Lançamentos

Foto: Leticiah F.

“Na minha perspectiva, antes de chegar na cura tem todo esse processo horrendo de passar pela dor”, me explica por email, a curitibana Katze, que está lançando seu primeiro álbum, Fratura Exposta, nesta quinta-feira, que pode ser ouvido em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. Em algum lugar entre o rap, o trip hop, a música eletrônica, a canção e misticismo, ela surge com um trabalho firme, direto e, por que não, terapêutico. “O disco acaba é mais esse processo do que sobre a cura em si. A cura é o objetivo, mas o caminho é longo e o passo é lento”, ri. “Esse processo abarca minha persistência, quase inevitável, em me quebrar o tempo todo e aí lidar com as in-consequências. E aí o nome do disco vem nesse sentido quase literal: ao expor o que está quebrado, reconheço o que e onde dói e acolho o que sinto. então acredito que reconhecer a dor e seja o primeiro passo pra cura.” E suas canções sussurradas sobre beats introspectivos acabam funcionando como o ambiente para curtir – e superar – a dor.

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Foto: Ariana Lima

“A pista. É pista sempre”, responde, sem piscar, Bárbara Eugenia quando peço para que ela defina a personalidade que finalmente consagra em 2021. Djane Fonda é o pseudônimo que criou para usar em suas discotecagens e que agora transforma-se em uma persona que ela apresenta em primeira mão no Trabalho Sujo, quando mostra seu single de estreia, “Hold Me Now”, que pode ser ouvido abaixo, com toda a glória de sintetizadores marcando linhas de baixo, beats e oscilações artificiais que contrastam com o vocal sussurrado da cantora carioca. “Djane Fonda é uma parte de mim que aparece de vez em quando há anos. Ela aparece quando vou discotecar, aparece quando canto no carnaval, quando crio sons mais experimentais. Animada, curiosa, nostálgica, sem medo de ser feliz. Bem ela.”

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Foto: Meredith Adelaide

“A essa altura, ter razão não me traz alívio algum, não me traz conforto algum”, cantarola, meio que lamentando, Jair Naves em mais um single que lança antes de seu próximo álbum. A melancólica “Vai” composta e tocada por Jair apenas ao violão ainda conta com acréscimos sonoros, como cordas, piano, efeitos, baixo e sintetizadores, mas é uma música essencialmente solitária e, apesar de descrever uma tensão em um relacionamento, também reflete o estranho momento político e social que atravessamos, como é característico de sua lida. Ele antecipou “Vai”, que será lançada nesta sexta nas plataformas digitais, em primeira mão para o Trabalho Sujo, ouça abaixo. É o segundo single que ele lança em 2021, depois de “Todo Meu Empenho“, que lançou em seu aniversário, no início do ano.
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Depois de parir seu Rastilho a partir de um acidente de skate, Kiko Dinucci reencontra a velha prancha ao convidar integrantes do coletivo Velô Skatearte para fazer o clipe de “Febre do Rato”, que ele apresenta em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, bem como conta a história de como o clipe aconteceu. Veja abaixo:

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O plano original da Yma era trazer o sucessor de seu ótimo disco de estreia Par de Olhos ainda em 2020, mas, como aconteceu com todo mundo, ela teve de mudar completamente de ideia. “Durante o ano, fui registrando tudo o que vinha, como vinha, sem peso, julgamento, pretensão ou expectativa, como mero exercício criativo para manter as ideias em movimento”, lembra a cantora e compositora paulistana. Estou começando o processo de ouvir com cuidado esses registros e a partir disso refletir e elaborar, se singles, disco, ou seja lá, o que virá”. Assim, encerra seu 2020 com o single “White Peacock” que, como o single que lançou no meio do ano, “No Aquário”, já estava no repertório dos shows e chega ao público em primeira mão pelo Trabalho Sujo.

Balada oitentista com leve toque psicodélico e o sax mais rasgado que você vai ouvir em 2020, o novo single, parceria da cantora com o amigo Zé Motta, já tem dois anos: “Fiquei extasiada, lia aquele conjunto de palavras e sentia um quê de misticismo. belo e surreal, ao mesmo tempo que me trazia imagens caóticas, de um concreto sujo numa cidade agitada as pessoas apressadas.. certamente me conectei de cara”, aos poucos ela compôs a melodia e juntos foram adaptando as palavras para a nova canção. “Um bom tempo depois, durante um ensaio com a banda, comecei a tocá-la na guitarra e a turma foi entrando na onda. Não demorou muito pra música entrar no repertório do show. no fim, me peguei apaixonada por ela e resolvi gravar.”

As gravações começaram no ano passado, conduzidas por seu produtor e companheiro Fernando Rischbieter. E o solo rasgado que caracteriza a faixa veio logo depois, quando o saxofonista alemão Humphrey Heim viu um de seus shows e se dispôs a colaborar. “E eu que sou perdidamente louca por saxofones, senti uma boa intuição e topei na hora”, lembra Yma. “No dia de gravar com ele ficamos um tempão refletindo sobre a relação entre o pavão do título e o solo de sax e fomos fundo – de repente ele estava ali, no estúdio, gritando. Era o pavão gritando de dentro dele em forma de solo de sax. Nunca fiquei tão arrepiada numa gravação.”

Ela comenta sobre os singles que lançou esse ano e sua relação com o próximo álbum. “Esses dois singles são experiências isoladas – e apesar de haver entre elas uma certa relação com a fase Par de Olhos, por terem estado presentes nos shows -, acho que já começam a apontar, de leve, para esses novos lugares. então certamente é um período de transição.” O disco, no entanto, ainda é um mistério: “Esse ano foi completamente atípico e assombroso, pra mim e talvez para toda humanidade. Criar, experimentar música e arte, pelo menos da maneira que eu conhecia, não pôde ser uma prioridade. A meta era manter a mente sã e imunidade lá em cima.”

Ela se aprofunda sobre sua relação com o isolamento social deste ano. “No primeiro semestre eu só enlouqueci, tive uma dificuldade imensa de me conectar com a realidade, no sentido mais literal possível. Acordava e todos os dias não estava ali. Estava fora. Fora do corpo e da mente. O medo dominava meus pensamentos. Cresci ouvindo meu pai falar em previsões catastróficas, das mais diversas linhas místicas, então meu imaginário de fim de mundo é aquele bem clichê do cinema sensacionalista, onde tudo acontece ao mesmo tempo; pandemias, o mar engolindo tudo, mercados vazios, alienígenas, crise hídrica, podres poderes, guerra civis.. Pera, agora, escrevendo assim, aos poucos, os filmes não parecem mais tão distantes, né?”, ri desesperada.

“Por acaso, fiquei uns dias sozinha em casa. Ter ficado sozinha foi crucial pra conseguir me reconectar. não apenas sozinha, mas em silêncio. Nua com aqueles pensamentos todos. Comecei primeiro a provocá-los, indagá-los e por fim aceitá-los. Acho que foi um movimento que quebrou com os padrões que eu havia criado. Depois foi tudo voltando pro lugar. Não existe fórmula, mas foi o caminho que encontrei – e assim sigo, tentando enfrentar os medos, sempre sonhando com solos de sax.” “White Peacock” está disponível nas plataformas digitais nesta sexta e terá clipe no ano que vem.

A jovem banda paulistana Crime Caqui planejava lançar seu primeiro disco de estreia em 2020, mas foi inevitavelmente abalroada pelos imprevistos desse ano, que forçou as quatro instrumentistas a tocar seus trabalhos em outro ritmo. “Obviamente, tínhamos alguns planos e ideias pra essa música que acabaram mudando drasticamente quando estourou a pandemia”, explica a vocalista e baixista Yolanda Oliveira. A guitarrista Larissa Lobo completa: “Por conta do distanciamento físico, esse ano não conseguimos iniciar a gravação do nosso primeiro disco, mas tivemos esse tempo para definir melhor o projeto.” Nesse meio-tempo, lançaram algumas músicas, alguns clipes e agora encerram seu 2020 com a gravação de sua música mais épica, a intensa “Naufragar”, que ganha um improvável clipe caseiro e artesanal, que estreia em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Sentimos a necessidade de registrar o nosso estado de espírito através de gravações feitas por nós mesmas de cenas do nosso cotidiano no decorrer dos dias”, prossegue Yolanda, “decidimos que o clipe seguiria nessa linha, achamos que poderia surgir uma conexão interessante já que a canção não tem nada a ver com esse assunto. As imagens foram gravadas no decorrer desse ano – desde junho até uns dias atrás, quando fizemos as últimas captações pra compor a montagem – enquanto isso a música ia sendo finalizada. Se tornou uma espécie de diário sensorial que relata a nossa percepção do ano de 2020. Também, assim como o ano está se encerrando, esse single é o último da leva e encerra um ciclo para nós.”

A guitarrista May Manão continua. “Idealizamos o clipe já pensando na situação atual de pandemia pois era e ainda é nossa realidade durante a pós-produção da música. Filmamos a nós mesmas trazendo uma interpretação individual da música e relacionando com nossas vivências no confinamento e a nova percepção dos espaços das nossas casas.”

“Esse ano aconteceu num ritmo diferente né, nossos planos e encontros foram interrompidos e o que era pra ter sido começado, foi adiado”, conclui Larissa. “Mas foi importante também porque conseguimos fazer e criar outras coisas e além de amadurecer algumas ideias. Em outubro a gente se reuniu brevemente e gravamos um material novo, com músicas inéditas, que deve ser apresentado no início do ano. Vai ser bem chique! Também tivemos esse tempo para definir melhor o projeto e é praticamente certo que faremos algo no esquema de financiamento coletivo. Então aguardem a nossa chamada!”

Foto: Manuela Eichner

Foto: Manuela Eichner

Depois de ajudar Criolo a parir seu Nó na Oreia, dar um chão ao Metá Metá com seu baixo implacável e condensar seu lirismo em canções intimistas (em seu primeiro álbum solo Motor), Marcelo Cabral aproveitou a quarentena para enveredar pela música eletrônica. “Já faz um tempo que tenho usado o Protools como laboratório de ideias e me dei conta que estava sempre fuçando o sintetizador, sampleando e picotando tudo, mas sem fazer qualquer triagem disso, às vezes só pelo exercício de dichavar os tutorias ou só apertando e girando todos os botões possíveis pra ver onde iria dar, mas sem pensar exatamente num disco”, lembra. O canal para seu segundo disco, Naunyn, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (e que ele antecipa mostrando a faixa “Mariannen” em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“O sintetizador te dá todas as ferramentas. Dependendo de como você mexe num timbre, uma nota pode virar uma caixa, um chimbal ou bumbo e etc, além do banco de timbres melódicos que já vem nele. Teve um momento que comecei a curtir muito não samplear nada e criar tudo só no synth e fiz algumas assim, que ainda estão na incubadora. A música eletrônica é uma música inventiva, uma linguagem, não é apenas a intenção de querer soar e imitar um instrumento, é um som novo, um novo instrumento e com isso te leva a outros lugares e possibilidades. Curto demais isso desde sempre, é um outro tipo de transe e profundidade que os sons sintéticos chegam, que sempre me pegou muito. Tava tudo guardado só esperando a hora e por qual canal sair”, pondera.

O ponto de partida foi um sintetizador específico, que Cabral relembra seus primeiros contatos. “Por algum motivo eu já estava fuçando o OP-1 pela internet a um tempo e quando gravei em 2019 no estúdio do Bruno Buarque e dei de cara com ele ao vivo. Ele me ofereceu para fazer um test drive caseiro por uns dias. Não peguei no dia, mas isso ficou coçando isso até o começo de 2020, quando enlouqueci completamente, igual criança com brinquedo novo. Não fiz mais nada durante dias e só expremendo ele de todos os lados e vendo tutorias no Youtube, e logo veio aquela voz ‘vai salvando que tem assunto ae’, e quando vi já tinha uns 4 ou 5 esqueletos que eu tava curtindo e fiquei alimentando cada um e notei que poderia sair um disco dali”, remonta o baixista.

O disco é influenciado diretamente pela estada do baixista em Berlim, na Alemanha, onde passou um ano e meio entre 2018 e 2019. “Primeiro teve a paixão pelos sons sintéticos que curto desde sempre, mesmo bem antes de pensar em ser músico, eles já estavam presentes em muita coisa que ouvia desde muleque”, conta. “Mas sem dúvida foi a experiência dos clubs e festivais de Berlim somado as pesquisas que fiquei fazendo por lá que bateu essa instiga mesmo. Quando caiu o OP-1 na mão, foi só deixar fluir tudo isso e arrematando os cantos.”

O nome do disco vem da rua em que morava com sua companheira, a designer Manuela Eichner, durante essa estada. “É uma rua de três quadras bem no meio de Kreuzberg, tipo paralela à Augusta deles, de maioria turca e bem tranquila em meio a dois rios, Landwehr Canal e Spree, e a uma quadra do Görlizter Park e com clubs de todos tamanhos e estilos pra todos os lados. Fui muito também na Hard Wax, que ficava a duas quadras do nosso apê pra pesquisar e ficar ouvindo e fazendo cara de que ia comprar e não comprava nada, só com o Shazam ligado e anotando os sons”, lembra, rindo.

Pergunto sobre o inevitável impacto da quarentena nesta produção e Cabral reflete: “Tem uma viagem diferente e profunda em fazer um disco absolutamente sozinho, sem nem perceber emendava a tarde com noite e a noite com a madrugada, só com o fone e totalmente imerso no som, sem ninguém pra conversar, no lockdown entre março e maio, ou dispersar.”

E quando comento sobre a sonoridade oitentista do disco, que traz elementos de pós-punk, new wave e hip hop daquele período, Cabral concorda. “Não é consciente no sentido de querer fazer pra que soe de tal forma ou pertença a algo, mas no sentido ter conhecimento e vivência nestes três estilos que você citou e mais alguns se somaram. São sons que eu trago naturalmente dentro de mim da minha infância e adolescência toda andando e competindo de skate. Era o boom do pós-punk e new wave e também o começo do rap, era só o que eu ouvia, junto com punk e o hardcore. Fiquei também ouvindo e conhecendo mais do mundo techno, tanto de Detroit como do resto do mundo, mas principalmente de Berlim, além do universo do Richie Hawtin e seus projetos – Plastikman e F.U.S.E. – que já é um cara que deu uma mexida em tudo isso.”

Cabral não pensa em fazer shows com esse trabalho e vê esse disco funcionando melhor na mão de DJs. “Talvez este isolamento me traga alguma idéia de como levá-lo para o palco”, cogita, “o Motor também teve isso, eu não me via fazendo um show e cantando e depois achei este caminho que estava adorando e que espero ansiosamente voltar, então todas as possibilidades estão em aberto.”

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“Sou cobrada há anos pelo pessoal que acompanha meus lançamentos para disponibilizar também essas gravações antigas”, me explica Lulina por email, sobre a caixa de músicas que começa a lançar nesta sexta-feira 13 (claro) em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Já prometi tantas vezes organizar isso, que tenho até vergonha de só lançar agora.” A “caixa” é digital, chama-se Pequena Coletânea de Gravações Caseiras e vem no formato playlist no YouTube, que ela torna pública no final desta sexta-feira, e que é praticamente seu próprio Arquivo X.


“Adelaide”, do disco inédito Brebotes

Quem conhece o trabalho da cantora e compositora pernambucana a partir de sua discografia inicial, iniciada com o ótimo Cristalina, que completou dez anos no ano passado, sabe só de metade da história, que ela começa a mostrar para o grande público vinte anos depois de ter começado a gravar. Antes de mudar-se para São Paulo, Lulina era quase um segredo do então jovem indie brasileiro, lançando discos compulsivamente em CD-Rs artesanais que mandava pelo correio. Fazia as capas à mão, desenhadas, que acabavam traduzindo o espírito caseiro das gravações e das letras, que falavam de paixões, alienígenas, uma saudável (pelo menos para mim) obsessão pelo número 13 e de fatos que iam acontecendo em sua vida, de diagnósticos médicos, piadas internas e


“Birigui”, do álbum Abduzida, de 2003

“A ideia de uma coletânea surgiu da minha falta de organização: como tem algumas músicas que estão perdidas e capas com resolução baixa, achei mais fácil fazer uma seleção, aproveitando a imagem de um flyer divertido que o Binho Miranda tinha feito para um show meu. E claro que passar mais tempo em casa também me fez ter vontade de visitar e celebrar essas produções caseiras.” Não me culpo de assumir que era um dos que mais pilhava a artista para retomar essa parte de sua discografia.

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“O que você estiver vendo a nuvem forma agora”, do disco Bolhas na Pleura (2004)

Ela começa a mostrar estas músicas pelo seu canal no YouTube. “Essa coletânea não chega a revelar tanta coisa assim de cada disco caseiro, é um passeio relâmpago, que tenta mostrar a diversidade de gravações e temas, indo de músicas mais zoeiras – muitas feitas entre cervejas e amigos em chãos de apartamentos – até as mais significativas para mim, feitas em momentos difíceis como a perda repentina da minha vó.”


“Tangerine girl”, do álbum Abduzida (2003)

Quando pergunto se ela vai lançar alguma coisa inédita, ela já responde de cara: “Tu acabou de me dar uma ideia. Essas primeiras 33 que selecionei aqui são de discos caseiros já lançados. Mas tenho muita gravação caseira antiga que não foi lançada, que faria parte do disco ‘Brebotes’ que nunca chegamos a lançar, então pode ser uma boa resgatar essas antiguidades e jogar como velhas novidades na coletânea também. O legal desse formato de playlist no Youtube é que fica uma coletânea viva, vez por outra vou adicionando coisa lá e quem estiver me seguindo vai ser notificado.”


“Chico”, do álbum Aceitação do 14 (2008)

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Quando a pergunto sobre essa volta ao próprio passado, ela viaja: “É sempre muito estranho, porque é literalmente a trilha sonora da minha vida. Morro de rir ouvindo as gravações do disco Abduzida, de 2003, por exemplo, porque era tudo muito espontâneo e novo, era o meu primeiro ano em São Paulo e tudo era motivo para apertar o REC. Já o disco Sangue de ET, de 2005, eu não consigo ouvir sem chorar. Lembro de estar sozinha no meu quarto gravando tudo e a tristeza daquele período transparece na minha voz.”


“Fuga pelo miojo”, do disco Aos 28 anos dei reset na minha vida (2008)

Inevitável perguntar sobre a quarentena, mas ela saca uma surpresa da cartola: “Para minha surpresa, tive a inspiração de compor muitas músicas sobre uma temática que não costumo visitar tanto: o amor. Junto com meu amigo Hurso Ambrifi, vou lançar em breve um disco – já tá pronto – que gravamos em trocas de emails e áudios de celular nessa quarentena, numa tentativa de realizar uma promessa antiga, que surgiu lá em 2016: a de compor e produzir canções inspiradas em um estilo que compartilhamos certa afeição, que é o city pop. E dessa mistura surgiram 11 músicas sobre a temática amorosa e um disco/artista novo, que chamaremos de Hursolina.”


“Clausura da Rima”, do álbum Translúcida (2006)

E não é só isso: “Além disso, também penso talvez em gravar no futuro um disco novo a partir dessa coletânea de gravações caseiras”, divaga. “Meu primeiro disco de estúdio, o Cristalina, de 2009, é uma coletânea das gravações caseiras dos meus primeiros anos compondo. Então, de repente lanço um Cristalina II, ou melhor, um Opaca, caso algumas dessas músicas se destaquem no meu Youtube.” Como não amá-la?

Foto: Thany Sanches.

Foto: Thany Sanches.

Quando assisti Luna França apresentar-se como uma das convidadas da temporada que Rafael Castro fez no Centro da Terra, no longínquo mês de setembro de 2017, ela mostrava, pela primeira vez em público, suas próprias canções. Quem esteve nesta noite foi fisgado instantaneamente pelas deliciosas crônicas que apresentava cantando, bem como por sua doce voz e sua presença de palco. Desde então venho acompanhando sua evolução como artista, embora ela tenha acontecido quase como uma metamorfose, uma vez que raramente apresentou-se ao vivo com seu próprio nome (embora seguisse tocando com outros artistas, como Tiê, Papisa, Bruno Bruni e o próprio Rafael). Fechada em seu estúdio-casulo (uma edícula na Vila Anglo, em São Paulo, onde morou até o início do ano), cutuquei-a várias vezes para ver se ela não queria mostrar o disco que vinha gravando antes de lançá-lo, em uma data única no mesmo teatro, mas ela sempre dizia que ainda não era a hora. Agora chegou a hora e ela começa a mostrar seu primeiro álbum no fim deste estranho ano de 2020, quando ela apresenta em primeira mão para o Trabalho Sujo o clipe do primeiro single, “Minha Cabeça”.

“Acho que a decisão de lançar ‘Minha Cabeça’ como primeiro single teve muito a ver com o momento de pandemia e isolamento social que estamos passando”, ela me explica por email. “Apesar de não ter sido composta para esse momento, acredito que ela reflete bem a sensação que eu e muitas pessoas tivemos de claustrofobia e ansiedade. Para muitos, esse tem sido um momento de olhar para dentro e lidar com partes de nós mesmos que nos assusta, mas que estão lá. E a música fala dessa busca por uma saída e o encontro consigo mesmo.”

“Além disso, ‘Minha Cabeça’ foi minha primeira composição e uma das últimas músicas a entrar no disco. Quando ela ficou pronta eu pensei: ‘Quero que ela seja a primeira a ser lançada!'”, ela prossegue. “Apesar do disco ter canções bem diferentes entre si, creio que o fio condutor de todas elas está nas letras bem pessoais, simples e sinceras, sem muitos floreios, apenas o pensamento ou sentimento do momento retratado na canção.”

Produzido e arranjado por ela e por André Whoong, o disco será o segundo lançamento do selo Cena, do jornalista Lúcio Ribeiro e tem previsão de lançamento apenas para o ano que vem. A suave e hipnótica “Minha Cabeça” é apenas um teaser do disco que, originalmente, sairia em 2020. “Quando a pandemia começou, decidi parar um pouco e entender o momento antes de tomar uma decisão de lançar. Quando percebi que as coisas demorariam a voltar da forma que eram – se voltarem -, resolvi pensar no lançamento, pois sentia que já estava com isso guardado para mim há bastante tempo.”

“Criei e gravei muitas das ideias de arranjo sozinha na minha casa. Essas ideias eu levava para o André e a gente lapidava juntos e somava com a ideias dele”, explica, lembrando o processo que começou há dois anos, quando ela só queria mostrar as músicas para Whoong, que acabou se empolgando com as canções. “Criei vários dos arranjos em minha própria casa, principalmente os arranjos vocais, presentes em todo o disco, além de synths e beats. Como eu sempre fui uma pessoa apaixonada por voz e arranjos vocais, acredito que isso virou uma marca que conecta todas as músicas.” Ela deve lançar um novo single no início de 2021, este com uma participação especial – que prefere não revelar ainda, bem como o título do disco: “Sou libriane, vai que muda!”, ri.

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Kassin e Frank Jorge, dois pilares do rock independente dos anos 90 que se tornaram referências musicais nas respectivas cenas de suas cidades, já se conheciam há tempos. “Eu conheci o Frank assistindo ao Graforreia Xilarmônica no festival SuperDemo, se eu nao me engano em 1992”, o produtor carioca puxa pela memória. O gaúcho complementa: “Fui conhecer conhecer mesmo foi quando o Kassin e o Berna produziram o disco da Graforreia Xilarmônica Ao Vivo, lançado pela Senhor F Discos, gravado em Porto Alegre num bar chamado Manara, que não existe mais nem a edificação, inclusive, e foi lançado em 2006”, lembra Frank sem precisar a data do show.

Os dois se reencontraram em 2020 para começar a trabalhar num disco em dupla, mas o coronavírus obrigou a mudança de planos. “Inicialmente haveria encontro no disco , eu iria a Porto Alegre e Frank viria ao Rio , eu pensava em um disco mais tocado com sintetizadores e baterias eletrônicas e acústicas juntas quando vimos que isso não seria possível resolvi fazer tudo programado”, lembra Kassin. “Inicialmente, seria uma fusão de composições autorais inéditas ao estilo de músicas bregas brasileiras com rock internacional da mesma época, tipo bandas do CBGBs…”, lembra Frank, “mas o rumo que foi tomando as composições e produções a partir das guias mostrou um universo diferente, mais rico ainda, bem brasileiro, bem diversificado, com bastante programações de bateria eletrônica, baixos synth ou ‘tocados no dedão’, arranjos maravilhosos do Kassin para sopros, enfim… Um álbum muito único que me deu muito prazer em fazer.”

Ainda sem data de lançamento precisa – os dois falam no começo de 2021 -, o disco Nunca Fomos Tão Lindos começa a ser mostrado esta semana, quando o single “O Que Vou Postar Aqui” chega às plataformas digitais na sexta, mas os dois antecipam a faixa, que mistura as melodias básicas de Frank à fissura de Kassin por música eletrônica avançada, ao mostrar o clipe primeiro aqui no Trabalho Sujo. “É uma canção tipicamente ‘frankeana’, composta com certo DNA do velho e famigerado iê-iê-iê que existe incrustrado em mim – e adoro!”, descreve Frank. “Mas a liberdade de criação foi o princípio básico do trabalho e o que o Kassin trouxe de contribuições foi sempre surpreendente; apontou para direções muito diferentes em termos rítmicos, soluções harmônicas bacanas e de bom gosto. Um resultado final bem diferente dos respectivos trabalhos solos, e em alguma medida, modestamente falando, muito único, muito raro”. Kassin reforça que a faixa é uma boa introdução ao disco: “O disco vai pra muitos lados sonoramente, mas dá pra entender o que esperar do álbum.”

Frank detalha como foi a criação do disco: “Fiz uma guia inicial em fevereiro deste ano com violão, baixo, teclado, guitarra, vozes, para 14 músicas com o Beto Silva no Estúdio Marquise 51. Tiveram umas dinâmicas de deixar algumas de lado e inserir outras no decorrer do processo, de abril em diante. Em síntese, dez composições do álbum foram escritas entre novembro e fevereiro e duas já existiam no meu repertório próprio, não lançadas. Kassin produziu as gravações via software Zoom a partir do seu estúdio ou sua casa no Rio de Janeiro. Beto e eu em Porto Alegre no estúdio Marquise 51, gravando a partir das orientações do Kassin. Trocamos vários telefonemas e algumas vídeo chamadas para discutir as músicas, buscar soluções, cortes… Fluiu tudo de modo muito legal, cooperativo, colaborativo. Conversamos bastante sobre música em geral. Celly Campelo, High Llamas, Paulo Sérgio, Jackson 5, documentários sobre música, etc. Tudo isto impactou no resultado e no astral geral do álbum. ”

Cada um segue seus projetos individuais. Enquanto Kassin prepara mais um disco solo, Frank segue dando aula de Produção Fonográfica na universidade Unisinos, em Porto Alegre “e compondo canções em espanhol; lendo Jonathan Franzen, Henry Jenkins, jornal e revistas Bizz antigas; sempre ouvindo muita música; assistindo seriado sobre o Império Romano”, conclui.