Vida Fodona #538: Hora de mudar o tempo

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Todo mundo, vamos lá.

Por que o processo em cima de “Blurred Lines” pode comprometer a criatividade do futuro

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“Blurred Lines” foi considerada plágio de uma música de Marvin Gaye por ter uma ~vibe~ parecida. Como essa decisão judicial pode dar origem a mais processos e frear a criatividade não só na música, mas em todas as áreas da cultura: Uma decisão judicial que pode redefinir o futuro do entretenimento.

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A disputa judicial em que a família de Marvin Gaye acusa Pharrell e Robin Thicke de usarem “Got to Give It Up”, hit disco music do soulman, como base para a irresistível “Blurred Lines” não é só mais um capítulo de uma velha história. Não estamos mais falando de sequências de notas, acordes, métrica ou qualquer outro elemento mensurável dentro do espectro da canção. O juiz que obrigou os dois intérpretes da canção de 2013 a pagar pouco mais de sete milhões de dólares à família Gaye deu sua sentença a partir da semelhança de “sensação” entre as duas canções.

Clique aqui para ouvir “Got to Give it Up”, de Marvin Gaye

Clique aqui para ouvir “Blurred Lines”, de Robin Thicke e Pharrell

Pois repare em ambas. Elas não têm melodia parecida, seus refrões são bem diferentes, as letras não foram inspiradas umas nas outras. O que têm em comum? O ritmo. A levada. O groove. A sensação. Um sentimento inquantificável que faz o ouvido destreinado achar todas as músicas dos Ramones, do Luiz Gonzaga, do AC/DC e de Little Richard idênticas entre si. E é aí que mora o perigo.

A inspiração artística – e não apenas musical – quase que inevitavelmente passa pelo caminho do plágio – ou de primos seus, como a apropriação, a paródia, a imitação, a homenagem, a citação, a colagem. Nem todo mundo copia, mas são raros os criadores realmente originais, que não se inspiram em outros autores, surrupiando ideias e recontextualizando conceitos aqui e ali. A história da arte pode ser contada a partir da história das cópias – e todo grande autor passou, necessariamente, por um período copiador. A frase “talento imita, gênio rouba”, escrita por T.S. Eliot (e atribuída erroneamente a Picasso ou Oscar Wilde) é a síntese desta lógica.

Mas veio o século 20 e com ele as tecnologias de registro e a difusão do conceito de copyright. Se isso garantia retorno financeiro a autores de obras à venda, por outro lado limitava a criação de novos trabalhos a partir de obras já existentes. Acusações de plágio poderiam minar pilares do modernismo, como o Ulysses de James Joyce ou a L.H.O.O.Q. de Duchamp (a Mona Lisa de bigodes). Mas vieram ganhar corpo junto ao negócio da música – mesmo porque é onde ganha-se muito dinheiro.

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A segunda metade do século 20 viu uma série de ações legais contra hits instantâneos, que se agravou ainda mais após a invenção do sampler, nos anos 80. O aparelho permitia usar trechos gravados de músicas já existentes como retalhos na construção de rapsódias de ritmo e foi largamente aceito entre dois novos gêneros, o da música eletrônica e do hip hop. Há discos inteiros no final dos anos 80 e começo dos anos 90 que se aproveitaram da zona cinzenta do direito autoral aberta pelo sampler que se fossem realizados hoje só sairiam após o pagamento de altas cifras.

Mas uma subcultura autoral passou o século 20 inteiro sem a intromissão de cortes legais. Linhas de baixo, cadências rítmicas e levadas cheias de groove ritmos sempre foram sampleados, mesmo antes do sampler existir como recurso tecnológico. A história da música pop do século 20 também é a história da evolução de uma troca de referências musicais entre diferentes países, épocas, artistas e mercados que não corriam o risco de sofrer acusações de cópia pois a origem musical do mercado fonográfico era europeia, uma cultura que sempre deixou percussão e ritmo como parte coadjuvante da musicalidade, dominada pela melodia e pela harmonia.

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Longe dos tribunais, a cultura do baixo atravessou o século 21 transformando o blues em jazz e depois em rock, se esgueirando pelo rhythm’n’blues e pela soul music foi parar na Jamaica onde nasceu primeiro o ska, depois o rock steady, o reggae e finalmente o dub. Unidos pela ascensão global da música pop, funk e reggae deram as cartas que se transformaram primeiro na disco music e, posteriormente, em todo o universo de subgêneros de música eletrônica (house, techno, drum’n’bass, trance) que nasceu a partir da implosão da discoteca no início dos anos 80, entre eles o hip hop. Todos esses gêneros musicais se espalharam pelo planeta de diferentes formas, dando origem a outros subgêneros musicais locais. O fato do ritmo, do groove, da levada não poderem ser registradas deu origem a uma multiplicidade cultural que é a paisagem de nosso cenário atual.

Até a família de Marvin Gaye ter ganho a causa sobre Robin Thicke e Pharrell. Isso abre um precedente perigosíssimo que pode, inevitavelmente, transformar gêneros musicais inteiros em foras da lei só pelo fato de eles se moverem através da apropriação musical de bases rítmicas.

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“O veredito aleija qualquer criador que possa estar fazendo algo que foi inspirado por outra coisa. Isso pode ser aplicado para moda, música, design… tudo. Se perdermos nossa liberdade de sermos inspirados, quando menos percebermos a indústria do entretenimento como a conhecemos estará congelada por processos. Isso diz respeito a proteger os direitos intelectuais de quem tem ideias”, disse o rapper Pharrell em entrevista ao jornal Financial Times.

E para mostrar que não é apenas discurso de perdedor, o produtor de cinema Harvey Weinstein faz coro ao pessimismo de Pharrell com a decisão judicial. “Fico muito preocupado com esta noção”, disse ao mesmo jornal. “Que cineasta não poderia processar outros cineastas por um filme que passe uma sensação parecida com a de outro? É profundamente preocupante. Imagine Roy Lichtenstein e Andy Warhol, que usaram muitas coisas de outras fontes. Nada disso existiria.”

É uma decisão judicial que pode ter desdobramentos nada otimistas para quem trabalha com criatividade e arte. Quais os próximos passos? Patentear cores? Formatos? Palavras?

Vida Fodona #437: Simplesmente aperto o rec

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Olha aí de novo.

Beastie Boys – “Mark on the Bus”
Walter Franco – “Feito Gente”
Nirvana – “All Apologies”
Daft Punk + Julian Casablancas – “Instant Crush”
Bárbara Eugênia – “Sozinha (Me Siento Solo)”
Garotas Suecas – “Bucolismo”
Hall & Oates – “Kiss On My List”
Robin Thicke + Pharrel + T.I. – “Blurred Lines”
Spice Girls – “Never Give Up On the Good Times”
N.W.A. – “Express Yourself”
Racionais MCs – “Pânico na Zona Sul”
Newcleus – “Computer Age (Push the Button)”
Disclosure – “When a Fire Starts to Burn”
Jimi Hendrix Experience – “Still Raining, Still Dreaming”
Chocolate da Bahia – “Ele Guenta”
Planet Hemp – “Contexto”
João Bosco – “Cobra Criada”

Vamo?

Vida Fodona #400: As 75 Melhores Músicas de 2013

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Agora sim, 2014 pode começar.

M.I.A. – “Y.A.L.A.”
Lily Allen – “Hard Out Here”
Lana Del Rey – “Young and Beautiful”
Superchunk – “Me & You & Jackie Mittoo”
Disclosure + AlunaGeorge – “White Noise”
Phoenix – “Trying To Be Cool”
Strokes – “Tap Out”
Dorgas – “Hortencia”
Mac Miller – “Objects in the Mirror”
MGMT – “Alien Days”
Charles Bradley – “Victim of Love”
!!! – “One Boy/One Girl”
Rodrigo Amarante – “Maná”
Anitta – “Show das Poderosas”
Cícero – “Fuga nº3 da Rua Nestor”
Glue Trip – “Elbow Pain”
Toro Y Moi – “High Living”
Jagwar Ma – “The Throw”
Chvrches – “The Mother We Share”
Bruno Mars – “Treasure”
M.I.A. – “Bring The Noize”
Suede – “For the Strangers”
Chromeo – “Over Your Shoulder”
Mayer Hawthorne – “Designer Drug”
Lorde – “Tennis Court”
Weeknd – “Belong To The World”
Metronomy – “I’m Aquarius”
The National – “Graceless”
Caxabaxa – “Vizualizada”
Is Tropical – “Dancing Anymore”
Vampire Weekend – “Diane Young”
Paul McCartney – “New”
Daft Punk – “Giorgio By Moroder”
Blood Orange – “You’re Not Good Enough”
Bárbara Eugênia + Pélico – “Roupa Suja”
Holy Ghost! – “Bridge and Tunnel”
Justin Timberlake – “Take Back The Night”
Boogarins – “Lucifernandis”
Jagwar Ma – “Come Save Me”
Arcade Fire – “Reflektor”
Nick Cave & The Bad Seeds – “We Real Cool”
Warpaint – “Love Is To Die”
Daft Punk + Pharrell + Nile Rodgers- “Lose Yourself to Dance”
Of Montreal – “Obsidian Currents”
Robin Thicke + T.I. + Pharrell- “Blurred Lines”
Drake – “Hold On We’re Going Home”
Justin Timberlake – Mirrors – “”
Garotas Suecas – “Bucolismo”
James Blake – “Retrograde”
Arcade Fire – “Porno”
The National – “Sea Of Love”
My Bloody Valentine – “Only Tomorrow”
Arctic Monkeys – “Do I Wanna Know?”
David Bowie – “Love Is Lost (Hello Steve Reich’ remix by James Murphy)”
Pulp + James Murphy – “After You (Soulwax Remix)”
Blood Orange – “Chamakay”
Beyoncé – “Blow”
My Bloody Valentine – “New You”
Unknown Mortal Orchestra – “Swim and Sleep (Like a Shark)”
Daft Punk + Todd Edwards – “Fragments of Time”
Arctic Monkeys – “Why’d You Only Call Me When You’re High?”
Washed Out – “It All Feels Right”
Yo La Tengo – “Ohm”
Arcade Fire – “Afterlife”
Washed Out – “All I Know”
My Bloody Valentine – “In Another Way”
Emicida – “Crisântemo”
Daft Punk – “Get Lucky”
Darkside – “Paper Trails”
Marcelo Jeneci + Laura Lavieri- “Pra Gente Se Desprender”
Unknown Mortal Orchestra – “So Good At Being In Trouble”
Haim – “The Wire”
Lorde – “Royals”

Por aqui.

As 75 melhores músicas de 2013: 30) Robin Thicke + T.I. + Pharrell – “Blurred Lines”

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Vida Fodona #395: 18 anos de Trabalho Sujo

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Chegou novembro: vamos começar as comemorações da maioridade!

Say Lou Lou – “Feels Like We Only Go Backwards”
Marcelo Jeneci + Laura Lavieri – “Pra Gente Se Desprender”
Darkside – “Freak, Go Home”
Haim – “Falling”
Lorde – “Tennis Court”
Washed Out – “All I Know”
Of Montreal – “Obsidian Currents”
Garotas Suecas – “New Country”
Bibio – “Jealous of Roses”
Unknown Mortal Orchestra – “Secret Xtians”
Dumbo Gets Mad – “Before Kiddos”
Arcade Fire – “Flashbulb E”
Robin Thicke + T.I. + Pharrell – “Blurred Lines (Nehzuil Remix)”
Phoenix – “Fences (Delphic Remix)”

Vem!

As “Blurred Lines” da National Security Agency

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Bonitinho enquanto piada, preocupante enquanto realidade.

Vida Fodona #390: O que der na telha

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Daquele jeito que você gosta…

Holy Ghost – “Bridge and Tunnel”
Cut Copy – “Free Your Mind”
!!! – “One Girl/One Boy”
Arcade Fire + David Bowie – “Just a Reflektor”
RAC + MNDR + Kele – “Let Go”
Azealia Banks + Pharrell – “ATM Jam (Kaytranada Edition)”
Robin Thicke + Pharrell + T.I. – “Blurred Lines (Nehzuil RnB Remix)”
The Internet – “Dontcha”
Chela – “Romanticise”
Emicida + Dona Jacira – “Crisântemo”
Cícero – “Fuga no. 3 da rua Nestor”
Washed Out – “All Over Now”
Arctic Monkeys – “I Wanna Be Yours”
Bixiga 70 – “Retirantes”
MGMT – “Cool Song No. 2”
Garotas Suecas – “Pode Acontecer”
Of Montreal – “Obsidian Currents”
Bárbara Eugenia – “O Peso Dos Erros”
Lulina – “Areia”
Franz Ferdinand – “Oblivion”
Os The Darma Lóvers – “Toda Verdade”

Chegaê.

Um trato em “Blurred Lines”

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Bem bom esse remix pra “Blurred Lines” feito pelo australiano Nehzuil. Dica da Babee.

Vida Fodona #389: Agosto já deu

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Falta pouco pra primavera…

Garotas Suecas – “Bucolismo”
James Murphy – “People”
Mr. Little Jeans – “The Suburbs”
Mausi – “Losing You Say My Name”
Holy Ghost – “Okay”
Chvrches – “Lies”
Miami Horror – “Holidays”
Audac – “The Bow River”
Dr. Dog – “The Truth”
Arctic Monkeys – “Do I Wanna Know?”
Kiss – “Sure Knows Something”
Jagwar Ma – “The Throw”
Robin Thicke + T.I. + Pharrell – “Blurred Lines”
Is Tropical – “Dancing Anymore”
Cut Copy – “Let Me Show You”

Vamo lá!