A voz de Miranda Kassin

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Finalmente Miranda Kassin assume a própria voz e renasce em seu segundo disco Submersa, lançado na semana passada, que ela me chamou para escrever o texto de apresentação, que segue abaixo.

Um zumbido eletrônico ronda os ouvidos. Ele se aproxima e se distancia, quase que um radar pairando sobre o ouvinte, até crescer e abrir espaço para baixo e bateria marcarem o andamento, marcial e constante. “Outro dia você, eu não mereço isso!”, Miranda Kassin deixa sua voz doce e firme tomar conta da canção. “E se eu pudesse escolher, mas não vai ser possível”. A faixa que abre seu segundo disco Submersa não é de sua própria autoria e localiza-se no exato ponto em que está sua carreira – apesar de já ter um primeiro disco de canções autorais (Aurora, lançado em 2012) – ela ainda é uma intérprete no início deste novo trabalho – uma música de Fabio Goes e André Lima que poderia tranquilamente ter sido escrita pela própria Miranda.

Revelada há dez anos em um show em homenagem à cantora Amy Winehouse, Miranda já tinha uma carreira de atriz antes de se dedicar apenas à música. Ela começou sua carreira nos palcos norte-americanos quando foi escolhida para interpretar uma das protagonistas de um musical que um grupo da universidade em que cursava estava montando – foi acompanhar um amigo, não tinha pretensão de entrar no elenco, mas foi escolhida e logo depois estava emendando uma produção na outra. Voltou para o Brasil e não tinha mais como: havia assumido a arte como carreira e encontrou na cantora inglesa um norte – e uma forma de homenagear sua grande paixão musical, a soul music norte-americana.

O espetáculo em que encarnava a autora de clássicos como “Rehab” e “You Know I’m No Good” a transformou em uma estrela da noite paulistana e em pouco tempo levava sua voz para todo o Brasil. Feliz com o papel de intérprete, foi provocada por músicos e amigos a assumir sua própria carreira autoral – e assim surgiu Aurora, sete anos atrás. Mas logo depois deste primeiro disco, ela foi mãe duas vezes consecutivas e a maternidade lhe afastou da música. Até agora.

O novo disco é o resultado deste novo momento de sua carreira e tem este título justamente por ter sido uma imersão de volta à sua carreira autoral. Ela novamente conta com a produção de Fabio Pinczowski, que foi coprodutor do disco anterior, e que ajudou-a a redefinir o caminho sonoro escolhido desta vez: o mesmo soul que a trouxe para a música, mas agora sintético e minimalista, de timbres eletrônicos, teclados discretos, beats quebrados e linhas de baixo sinuosas. Ao lado dos dois, o multiinstrumentista Piero Damiani, que acompanhava Kassin nos shows em homenagem à Amy, surge como preparador vocal do álbum e coautor de boa parte das canções do novo repertório, além de integrar a banda que ajuda Miranda a levar o disco para o palco.

Ao lado do trio central formado por Miranda, Fabio e Piero, um time de músicos que inclui o tecladista Danilo Andrade, o baixista Rubinho Tavares, o baterista Breno Silveira e os próprios Pinczowski (dividido entre o baixo e os teclados) e Damiani (nos backing vocals) torna o acompanhamento sonoro enxuto e coeso, abrindo brechas para as eventuais presenças do saxofonista Marcelo Freitas, dos teclados de André Lima, do percussionista Felipe Roseno e do guitarrista João Erbetta, além da única participação especial do disco, quando Miranda recebe o guitarrista paraense Felipe Cordeiro na versão de em uma das primeiras canções que compôs na vida, a quase adolescente “Vacilão”, num dos poucos momentos do disco em que a guitarra ganha voz – na imensa maioria de Submersa não há guitarras.

A submersão sugerida pelo título não diz respeito apenas à musicalidade e ao papel da cantora como compositora – ela é autora de quase todas as músicas do disco, dividindo parcerias com outros compositores conhecidos, como o vocalista do Vanguart Helio Flanders, César Lacerda e o marido André Frateschi, além de cantar canções assinadas por André Lima, Fabio Goes, Chico Salem e Paulo Carvalho. A grande revelação de Submersa é pessoal, quando ela se redescobre como uma nova mulher depois de passar pela maternidade, reencontrando sentimentos e sensações de forma adulta. É esta constatação que dá o tom de todo o disco, deixando-a mais à vontade com esta nova personalidade, plena deste novo estágio em sua vida.

E é a fusão destas duas realidades – uma musical e outra individual – que é a base de sustentação de Submersa. De um lado, a sonoridade negra norte-americana do século passado relida com instrumentos sintéticos, timbres artificiais e arranjos simples e precisos, ressaltando a beleza das canções e da doce e clara voz de Miranda. Do outro, a própria cantora e compositora reencontrando-se após a maternidade, voltando de uma jornada da heroína parente daquela de Joseph Campbell em que a viagem, neste caso, é para dentro – pois é a própria maternidade. Redescobrindo-se depois de mãe com a possibilidade de deixar-se levar por sentimentos que suas canções ajudam a externar, Submersa é quente e intimista, sincero e entregue, mas comedido o suficiente para não exagerar nesta plenitude. Da simplicidade direta de “Fudeu” à balada derramada “Doentinha”, da sinuosa “Eu Quero de Novo” à intensa “Vou com Você”, passando pelo groove ameaçador de “Segunda ou Terça”, a paixão intensa de “Simplesmente”, o trip hop pensativo de “Acaba com Isso”, a latinidade intensa de “Vacilão” e o pop radiofônico de “Correio”. Miranda está feliz e segura de seu novo momento pessoal – e seu segundo disco é o casulo em que ela convida o ouvinte para acompanhar sua metamorfose. É só vir.

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