Tudo Tanto #010: “Agora está tudo mudando, eu tenho um plano”

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Escrevi sobre o show de lançamento de Fortaleza, do Cidadão Instigado, na minha coluna Tudo Tanto da edição do mês passado da revista Caros Amigos. Lá embaixo tem os vídeos que fiz do mesmo show.

A maturidade do Cidadão Instigado
No lançamento do quarto ábum da banda cearense, Fortaleza, o público sabia cantar músicas que uma semana antes não conheciam

“Até que enfim
Eu cansei de me esquivar
Quanto tempo eu pensei em parar
Olho para o lado
Quanta gente diferente
E o que vou fazer?
Se não consigo te esquecer
Vou seguir…vou seguir”

Assim Fernando Catatau, líder do grupo cearense Cidadão Instigado, começa o quarto álbum de sua banda, batizado de Fortaleza, e seu show de lançamento deste que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, no início do mês passado. Ele não está cantando apenas sobre o sentido da vida, sobre um relacionamento ou sobre sua cidade-natal, mas sobre seu próprio conjunto, que levou mais de meia década para finalmente lançar seu novo disco .

Formado por Catatau na guitarra, composições e vocais, Régis Damasceno na segunda guitarra, Dustan Gallás nos teclados e efeitos, Rian Batista no baixo, o técnico de som Yuri Kalil e Clayton Martin na bateria, o Cidadão surgiu no final dos anos 90, com quase esta mesma formação, à exceção do paulistano Clayton, que juntou-se à banda quando ela já havia se mudado para São Paulo, na década passada. No século anterior, só um registro sobreviveu, um CD demo com cinco faixas batizado apenas de EP que hoje é tratado como raridade. A discografia oficial do grupo – O Ciclo da De:Cadência (2002), O Método Túfo de Experiências (2005) e Uhuuu! (2009) – é toda deste século.

Nestes discos, o grupo veio aprimorando uma sonoridade de rock clássico com um sabor especificamente brasileiro, a começar pelo carregado sotaque de seu vocalista e principal compositor. Catatau, guitar hero, conduz a banda para a virada dos anos 60 para os 70, quando os Beatles começavam a se desintegrar e o Pink Floyd e o Led Zeppelin a encontrarem seus rumos. Canções que se descortinam em dinâmicas elétricas que refletem tanto o momento em que o rock psicodélico começa a ficar mais pesado (Jimi Hendrix, Deep Purple, Black Sabbath) quanto como esta sonoridade se refletiu na música brasileira e particularmente nordestina (de Raul Seixas a Tutti Frutti, passando por Zé Ramalho, Fagner e Alceu Valença).

“Até que Enfim” não é a primeira música do disco Fortaleza à toa. A gestação do disco começou ainda em 2012, quando a banda se isolou em uma casa em Icaraizinho de Amontada, no litoral cearense, próximo a Jericoacoara. De lá pra cá foram três anos de amadurecimento musical que, pra começar, exigiu que a banda saísse de sua zona de conforto. Rian, Dustan e Regis trocaram de instrumentos: o baixista agora toca teclados, violão e fez os arranjos vocais, o segundo guitarrista assumiu o baixo e o tecladista pegou a segunda guitarra. Essa nova formatação mexeu com os brios da banda, que começou a pesar mais seu som, deixando as canções ensolaradas do disco de 2009 no passado. O disco continuou sendo gravado nos estúdios caseiros dos integrantes da banda até que, no início de 2015, o disco finalmente foi finalizado: vocais gravados, masterização em Los Angeles e lançamento pra download gratuito em seu próprio site, www.cidadaoinstigado.com.br

Fortaleza é um disco pesado no sentido musical, mas com momentos líricos e contemplativos (como a bela “Perto de Mim”, “Os Viajantes” e “Dudu Vivi Dada”) até um reggae (“Land of Light”). O peso dos anos 70 está nos timbres elétricos, mas eles estão longe de ser retrô. E o recado dado no decorrer do disco tem diferentes endereços, embora a principal referência seja a cidade-natal da banda que batiza o disco. Fortaleza pode ser ouvido como uma declaração de amor ao mesmo tempo que uma cobrança à capital cearense: “Minha Fortaleza ‘réia’ o que fizeram com você?”, pergunta o líder da banda no repente elétrico da faixa-título. Marca a maturidade do Cidadão Instigado em relação à busca da própria sonoridade.

Disponibilizado online na primeira semana de abril, o disco foi apresentado ao vivo uma semana depois de ter sido liberado na internet. E o show no Sesc Pompeia coroou este lançamento quando a banda ousou tocar praticamente o novo disco – e com as músicas quase em ordem idêntica – na íntegra, deixando o bis para tocar duas músicas de dois outros discos anteriores: “Lá Fora Tem” e a homenagem ao canadense Neil Young “Homem Velho”. E mesmo tocando pela primeira vez um disco que havia lançado há apenas uma semana, o Cidadão Instigado ainda contou com o coro da plateia em várias canções. Um momento especial para um disco de tal calibre.

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