 e 66, boa parte registrada pelo documentarista para o também clássico “Don’t Look Back”, de 1968 (cenas coloridas!). Há até o célebre momento em que, numa apresentação com a banda elétrica que se tornaria The Band em Manchester, um espectador chama Dylan de “Judas!” antes de uma rendição agressiva de seu clássico central, “Like a Rolling Stone”, de onde saiu o título do documentário.

O crescendo dramático imposto por Scorsese em qualquer um de seus filmes ganha um enredo perfeito e uma coleção de imagens preciosas, que o deixam confortável para recriar os anos 60 norte-americanos usando Dylan como linha-mestra. O resultado, enfileirados a crise dos mísseis em Cuba, o assassinato de Kennedy, a Guerra Fria e a do Vietnã, é mais um dos capítulos da história dos EUA contada por um de seus mais hábeis narradores. “No Direction Home” faz parte do mesmo novo Scorsese que se reinventa como historiador e esteta, e está para os anos 60 como “O Aviador” está para a Segunda Guerra Mundial e “Gangues de Nova York” para a virada do século 18 para o 19.

Mas ao terminar o filme no mítico acidente de moto que tirou Dylan de circulação por oito anos em 66, o diretor suspende a tensão no ar, quase que matando seu personagem. Não precisa ser Dylanólogo para saber que Scorsese pára um pouco antes do território mais fértil e sagrado do compositor, quando ele e a Band viram as costas para o Verão do Amor para gravar sua própria lenda, recontando a história musical dos EUA nas influentes e ainda oficialmente inéditas Basement Tapes. E caso Scorsese venha concluir seus anos 60 fazendo uma segunda parte sobre este período… Er, melhor guardar os superlativos pra quando (e se) isso sair.

No Direction Home
Telecine Premium
Amanhã (segunda) às 23h40. Reprises na quarta às 11h10, dia 16 às 5h, 18 às 2h20 e 22 às 2h.

#22

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Disco 22) Free U.S.A. – Artificial
Kassin vem pouco a pouco mudando a paisagem do cenário pop brasileiro, contrabandeando idéias do underground para o mainstream, do indie paulista para o pop carioca, da MPB radiofônica para a IDM eletrônica – e vice-versa. O ponto central de sua carreira não parece ser o convencimento alheio de que suas idéias são relevantes, mas a lenta mutação de (todas, se possível) referências laterais, de forma que quando ele levantar a cabeça para olhar ao redor tudo já estará mudado – e, mais importante, por dentro. Uma empreitada que o coloca ao lado de nomes como Nelson Motta, DJ Marlboro, Lulu Santos, R.H. Jackson, Moraes Moreira, Frank Jorge, Fagner e Liminha – outros paisagistas do pop Brasil. Seu projeto pessoal, o Artificial, começou como um passatempo geek ao lado de seu compadre de estúdio Berna Ceppas, crackeando Gameboys para transformá-los em instrumentos musicais, mas tornou-se o melhor disco em que se envolveu desde O Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos, além do único em que sua paisagem musical mostra-se por inteiro. Free U.S.A. é habitado pelas contradições artísticas de sua carreira (pop e hermético, noturno e tranqüilo, robótico sem ser frio, nerd com suíngue, indignado e cool), todas evidenciadas no fato do CD ser, ao mesmo tempo, vanguardista e clichê – e bom, como quase todo disco que ele faz.

Música 22) “Balança” – Turbo Trio
Mais do que uma das inúmeras peripécias de fim de ano do Instituto, “Balança” é decorrência natural do trabalho de BNegão – que mexe desde suas incursões a um som mais porrada de seus tempos do Planet Hemp (em que tocava rock e flertava com o hardcore), à crueza óbvia do Funk Fuckers (visitando o batidão carioca pela tosqueira, dez anos antes de “grime” ser elogio) e o lado mais seco e politizado com os Seletores de Freqüência. Não que um refrão repetitivo que imponha o requebro tenha algo de político (além das pol;iticas do groove, que é um cavalo de outra cor), mas acrescenta mais um fragmento à cada vez mais unificada persona musical do MC. As cores pintadas por Tejo e Basa (escuras, frias, robóticas e mais dance que funky) ajudam a dar uma tensão específica ao baile dos mortos-vivos incitado pelo mantra agressivo da música – e jogam um holofote macabro sobre o vocal de Bernardo, como relâmpagos de filmes de terror B recriados no século 21 (alguém viu Van Helsing?). Mesmo sem ter sido oficialmente lançada ainda, a faixa captura, uma “Dança do Patinho” do mal, com perfeição a vibração de 2005: tenso, oco, sério e divertido.

Show 22) Dr. John no Tim Festival, no Rio de Janeiro
Para algumas pessoas, era apenas um tiozinho num paletó laranja e chapéu de mosqueteiro puxando funk jazz blues pra turistas em um lobby de hotel quatro estrelas num país qualquer do fim do mundo. Mas sob o aparente conformismo fusion estava a voz do atual prefeito musical de Nova Orleans (no enésimo mandato, está no cargo desde os anos 80) cantando o pesar e o luto de uma cidade que sabe que irá renascer pela música. Se na casca era um show do antigo Free Jazz, por dentro era o sentimento de perda e devastação pós-Katrina que foi a espinha dorsal da noite e recriações de standards (“When the Saints Go Marchin’ In”, “Jambalaya” e “Goodnight Irene”), que ganharam contornos fúnebres e dramáticos à sombra do furacão – a caveirinha em cima do piano, é bom lembrar, serve pra não nos esquecermos do mesmo fim que a todos espera. O resto da noite trouxe músicas do EP Sippiana Hericane (de faixas como “Clean Water” e “Storm Surge”), entre elas “Sweet Home New Orleans”, com que o mestre de sala deixou o recinto: “We’re gonna be back/ Twice as strong”.