Entrevista

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Acompanho o trabalho da Renata Simões bem antes de nos tornarmos amigos e sempre fui fã de sua curiosidade cara-de-pau, que descobre histórias nos intervalos das gravações, puxa personagens improváveis para assuntos pouco óbvios ou simplesmente aponta pessoas que estão fazendo diferença, sempre experimentando linguagem, tom e abordagem num meio tão engessado como a televisão. Do Vídeo-Show ao Urbano, passando por seu documentário e agora as reportagens no Metrópolis, ela mistura jornalismo, entretenimento e crônica de um jeito em que tanto ela, o espectador e o entrevistado se sintam bem à vontade. E como ela é comadre, o papo nunca termina…

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Vladimir Cunha é o melhor narrador que você pode encontrar para o que acontece na principal capital do norte do Brasil. O jornalista e diretor paraense atravessou três décadas acompanhando de perto as transformações culturais de Belém, tanto como agente cultural como registrando tudo que acontecia – das aparelhagens à volta da guitarrada, do tecnobrega à criação de uma cena independente única no país. Além de fissurado por teorias da conspiração e pela cultura da internet, Vlad também é um grande broder e ótimo contador de causos, o que tornou esta a edição mais extensa do Bom Saber até hoje.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo. Além do Vlad, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, GG Albuquerque, Matias Maxx, Ana Frango Elétrico, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Pablo Miyazawa, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo ou lá no meu canal no YouTube.

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Dos grandes nomes do jornalismo cultural deste século, o pernambucano GG Albuquerque sempre misturou crítica musical, reportagem e edição, aos poucos afunilando sua produção ao redor da cultura periférica, primeiro de sua cidade-natal, e depois para o resto do Brasil. Dono dos blogs O Volume Morto e do podcast Embrazado, ele está prestes a dar um importante passo em sua carreira, ao liderar um portal de notícias batizado a partir de seu podcast, que, por sua vez já foi uma festa. E na semana em que ele sobe um degrau considerável em sua biografia, o chamo para conversar sobre música, jornalismo, vanguarda e o Brasil em 2020.

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“O festival online veio pra ficar mesmo e mesmo depois da pandemia a gente cogita continuar com ele também assim”, explica Marcelo Aliche, diretor da edição brasileira do In-Edit, o já tradicional festival de documentários sobre música que acontece em São Paulo há doze anos. Ele é enfático ao dizer que nunca cogitou não fazer o festival e que viu o momento crítico que vivemos como a oportunidade perfeita para transformar-se em um evento digital, inclusive antes das outras versões do festival ao redor do mundo, inclusive a matriz, em Barcelona. “A gente conseguiu realocar recursos que pagariam passagens, hotéis, tráfego de cópias, monitores na sala, festa e tudo isso para a plataforma digital”, conclui.

A partir deste novo formato, o festival segue para além do evento. “Depois do dia 20 a plataforma continua online, os filmes do festivais saem e entra um catálogo próprio, com filmes que estiveram em outros In-Edit e outros mais antigos”, continua Aliche, “o que a gente quer é que seja o maior portal de documentários do Brasil e que seja um lugar de pesquisa, mais do que de entretenimento”.

Entre os destaque, da edição Aliche listou o noruruguês The Men’s Room, Welcome to the Dark Ages, sobre a dupla de provocadores KLF, The Quiet One, sobre o baixista original dos Rolling Stones Bill Wyman, e White Riot, que abriu a edição do festival na última quarta, sobre o movimento antifascista que culminou em festivais de rock na Inglaterra no início dos anos 80 – ele deu mais detalhes sobre cada um dos filmes no CliMatias da quinta passada. E também descolou códigos promocionais para os leitores do Trabalho Sujo assistirem a dez filmes de graça. Quem quiser saber como ganhar, manda um alô lá no trabalhosujoporemail@gmail.com. A programação completa e mais detalhes sobre o festival podem ser encontrados no site do evento, onde estão sendo exibidos os filmes também.

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Um dos principais repórteres do Brasil atualmente, Matias Maxx é também um dínamo de produção contracultural e um ímã de malucos e histórias hilárias. Encerrando um ciclo com a quarentena, quando fechou as portas da lendária La Cucaracha, a primeira head shop do Rio de Janeiro, ele refaz sua trajetória desde os primórdios da web no século passado, passando pelo seu apreço pela América Latina, suas conexões com o submundo do quadrinho brasileiro e suas coberturas de guerrilha dos protestos da década passada – entre várias reflexões sobre jornalismo, cultura e seus próximos projetos.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo. Além do Matias, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, Ana Frango Elétrico, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Pablo Miyazawa, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

Foto: Thalita Silva

Foto: Thalita Silva

No próximo dia 6, a dupla Guaxe, formada por Dinho Almeida dos Boogarins e o ex-supercordas Bonifrate, comemora um ano do lançamento de seu primeiro disco, época em que pretendiam já ter feito alguns shows, ainda inéditos, não fosse a pandemia e a quarentena. “Na virada do ano nós estávamos planejando começar a fazer uns shows, o Dinho esteve aqui em Paraty algumas vezes pra ensaiarmos e a coisa vinha ganhando corpo, vinha ficando bem bonita”, lembra Bonifrate. “Pretendíamos lançar o clipe da faixa ‘O Desafio do Guaxe’ logo antes de começar os shows. Daí veio o caos e a Guaxe ao vivo ficou pra sabe-se lá quando”, lamenta, enquanto aproveita o aniversário do lançamento do disco para mostrar o clipe dirigido por Raissa Nosralla e Giuliano Gerbasi em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Eles são irmãos extremamente talentosos nas arte do cinema e da fotografia”, continua Pedro, frisando que Raissa também estrela o clipe (bem como o pássaro que batiza a dupla e que aparece na última cena). “Já sou amigo do Giuliano há tempos, ele registrou todo o processo de gravação do último disco dos Supercordas em 2015 num filme que está finalmente pronto e prestes a ser estreado. Raissa também esteve nas gravações e fez umas belas fotos pra gente. Eles mandaram o vídeo de ‘Desafio do Guaxe’ já pronto e foi uma belíssima surpresa.”

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Quem vê o sorriso e o carisma de Pablo Miyazawa não faz ideia de que, além de um dos principais nomes da história do jornalismo que cobre videogames no Brasil e de ter ajudado a criar a versão brasileira da Rolling Stone, ele é um dos principais jornalistas que cobre cultura pop no país. Conheço-o há quase vinte anos e pude acompanhar sua ascensão de perto, feliz de ver que, mesmo com sua importância, ele não perde suas principais qualidades: a transparência, a humildade, a vontade de aprender e a curiosidade sobre quaisquer novidades que aparecerem. Chamei-o para falar de sua trajetória e puxar uma discussão sobre cultura e jornalismo que, pelo jeito, vai longe.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além do Pablo, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, Ana Frango Elétrico, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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“Pra mim é tipo o nosso Incesticide, eu inclusive quis chamar de AustIncesticide”, ri o guitarrista Benke Ferraz sobre o recém-lançado disco de sobras que não entraram em seus dois discos mais recentes, Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida, ambos compostos e gravados em uma casa em Austin, no Texas, nas três temporadas entre 2016 e 2018 quando o grupo goiano passou pelos Estados Unidos nos anos passados. A referência à coletânea de músicas soltas que o Nirvana tinha espalhadas e que foram reunidas após o sucesso de Nevermind não faz jus à Manchaca – Volume 1, que ao mesmo tempo em que reúne sobras, demos, ensaios e versões cruas de músicas dos dois discos (além de outras pérolas, como a versão “João 3 Filhos” que Dinho mandou para Ava Rocha eternizar em seu Transa), reforça a importância do período nos EUA para o amadurecimento do grupo como banda. O disco tem esse título tanto porque a casa em que moravam e ensaiavam nos EUA ficava numa rua que tinha este nome (que quer dizer “atrás de” em um idioma nativo norte-americano) e acaba sintetizando uma era na história da banda, principalmente porque esta era foi encerrada abruptamente pela atual pandemia. E não é volume 1 à toa, o guitarrista promete que o 2 sai até novembro. Bati um papo com Benke sobre como esse novo trabalho reflete a maturidade da banda e a importância destes dois discos – e deste material que está vindo à tona agora, que mistura jam sesions, demos, versões caseiras e outtakes.

Quando vocês pensaram em transformar esse material num disco só? Foi antes ou depois da quarentena?
Bem antes. Na verdade estamos devendo o Manchaca desde o natal para o fãs que nos acompanham assiduamente.
Queríamos lançar exclusivo no Bandcamp, sem mexer muito no que estava largado dessas sobras. Só soltar mesmo uma parte daquele material, não queria nem masterizar. Mas quando apresentamos essa primeira versão para o selo OAR, eles sentiram que valia a pena dar um tempo pra aparar algumas arestas e também lançar oficialmente nas plataformas – tinha ficado para abril a princípio, antecipando a turnê que faríamos em maio pela Europa. Nesse tempo fomos melhorando a mix de algumas músicas – e também cavando mais fundo nos arquivos perdidos ali nos HDs, perdendo o pudor de usar algumas canções que julgávamos fazer parte de um próximo disco de estúdio. Enfim, a idéia vem de antes, mas tomou essa forma de arrematar a narrativa dos anos de gravação no Texas com o passar da quarentena.

Vocês lembram por que escolheram essa casa como lugar para ficar em Austin?
Foi tudo um esquema meio clássico de produção, onde não decidimos muito detalhes, só tentamos arquitetar o cenário ideal para produzir algo em meio as turnês longas que teríamos pelos EUA. Um dos sócios da OAR, o selo que lançou todos discos dessa “era Manchaca”, é dono do Space, estúdio onde gravamos em 2017 e 2018 e essa casa ficava ao lado do estúdio, estava recém desabitada e era perfeita. A idéia era usarmos o estúdio nessa primeira ida em 2016, mas acabamos preferindo montar os equipamentos que havíamos alugado pela casa mesmo e mal fomos ao estúdio.

Manchaca só reforça que Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida são parte de um mesmo processo e período. Conte como vocês chegaram a essa sonoridade e como vocês dividiram entre esses dois discos?
Antes mesmo de pensar no processo e no que estávamos vivendo naquele momento, tem o fato de que com as gravações na Manchaca temos os primeiros registros do Ynaiã em estúdio conosco, depois de quase dois anos de estrada, começando em 2016 por esse processo caseiro, onde eu fazia toda engenharia e produzia as sessões. Algumas canções já tinham arranjos com banda, mas a maioria estava pra ser arranjada ali na casa mesmo – então o ritmo era bem espaçado e disperso… Não havia aquela rotina que o prazo de um estúdio te impõe. Gravávamos as guias com um violão ou guitarra, Ynaiã improvisava pelas músicas, eu buscaria ali os loops de bateria legais. Pras canções que pediam mais essa liga de banda poderia rolar deles gravarem juntos, acho que “Foimal” “Corredor Polonês” rolou a base toda com Dinho, Fefel e Yna, mas eu mesmo não acho que cheguei a tocar um take ao vivo ali na casa, só nos improvisos mesmo (como “ASMR Manchaca”).
Ai no ano seguinte, fomos para o SXSW pela segunda vez, e depois do festival – ou antes, hehe – passamos duas semanas no Space, ensaiando de segunda a quinta e gravando de sexta a domingo. Ali estávamos em um estúdio profissional, com um engenheiro profissional, Tim Gerron, que elevou bastante o nível da captação e também abriu as possibilidades pra explorarmos o que desenvolvemos ali na casa, mas dessa vez com todos focados em tocar simplesmente. O processo de lapidar os arranjos, com um engenheiro competente do outro lado da sala, fez a gente poder ter um registro da banda tocando de maneira livre e com uma potência. Sem nos limitar também a ter que trabalhar só com o que foi feito ao vivo, ele podia editar e rearranjar questões estruturais das canções conosco, sem afetar ali as sonoridades orgânicas, uma vez que as performances estavam bem gravadas e tocadas.

Manchaca também revela o processo de criação das músicas, mas vocês veem como um making of, um extra dos dois discos, ou ele é mais do que só uma coletânea?
Com Manchaca percebi que gostamos mesmo de nos esquivar dessas definições, né… Ao mesmo tempo que acho massa demais poder falar que minha banda tem uma coletânea temática, não uma coletânea qualquer de “greatest hits”, hehe. Inventamos um tema, amarramos os pontos e jogamos pro mundo. Assim como foi o Lá Vem a Morte, sendo lançado inicialmente como um “EP longo” e depois se firmou naturalmente, reinvidicando um lugar como terceiro disco de estúdio. O mesmo com o Sombrou, que traz com o nome uma provocação meio escapista e também chegou sem saber se era o terceiro ou quarto disco de estúdio.

Ele também retrata o período de consolidação da banda como quarteto. Quanto tempo vocês tocavam por dia? O quanto vocês tocavam e improvisavam e o quanto trabalhavam na pós-produção, outra característica deste período da banda?
O período da casa, como falei antes, foi bem disperso. A gente tava vindo de turnês bem gratificantes, mas muito cansativas – começamos uma turnê abrindo pro Andrew Bird por casas clássicas dos EUA e eu fui pego por algo tipo zika vírus – não fui pro medico la com medo de ser quarentenado – no segundo show da turnê. Tive febres, dores nas juntas e toquei sentado boa parte desse primeiro mês – o Dinho chegou nessa turnê com diagnóstico de um cisto na garganta. Então a coisa toda de ficarmos na casa tinha um ar de “rehab” também, ter a oportunidade de nos recuperar fisicamente depois de, sei la, 60 shows seguidos ali. A convivência entre nós é sempre boa, mas também pegava pesado ali a saudade de casa, aquela depressão potencializada pela maconha transgênica dos gringos, hehe.
Então não consigo dizer exatamente, tinha dias que não faríamos absolutamente nada, até porque comigo guiando o processo de produção as coisas ficavam muito a cargo dessa pós, né… Muitas vezes era abstrato pro Ynaiã o que seria usado daquilo que ele tocava acompanhando uma guitarrinha que Dinho gravou, etc. Mas também havia noites onde fazíamos improvisos infinitos também, gravando três horas de tocada livre. Em uma dessas saiu a faixa “Manchaca” que encerra o Desvio Onírico, a mesma onde Dinho começou a puxar os versos cantando “Sombra ou Dúvida / Sombrou Dúvida”.

O que vocês têm feito neste período de quarentena?
Tentamos manter um contato constante, até porque a manutenção das finanças é bem delicada num período sem shows, mas felizmente tudo se controlado. Venho mixando/produzindo cada vez mais, mas agora com toda essa movimentação para o Manchaca, já estou me sentindo sobrecarregado, hehe. Quanto aos meus sócios: Dinho não para de compor e de criar bons laços pela música, só durante a quarentena saiu parcerias dele com Tagore, Betina, Kalouv, capaz que esqueci alguma. Fefel vai lançar um disco top com a Alejandra Luciani, num projeto fresquinho ai, chamado Carabobina e o Ynaiã acabou de se mudar pro Rio, voltando pra perto da família e estando mais próximo de conseguir alguma boquinha ali no Projac, pode ser que comece a tocar com a Iza também.

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Autora do melhor disco brasileiro de 2019, a carioca Ana Frango Elétrico está só começando – e com dois discos festejados, um livro no forno e uma reputação em construção, tanto no Brasil quanto no exterior, ela começa a repensar os próximos passos da carreira, depois de um período de reclusão criativa no início da quarentena. Aproveitei a deixa para conversar com ela sobre processo criativo, sobre assumir as produções de seus trabalhos e sobre como foram estes primeiros anos de sua carreira, como foco maior no sensacional Little Electric Chicken Heart, que agora está virando vinil. E ela aproveita para falar de novidades que vêm por aí – e mais rápido do que a gente possa pensar.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além da Ana, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Um Sonic Youth aqui, um Belchior ali, um Plato Dvorak com Frank Jorge acolá, um Alceu Valença mais adiante… A disparidade de autores reunidos no primeiro disco de versões lançado por Pedro Bonifrate nesta quinta-feira dissipa-se quando enfileirados na ótima surpresa que é este Diversionismo: versões & fantasias (2004-2020). “Volta e meia pensava em juntar essas versões que fiz por aí e que achei que ficaram legais, inventivas em relação às gravações originais, num álbum só pra elas”, me explica por email, falando de um disco que inevitavelmente soa folk e psicodélico, derretido e solar como a maioria de seus trabalhos, seja em carreira solo, seja à frente do falecido grupo Supercordas.

“Engraçado é que a maioria dessas versões foram encomendadas pra tributos de artistas que certamente não seriam meus primeiros escolhidos se eu fosse pensar em que versões fazer por mim mesmo”, continua quando pergunto sobre as músicas escolhidas para o disco. “Por exemplo, eu acho que se ouvi um disco inteiro do The Fall foi uma ou duas vezes no máximo”, Bonifrate lembra da versão que fez para o tributo ao grupo inglês de Mark E. Smith, proposto pelo dono do selo Midsummer Madness, Rodrigo Lariú. “Ele me passou algumas sugestões e “Psykick Dancehall” me chamou atenção pela letra que achei muito bonita, então foi quase como musicar uma poesia”. Bonifrate também lembra desta maravilhosa versão, que soa como um encontro de Neil Young com George Harrison, como marco para definir o rumo deste disco. “Eu realmente gostei muito de como ficou, o Lariú também, mas ainda ficaria pequeno pra ter um álbum cheio”, relembra.

Diversionismo só começou a ganhar uma cara a partir da quarentena de 2020. “Durante o isolamento tive vontade de fazer com ‘Home of the Brave’, do Spiritualized, o que eu já tinha feito ao vivo uma vez ou outra e isso já inteiraria uns 30 minutos e achei que estava de bom tamanho. Já estava organizando o material pro disco quando o Pedro Montenegro pediu um cover de qualquer música brasileira pro programa dele na Soho Radio de Londres, o BarKino. Então fiz ‘Íris’ do Alceu pra ele e a coisa ficou ainda mais redonda”.

E entre um Sonic Youth quase indígena (“100%” como se fosse “My Wild Love” dos Doors), um Belchior renascido no Magical Mystery Tour (com uma lisérgica “Hora do Almoço”, gravada no disco-tributo organizado pelo Scream & Yell) e uma “Happiness is a Warm Gun” tocada num saloon, ainda há espaço para um afrossamba! “O tributo aos Afro-Sambas d’A Escotilha me pegou totalmente de surpresa, eu podia escolher quase qualquer faixa e não me via fazendo nenhuma, é tão tipo não-a-minha-onda que não visualizei”, lembra Pedro. “Mas no final ouvi o ‘Lamento de Exu’ e pensei ‘ah isso é bem abstrato, consigo fazer algo com isso’. Depois ouvi a versão de 1990 do Baden Powell sozinho e ela sim me encheu de ideias, e acabei fazendo uma das gravações minhas de que mais gosto.”

“Acho que essa aleatoriedade dos convites ditou a onda dessa compilação, as leituras me parecem improváveis em tantos aspectos, e acho isso ótimo”, prossegue. “Só a do Spiritualized, a do Alceu Valença e a dos Beatles partiram de uma vontade própria de fazer aquelas canções especificamente.” Quando pergunto se alguma ficou de fora, ele força a memória. “Se ficou, foi outra do Spiritualized que foi a primeira coisa que eu fiz quando tive um gravador de fita de 4 pistas na minha frente lá pra 1998, mas não consegui encontrar no meio de tantas fitas, e acho que hoje deve soar bastante tosca, até pros meus padrões”, confessa.

Ainda mais isolado devido à quarentena, ele segue no meio do mato em sua cidade-musa Paraty. “Olha, não posso dizer que estamos na pior. Moramos perto da natureza, temos duas crianças na casa que dão muito trabalho mas muita alegria também, e por enquanto temos esse ‘privilégio’ do isolamento social – que nada mais é do que um direito que só é garantido a poucos no Brasil. É doido como dá trabalho ficar em casa, tanta coisa pra fazer, pra limpar, pra secar, pra esfregar, pra martelar, pra rastelar e eu já me pergunto como é que eu conseguia existir trabalhando de 8h-17h antes disso”, confessa.

Quando fala na primeira pessoa do plural, refere-se a ele e à esposa, Thalita Silva, que cada vez mais participa do trabalho de Pedro, cantando desta vez em três canções, além de aparecer na capa do disco. “Na real ela já estava na capa do Museu de Arte Moderna (2013) e gravou uns vocais pra última faixa, ‘Canção de Pelúcia’. Volta e meia ela grava umas vozes, teve ‘Rock da Paçoca’ do Toca do Cosmos EP (2014), ‘Rã’ do Lady Remédios (2017), e na ‘Parte VI’ do Mundo Encoberto (2019) ela não só canta solo como toca caixa, meio que de um jeito como se toca a Caixa do Divino, do Maranhão, porque ela toca num grupo de caixa daqui de Paraty há alguns anos. Ela tem uma musicalidade muito intuitiva e uma voz muito bonita e aerada, que sempre cai bem.”

Mas nem só de versões vive o velho supercorda em 2020 e já anuncia mais um disco solo, o primeiro desde que seu antigo grupo acabou. “Um novo álbum como Bonifrate já está quase pronto, com canções próprias e inéditas”, revela. “O Diogo Valentino está terminando de mixar aí em São Paulo e deve sair nos próximos meses. Fora isso, vamos tentando ficar vivos e sãos pra encarar esse mundo esquisito que vem logo depois da curva.”