The Sea that Thinks, de Gert de Graaff

Abstração em movimento

Não sei com quem eu tava comentando a resenha do 2001 que a Izadora indicou e da importância ou desimportância da técnica para o cinema o papo descambou na possibilidade ou não da história ser o principal chamariz em um filme. Muito pelo fato de termos sido alfabetizados audiovisualmente pelo cinema norte-americano (que é essencialmente devoto do roteiro), nos acostumamos a nos amparar no “sentido” ou “significado” por trás do filme justamente para estabelecer se gostamos ou não do mesmo.

Para mim, isso não faz mais sentido há um bom tempo – há uma categoria de blockbusters de Hollywood hoje em dia que pode ser entendida basicamente como um showcase de efeitos especiais e que, foda-se se a história de Transformers 2 não faz sentido, serve apenas para grudar o espectador na poltrona na base do choque. Sempre que o troar de uma explosão ecoa nas caixas de som da sala de cinema, me vem a clássica imagem do Alex de Laranja Mecânica atado numa camisa-de-força em uma projeção de imagens que, aparentemente aleatórias, começam a atiçar um sentido submerso no espectador que aciona uma forma de entendimento que não necessariamente é linear ou figurativo. É quase como se os efeitos especiais fossem o equivalente cinematográfico da pintura abstrata – não tente buscar a imagem por trás de todas essas manchas e cores. O próprio 2001 do Kubrick tem um elemento abstrato puro depois que o monolito aparece em Júpiter.

Tudo isso para chegar no bizarro The Sea that Thinks, do holandês Gert de Graaff, indicado pelo Bruno. Vencedor do principal festival de documentários do mundo no ano em que foi lançado (2000), o filme borra propositalmente as fronteiras entre ficção e não-ficção (um dos temas da década), usa ilusões de ótica como metáforas para o fim dessa distinção e põe em xeque nossa noção de compreensão e lugar-comum. Depois de ver os primeiros sete minutos do filme ali em cima, dá uma sacada no site oficial – e veja se você não ficou com vontade de ver essa história, como eu fiquei.

Doideira doida.

Você pode gostar...

Sem Resultados

  1. Daniel disse:

    “É quase como se os efeitos especiais fossem o equivalente cinematográfico da pintura abstrata – não tente buscar a imagem por trás de todas essas manchas e cores”

    eu não sei se você já leu o “Truffault/Hitchcock”, melhor livro de entrevistas ever, mas o trecho acima é exatamente a visão que o Hitchcock tinha do cinema, especialmente das cenas de suspense. 🙂

  2. Lou disse:

    torrente praticamente impossível de achar. os resultados de busca apontam para um único arquivo, com 3 seeders.