Turismo canábico

narcoturista

Conheço Matias Maxx desde o século passado e ele sempre foi um dos principais ativistas da causa canábica no Brasil – a planta é onipresente em sua vida e obra e passa pelo seu zine Tarja Preta, a loja Cucaracha no Rio de Janeiro e a revista SemSemente, além de ter inspirado o onipresente Capitão Presença. Sua última incursão ao mundo verde é o programa de turismo canábico Narcoturista, em que ele encarna o Macoñero Mascarado e dá um rolê por lugares que tenham a ver com a erva. O próximo episódio vai ser gravado no Uruguai e ele quer aproveitar a ida pra ir à fundo na experiência da legalização da maconha no nosso vizinho do sul – e pra isso montou uma campanha de crowdfunding no Catarse para fazer tudo do jeito certo. Bati um papo com ele sobre o programa, a campanha, a viagem e a situação das drogas no Brasil. Pra colaborar com o crowdfunding, clique aqui.

Falaê qual é a do programa.
Então, a idéia do Narcoturistas surgiu meio por acaso. Eu já tinha aquela máscara há muito tempo e basicamente usava no carnaval e na Marcha da Maconha. Aí eu levei ela numa viagem que fiz com o Daniel Paiva para Amsterdã em 2012. A gente foi cheio de gás numas de fazer matérias pra revista semSemente, e também gravar um documentário. Mas era a Cannabis Cup, a gente ficava chapado o tempo todo, e todos nossos possíveis personagens estavam ou super ocupados ou super chapados também.
Foi quando a gente teve essa idéia: fazer um programa de turismo apresentado pelo Macoñero Mascarado. Mas nem isso a gente conseguiu fazer direito. Aí o material ficou arquivado por dois anos quando a gente resolveu pegar pra editar de novo, dublar a porra toda e fazer a magia do cinema acontecer. Um pouco antes da gente lançar, fui ao México de férias, levei a máscara e gravei umas doideiras lá. Mês passado quando fui cobrir a Marcha da Maconha de BH também levei a máscara e daí surgiu o terceiro episódio, em “Brumadim”. A gente também tá fazendo sem pressa um episódio no Rio e um em SP, aonde a gente já gravou uma baldada lá no volume morto da Cantareira…
Agora, o que eu quero com isso? Essa pergunta é dificil. Acho que é dar continuidade ao que eu sempre fiz com a Tarja Preta, que é informar, mas sem perder o bom humor jamais.

O Narcoturistas é só você e o Daniel?
Ele é meu sócio na jogada. Ele é cartunista, co-editor da Tarja Preta e músico, toca na Orquestra Voadora, no Marofas Grass Band, no Luisa Mandou um Beijo e uma porrada de outras bandas daqui do Rio. Então nós dois fazemos praticamente tudo: dirigimos, atuamos, dublamos, filmamos e roteirizamos. Aí tem o DJ Babão que faz a mixagem e sonorização, e o Daniel Tumati que faz os gráficos, efeitos visuais e animações. Mas a gente vai envolvendo mais gente aos poucos: no segundo episódio tem desenho do MZK e no terceiro do Daniel “Etê” Giometti, dos Muzzarellas. No segundo episódio, também contei com a importante parceria do diretor mexicano Julio Zenil, que já fez clipes de várias bandas mexicanas como o Control Machete e é quem fundou a Marcha da Maconha de lá. Se a gente conseguir alcançar a meta do Catarse a idéia é despachar ele pro Uruguai também.

O quanto o Brasil já evoluiu no que diz respeito ao trato das drogas?
O discurso tá evoluindo, sobretudo depois da decisão do STF de 2011 que declarou inconstitucional o crime de apologia às drogas. No entanto o Brasil é um dos países que mais tem gente presa por crimes relacionados à droga. A maioria são pequenos traficantes, usuários muito pobres e alguns cultivadores. E mesmo após essa decisão do STF (ADPF 187), ainda tem gente sendo presa por vestir camisetas com folhas de maconha ou mesmo por cantar músicas sobre maconha – como aconteceu com o Cert da Cone Crew algumas semanas atrás -, sendo que ambas as situações foram explícitas como inconstitucionais no voto do ministro Celso de Melo na ocasião.
O Brasil é muito complicado, pois ao mesmo tempo que você vê uma expansão do que é a cultura canábica e os negócios canábicos, a maioria dos políticos e acadêmicos que defendem a legalização não sacam nada de cultivo ou mesmo de experiências de legalização em outros países, nem mesmo do nosso vizinho Uruguai. Ao mesmo tempo o STF deve votar a inconstitucionalidade do crime de uso de drogas no inicio de agosto, o que é um puta avanço. Mas que se não for acompanhado de alguma forma de regulamentação do cultivo/produção, distribuição e venda das drogas não resolve muito.

Há uma safra de produção audiovisual brasileira que trata sobre o tema. Qual a importância do cinema nisso?
Muito importante. Sobretudo quando esses filmes têm repercussão na grande mídia, como foi o caso do Quebrando o Tabu e do Ilegal, que tiveram trechos exibidos no Fantástico. No caso do Ilegal o filme conseguiu sensibilizar a população de um jeito que dobrou a Anvisa que regulamentou o CBD em tempo recorde, ainda que longe do jeito ideal. Tem também o Cortina de Fumaça do Rodrigo MacNivem que é muito bom.

Além do documentário, você é ferrenho ativista da causa. Como anda a Sem Semente? E que mais você está aprontando?
Sim, eu frequento a Marcha da Maconha desde 2002, e passei a organizá-la no Rio a partir de 2007, nesse meio tempo inspirei o Capitão Presença, e no meu trabalho como fotojornalista, seja na Bizz ou na Vice, sempre tentei levar essa pauta. A semSemente enfrenta os mesmos problemas que qualquer publicação independente com baixo orçamento no país, então a gente tá numa fase de reestruturação. Queremos passar para um formato semestral a partir do próximo semestre. Agora no Uruguai, além de um novo episódio do Narcoturistas também pretendemos gravar um documentário responsa.
Nos últimos dias tive a oportunidade de conhecer o chefe do Instituto Regulador da Canabis do Uruguay e o ex-chefe da junta de drogas de lá, então se prepara galera que vem coisa boa aê. Mas para executar o projeto em sua excelência temos primeiro que bater a meta do Catarse.
Então solta um trocado aê maaaan!!!

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