The Hour of Bewilderbeast – Badly Drawn Boy

Outro texto velho.

***

Perfeição palpável
A estréia de Badly Drawn Boy – ‘The Hour of Bewilderbeast’ – é um disco que reúne duas qualidades difíceis de se encontrar no pop atual – verdade e beleza

badlydrawnboy.jpg

Utopia é um lugar longe. É feito pra ser longe, pra nunca se chegar lá. Lá tudo é perfeito, as coisas organizam-se da forma mais simples e funcional possível, ninguém faz mal a ninguém, todo mundo é feliz. Mas não existe por concepção, é utópico, inatingível. A arte faz nossa conexão com a utopia, criando universos paralelos em que a perfeição é palpável, verdadeira.

Mas até na arte a utopia pode se tornar distante. Ao propor um mundo diferente do nosso, o artista se distancia da realidade o suficiente para entrar na ficção e sabermos que é tudo um sonho. Para a perfeição artística chegar próxima, o artista precisa se despir da individualidade e fazer-se entender numa linguagem universal. Por isso a música é o meio mais popular e o amor é um tema tão cantado – de todos, são os mais fáceis de entender. Essa combinação é praticamente o oxigênio da música pop.

Mas não é fácil tirar sua personalidade de cena e deixar a obra ganhar vida própria. É um processo de generosidade muito intenso, o artista precisa ter um desprendimento quase beatífico em relação a seu trabalho para considerá-lo maior que ele mesmo. Mas quando os ponteiros se acertam e o fruto do trabalho passa a ser o alicerce deste, surgem jóias. Estamos falando de preciosidades do quilate de Revolver (dos Beatles) e Pet Sounds (dos Beach Boys). Nestes dois discos (e em outros e de outros artistas, mas estes exemplificam melhor a situação), os grupos sabiam que o mais importante era ter uma resposta imediata do ouvinte, que ele se identificasse imediatamente com aquela música. E todos sabiam que o ouvinte é qualquer um – por isso, quanto mais abrangente for o tema (e por isso, o amor), mais fácil as pessoas irão se identificar com a música.

Mais do que isso: por mais ousado que se tentasse ser musicalmente, é preciso deixar que o ouvinte descubra a ousadia vindo do pop. Aqueles que percebem a audácia musical não são o público-alvo porque estes se importam com a assinatura do artista. O ouvido público quer descobrir um segredo dentro de uma música pop, por conta própria. Esta mágica proporcionada pela música popular faz com que qualquer um possa vir com um refrão irresistível e se tornar uma mania, só pela qualidade da canção composta. Coisa que é mais comum que podemos imaginar, devido à quantidade de artistas que desaparecem após um único sucesso.

Damon Gough sabe disso e preferiu se preservar. Ou melhor: preservar sua música. Adotou um nome sem o menor apelo comercial (Badly Drawn Boy – Garoto Mal Desenhado) e passou a costurar sua reputação com zelo e paciência. Trabalhando belas canções com produção de baixa qualidade (filiando-se a este gênero sem forma chamado lo-fi), ele passou o ano passado inteiro lançando EPs que não davam pistas sobre o caminho que parecia seguir. Em sessões particulares, aos poucos ia convencendo artistas e jornalistas ingleses (e depois um pequeno culto sempre crescente de fãs) de seu potencial – usando apenas suas canções.

Mas em disco, nada era esclarecido pelo cantor inglês. Pra piorar a situação, ele ainda foi convidado a participar com uma música ao megaprojeto U.N.K.L.E., do dono da gravadora Mo’Wax James Lavelle e do mestre DJ Shadow. Juntos, os dois cozinharam um álbum por três anos e convidaram algumas figurinhas mais importantes do pop alternativo (Mike D, dos Beastie Boys; Thom Yorke, do Radiohead; Ian Brown, ex-Stone Roses; Richard Ashcroft; ainda no Verve) para dar sua palhinha. No meio dos figurões que estrelaram Psyence Fiction, lá estava Badly Drawn Boy com sua “Nursery Rhyme”. Guitarras pesadas e vocal reto, confundia ainda mais aqueles que tentavam o decifrar. Seria ele o Beck inglês? O Elliot Smith inglês? Um John Lennon campestre? Um novo Nick Drake? As dúvidas eram tão pertinentes quanto o consenso de que aquele novo músico ainda iria dar o que falar.

Com seu primeiro álbum, The Hour of Bewilderbeast, ele não apenas confirma as expectativas como torna-se ainda mais promissor. Como? É o segredo lá do começo do texto: as músicas falam de amor, mas de uma forma táctil, reconhecível. Sem nenhum requinte técnico na produção (o que dá um charme rústico ao disco), as canções surgem docemente sólidas, jóias de música pop que tornam a perfeição palpável. Invertendo a lógica pop imortalizada pelos Rolling Stones, é a canção, não o cantor, que importa.

O violoncelo abre o disco seguido pela trompa dão um ar de melancolia renascentista que abrem o disco exigindo um mínimo de solenidade. O baixo aos poucos vai desenhando a cadência da melodia central de “The Shining”, que o violão inicia assim que os três instrumentos se silenciam. Num típico folk inglês, Damon Gough pede para pormos “um pouco de sol em nossa vida”, como se quisesse só arrancar um sorriso num momento de tristeza.

Esse é o tom do disco. Entre a melancolia e o alívio, as canções alternam felicidade e tristeza quase sempre, criando uma atmosfera casual e idílica ao mesmo tempo. A perfeição não é pra sempre: “Sua beleza durará por um instante”, canta em “Once Around the Block”. “O amor é contagiante”, canta mais à frente, em “Magic in the Air”, “quando tudo está bem”. De um lado, a beleza. Do outro, a realidade. É essa dualidade entre sonho e realidade que faz a utopia descrita por Gough tão próxima e natural.

Ele desfila referências à medida que transcorre o álbum. Passa pelo folk urbano de Harry Nilsson (“Everybody’s Stalking”), por momentos que são puro John Lennon solo (“Fall in the River”, “Camping Next to Water” e “Pissing in the Wind” – todas com temática aquática), Dylan (“Magic in the Air”), folk britânico anos 70 (“Stone on the Water”), powerpop (“Another Pearl”), pop sofisticado com toques de jazz e alguma influência latina (“Once Around the Block” e “Disillusion”), Simon & Garfunkel (“This Song”), rap (“Body Rap”), Prince e Guided By Voices (na mesma “Cause a Rockslide”), psicodelia britpop (“Say it Again”, juntando Blur e Oasis na mesma faixa) e terminando com a caseira “Epitaph”.

Esta última, fecha o álbum com clima de varanda ensolarada (assobios, passarinhos, violões), enquanto Gough divaga sobre a perfeição passageira que as pessoas não percebem: “Por favor não me deixe aqui/ Querendo mais/ Espero que você nunca morra/ Não preciso dizer porquê/ Apenas prometa que vai tentar/ Me dar tudo que você pode/ Eu nunca mais te pedirei/ Há vida nova além da porta/ Um berço balança e cai/ Enquanto novas frutas enchem a árvore/ Cimentam a melodia/ Nossos problemas”. Pissing in the Wind resume a generosidade artística do autor, ao abrir mão do que ele poderia querer. “Me dê algo/ Eu fico com nada”. Como se tudo isso fosse nada.

Você pode gostar...