Trabalho Sujo - Home

Digital

Daqui a pouco, às 19h30, medio um papo sobre jornalismo e hackers – e a experiência no Hackatão – na série de debates que o Link está fazendo no YouPix. Na mesa, participam também o pessoal do núcleo Estadão Dados e os caras que desenvolveram o projeto Para Onde Foi Meu Voto? durante a maratona de programação e jornalismo que fizemos no jornal. Esse ano o YouPix acontece no segundo andar do Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, e a entrada é gratuita. Mais informações no site do evento.

E na minha coluna da edição dessa semana no Link continuei falando sobre o Hackatão.

O que a lógica do programador e a do jornalista têm em comum
A tecnologia ajuda a traçar conexões

Jornalistas e hackers juntos, não apenas ocupando o mesmo espaço, mas trabalhando nos mesmos projetos. Esta era a utopia imaginada quando colocamos em pé o projeto do Hackatão, que aconteceu no fim de semana anterior ao passado, na sede do Estado, no bairro do Limão, na cidade de São Paulo.

Havia uma expectativa natural sobre como o evento se desenvolveria. Olhando de fora, as duas profissões parecem antagônicas: hackers que invadem sites de jornal ou jornalistas que denunciam hackers que surrupiam dados de empresas e pessoas. São situações que já entraram no imaginário coletivo. Felizmente, os dois estereótipos estão se esvaziando e aos poucos ambos começam a reconhecer-se um no outro.

Vale rebobinar a fita do tempo para lembrar como era o trabalho de um jornalista antes da digitalização dos dados. Se era preciso buscar informações sobre determinada pessoa ou instituição, o pobre repórter tinha de passar horas e horas num arquivo cheio de estantes e pastas de papel e pesquisá-las manualmente para, aos poucos, dar uma cara ou um rumo à matéria que estava sendo apurada. Não é preciso nem voltar muito no tempo – em algumas cidades ou em certas instituições, os dados ainda estão em formato físico, e exigem paciência e disposição de um investigador para traçar conexões entre processos, pessoas e empresas.

Já o programador usava esta mesma lógica no mundo digital. Para desenvolver um programa ou aplicativo, era preciso testar formatos, conexões, permissões e extensões para ver o que funcionaria melhor com o quê. A vantagem do desenvolvedor é que, ao lidar com informações eletrônicas, o trabalho de apuração torna-se mais simples e prático, pois é possível criar scripts, algoritmos ou pequenos programas para fazer estes testes sem que haja interferência humana direta. Assim, o processo torna-se bem mais rápido – e, ao mesmo tempo, mais preciso.

Ao aproximar os dois profissionais, abrimos a possibilidade de esmiuçar bancos de dados com o mesmo rigor que fazia parte da pesquisa daquele velho jornalista, sem correr o risco de falha humana ou de lidar com pilhas de papéis e pastas de documentos (haja poeira!). Com os dados digitalizados, basta usar os recursos da ciência da computação para chegar a cruzamentos e resultados que levariam dias – talvez meses – para serem apurados.

Mas isso tudo era o mundo ideal. Temíamos que pudesse haver algum estranhamento ou que as lógicas do jornalismo e da programação de dados demorassem um pouco para engrenar. Não foi o que aconteceu. Depois que Daniela Silva e Pedro Markun (ambos do grupo Transparência Hacker, que ajudou o Estado a produzir o encontro), os temas começaram a ser apresentados e as tarefas foram divididas.

Tudo muito tranquilo, sem discussão, sem briga por pautas, sem afobação. Aos poucos os grupos foram se formando naturalmente e os assuntos foram divididos de maneira orgânica, sem que houvesse a necessidade de alguém designar funções ou organizar quem faz o quê com quem.

Por mais que já esteja acostumado com a noção da hierarquia horizontal dos tempos digitais, é sempre um prazer vê-la na prática. Ainda mais na minha área de atuação – o jornalismo –, que ainda é cheio de vícios dos tempos analógicos. Mas uma prova de que isso está mudando – e é um prazer fazer parte deste processo – é justamente este primeiro Hackatão, que ainda está dando pano para a manga e cujos projetos estão aos poucos sendo concluídos (leia mais aqui).

Nesta terça-feira, durante o evento YouPix, às 19h30, conversarei mais um pouco sobre a relação entre estes dois fuçadores – o hacker e o jornalista – reunindo gente que participou do Hackatão: Raphael Molesim, Jonas Abreu e Wesley Seidel, que desenvolveram o site Para Onde Foi o Meu Voto? e dois repórteres do núcleo Estadão Dados, Amanda Rossi e Daniel Bramatti). O debate acontece no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, e a entrada é gratuita.

Minha coluna na edição de segunda do Link foi como a Apple pós-Steve Jobs pode entrar em decadência por falta de inventividade e do futuro estranho da Microsoft…

A Apple pode virar a Microsoft. E a Microsft, pode virar o quê?
MS fará anúncio misterioso nesta segunda

Com o anúncio de uma série de melhorias em software e hardware feito na segunda-feira passada em São Francisco, Tim Cook praticamente encerrou o que Steve Jobs iniciou ao lançar o iPhone. Um plano que começou em 2007, com o evento que reinventou o conceito de smartphone (quando o iPhone foi mostrado pela primeira vez) e que culminou com a apresentação do iPad, há dois anos. Plano que envolvia a criação da economia dos aplicativos e a criação da App Store e que, de acordo com Jobs, terminaria com o lançamento da Apple TV. Com sua própria smartTV, seu smartphone e seu tablet, a Apple tornaria o computador tradicional obsoleto. Tanto que Jobs apresentou o iPad como o primeiro capítulo da “era pós-PC”.

A Apple TV e o novo iPhone devem ser os últimos componentes da fase final de Steve Jobs na empresa. O anúncio da segunda passada apenas azeitou o que já estava engrenado. E, uma vez que as peças finais se encaixarem neste novo ecossistema, a Apple entra definitivamente na era Tim Cook. E resta saber o que o atual CEO fará a partir do plano original de Jobs.

Pois Cook é reconhecido como bom administrador, mas não tem o carisma nem o caráter visionário de seu antigo patrão. Por isso, ele tem duas opções adiante. Numa delas, apenas administraria o que já foi criado, lançando upgrades e afinando soluções anteriores aos problemas do futuro. Na outra, tentaria reinventar a roda da empresa, lançando novos produtos e serviços que tentariam, como Jobs gostava de dizer, “revolucionar” a vida das pessoas.

Aposto que Cook deverá ir pela primeira opção, sem sair de sua zona de conforto para não dar com os burros n’água caso alguma novidade ousada demais não funcionar depois do lançamento. Entre o certo e o duvidoso, a Apple optaria pela primeira opção e perderia o posto de empresa líder para assumir o papel de gigante corporativo de vez.

Foi algo que já aconteceu com a Microsoft. A empresa de Bill Gates nunca teve a aura cool da rival de Steve Jobs, mas houve um momento, lá pela metade dos anos 90, que seu ecossistema era onipresente, principalmente quando embutiu seu Internet Explorer no Windows 95 e estrangulou o primeiro browser gráfico da história, o Netscape. Mas à medida em que a internet foi se tornando mais popular, a empresa patinou em suas escolhas, cresceu demais e suas subdivisões pareciam empresas diferentes. Lançou o Xbox como uma tentativa de criar seu próprio hardware, mas acabou segmentando seu público. De um lado ficaram os usuários do Hotmail e do MSN, do outro os da rede Live (que funcionava através do console de games da empresa), sem contar os do Windows Mobile.

Ao mesmo tempo, o Windows foi perdendo a onipresença, o Office foi ficando para trás com os softwares online, o Firefox e, depois, o Chrome fizeram o Explorer perder mais usuários… e a Microsoft foi ficando cada vez menos relevante. Ela foi o equivalente do Google e do Facebook (ao mesmo tempo) da última década do século 20 e passou a década passada inteira tentando dar alguma cartada para garantir seu futuro.

Tentou por duas vezes comprar o Yahoo, sem sucesso. Fez o mesmo com o Facebook e Mark Zuckerberg desdenhou a proposta. Se associou à Nokia para recuperar terreno no mercado de celulares (e até hoje especula-se que a MS pode comprar a empresa finlandesa de vez). Seu único acerto nos últimos anos foi o dispositivo Kinect. Muito pouco para uma empresa tão grande.

E semana passada viu aparecer mais boatos. Que a Microsoft poderia comprar a rede social Yammer pelo mesmo preço que o Facebook pagou no Instagram. Até que jornalistas de tecnologia dos EUA receberam um convite para um evento que acontecerá na tarde desta segunda-feira. Nem o local foi revelado, só iriam anunciar na segunda pela manhã. E as especulações indicavam que a empresa poderia lançar um serviço de música online de peso ou até mesmo seu Windows Tablet.

Será que a última década da Microsoft funcionará como uma parábola da próxima década da Apple?

4:20

E a partir desta segunda-feira, o Link começa a expandir seu território digital também pelo Instagram. Vamos ver como é cobrir cultura digital em uma rede social que privilegia a imagem. Começamos hoje, lá de São Francisco, onde a Apple mostra novidades a partir das 13h. Siga o Link pelo @linkestadao.

Uma recriação dos primeiros anos do videogame que imagino que vai parecer com os tais segundos finais antes da morte de qualquer um da minha geração. E a música é tão boa…

Vi no Tumblr do Link.

Eis a homenagem que o homem-Macanudo fez à passagem do carismático meme russo, nesta segunda-feira.

Minha coluna na edição desta semana do Link foi sobre como desativaram minha conta no Facebook.

O dia em que minha conta do Facebook foi desativada
Estamos às vésperas de um êxodo em massa do Facebookistão?

Sexta passada acordei, li o jornal, tomei café e liguei o computador. Abri meu e-mail e, quando comecei a abrir as abas subsequentes para continuar minha rotina matutina dentro da rede, um aviso a interrompeu: “A sua conta do Facebook foi suspensa”.

Um microssegundo de pânico (“Minhas fotos! Minhas mensagens! Meus contatos!”) foi seguido de um longo segundo de paz (“Imagine não ter que me preocupar mais com o Facebook…”). Enquanto a metade mecânica do meu cérebro abria novas abas para buscar “Como recuperar minha conta no Facebook” em fóruns específicos, a outra, a racional, procurava pelo telefone da assessoria de imprensa da rede social ao mesmo tempo em que eu pensava em você, caro leitor do caderno que edito, que pode passar por uma situação semelhante sem saber a quem recorrer.

Porque nem sequer há um e-mail para quem você possa mandar sua reclamação. O máximo que dá para fazer é acessar a página facebook.com/help e ver o que é que você pode ter feito para ter a conta suspensa. Milhares de perfis do Facebook são suspensos ou bloqueados diariamente pelos motivos mais diversos: os usuários infringem direitos autorais, publicam conteúdo impróprio ou tentam se passar por pessoas que não são. Outra possibilidade de ser defenestrado da rede social – ou ter algumas funções do perfil desabilitadas – é a falta de noção ao usar ferramentas básicas do site. Quem adiciona centenas de amigos no mesmo dia, publica fotos ininterruptamente ou convida desconhecidos para participar de grupos, por exemplo, pode ter desativado o recurso que usou sem parcimônia.

E enquanto tentava descobrir como fazer para minha conta voltar a funcionar (e em todas as dificuldades que alguém que não tenha contato direto com a equipe do site poderia passar), fiquei pensando que este tipo de atitude pode acabar frustrando o usuário casual.

Motivos para deixar o Facebook – como motivos para permanecer lá – não faltam. O site é constantemente acusado de utilizar informações valiosas sobre cada um de nós para transformar-se num negócio bastante lucrativo – isso sem contar as teorias de conspiração que acusam a rede social de ser uma máquina de espionagem governamental. Mas não chegamos àquela fase que aconteceu logo depois do auge do Orkut no Brasil, antes da tal “orkutização”, quando centenas de usuários da primeira rede social do Google resolveram cometer o que foi batizado, à época, de “orkuticídio”.

Mas os números de crescimento do Facebook vêm diminuindo. A rede passou os 800 milhões de cadastrados no final de 2011 e levou quase seis meses para atingir os 900 milhões de usuários que ainda não foram oficializados em comunicado, apenas nas especulações que precederam sua abertura de capital na Nasdaq.

E os casos de contas desativadas, por motivos diferentes, vêm aumentando. E se eu, que me encaixo na categoria hard user da rede social, pensei na possibilidade de uma vida sem Facebook, imagine quem entrou na rede porque os amigos insistiram (“todo mundo está lá!”) ou porque se sentiram por fora, mesmo sem ter intimidade com o meio digital…

Steve Coll, jornalista da revista norte-americana New Yorker, nem precisou passar pelo perrengue que passei para decidir deixar a rede social. No artigo “Deixando o Facebookistão”, ele explica a série de motivos que o fizeram abandonar o site e conta que, ao encontrar o botão escondido que permite desativar a sua conta, foi perguntado sobre os motivos da saída. Não encontrou as alternativas reais que motivaram sua desistência (sugeriu “regras cidadãs inadequadas” e “dúvidas sobre governança corporativa”) e escolheu a que mais se encaixa com sua insatisfação: “Eu não me sinto seguro no Facebook”.

No início da tarde de sexta-feira, uma mensagem chegou ao meu e-mail dizendo que minha conta havia sido desativada “por engano”. Vai entender… Mas não duvide se começarmos a ver, até o fim do ano, um êxodo massivo da maior rede social do mundo.

4:20

E na minha coluna da edição de segunda do Link escrevi sobre a minha rendição ao Instagram.

Um oásis de quietude dentro do oba-oba das redes sociais
Comecei ‘lurker’ e logo passei a fotografar o céu

Me rendi ao Instagram.

Não havia aderido ao aplicativo de fotos pelo simples fato que não tenho iPhone e o aparelho era o único que permitia o uso do aplicativo. Até o mês passado. A versão para o sistema operacional móvel do Google chegou e instalei o programinha no meu telefone para ver como ele funcionava.

A princípio, me comportei apenas como um lurker (no jargão digital, lurker é aquele que só observa e não participa – boa parte dos usuários do Twitter, por exemplo, são lurkers, o que quer dizer que nunca twittaram, se limitando a ler o conteúdo dos outros). Muitos no Instagram também se comportam dessa mesma forma, sem publicar nenhuma foto e, portanto, sem seguidores.

De cara, percebi uma mudança drástica em comparação com outras redes sociais. Por não prezar por textos, os usuários do Instagram se comunicam por fotos. Mas há uma diferença crucial entre a publicação de fotos no Instagram e, por exemplo, no Facebook. Ao permitir apenas fotos – e não vídeos, textos, links e todo tipo de conteúdo que pode ser compartilhado e curtido no Feice –, o Instagram tem um ar zen, que mistura a contemplação com a paciência, o silêncio com a luz.

Por isso ele é bem diferente do oba-oba típico do Facebook. Sim, as pessoas postam fotos de comida, dos próprios animais, de paisagens, dos amigos, mas os ângulos são diferentes e a abordagem, díspar. Quando você sai para jantar com amigos e posta fotos no Facebook, a imagem é quase sempre da mesa cheia, todos sorridentes, olhando para a câmera. No Instagram, o foco vai apenas para o prato. As fotos de festas são difusas, quase impressionistas, ao contrário da eterna coluna social das fotos de festas no Facebook, em que é possível taguear todos os amigos que foram ao evento. Enquanto no Facebook e no Twitter há uma urgência em mostrar o que está acontecendo naquele exato momento, no Instagram, a impressão que temos é que o tempo parou. Para sempre. E sempre num momento lúdico, tranquilo, satisfeito – nada eufórico, corrido ou megalomaníaco como em outras redes sociais.

Por isso, antes de começar a tirar fotos e postá-las no Instagram, me limitava a ver os recortes visuais para a vida de amigos e conhecidos. Empurrando a barra de rolagem para baixo com o polegar, entrava em um oásis de tranquilidade e calma sempre que lembrava de visitá-lo. Como é uma rede que se movimenta basicamente pelo celular, os comentários são poucos e breves, quase sempre no tom contemplativo das fotos. Não há discussões ferrenhas, confrontos de opiniões nem listas intermináveis de bate-bocas entre pessoas que mal se conhecem. Pelo mesmo motivo, não é preciso ficar checando a rede o tempo todo. Tira-se alguns momentos do dia para visitar esta clareira pacífica na selva de informações que a internet se transformou.

Depois de um tempo, comecei a publicar fotos. E entre trechos de livros, rótulos de discos de vinil, imagens tiradas da TV ou de cantos específicos de lugares onde estou, comecei a tirar fotos do céu. Deve ser um dos três principais clichês do Instagram (os outros dois são fotos de comida e de bichos), mas deixei a arrogância de lado e comecei a tirar fotos do céu.

Foi quando percebi uma mudança na minha rotina. Não dirijo, vivo de táxi para cima e para baixo e quase sempre alterno o olhar entre algo dentro do carro (quase sempre o celular, maldito Angry Birds!) ou para a rua, sem atenção. Mas foi só começar a fotografar o céu que me peguei algumas vezes olhando para cima enquanto o taxista me levava rumo ao meu destino.

E semana passada o Facebook anunciou a primeira novidade relacionada ao Instagram após comprá-lo por um bilhão de dólares, ao revelar um aplicativo que permite que se tire fotos com os filtros vintage da outra rede social. Mas o Facebook Camera é mais poluição informativa para uma rede social em polvorosa. A graça do Instagram está em ser um canto de quietude e introspecção longe do desfile de egos e opiniões deformadas que infestam a internet.

A foto que ilustra o post saiu deste disco