Você ainda compra CD?

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Escrevi no blog do UOL sobre como a lenta morte do CD traz um questionamento importante sobre a preservação da memória do futuro digital. Veja lá: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/09/nao-jogue-fora-os-seus-cds-ainda/

Não jogue fora os seus CDs – ainda

Quem ainda compra CD? No mês passado a rede de cafés Starbucks anunciou que não venderia mais discos. O anúncio parece banal e corriqueiro, ainda mais num 2015 em que carros e computadores já saem das fábricas sem leitores de CD e em muitos lares o único CD player é o home-theater comprado para ver filmes ou assistir TV. Mas há dez anos a franquia hipster de frappuccinos parecia vir salvar esta indústria, que vivia seus dias de pane. No mundo da música digital e da renascença do vinil (ainda como um mercado de nicho) o CD virou um objeto estranho, uma mídia pária que vende cada vez menos mas que ainda é o denominador comum nas grandes coleções de música existentes, virtuais ou não. E embora sua morte já vem sendo anunciada desde o início do século talvez não seja a hora de você se desfazer de sua coleção de CDs. Nem de cravar que o CD morrerá em poucos anos.

Você se lembra de 2005. O século digital mal havia começado quando, em 1999, o Napster ateou o fogo do compartilhamento gratuito de arquivos entre computadores que abriu uma torneira de downloads piratas. Todo mundo baixava tudo que podia ao mesmo tempo em que uploadava raridades, discos favoritos, registros inéditos de suas próprias coleções. Desacostumadas a perder dinheiro de tal forma, as gravadoras multinacionais partiram para o ataque. A música digital causou um revés considerável na venda de discos e em vez de adotar o Napster para suas engrenagens, as grandes gravadoras passaram a vilanizar a internet e processar engrenagens que facilitavam o download ilegal. Além de promover uma guerra de desinformação que dizia que os piratas estavam “matando a música”, quando o que estava morrendo, na verdade, era apenas o suporte. Mas as gravadoras faziam questão de misturar os dois conceitos para jogar com a culpa de quem baixava música de graça. Enquanto isso Steve Jobs percebia a lacuna no ar e transformava seu software iTunes em loja online e vendia iPods como se estivesse reinventado a roda (ou, melhor dizendo, o Walkman).

E por mais que as majors tivessem conseguido derrubar o Napster, ele foi só o primeiro. Pelos anos seguintes gravadoras acionaram departamentos jurídicos para aniquilar novas empresas criadas por jovens programadores para ocupar o vácuo deixado pelo primeiro software. As empresas eram batizadas com palavras inventadas, sufixos e prefixos grudados a palavras que poderiam instigar alguma curiosidade em novíssimos consumidores: Audiogalaxy, Edonkey, Limewire, Shareaza, Kazaa, Emule, Gnutella, Grokster, Demonoid, Sharereactor, Rapidshare, Bitorrent, Soulseek, Megaupload, Isohunt, Mininova, ThePirateBay. De certa forma, esses serviços acabaram antecipando a era das startups, a economia dos aplicativos e as redes sociais.

A crise no mercado fonográfico inevitavelmente mexeu primeiro com as lojas de discos, da mesma forma que o CD já havia mexido dez anos antes. Era o momento da falência de templos da música antes inabaláveis, como as megastores Virgin e Tower Records, que em outras eras foram responsáveis pelo fechamento das pequenas lojas de disco. E se as lojas pequenas haviam fechado nos anos 90 (com a ascensão do CD) e as grandes pareciam seguir o mesmo caminho, onde o artista não-digital conseguiria vender seu disco físico?

Foi quando a rede Starbucks surgiu como uma das luzes no fim deste túnel e em 2005 lançou seu primeiro projeto musical, o CD Live at the Gaslight 1962 que flagrava um jovem Bob Dylan tocando em um café (hehe) do Village, em Nova York. O disco foi lançado pela Columbia (a gravadora de Dylan), mas a rede de cafés tinha exclusividade na venda do título pelo primeiro ano. Vieram outros discos e projetos e em dois anos a própria rede de cafés estava lançando seus próprios álbuns, de coletâneas do Sonic Youth a discos inéditos de Paul McCartney, Elvis Costello, James Taylor, Cars, Sia e Carly Simon, entre outros.

Tempos estranhos aqueles em que as gravadoras pareciam não se importar com música, e outras empresas, que vendiam outros produtos que não tinham nada a ver com música (como os cafés Starbucks ou a Apple), começavam não só a faturar o dinheiro que antes era dos vendedores de disco como a se tornar referência do novo mercado e lançadoras de tendências. A primeira metade da década passada viu bandas e artistas procurando patrocinadores que pudessem lhes dar uma nova forma de contato com o público. Discos eram vendidos dentro de aparelhos celulares como se o fato de um disco vir com a íntegra digital de um CD da Ivete Sangalo ou do Killers pudesse fazer diferença para quem o compra. As redes sociais viriam a seguir criando uma nova classe de artistas que se estabelecia diretamente junto ao público, criando cultos em sites de relacionamentos, multiplicando visualizações online de clipes ou quantificando comentários e concordâncias (em forma de likes ou RT) pra justificar o próprio preço no novo mercado. E se antes contávamos os milhares de discos vendidos, hoje contamos cliques e views, números que normalmente enchem o bolso de empresas que pouco se importam com música.

Aconteceu que entendemos que a música não é mais um produto e sim um serviço que pode ser oferecido através de diferentes dispositivos – até mesmo em CD. A morte do compact disc, já anunciada há anos, não virá tão rapidamente quanto a “morte” do vinil, que já deixou de ser fabricado no Brasil e hoje vive dias de ouro impensáveis há dez anos. O formato físico digital vem sendo esvaziado junto com seus outros dois primos DVD e Blu-ray, que ainda encontram sobrevida graças ao vídeo. As vendas de compact disc caem anualmente à medida em que aumenta o consumo de música digital, seja através do download pago ou de serviços de assinatura. O fato da rede Starbucks parar de vender CDs é só mais um novo prego nesse caixão fechado em câmera lenta.

E bota lentidão nisso, pois a sobrevida do CD não depende apenas de sua obsolescência e sim de uma forma duradoura de reter arquivos digitais, sejam de música ou não. Os formatos de armazenamento digital são inúmeros e ainda não há uma padronização plena para arquivos eletrônicos. Sistemas operacionais e aparelhos que também tocam música são atualizados e trocados com uma constância tão ágil que não raro impossibilita o acesso a formatos digitais de anos anteriores – sem contar empresas que abrem e fecham deixando links quebrados, serviços órfãos, clientes a ver navios. O vinil é impraticável para relançamentos mais extensos, como caixas com sessões raras de gravações de clássicos ou discografias inteiras que ultrapassam dezenas de horas. Mesmo as dezenas de milhões de faixas oferecidas pelos serviços de streaming não incluem versões alternativas, remixes obscuros, acervos de gravadoras esquecidas pelo tempo ou canções originais dos Beatles. O CD ainda é o mais próximo que temos de um padrão universal aceito para arquivar músicas atualmente. Nenhuma mídia é tão segura e prática ao mesmo tempo.

Sem contar a imensa quantidade de música que só foi lançada neste formato – são praticamente 30 anos de uma produção musical que só foi registrada em discos prateados que, se não forem guardados do jeito certo, podem descascar, empenar, riscar ou perder todos seus registros. Não apresse-se para jogar sua coleção de CDs fora como muitos fizeram com suas coleções de vinil – ainda vamos entrar na fase ~vintage~ do CD e veremos edições lacradas de discos dos anos 80 ganharem altos lances no eBay e listas dos CDs mais caros e raros de todos os tempos.

Na verdade, a morte do CD nos expõe um problema grave na nossa realidade digital: como registrar o acervo de toda a história que acontecerá nos próximos anos? O meio eletrônico é novo o suficiente para não conhecermos suas limitações a longo prazo e todos nós já perdemos informações preciosas por culpa de um problema num disquete, pendrive, HD ou drive online. Nem mesmo CDs estão imunes às bombas sujas do futuro que, com pulsos eletromagnéticos, podem apagar servidores de dados inteiros.

E, de repente, nos lembramos que o papel, tão anacrônico, politicamente incorreto e cafona nos dias eletrônicos, é um dos poucos suportes que atravessou milênios, em alguns casos intactos. Mas isso é outro papo.

E você, ainda compra CD?

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