“This is really happening”

Radiohead domina corações e mentes e incita nova era de shows no Brasil

Tanto no Rio quanto em São Paulo, foi em “Idioteque” que bateu. Por mais que já tivessem hipnotizado o público em “There There”, o cortejado de perto com “Karma Police” e “All I Need” e lhe arrebatado em “The National Anthem” e “Jigsaw Falling Into Place”, o Radiohead tornava-se real no terço final da primeira parte dos shows, quando, pela primeira vez em ambos shows, soltava nossos corações ou mentes, deixando-os finalmente livres para dançar. Os tubos acima do palco eram iluminados com pouca luz, com tonalidades entre o roxo e o azul escuro, o suficiente para dar o ar de pista de dança que a música de Kid A exigia. Os blips do início drenavam toda a ênfase de show de rock que vinha até ali – saía o piano, saía a dinâmica entre as guitarras, violão e teclados que dava a tônica da apresentação e a força do som era reduzida ao diálogo entre a ruídos eletrônicos disparados pelo guitarrista Jonny Greenwood e a bateria metronômica de Phil Selway. Ao lado do baterista, o baixista Colin Greenwood iniciava a seqüência de acordes gelados no teclado que identificavam a canção para as multidões, que saudaram o reconhecimento com o mesmo urro com que havia recebido os hits anteriores. Mas a ausência do miolo instrumental clássico da banda, reduzindo as canções a beats, ritmo e frios acordes de teclados (traçando aí o paralelo genético com o Kraftwerk que abriu os shows) enfatizou a presença solene de um público embasbacado. Ed O’Brien, ainda com seu instrumento em punho, preferiu grunhidos elétricos do que os solos e acordes clássicos que caracterizavam sua participação, enquanto Thom Yorke entregava seu vocal ao delírio robô dançado pela platéia.

“Isso está realmente acontecendo”, soltava-se Thom, baixinho, braços movendo-se para o lado entre saltos e olhos fechados, dança reprisada pelo público, balançando-se sem acreditar. Estava realmente acontecendo – o Radiohead estava finalmente fazendo um show no Brasil, doze anos depois de OK Computer, dois anos depois de In Rainbows, reprisando o disco mais importante da década na íntegra, enquanto repassava as principais faixas de um dos discos mais importantes da década anterior e costurava o resto do show com faixas tiradas dos três álbuns lançados entre estes e dois hits sacados de seus dois primeiros discos. Mas independentemente das músicas que foram escolhidas, eis um paradigma vencido. A vinda do Radiohead talvez tenha encerrada uma adolescência do Brasil em relação a shows, sejam internacionais ou brasileiros, iniciada com o primeiro Rock in Rio – mas depois eu falo mais disso.

O Radiohead é uma banda cujo carisma e apelo popular não está em gestos ou na comunicação com o público – e sim através das canções e na forma como estas foram dispostas nos shows. Sua apresentação não conta com um vocalista populista e sorridente, que veste a camisa da seleção brasileira e tenta balbuciar agrados em português. Seus dois heróis da guitarra são pouco usuais – embora Ed O’Brien esteja mais próximo do que se espera de um guitarrista clássico, ele sabe que seu papel é coadjuvante (é o principal cavaleiro de Sir Yorke, seu Lancelot) e secundário, enquanto o verdadeiro guitar hero da banda, Jonny, seja um magrelo tão chegado aos beats eletrônicos e efeitos de dub do que aos solos de guitarra. A cozinha formada por Colin e Phil é avessa aos holofotes e prefere olhar-se nos olhos em vez de encarar o resto da banda. Thom Yorke, por sua vez, seduz o público apenas com sua voz.

E que voz. Mais do que o palco aceso e colorido, a voz de Thom Yorke é o principal elemento no show da banda. Não é ela quem determina o tom das canções – este quase sempre é definido pelo conjunto musical, quase sempre em discussões entre os instrumentos de Colin, Phil e Jonny – mas é o vocal quem o dissemina sobre o público. O timbre de Yorke, como os diferentes acordos instrumentais propostos pela banda, não pertence a um único território. Ele pode balbuciar como um bêbado e soar como um anjo na mesma canção (“Exit Music (for a Film)”, por exemplo), deixar sua voz atingir picos melódicos virtuosos (“Reckoner” ou o final de “All I Need”), soltar grunhidos ininteligíveis (no meio de músicas mais pesadas, como “National Anthem” ou “Bodysnatchers”) ou escárnios cínicos – em especial em “You and Whose Army?”, talvez seu momento de interação mais direta com o público, através de uma webcam posicionada em frente ao piano, deixando-o à vontade para brincar com a imagem de seus olhos tortos. Quase sem falar com o público no show do Rio, só falou com os paulistas alguns “obrigado” ditos quase sem sotaque. A única exceção veio antes de “You and…”, quando anunciou a música “para os ianques” nos dois shows e antes de entrar na segunda vez em que “Creep” foi tocada no Brasil, em São Paulo, quando perguntou se o público sabia qual era a próxima. No Rio, o diálogo ficou por conta de Ed, em português mesmo, que apresentou a banda em “Airbag” (“nós somos Radiohead”) e mandou um “bom pra caralho!” que resumiu o espírito do show depois de “Reckoner”, fechando o segundo bis na Apoteose.

Guitar hero compenetrado, Ed é instrumentista de rock clássico, herdeiro de uma genealogia de seu instrumento que inclui Eric Clapton, Jeff Beck e David Gilmour, que sabe a hora em que deve ficar no centro da canção e quando é hora de deixar outro músico brilhar. Já Jonny é o típico guitarrista pós-punk, porém destemido frente à grandiosidade – ecoa tanto a guitarra de The Edge quanto à do Public Image Ltd, do Pere Ubu e dos Talking Heads. Sabe que a eletricidade pode comunicar com ou sem a guitarra, por isso dedica-se tanto às seis cordas quanto à manipulação de ruídos em sintetizadores analógicos e pedais de efeito, jogando transmissões de rádios brasileiras para dentro de “National Anthem” e, em São Paulo, tratando-as como dub em “Climbing Up the Walls”. Completos à perfeição, ambos guitarristas ladeavam Thom Yorke como se respondessem pelas duas personalidades do cantor – às vezes mais o doutor Jeckyll (Ed), outras senhor Hyde (Jonny) – ao mesmo tempo em que agem de forma semelhante. Basta ver como se comportam em momentos distintos, longe de seus instrumentos – quando assumem a percussão em “There There” ou quando dedicam-se apenas a manipular efeitos sintéticos e a gravação com a voz de Thom em “Everything In Its Right Place”.

Eis a estrutura básica da banda – Colin e Phil agem como um mesmo instrumento, uma cozinha clássica de banda de rock inglês que evoca tanto o Led Zeppelin quanto os Smiths ou o Clash. A dupla de guitarristas conversa com o piano, a guitarra ou o violão de Thom Yorke em progressões de acordes remanescentes de clássicos ingleses dos anos 70 como Abbey Road, Dark Side of the Moon, Arthur, Phisical Grafitti, A Night at the Opera e The Lamb Lies Down on Broadway. As canções ganham aspecto épico e tratamento rebuscado que fazem muitos menosprezarem a banda como intelectualizada demais – como foram menosprezados seus antecessores. Mas o Radiohead é uma banda que, por mais que componha álbuns conceituais e acene para a música eletrônica de vanguarda, sobrevive em suas canções, na forma como eles cristalizam determinadas emoções em seqüências de acordes, refrões memoráveis, letras que traduzem sentimentos contemporâneos e a reinvenção da dinâmica instrumental do rock entre os anos 60 e 70.

E ao vivo estas faixas mostram sua força – principalmente as de seus três grandes discos, OK Computer, Kid A e In Rainbows. O repertório dos dois shows foi muito parecido e seguiu a média da turnê do ano passado. Tocaram tanto o In Rainbows na íntegra quanto as mesmas faixas de Kid A (“Idioteque”, “National Anthem”, “Everything In Its Right Place”) e do Hail to the Thief (“There There” e “The Gloaming”), além de uma única música em comum do Amnesiac (“You and Whose Army?”). Do OK Computer, só “Paranoid Android” e “Karma Police” foi tocada nos dois shows – “Airbag” e “No Surprises” só foram ouvidas no Rio, “Exit Music”, “Lucky” e “Climbing Up the Walls” apenas em São Paulo. As duas apresentações ainda contaram com faixas do segundo disco da banda (“Just” e “Street Spirit” no Rio e “Fake Plastic Trees” em São Paulo) e com o encerramento por conta de “Creep”, encerrando por vez a discussão a respeito da canção mais popular do Radiohead no Brasil. Outras sutis diferenças puderam ser sentidas – enquanto “How to Disappear Completely” só tocou no Rio, “Pyramid Song” e “Talk Show Host” só foram ouvidas em São Paulo. Mas se você acompanha o Radiohead como um todo e não é fixado em apenas um álbum, assistir a apenas um show já deu um belo panorama da carreira do grupo. Várias faixas ficaram de fora (“Wolf at the Door”, “Knives Out”, “Let Down”, “2 + 2 = 5”, “Planet Telex”, “Morning Bell”, “High and Dry”, “Electioneering”), mas quem assistiu a apenas um dos dois shows teve um belo panorama da força da banda ao vivo e de como ela coloca suas canções em primeiro plano. O público respondeu à altura: no Rio, a massa continuou “Karma Police” sozinha, cantando “for a minute there/ I lost myself/ I lost myself” mesmo depois que a banda deixou de tocar, enquanto em São Paulo o público continuou “Paranoid Android” sem a banda com seus “rain down” sendo seguidos por Thom Yorke – que quase ameaçou tocar “True Love Awaits”, mas foi levado pela força das próprias canções.

Até o cenário favorecia às músicas. Ao contrário de outros medalhões que enchem suas apresentações com efeitos especiais, fantasias, dançarinos, criaturas infláveis ou estruturas gigantescas, o Radiohead preenche o próprio palco com um efeito simples e genial. A série de tubos dispostos na vertical sobre a banda funciona como um telão projetado sobre um candelabro, uma luz refletida em código de barras, que amplificava a iluminação como as caixas aumentavam a potência sonora da banda. A cada faixa, tons fortes tomavam conta da ribalta, vinculando cores (In Rainbows, afinal de contas) a andamentos musicais – laranja, vermelho e roxo brigam nos momentos mais intensos, o azul cai sobre as baladas mais sentimentais, o amarelo anuncia climas áridos e o verde vinha nas músicas mais rápidas.

Alternando as cores com claros e escuros e as próprias imagens em telões colocados atrás e nas laterais do palco (equipamento que falhou durante as cinco primeiras músicas do show de São Paulo), a iluminação da turnê In Rainbows servia apenas para destacar as qualidades musicais da banda, usando estrobos e luzes negras para enfatizar mudanças de andamento, solos instrumentais e efeitos eletrônicos. Triste para quem não foi ao show: as gravações em vídeo quase nunca fazem jus aos tons de cores usados ao vivo.

No centro de tudo, dominando milhares de corações e mentes em pouco mais de duas horas, o Radiohead é dessas bandas que funcionam melhor quando falam às multidões. Descendentes diretos do U2 dos anos 80, eles ecoam simultaneamente a fase mais católica do grupo irlandês quanto seu período europeu do início dos anos 90 – soando quase sempre dúbio e ambíguo, entre o desespero e o conforto, o doce e o amargo, e assim conectando-se com outra importante banda em sua formação, os Smiths. O quinteto consegue fazer os dois grupos soarem próximos em canções que também remetem às carreiras solo dos Beatles, ao momento em que o Who começou a soar opulento e ao Genesis antes da saída de Peter Gabriel. O som da banda então é revestido por duas camadas diferentes de contemporaneidade ao fim do século 20 – a redescoberta do refrão proporcionada pela conjunção grunge/britpop no início dos anos 90 e à lenta diluição das diferentes facetas da música eletrônica (desde a mais séria ao seu lado mais fútil) com a música pop. Difícil imaginar que o cenário pop atual florescesse e abrisse espaço para bandas como LCD Soundsystem, TV on the Radio, Killers, The National, Bloc Party, Sigur Rós, Interpol, Modest Mouse, Árcade Fire e Franz Ferdinand não fosse a importância e o pioneirismo do Radiohead nos anos 90.

E a vinda da banda ao Brasil no início de 2009 fechou não apenas o ciclo aberto com o certa vez mítico anúncio dos shows da banda no país como talvez uma adolescência longa demais no que diz respeito a apresentações internacionais por aqui. Desde que foi cogitado pela primeira vez, logo após o lançamento de Kid A, em outubro do ano 2000, o show do Radiohead no Brasil era algo que deixava de ser um mero boato e ganhava contornos de lenda. Nesse meio tempo, vieram para o Brasil artistas que pareciam ainda mais inatingíveis que o grupo liderado por Thom Yorke, além de quase todas as bandas e novidades internacionais que apareceram neste início de século.

Se existe uma coisa de que não podemos reclamar hoje em dia, é de shows internacionais no Brasil. Quando éramos a periferia da periferia do mundo – quando “Brasil” era quase sinônimo de “Acapulco” ou “Bahamas” –, grandes nomes do showbusiness mundial só pisavam aqui de férias. Entre as visitas de Brigitte Bardot a Búzios e dos Rolling Stones ao interior de São Paulo nos anos 60, o Brasil recebeu visitas esporádicas de grandes artistas que quase nunca vinham fazer shows, apenas espairecer ao sol tropical de nossas bucólicas e desertas praias do passado. Quando vinham fazer shows, artistas como Kiss, Alice Cooper, Police e Queen causaram comoção no inconsciente coletivo na década de 70 e início dos anos 80 – pode parecer estranho, mas houve um tempo em que toda a cultura relacionada ao rock era vista como algo alienígena no Brasil. Daí a importância da geração dos anos 80 – consagrada nacionalmente em um evento (o primeiro Rock in Rio) que trazia, numa só vinda, mais artistas estrangeiros para o país em uma semana do que todos os grandes shows internacionais desde o início daquela década (Sinatra no Maracanã incluso). O festival inaugurou a era que parece encerrar agora, em que grandes artistas são capazes de arrastar multidões para estádios e reviver épocas passadas em palcos do terceiro mundo.

Se hoje rimos da décima oitava vez que o Deep Purple se apresenta em uma cidade do interior de Minas ou quando pela enésima turnê em que três ou quatro bandas australianas passeiam pelo litoral do sul brasileiro, um dia estes mesmos eventos já foram recebidos como acontecimentos históricos. De 1985 para cá, assistimos a shows de todos os principais artistas da história da música moderna –os titãs do pop, os fundadores do jazz, a nata do rock alternativo, os maiores nomes da música eletrônica, os pais do rock’n’roll, os criadores da black music, grandes bandas de heavy metal, hardcore, reggae e disco music. Esta história da música moderna foi revista enquanto vários artistas novatos puderam visitar o Brasil em seus primeiros passos e quando o circuito de shows internacional passou a ser pulverizado. Tudo bem, são menos que dez empresas que ainda trazem os grandes espetáculos internacionais para cá (juntando aos nossos shows favoritos apresentações de espetáculos da Broadway ou do Cirque de Soleil). Mas hoje já há uma segunda divisão considerável de empresários e agentes de shows que buscam shows que não necessariamente pertençam ao ambiente de negócios que se tornaram as vindas de artistas estrangeiros para cá. Assim, ano passado pudemos assistir tanto aos shows de Bob Dylan, Justice, Madonna e Kanye West quanto aos de Will Oldham, Vaselines, Young Gods, Black Lips e Yelle, que passaram pelo Brasil em apresentações bem menores – e em cidades que não são apenas o Rio de Janeiro e São Paulo.

Resta saber o que vai acontecer a partir de agora. Afinal, são 25 anos que nos colocaram no circuito de shows do mundo, que viram nossas estruturas para este tipo de evento crescer (embora ainda estejamos bem distantes do ideal) e artistas brasileiros entrarem neste mesmo mercado de shows – seja o Sepultura, o DJ Marlboro ou o Cansei de Ser Sexy. A vinda do Radiohead ao Brasil parece encerrar uma era de ineditismo de grandes shows por aqui e vem junto com o fim do Tim Festival, que viu em sua edição passada a última oportunidade de se cobrar separadamente ingressos para artistas que vêm num mesmo evento (paradigma redefinido pelo festival Planeta Terra e seguido à risca pelo Just a Fest). O próprio nome “Just a Fest” entrega a vala comum que este tipo de evento acabou se tornando: traga um grande artista, empurre mais outros dois, um brasileiro e eis um festival.

É hora de repensar esse formato. Ao mesmo tempo em que os grandes nomes da indústria do disco vão se reduzindo a um mero punhado de veteranos, o conceito de festival parece fadado a entupir palcos com dezenas de bandas que contam com duas ou três músicas legais e que são mal vistas por multidões desinteressadas. Talvez fosse hora de investir em um novo padrão, em novas experiências de contato com o público. Por que não há um festival grande destes só com artistas nacionais? Cadê o South by Southwest ou o CMJ brasileiro? Por que a Virada Cultural de São Paulo não pode se tornar tão importante quanto o festival de Roskilde, na Dinamarca? Onde estão nossos shows ao ar livre, as discotecagens que acontecem de dia, apresentações na rua, em teatros, em escolas?

Quando acabarem todos os grandes shows, quais você vai ver?

***

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16 Resultados

  1. pedro disse:

    foi indescritivel mesmo! belo texto! ele tanto queria true love waits que tocou antes de everything in its right place! optmistic em sao paulo foi memoravel tb!

  2. madá disse:

    este foi o texto mais ‘coração’ que eu já li em toda a minha vida. obrigada por existir e escrever, alexandre matias.

  3. FePa disse:

    O meu medo é sobrarmos apenas com aqueles shows nas madrugadas das quinta-feiras para o público desinteressado do Studio SP, ou aqueles festivais em locais impróprios como o Via Funchal.

  4. Strato disse:

    Fala Matias, gostei do texto, mas tenho minhas ressalvas.

    Você diz: “Ed é instrumentista de rock clássico, herdeiro de uma genealogia de seu instrumento que inclui Eric Clapton, Jeff Beck e David Gilmour, que sabe a hora em que deve ficar no centro da canção e quando é hora de deixar outro músico brilhar.”

    Putz, Matias! Chamar o Ed O’Brien de “instrumentista de rock clássico” é desmerecer quem sabe o que fazer com uma guitarra em punho. Ele é apenas um bom acompanhante. É quase um Bez do Radiohead, mistura de segurança de palco e assessor de imprensa (as melhores falas nas entrevistas são dele). Você tem certeza que viu esses shows próximo ao palco?

    Já o Jonny Greenwood realmente merece muitos aplausos, se bem que muito do que ele fazia naquelas engenhocas me parecia misencene, pois não se ouvia perfeitamente intereferências sonoras de sua parte no som em BG.

    Quanto à dicotomia “Jeckyll & Hyde” da personalidade de Thom Yorke complementada por O’Brien e Greenwood, acho que aconteceria de fato se não acontecesse MUITAS VEZES de os três tocarem exatamente (muitas vezes “quase exatamente”) as mesmas linhas de guitarra em uníssono, o que coloca tudo em um plano muito linear, com desmerecimentos quanto às possibilidades harmônicas não aproveitadas.

    Quanto a “True Love Waits”, TY não apenas esboçou a música. Essa versão, como intro à “Everything is its right Place”, já havia sido executada dessa mesma forma em shows anteriores na tour do “In Rainbows”.

    Quanto ao apelo de arena do show, achei justamente o contrário: se tivéssemos a oportunidade de ver tudo aquilo em um lugar menor, fechado, a experiência seria bem mais prazerosa, dada a instrospecção da música do grupo.

    O lance do fechamento do pacote de shows indispensáveis no Brasil, é por aí mesmo. Mas o Brasil, geografica e economicamente, ainda é parte de escalões inferiores no showbizz internacional. E, por mais que fiquemos entusiasmados e cabotinos sempre que vem uma banda grande em apresentação inédita no país, essa turnê deixou bem claro isso. O Brasil é apenas uma escala de menor importância nesse panorama todo aí, por mais que a boba platéia local se ache especial o suficiente para se iludir com o merecimento de um “show especial” que é o mesmo que a banda apresenta em qualquer outro canto do mundo.

    E isso tem um lado bom, pois ficamos de igual pra igual pelo menos nesse sentido.

    Agora, fico feliz de a banda ser bem reservadas, pois as praças brasileiras não correram o risco de serem confundidas com qualquer outra capital da América Latina. E, além do mais, a molecada nos shows estava num clima capaz de aplaudir até espirro dos caras.

    E pra fechar, faltou só vc mencionar que o anúncio dos shows do Radiohead no Brasil foi uma espécie de pá de cal definitiva para a extinção do Tim Festival, notícia veiculada logo em seguida.

    abs

  5. //mariana disse:

    CLAP! 🙂

  6. arlen disse:

    Strato, o cara para ser um bom guitarrista tem que saber a hora de não tocar e eu diria que apesar das linhas de guitarra dele serem simples, ele é um guitarrista clássico sim, poderia dar uma aula para muito guitarrista que vemos mundo afora.

    Outra, poderias citar um exemplo de uma musica em que as 3 guitarras tocam a mesma coisa? Isto não existe, me desculpe. Nem na época do Pablo Honey isto acontecia.

  7. Strato disse:

    Arlen, a meu ver, a postura dele não teve nada a ver com “a hora de saber ou não tocar”.

    Tanto é que ele ficava SOBRANDO, meio FIGURANTE, em vários momentos no show.

    Aí, ele fazia backing vocal, tocava chocalho, apito e um monte de coisas pra não perceberem que ele era apenas o “segurança de palco da banda”. Sem contar que a banda usa BG paca, então colocar um apito ou chocalho em BG seria a coisa mais simples do mundo…

    Um exemplo de música onde as três guitarras faziam a mesma coisa em vários trechos: “Bodysnatchers”. E isso aconteceu em vários momentos do set, às vezes com pequenas variações. E nem vou entrar no “mérito” das questões de timbre.

    Teve música em que Ed O’Brien simplesmente ficava batucando as cordas da guitarra, travando as cordas com a mão esquerda, com um delay safado ao fundo. Em outro momento, ele fazia textura tocando apenas uma notinha por vez na prima. Ou seja, em determinados momentos do show, ficou claro que ele estava ali só enrolando.

    E quando eu via a molecada gritando o nome de cada um dos caras, sendo ignorada, aquilo me deu uma certa náusea. Pois eles estavam apenas cumprindo sua agenda, como qualquer profissional cumpre a sua. Não se iludam!

    Um dos poucos momentos, onde as três guitarras dialogavam de forma bacana, foi em “Weird Fishes”. Ali sim, se justificava a utlização de três guitarras na formação da banda.
    abs

  8. arlen disse:

    Strato, mesmo em Bodysnatchers eles não tocam exatamente a mesma coisa. Quando você escreveu a “mesma coisa” eu fiquei pensando e não encontrei nenhuma música onde eles realmente fazem a mesma coisa. Olhei este vídeo aqui(http://www.youtube.com/watch?v=TZEpfICFkfQ) e ali dá pra notar as diferenças entre uma e outra.
    O fato da banda ignorar o publico tem a ver com concentração pra tocar inclusive tem um som que ao vivo as pintas berram e o Thom fala “Don´t distract me” algo assim.
    Enfim…

  9. Strato disse:

    Brother Arlen, vc não quer contabilizar a parte percussiva do início da música. Quer? Esse vídeo aí contém edições feitas posteriormente. Te falo isso com toda a certeza, pois BIZOIEI as guitarras com atenção durante os dois shows. Mas se vc quiser, você aparece aqui em casa e a gente desconstrói a música em pedaços (O Matias tem os meus contatos).

    O máximo de diferença que acontece são alguns fraseados diferentes ao final de algumas passagens do riff principal, repetido pelos instrumentistas como parte em destaque do tema.

    Agora o lance do “Don’t Distract Me” em âmbito pop é frescura pra caralho. Vai lá ver o Vitor Araújo e vê se o moleque esquenta a cabeça pra essas coisas… No caso de músicos eruditos, isso é até aceitável. Em espetáculos de arena, isso é impraticável. Concorda agora?

    Vê se o Egberto Gismonti vai ficar ligado nisso. O João Gilberto até ficaria, mas espetáculo de música pop requer diálogo com platéia, ainda que uma espécie de anti-diálogo (o que, a meu ver, legitimiza esse tipo de feedback igual ao meu).

    Olha só: não quero destruir seu conto-de-fadas pop, pois também aprecio a música do quinteto. Só acho que um pouco de maturidade e reflexão na apreciação do lance torna a coisa mais real e saudável, uma vez distante da histeria ignorante e passiva da massa, da qual tb faço parte. abs

  10. Daniel Galera disse:

    Ótima análise do show. Só acho que faltou uma coisa, tanto no post quanto na discussão sobre os guitarristas que se abriu nos comentários: mencionar que Thom Yorke não apenas canta como canta, mas é um TREMENDO guitarrista. Em “Reckoner” e “Jigsaw…”, por exemplo, ele não apenas canta como um desgraçado, mas também estraçalha bases de guitarra bem complicadinhas do início ao fim das músicas, ENQUANTO canta, e o faz da forma mais “effortless” possível. Por mais que eu soubesse disso ouvindo os discos, testemunhar o homem em ação foi francamente impressionante.

  11. Joao Brasil disse:

    Belo texto Mr. M! Já pensou em escrever para o Segundo Caderno do Globo? Salva a gente aê!

  12. marioelva disse:

    Primeiro queria dizer que esse blog é o meu favorito no gênero. Mas é preciso dizer também que abandonei o post sobre o show do radiohead pelo excesso de fanatismo em suas linhas. Nem que eles fossem Deus, ou os Beatles, seriam tão onipotentes quanto as poucas linhas que pude aguentar do texto parecem supor. Um pouco mais de pé no chão na análise do show só faria bem a nós, leitores.

  13. Peguei o link pelo blog do Bressane. Maravilhoso realmente…eu, que sou fissurada mesmo nos caras, fiquei sem palavras. Quietinha, só ouvindo aquela delícia perturbadora. E, quando ele quase cantou “True Love Waits” quase caí para trás, era bom demais para ser verdade. Tenho essa música há mais de dez anos, numa versão piratíssima de um show sei lá de onde. Mas tenho a letra e de vez em quando toco no meu violão…será que entra em algum próximo cd? Tem em algum ep que eu deixe escapar?
    Anyway, obrigada pela memória riquíssima!
    E que venham outros…

  1. 30/03/2009

    […] que lá vem a história: finalmente o Matias, do Trabalho Sujo, publicou a resenha dele sobre os shows do Radiohead no Brasil. É um catatau, mas vale a leitura de cada linha – em vários momentos esclarece a dimensão da […]

  2. 30/03/2009

    […] 2, vale a pena ler o texto do Matias sobre o Radiohead e a análise sobre a adolescência do showbiz brasileiro que ele faz no final. Muito contundente, […]

  3. 05/04/2009

    […] do YouTube, lá embaixo, tem um link pra baixar o show inteiro!]. Via Matias, que escreveu de longe a melhor resenha do irresenhável show. Como é bom contar com a memória dos amigos… o Comentários No […]