Você já ouviu falar no Codex Seraphinianus?

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Atenção para estas imagens:

O Codex Seraphinianus foi concebido pelo artista italiano Luigi Serafini em 1981 e reúne 400 páginas de um gênese inexplicável escrito em uma linguagem indecifrável – segundo seu autor, transmitida psicograficamente por seu gato. A Ana explica isso melhor em matéria que escreveu no site da Galileu – e se a curiosidade atiçar ainda mais, saca só o vídeo abaixo feito apenas com páginas do livro (que volta a ser publicado este mês, na Itália).

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Galileu – Outubro de 2013

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Na Galileu deste mês, que já está nas bancas (com duas capas diferentes), falamos que as mudanças que mudarão a cara do mercado de trabalho do futuro já estão virando as profissões atuais do avesso. O Tiago Cordeiro traz uma extensa matéria sobre o futuro do trabalho hoje, para quem está às vésperas de entrar na faculdade ou querendo mudar de ramo depois de anos numa mesma área. Além disso, entrevistei a viúva de Stanley Kubrick sobre a exposição que estréia em São Paulo em homenagem ao diretor, o Rafael Tonon escreve sobre uma cidade que criou um sol artificial, além de explicar o que é gentrificação e como ela está mudando a cara das cidades no mundo todo. A Ana Freitas explica o que é o Wi-Vi, que usa ondas Wi-Fi para ver através das paredes e a Luciana Galastri entrevistou, na Rússia, o papa da segurança digital do país, Eugene Kaspersky. Traduzimos uma matéria da New Scientist sobre mitos da saúde, o Alexandre Rodrigues conta a eterna saga em busca do moto-contínuo, o Carlos Orsi fala de Atlântida e o Diogo Rodriguez sobre armas químicas. A Tatiana de Mello Dias escreve sobre os hackers que querem reescrever a constituição brasileira, o Ramon Vitral entrevistou o brasileiro diretor do filme The Flying Man e falamos da onda de bons filmes de ficção científica no cinema americano (como Elysium, Gravidade, o novo Robocop e o filme que os Wachoswki irão lançar no ano que vem). Ainda há o atlas do grafitti no mundo, o personal trainer dos olhos, uma startup que cuida do tempo que você não tem livre, um brasileiro que inventou uma lâmpada de garrafa pet, um helicóptero movido a propulsão humana, a taxa de poluição de todos os países do planeta, esterco que gera eletricidade, a Copa mexendo com as startups brasileiras, doenças autoimunes e um pesquisador que quer a proibição do boxe e do MMA. Abaixo, a Carta que escrevi no início da edição (e um dos meus salves à passagem de um grande amigo).

Mutações

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AQUELA VELHA MÁQUINA DE ESCREVER: Uma relíquia do século passado, minha Lettera 82 portátil me lembra das constantes mudanças que mexeram na profissão

Sou do tempo em que se fumava em redação. Não cheguei a ver máquinas de escrever em ação, embora tenha minha própria máquina de escrever, em que escrevia os trabalhos na faculdade e os primeiros frilas — a velha Olivetti Lettera 82 repousa hoje solene à entrada do meu escritório em casa (ao lado). Comecei a frequentar redações no momento em que os computadores começaram a invadi-las. Eram computadores com monitor de fósforo preto, terminais ligados a um servidor central da redação. Permitiam que se escrevesse num processador de texto, programado ainda nos anos 80.

De lá para cá, vi a internet entrar na redação, o telex ser aposentado para ser substituído pelo fax, a chegada dos e-mails, o milagre que pareciam ser os primeiros laptops, que permitiam que o repórter escrevesse a matéria entre o fato apurado e a redação. Vieram os blogs, os telefones celulares, as redes sociais e o modem 3G. O filme das fotos foi aposentado, programas de diagramação e ilustração foram substituindo métodos analógicos de riscar páginas.

Estas transformações não foram sentidas apenas no jornalismo. Qualquer profissão foi drasticamente transformada com a chegada dos computadores, da internet e das mídias digitais. Pergunte a qualquer um que, como eu, tenha quase duas décadas de trabalho na mesma área e confirme: o mundo era bem mais tacanho e menos divertido no final do século passado.

Mas essas mudanças não param e, nesta edição, nos dedicamos a mostrar que a natureza do trabalho entrou numa mutação constante, em que poucas coisas são dadas como certas. O repórter Tiago Cordeiro e o redator-chefe Tiago Mali se debruçaram em estudos sobre os profissionais do futuro e o resultado está na matéria de capa, que pode assustar os incautos, mas olha com otimismo para os dias que virão. Pode ser que em pouco tempo eu possa dizer com a mesma naturalidade que abri esta carta que “sou do tempo em que existia redação”. Mesmo porque o cigarro eu já estou disposto a abandonar em 2013.

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Termino esta carta despedindo-me de um amigo que foi embora cedo. Conheci o carioca Fred Leal (1982-2013) em 1999, quando ele ainda era adolescente e eu tinha 20 e poucos anos e colaboramos juntos tanto online (quando escreveu no site da Play que editava em 2002) e no impresso (quando o convidei para entrar na equipe do Link Estadão que editava). Não colaborou com a GALILEU por pouco e deixa, além da saudade, uma lição de amor à vida. Um abraço, meu irmão.

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Galileu – Setembro de 2013

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Mais uma Galileu nas bancas e esta com a capa escrita por nosso redator-chefe, Tiago Mali, que viajou pelo Brasil para investigar o problema dos agrotóxicos no país – falo mais sobre esta matéria no editorial abaixo. Além desta matéria, o Felipe Pontes foi para Londres ver o tal hambúrguer feito de células-tronco, o Rafael Cabral entrevistou o Gavin Andresen do Bitcoin, a Tatiana de Mello Dias escreveu sobre os precursores da mídia de guerrilha, o Centro de Mídia Independente, a Luciana Galastri visitou um hotel-hospício no Rio de Janeiro, o Ramon Vitral entrevistou o Chris Ware e falou da nova série da Marvel, Agents of S.H.I.E.L.D., o nosso Dossiê fala sobre a felicidade possível do ponto de vista da ciência, Fausto Salvadori Filho escreve sobre os cypherpunks, o Carlos Orsi fala sobre a Síndrome do Nobel (que emburrece alguns vencedores do prêmio) e ainda falamos da influência das emoções no sistema digestivo, da invenção de um olho biônico, da ascensão da pedocracia, dos cursos online oferecidos pelas universidades brasileiras, sobre os extremos do Brasil, sobre a startup Samba Ads, sobre como é ser comandante de submarino e da relação do Google com o século 19. Revista linda, cheia de matérias foda escritas por jornalistas apaixonados pelos assuntos que escrevem. Pode comprar que eu garanto. Abaixo, minha Carta ao Leitor, que abre a publicação.

Nossa equipe

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EM CAMPO: Nosso redator-chefe Tiago Mali entrevista moradores da cidade de Rio Verde (GO), durante a apuração que fez para a matéria de capa desta edição

Quando assumi a direção da GALILEU no fim do ano passado, tinha uma dupla preocupação: uma inquietação em saber como poderia me encaixar no histórico da revista sem atropelar as vontades e anseios da redação que encontrei. E qual foi minha surpresa ao descobrir que teria como principal interlocutor nesta etapa o redator-chefe Tiago Mali.

Entre os integrantes da redação, Tiago é um dos mais antigos na casa: foi editor do site, depois editor da revista e, finalmente, no começo de 2012, assumiu o cargo que ocupa atualmente. Seria fácil entrar em conflito em relação à linha editorial, mudanças estruturais ou abordagens jornalísticas, mas ocorreu justamente o oposto: a cada questionamento que fazia com ele em relação ao que pretendia fazer com o título, Tiago se dispunha a entender o que eu estava propondo e colocar as minhas preocupações em perspectiva quanto ao histórico da revista.

Mais do que isso: encontrei um senhor profissional. Um cara que entende a necessidade de um novo jornalismo, que em vez de temer o digital, o abraça, e que, ao mesmo tempo, preza pelos valores básicos da profissão. Ao mesmo tempo em que se dispõe a falar e trabalhar com o jornalismo de dados, uma das vertentes mais radicais e empolgantes de nossa área no século 21, também reconhece e anseia pela reportagem em si, de ir para onde a notícia está e apurar fatos direto dos protagonistas das grandes matérias.

E antes mesmo de fechar minha segunda edição, no início do ano, perguntei que matéria ele gostaria de fazer. Tiago nem pestanejou: queria falar do problema dos agrotóxicos no Brasil. Assim, investimos em viagens para lugares distantes no país para termos uma reportagem literalmente em campo. Apurada por seis meses, nossa matéria de capa é um esforço exemplar do tipo de jornalismo que queremos fazer aqui na GALILEU: vivo, atual, humano, incisivo e que reflete-se na vida de cada um de nós.

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Outra novidade desta edição está na seção Ecossistema — a partir deste número, começamos a falar dos profissionais que ajudam a GALILEU a ser o título que é.

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E já que estamos falando de nossa equipe, termino esta Carta parabenizando publicamente nossa editora Priscilla Santos pelo nascimento de sua filha Clara, que chegou ao mundo em julho. E aproveito para dar as boas vindas ao Guilherme Pavarin, que também já pertenceu à equipe da revista, e que voltou à redação para cobrir a licença-maternidade de Priscilla.

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Bom saber #010: Manuel Castells e o ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista

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Fui à palestra de Manuel Castells na terça passada enquanto acontecia o quebra-pau entre manifestantes e polícia na Avenida Paulista e o assunto abordado pelo sociólogo espanhol tinha tudo a ver com a reivindicação que se repete hoje – tanto que é o meu assunto na minha coluna no site da Galileu.

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O ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista
O sociólogo espanhol Manuel Castells falou nesta terça-feira em São Paulo sobre esta nova modalidade de manifestação social – que começa na internet e vai para as ruas

Ao mesmo tempo em que o sociólogo espanhol Manuel Castells falava em mais uma palestra do evento Fronteiras do Pensamento, que aconteceu no Teatro Geo na terça-feira desta semana, em São Paulo, a tensão entre manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia militar chegava às vias de fato a poucos quilômetros dali, na Avenida Paulista. Não estava alheio ao que acontecia na cidade, ao citar o protesto paulistano como uma das inúmeras manifestações de uma indignação que, nos últimos cinco anos, tem começado em um novo espaço social, a internet, para depois chegar às ruas, em massa.

O sociólogo é um dos principais acadêmicos a compreender esta mudança, que é o tema de seu novo livro, chamado Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet, que deve sair no Brasil em setembro, pela editora Zahar. O livro também foi a base para sua conferência, em que começou explicando que qualquer manifestação política começa em nossas mentes para depois materializar-se na prática. “A forma como pensamos, determina a forma como atuamos. Portanto, o que realmente condiona o comportamento da sociedade é o que ocorre em nossas mentes”, explicou. Falou sobre o papel da coerção do estado para manter o poder (“uma tradição que começa em Maquiavel e que foi formalizada melhor por Max Weber”, disse) e como apenas o monopólio da violência – válido ou não – torna este mesmo estado débil. “Pois ao mesmo tempo há outra tradição, que inclui Bertrand Russell, Foucault e também Gramsci, que insiste no papel decisivo da persuasão para a manutenção do poder, pela maneira implícita e explícita de influenciar nossa maneira de pensar”, explicou, antes de cravar que “afinal, manipular as mentes é muito mais eficaz do que torturar os corpos”.

Com esta introdução ele explicou que a atuação do poder – de qualquer natureza, político, econômico, militar, tecnológico, etc. – não acontece sozinha, e sim com a participação da sociedade civil. “Nossas mentes vivem imersas em um ambiente de comunicação, onde construímos nossa forma de pensar e, portanto, de fazer o que fazemos”, considerou, lembrando que, com a chegada das tecnologias digitais, não temos mais como fugir deste ambiente – cada vez mais intenso, veloz e, portanto, mais decisivo para definirmos nossas posições e preferências, tanto quanto indivíduos como sociedade.

Eis o centro de sua palestra: o impacto que estas novas tecnologias imprimiram primeiro à sociedade, depois aos meios de comunicação – ou à “arena da comunicação”, frisando que não mais podemos separar o público dos grupos que antes controlavam este debate – e, finalmente, aos poderes políticos constituídos. “O poder político é construído no espaço da comunicação”, frisou, “este é o espaço em que se joga o poder”. Exemplificou o impacto da internet na sociedade moderna, primeiro em números, citando que há quase o mesmo número de linhas de telefones celulares ativas no mundo que de pessoas (“Sem nos esquecer que bebês – ainda – não usam celulares”, brincou), e como a evolução do digital e das tecnologias móveis aceleram um processo que está mudando a cara da política. “A humanidade está conectada”, atestou, “e isso aconteceu num espaço duas décadas, sobretudo nos últimos dez anos.”

Lamentou a crise do jornalismo, agente que funcionaria como mediador entre os poderes e as pessoas, mas que tem perdido o contato com o público por não saber dialogar com a nova realidade digital e estar obcecado com números de audiência – antes fáceis de ser conseguidos e que agora dispersam-se pois os espectadores e leitores não são mais “vegetativos” – como explicitou no caso do público da TV – e que consomem muito mais informação que antes, por canais diferentes. “O uso da internet se aprofundou pois novos espaços sociais de interação foram ocupados, cada vez mais personalizados”, continuou, listando redes sociais e enfatizando que o até o e-mail já perdeu seu espaço. “Há mais de 500 milhões de blogs atualizados diariamente, a maioria na China, e as redes sociais, hoje onipresentes, existem há menos de dez anos”, além de salientar que a internet se tornou um espaço multicultural, em que o inglês, por exemplo, perdeu a dominância: “Menos de 29% da internet é escrita em inglês”, reforçou.

Este novo cenário resulta na crise total do negócio tradicional da comunicação, disse Castells. “Ninguém ainda encontrou a resposta para a questão da perda do monopólio nas transmissões das mensagens. Todos os grandes meios de comunicação em todo o planeta estão em profunda crise empresarial, pois tentam se apropriar de um modelo que não entendem. É um problema mental – e generalizado no mundo todo. A internet é ativa, os outros meios eram passivos”, refletiu.

Castells também falou sobre como enfraquecimento dos meios tradicionais de comunicação afetou a política, que hoje busca um rosto para representar o poder, não apenas ideologias ou partidos. Disse que isso acontece pois há uma crise de representação de poder que encontra eco nos novos espaços sociais e faz que a sociedade se pergunte sobre seu papel nestes novos tempos.

O novo cenário é composto não apenas de veículos de comunicação de massa e ambientes digitais que permitem discussões entre as pessoas, mas de uma nova forma de comunicação, que chama de “autocomunicação de massas”. Ele explica o termo: “É de massas porque pode alcançar, potencialmente, milhões e milhões de pessoas. Não ao mesmo tempo, mas uma pequena rede se conecta a muitas redes que se conecta a muitas redes e se chega a todo o mundo”, definiu, “e é ‘auto’ porque há autonomia na emissão das mensagens, na seleção da recepção das mensagens, na criação de redes sociais específicas. Assim, a capacidade de encontrar informação é ilimitada, se você tem critérios de busca – que não são tecnológicos e sim metais ou intelectuais.”

E a partir daí começou a conclusão de sua conferência, explicando que movimentos como o que propôs a criação coletiva da constituição da Islândia, os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, a Primavera Árabe e o grupo Anonymous são parte de um mesmo movimento, coletivo e global, que não é político e sim social. “São estes movimentos, sociais e não políticos, que realmente mudam a história, pois realizam uma transformação cultural, que está na base de qualquer transformação de poder”, salientou.

Disse que estes movimentos começam na internet mas não são essencialmente digitais. “Eles só tornam-se visíveis e passam a existir de fato quando tomam as ruas”, explicou, reforçando que estes movimentos acontecem há apenas cinco anos e que eles não têm lideranças, que repudiam a violência e que embora não tenham objetivo definido, encontrem coincidências e semelhanças ao indignar-se. “São movimentos emocionais e que se unem pela recuperação de uma dignidade que se perdeu. Às vezes eles começam pequenos e parecem que se mobilizam por pouca coisa, mas que funcionam como apenas uma gota a mais em uma indignação que existe em todos os setores sociais, que as pessoas não aguentam mais”, realçando que isso pode ser a construção de um shopping para turistas na praça Taksim na Turquia ou no aumento de centavos nas passagens de ônibus em São Paulo. “Centenas de milhões de pessoas já participaram destes movimentos”, continua, “e são movimentos que podem ter saído das ruas, mas não desapareceram. Eles continuam online. Quando vem a repressão física, eles se retiram das ruas, rediscutem online. Não têm líderes nem programa, mas têm a capacidade de resistir e de renascer a qualquer momento. Isso só acontece porque há a capacidade de autocomunicação de massa que os permitiu existir”.

E conclui: “A palavra ‘dignidade’ aparece em todos os países, em todos estes movimentos, em diferentes países e culturas. Eles não têm uma reivindicação concreta, mas querem o reconhecimento da própria dignidade, pois as pessoas não se vêem reconhecidas como pessoas ou cidadãos”. Castells reforçou que as semelhanças entre movimentos que partem de causas tão distintas apenas enfatizam seu papel no século 21 – e compara o que está acontecendo nos últimos anos com o que aconteceu nos últimos 40 anos no que diz respeito às mulheres, sem se referir a um autor, ideologia ou movimento feminista específico. “Foi um movimento coletivo, em que todas as mulheres do mundo decidiram abandonar o papel de sujeitada para assumirem o papel de sujeitas da história”, reforçou, lembrando os avanços da ascensão do papel da mulher na sociedade na última metade de século, principalmente em comparação a milênios de história. E, segundo ele, isso está acontecendo de novo, nesta nova forma de manifestação social – que demanda mudanças culturais mais do que políticas.

Foto: Divulgação / Fronteiras do Pensamento

Galileu – Junho de 2013

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A edição deste mês da Galileu lista as dez inovações que o Instituto de Tecnologia de Massachussets, o MIT, aposta que sairão dos laboratório rumo a rotina das pessoas. Há serviços e novidades que já estão nas prateleiras, mas algumas – como o chip que pode permitir recuperar a capacidade de memorização que destacamos na capa – têm 2013 como um ano decisivo para sua popularização. A capa ainda traz uma matéria sobre a importância do MIT assinada pelo Tiago Doria. Além da matéria de capa, ainda temos um dossiê sobre o que são smart cities e como podemos mudar nossas metrópoles hoje para melhorar a qualidade de vida no futuro, uma matéria sobre pessoas que não sentem medo por problemas no cérebro, a farmácia de remédios brasileira, a resistência da internet discada no Brasil, uma entrevista que fiz com o porta-voz do PirateBay, que vem ao Brasil no mês que vem, um ranking de consumo de remédios no mundo, o novo disco do Daft Punk pela Gaía Passarelli e as pinturas na água da canadense Corrie White. Abaixo, a apresentação da edição que faço todo mês no início da revista, que já está nas bancas.

Não-ficção

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TRAFICANTE DE MEMÓRIAS: No filme Johnny Mnemonic, o personagem de Keanu Reeves cedia parte do cérebro para guardar segredos industriais

O chip na capa desta edição não será plugado em quem tiver lesões cerebrais que impedem a formação de lembranças a longo prazo. A ilustração é uma versão do dispositivo que foi conectado ao cérebro de cobaias em testes que provaram que é possível ligar o corpo à máquina. As experiências com humanos devem começar ainda este ano e, se forem bem-sucedidas, podem se tornar realidade em breve. Theodore W. Berger, da Universidade do Sul da Califórnia, não esperava ver o fruto de mais de três décadas de estudos funcionando, mas depois dos avanços neste século, ele está mais otimista.

O implante de memória é uma das tecnologias escolhidas na última edição da revista Technology Review, publicada pelo MIT, como um dos principais avanços científicos que veremos em 2013. A publicação seleciona anualmente 10 rupturas técnicas que estão saindo do laboratório rumo à realidade. O implante de Berger é, entre os itens deste ano, uma das que mais deve levar tempo para chegar às ruas para entrar em nossa rotina — ele fala em dois anos até que as aplicações médicas aconteçam de fato. Mas outras, como o relógio de pulso que conversa com o telefone celular, o robô-operário que interage com outros humanos e o sequenciamento de DNA de fetos, por exemplo, já são realidade e estão ao alcance de quem pode pagar por elas.

Tudo bem que ainda há muito chão pela frente para chegarmos a algo próximo do que William Gibson previu quando escreveu Johnny Mnemonic, conto que virou filme em 1995 com Keanu Reeves, em que um “traficante de memórias” cedia parte de seu cérebro para armazenar segredos industriais — se é que um dia chegaremos perto disso. Mas é fato que o século 21 vem nos apresentando, exponencialmente, novidades que antes pareciam fantasia, mas que graças a cientistas espalhados pelo planeta estão se materializando na vida real. O exemplo mais óbvio talvez seja a internet. Da mesma forma que, há 20 anos, nem sonhávamos com o que hoje fazemos rotineiramente, avanços científicos irão moldar o futuro de tal forma que aos poucos nos sentiremos vivendo num conto de ficção científica — que não será mais ficção.

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Falha minha: na Carta ao Leitor passada, citei o livro Abundance: The Future IsBetterThanYouThink, de Steven Kotler e Peter H. Diamandis e disse que ele não havia sido publicado no Brasil. Mas a editora HSM me corrige e diz que lançou o livro por aqui como Abundância — O Futuro É Melhor do que Você Imagina. Feita a correção, refaço a indicação: leia. Vamos lá!

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Bom saber #009: Karen Armstrong e a religião além da igreja

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Na minha coluna do site da Galileu falei sobre a passagem de Karen Armstrong pelo palco do Fronteiras do Pensamento.

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Karen Armstrong e a religião além da igreja
A escritora inglesa deu uma aula sobre compaixão sem mencionar dogmas

Inspiradora a segunda apresentação da edição 2013 do Fronteiras do Pensamento, que aconteceu nesta quarta-feira, 8 de maio, em São Paulo. A noite era da escritora inglesa Karen Armstrong, uma das principais historiadoras da religião em atividade .Ela foi freira e viveu em um convento por sete anos, quando abandonou a igreja para estudá-la, passando a escrever livros sobre judaísmo, cristianismo e budismo. Ela também criou a entidade Charter for Compassion, que ganhou o prêmio TED em 2008, e falou sobre a importância da religião hoje em dia. E como é bom ouvir falar em religião sem cair em dogmas ou debates sobre a existência ou não de deus.

Karen, agnóstica, preferiu deixar essas controvérsias em segundo plano para falar do papel da religião em nossas vidas. E criticou aqueles que acham que religião é apenas seguir uma série de ensinamentos sem refletir sobre os mesmos, louvando o judaísmo por sempre exigir uma nova interpretação a cada nova leitura da palavra sagrada. “O conceito de mito não é estático”, disse, explicando que os mitos devem ser tomados como portas de entrada para a vivência da religião. “Estamos vivendo a época em que mais se tomam as escrituras sagradas literalmente” e reforçou que seguir uma religião sem vivê-la é o mesmo que aprender a dirigir ou a nadar na teoria, sem entrar num carro ou numa piscina. “Você não pode achar que basta ler o manual de instruções do carro e ter noções de como o trânsito funciona para se considerar um motorista. A religião pressupõe a prática.”

Ressaltou os pontos em comum entre as grande religiões para concluir que todas criam, basicamente, acessórios específicos para a mesma verdade, que é a Regra de Ouro: “Não faça aos outros o que não quer que façam com você”, repetiu diversas vezes, ressaltando que a palavra-chave neste caso é a compaixão. “E não é ter pena do outro, é colocar-se no lugar dele”, ressaltou, antes de citar um trecho da Ilíada, de Homero, em que o Aquiles e o pai de Hector – que havia sido morto pelo primeiro – se encontram e choram, juntos, a morte dos queridos que perderam na guerra. “Compaixão é reconhecer que o outro sente dor”, disse, citando que, durante a renascença da Grécia Antiga, 5 séculos antes de Cristo, aconteceu a criação do gênero tragédia, em que peças eram encenadas para que os espectadores pudessem chorar juntos – reconhecendo-se nos personagens e compartilhando o sentimento comum. “Naquela época, havia o líder do coro, que virava para a plateia e diziam: ‘Agora vocês podem chorar’”, liberando o público grego para o êxtase coletivo em forma de choro.

Falou bastante da etimologia das palavras ligadas à crença e como todas elas convergem para o aspecto da compaixão e do compromisso. E também frisou o quão importante é desprender-se do ego para atingir o estado máximo da fé, que transcende as religiões a ponto destas reconhecerem o ponto comum entre si mesmas. Disse que vivemos numa cultura em que a primeira pessoa é muito importante, por isso o maior desafio de qualquer religião é fazer as pessoas aprenderem a parar de pensar em si próprias para sentir o outro.

Terminou a palestra comentando sobre seu novo livro, que falará sobre violência e religião, explicando que não era a religião que era mais violenta no passado, mas que ela permeava todo aspecto da vida das pessoas, inclusive políticos e militares. E celebrou a religião como uma forma de arte, explicando que a iluminação religiosa é semelhante à artística – e que, por muito tempo, era a própria religião quem dava arte e cultura – de outra forma restritas a elites – para a população em geral.

Uma aula de história que provou que religião, fé e compaixão são temas que fazem sentido inclusive fora da igreja.

Foto: Divulgação / Fronteiras do Pensamento

Bom saber #008: Vinte anos de uma lógica aberta

Na minha coluna desta semana no site da Galileu, explico como a web – cujo primeiro site foi publicado há vinte anos – conseguiu popularizar a internet.

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Vinte anos de uma lógica aberta
O primeiro site da web e o porquê da internet ter levado décadas para se popularizar

Sabemos que a internet foi criada há quase meio século, mas, ao mesmo tempo, nosso passado recente nos lembra que nosso uso da rede começou a acontecer há bem menos tempo que isso. Afinal, até quem foi criança nos anos 90 lembra-se de quando usou a rede pela primeira vez. Aqueles que nasceram de 1995 pra cá – e têm hoje, em 2013, menos de 18 anos de idade – podem ter crescido em ambientes que já dispunham de acesso à internet. Mas se você é maior de idade é bem provável que você lembre do primeiro contato que teve com hábitos que hoje fazem parte de nossa rotina.

Depois de ligar o computador – que, naquele tempo, ainda trazia a ancestral versão 3.1 do Windows, que exibia as tais “janelas” que batizavam o sistema operacional em sua área de trabalho -, era preciso conectar-se à internet através de um modem de conexão discada (aquele barulhinho específico provoca reações nostálgicas – não necessariamente boas – em que o utilizou). Um ícone que unia dois computadores surgia num canto da tela para mostrar que a conexão havia sido feita. Era a hora de, usando um browser de interface gráfica, utilizar a tal rede. E ela nos era apresentada na forma de páginas de texto com poucos recursos visuais e uma novidade que não demorou para ser aprendida: palavras sublinhadas indicavam que elas podiam ser clicadas com o mouse e, a partir deste clique, poderíamos visitar outra página com tantas outras palavras sublinhadas. Mais tarde nos disseram que este conceito chamava-se hipertexto – uma palavra-mágica que, ao ser invocada (com um clique), nos transportava para outros ambientes. Esse teletransporte virtual só era possível graças ao conceito de hyperlink que, rotineiramente, teve seu nome encurtado simplesmente para “link”.

Havia outras formas de se conectar à internet antes desta invenção, mas elas eram burocráticas e pouco inspiradoras. A rotina de clicar no ícone do modem, esperar o computador conectar-se à rede, abrir o programa de navegação e perder-se ao sair clicando nos links que surgiam está tão impregnada em nosso inconsciente que nem sequer percebemos que fazemos isso diariamente. A tecnologia melhorou esse tempo: hoje você não precisa avisar ao computador que quer conectar-se à rede, ele já está online ao ser ligado – e a rede é de uma velocidade incomparável (mesmo quando falamos do 3G brasileiro). Às vezes não é preciso nem abrir o browser para sair clicando em links – o sistema operacional já trabalha em rede, atualizando-se sozinho. A própria expressão “entrar na internet” parece não fazer mais sentido – afinal, estamos online o tempo todo, conscientes ou não. Checar um email ou se informar sobre alguma coisa específica já não levam os minutos que levavam antes de 1995. Fazemos isso em segundos atualmente. E por mais que nossos hábitos possam ter evoluído em relação àquele tempo, eles ainda são essencialmente os mesmos. Algumas siglas nos ajudam a identificar a semelhança.

Grande parte dos sites que frequentamos nessas duas últimas décadas começavam com o http e terminavam com html. O “h” que inicia as duas siglas é o mesmo do citado hipertexto. O primeiro é o protocolo de transferência de hipertextos, o segundo é a linguagem de marcação de hipertexto. Juntos, eles permitiam que o texto clicável, o tijolo que tornou a construção da web como a conhecemos hoje, pudesse existir.

Este sistema de organização de arquivos começou a ser desenvolvido por um cientista da computação do Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN), principal instituição científica europeia (palco da criação da maior ferramenta humana, o LHC). Tim Berners-Lee se incomodava com o fato de não haver padronização nem mesmo entre as apresentações de seus colegas de instituto e, principalmente, entre os cientistas do mundo, o que tornava o diálogo entre pesquisas e portanto seu desenvolvimento mais lento e desencontrado. Pensando nisso, desenvolveu a lógica do hiptertexto ainda nos anos 80, criando uma base de dados chamada ENQUIRE, que reunia o trabalho de outros cientistas. Este podia ser atualizado pelo próprio autor e permitia que fossem feitas referências literais – via hipertexto – ao trabalho de outros colegas.

Essa lógica foi depurada durante aquela década e, em março de 1989, Tim escreveu uma proposta para uma database ainda mais abrangente. Seu chefe sugeriu que ele usasse um computador NeXT recém-adquirido como servidor – que até hoje é exibido como troféu no próprio CERN, na exposição permanente Microcosm, ainda com o aviso escrito com canetinha vermelha em que se lê “Esta máquina é um servidor: NÃO A DESLIGUE!”. Depois de pensar em nomes que faziam graça com o seu próprio prenome (The Information Mesh e The Information Mine eram acrônimos de “Tim”), Berners-Lee batizou sua nova invenção definitivamente de World Wide Web (“teia de alcance mundial”) – e sugeriu que seus endereços viesse com a sigla www para determinar os novos domínios digitais.

No dia 30 de abril de 1993 – portanto, há 20 anos nesta semana – ele criou o primeiro site dentro de seu novo sistema de organização de informação, site ressuscitado pelo próprio CERN em lembrança à data. Poucos meses depois me lembro de ter consultado os computadores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp para, através da recém lançada web (eu mal sabia), entender o que era o trabalho de um tal Subcomandante Marcos que, do interior do México, usava a rede para espalhar sua causa para o resto do mundo – minha primeira vez online. Em menos de um ano depois, escreveria minha primeira matéria sobre a popularização da internet, uma invenção que, na última década do século passado, completava três décadas de existência. Em dois anos, a rede havia se popularizado mais rapidamente do que nas suas primeiras três décadas.

Pois antes sua existência era tratada como uma espécie de pacto velado entre iniciados: a rede interconectava milhares de pessoas em diferentes países, mas não havia se tornado popular, mesmo que o computador pessoal já tivesse se embrenhado nas diferentes áreas do conhecimento humano. Foi preciso que uma invenção de um cientista inglês obcecado por organização de informação abrisse o clubinho secreto global para que todo mundo participasse – e que, assim, popularizasse a rede.

Esse foi o segredo do sucesso da web. Em uma apresentação mostrada em 1991, ele explicava que “estamos muito interessados em que a web se espalhe por outras áreas e para termos servidores para outros dados. Colaboradores são bem-vindos”. A navegação intuitiva e a visualização menos burocrática também ajudaram a popularização da web, mas foi esta frase final, escrita dois anos antes da execução do primeiro site, que tornou a rede tão popular em tão pouco tempo. Se fosse criada em uma empresa, talvez esta lógica não fosse tão amigável e possivelmente seria necessário alguns diplomas ou certificações para se trabalhar naquele novo projeto. Ao abrir a novidade para o mundo, o CERN tornou-se pai de uma ferramenta humana talvez ainda mais ambiciosa que o grande colisor de hádrons, o LHC. Uma que conecta toda a humanidade de forma a acelerar radicalmente a evolução de diferentes níveis de conhecimento, graças ao simples contato instantâneo.

Ainda estamos engatinhando neste novo universo digital, mas não tenha dúvidas que se não fosse o apelo a uma natureza colaborativa e o ímpeto generoso de Tim Berners-Lee ao tornar a web aberta – tecla que ele segue batendo, como disse nas vezes que veio ao Brasil -, não estaríamos conversando diariamente com o resto do mundo em uma tela de computador. Não é por acaso que confundimos web com internet – foi a primeira que tornou a segunda popular e permitiu que todos passássemos a usá-la. Hoje percebemos que os limites da internet vão para muito além da web, conforme navegamos em aplicativos em nossos smartphones que não utilizam a interface desenvolvida por Tim Berners-Lee (embora sua lógica, a dos links, permaneça ali) ou descobrimos desdobramentos diferentes desta rede seja em redes de torrents, ecossistemas criados por empresas de games e redes sociais, variações do dito armazenamento digital “na nuvem” ou na infame deep web. E esses limites continuarão se expandindo se, como quis o cientista inglês, a lógica da rede seguir aberta e sem controle, como é há vinte anos.

E você, que hoje pode assistir à TV do mundo inteiro, informa-se em redes sociais e ouve a música que quiser ouvir com uma mísera busca, lembra-se da primeira vez que utilizou a web? Não esqueça de agradecer a Tim Berners-Lee.

Galileu – Maio de 2013

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Na edição deste mês da revista Galileu, falamos sobre uma mudança no método de desenvolver novas tecnologias – concursos que oferecem milhões de dólares para que cientistas desenvolvam novas invenções. Esse formato vem se tornando cada vez mais comum nos últimos 20 anos e inclui desafios extremos como desenvolver um diagnosticador portátil, enviar um robô para a Lua e controlá-lo daqui da Terra, craquear a genética da longevidade até provocações mais mundanas, como desenvolver gelatina sem ingredientes que tenham origem animal. O Dossiê da edição é sobre estupidez (e porque burrice não é o antônimo de inteligência) (com direito à entrevista que o Tiago fez com o doutor em filosofia André Spicer, que fala sobre como as empresas nos emburrecem), a bicileta de Phillppe Stark, abstinência de internet, a contracultura da alimentação, um outdoor que transforma ar em água potável, um papo com Adriano Fromier Piazzi, da Aleph, sobre publicar ficção científica no Brasil (que também indica cinco clássicos do gênero), um mapa da população flutuante da região de São Paulo, uma conversa com o autor do livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa, David McRaney, um físico polonês que está aplicando a lógica open source a equipamentos de agricultura e geração de energia, a visita que Juliana Cunha fez à Coréia do Norte, o país mais offline do mundo, um aplicativo brasileiro de recomendações, a rotina de uma favela na Índia, como é ser treinador de cão-guia, a história das epidemias e seu futuro próximo, moral e maniqueísmo nos videogames e Steven Pinker escreve sobre como estamos vivendo a era mais pacífica da humanidade. Abaixo, a carta ao leitor que escrevo no início da revista.

Um futuro melhor

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OLHANDO PARA FRENTE: A Fundação X Prize, de Peter H. Diamandis, é uma das instituições que apostam no otimismo prático para este novo século

Pouco antes de assumir a direção da redação da GALILEU terminei de ler Abundance: The Future Is Better Than You Think (Abundância: O Futuro é Melhor do que Você Pensa, Free Press, ainda não publicado no Brasil). O livro de 2012 foi coescrito pelos norte-americanos Peter H. Diamandis e Steven Kotler e defende a teoria que estamos às vésperas de uma era de fartura e que a vida neste novo século deverá ser ainda melhor.

Para enfatizar, eles enumeram índices que mostram como melhoramos nos últimos cem anos: das condições de higiene ao número de doenças que afligem nossa rotina, os dois escrevem que “usando qualquer métrica disponível, a qualidade de vida evoluiu muito mais do que no resto de toda a história”. Listam a queda da mortalidade infantil (90%) e do número de mães que morrem no parto (99%) e o aumento da longevidade (100%) nos últimos cem anos, entre outros números, para justificar a tese.

Diamandis especificamente vai além de simplesmente detectar estas melhorias. Ele é um dos principais responsáveis pelo investimento em ciência e tecnologia do futuro, seja como fundador da Universidade da Singularidade ou da Fundação X Prize, uma das instituições que abordamos na matéria de capa desta edição, em que o repórter Tiago Cordeiro elenca concursos internacionais que premiam ideias que podem melhorar o futuro. E você não precisa ser cientista para participar destas premiações.

O otimismo de Diamandis conversa com o do psicólogo canadense Steven Pinker, que lança seu novo livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza no Brasil e assina o Novas Ideias desta edição, explicando por que acha que estamos vivendo na época mais pacífica da história.

Tal otimismo faz parte de nossa rotina de GALILEU, e não são poucos os exemplos que listamos de pessoas e instituições que preferem pensar em como melhorar o planeta do que simplesmente lamentar — siga folheando a revista e descubra. Não fechamos os olhos, no entanto, àquilo que nos incomoda, como o relato que a repórter Juliana Cunha fez ao visitar a Coreia do Norte ou o Dossiê desta edição, que enfatiza que inteligência e estupidez não são necessariamente antagônicas. O mundo está melhorando e queremos fazer parte desta mudança. Vamos lá!

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Bom saber #007: Mario Vargas Llosa x Neil Gaiman

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Na minha coluna desta semana no site da Galileu, falei sobre a palestra de Mario Vargas Llosa que assisti na semana passada e da de Neil Gaiman que vi no site do Ramon – e como uma acabou respondendo à outra.

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Mario Vargas Llosa x Neil Gaiman
Lamentar a espetacularização da cultura ou celebrar o fato de ela estar disponível para cada vez mais gente?

Na quarta-feira da da semana passada, dia 17 de abril, aconteceu no teatro Geo, em São Paulo, o evento de abertura da edição 2013 do Fronteiras do Pensamento. O evento traz para São Paulo há três anos – e para Porto Alegre, onde nasceu, há seis – acadêmicos e intelectuais de diferentes áreas do conhecimento para discutir questões que, de acordo com seu curador Fernando Schüller, são assuntos que precisam ser trazidos para a pauta deste século. Neste ano, o tema geral da série de palestras é o “cosmopolitismo” – ou como o próprio Schüller explicou em entrevista à GALILEU, como os temas que antes eram restritos às cidades hoje se refletem em todo o mundo. E para começar este ciclo de conferências, o primeiro convidado foi o escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Vargas Llosa, apresentado pelo curador do evento, é um dos principais intelectuais latino-americanos e resumi-lo a escritor é mais uma comodidade que um rótulo. Com ampla atuação pelas artes e ciências humanas como um todo, ele é autor de livros consagrado de livros como A Cidade e os Cachorros (1963), Conversa na Catedral (1969) e A Guerra do Fim do Mundo (1981), mas não restringe seus livros ao romance, tendo escrito peças e ensaios, além de ter passado por palcos – como ator – e palanques – como político (chegou ao segundo turno da eleição presidencial de seu país em 1990, quando perdeu para Alberto Fujimori). Tal bagagem o chancela também como provocador da cultura. E sua participação no Fronteiras deste ano teve como ponto de partida o recém-lançado A Civilização do Espetáculo, que terá edição brasileira lançada no segundo semestre pela editora Alfaguara.

Vargas Llosa começou sua conferência tentando definir o que é cultura e como tal termo foi banalizado, sendo associado à qualquer coisa: “a cultura do reggae, a cultura heterossexual”, frisando que, “quando tudo pode ser cultura, nada é cultura”. E lembrou o momento em que a ideia central de seu novo livro lhe atingiu, em uma visita à Bienal de Arte em Veneza. Ao perceber que não gostava da maioria das obras que via, caiu-lhe a ficha: “Não queria ter nenhuma daquelas obras em casa”, lamentou, “aquilo que via parecia mais a Disneylândia ou um circo, e não arte”.

Localizou o início desta decadência quando Marcel Duchamp expôs seu célebre mictório num museu, dizendo que “ali foram abertas as portas à loucura”, concentrando seus ataques na figura do artista britânico Damien Hirst, que chamou de palhaço: “O pintor mais caro de nosso tempo não sabe pintar”, esbravejou para delírio da plateia, que ria a cada alfinetada dada nos pós-modernos.

Contudo a palestra não foi apenas a apresentação de ideias mal humoradas em relação à cultura atual. Lembrou de quando conheceu Paris no início dos anos 60 e se percebeu não apenas artista, mas também como um artista latino-americano, quando aos poucos conheceu e reconheceu, no Velho Continente, o valor de seus pares. Lembrou do próprio fascínio infantil ao descobrir a leitura aos cinco anos de idade, dizendo que foi “a coisa mais importante de minha vida”. E frisou o papel edificante da cultura na história da humanidade quando, por exemplo, o sexo deixou de ser visto como mero ato físico para a reprodução dando início ao amor romântico e ao erotismo. Mas estava dedicado a demolir a chamada “cultura do espetáculo atual”, em que a arte “vira um mero passatempo”, alertando que, numa cultura sem referenciais, o homem poderia voltar para a idade da pedra.

Interessante notar a ausência da palavra internet em mais uma hora de discussão sobre a cultura atual. Vargas Llosa no máximo citou o fato das notícias correrem mais rápido que antigamente e o imediatismo dos acontecimentos, mas tratando a teia digital que aos poucos torna-se o sistema nervoso da civilização deste século como um simples meio de comunicação, uma espécie de telefone-jornal-total. Apenas ironizou o fato de que todo mundo pode produzir arte atualmente como se todos os que se descobriram artistas graças à internet (sem precisar ir à Paris para isso) fossem apenas aspirantes amadores a uma elite que aos poucos deixa de existir. Zombou da espetacularização da cultura numa palestra que era, ela mesma, um espetáculo – e que encerraria com distribuição de autógrafos do próprio autor.

Discordo radicalmente de Vargas Llosa em relação a vários aspectos, mas quem sou eu para confrontá-lo? Prefiro usar como contraponto a recente palestra que o também escritor britânico Neil Gaiman, que começou como quadrinhista e hoje frequenta listas de best-sellers inclusive no Brasil, deu três dias antes, no dia 14 deste mês, durante a Digital Minds Conference, dentro da London Book Fair que acontece anualmente em seu país, que vi no blog do jornalista Ramon Vitral, especializado em cinema e quadrinhos.

Gaiman pegou como gancho os ataques que as gravadoras faziam, ainda nos anos 70, à novíssima possibilidade de gravações caseiras, ao exigir que os músicos que se submetiam à licença para trabalhar profissionalmente na Inglaterra levassem adesivos em que se lia “hometaping is killing music” (“gravações caseiras estão matando a música”). O aviso fazia referência ao fato de que, graças à fita cassete, qualquer um poderia gravar um disco comprado sem que necessariamente houvesse pago por ele. Ele faz a conexão entre a paranoia daquele tempo com outra mais recente, em que um discurso semelhante é associado a quem baixa música – ou outro tipo de conteúdo digitalizável – via internet sem pagar a seus autores.

E puxa o assunto para sua área, os livros. Citando uma conversa que teve com o falecido Douglas Adams, autor da célebre série O Guia do Mochileiro das Galáxias, sobre livros digitais antes mesmo do conceito de e-book como o conhecemos existir. Gaiman lembra que o personagem central na saga de Adams não era o inglês Arthur Dent, o alienígena Ford Prefect, a terráquea Trillian ou o robô Marvin, o andróide paranoico, e sim o próprio livro que batiza a saga, uma enciclopédia que pode ser atualizada a qualquer minuto – e que é carregada em um livro do tamanho de um tablet atual. Adams antecipou a Wikipedia e dizia que provavelmente este formato substituiria o livro impresso, mesmo sem saber qual a tecnologia que o alimentaria. E disse a Neil que “da mesma forma que os tubarões sobreviveram ao tempo dos dinossauros”, poderia ser que o livro sobrevivesse à nova era eletrônica desde que, como aconteceu com os tubarões, não aparecesse nada melhor que os próprios tubarões.

E passou a citar uma série de exemplos de experimentos literários que vem conduzindo que não poderiam ser imaginados – ou sequer realizados – anos antes. Como a possibilidade de escrever dois livros – um com capa de madeira e todo rebuscado, o outro digital com pistas espalhadas em HDs por uma cidade – que se complementam, projeto que está envolvido agora. Ou como a brincadeira que realizou com um calendário, ao pedir que seus fãs, via Twitter, lhe fizessem perguntas sobre os meses do ano. Escolheu os doze melhores tweets e transformou cada um deles num conto, permitindo depois que outros tantos leitores fizessem o que quisessem com o material que ele produziu – inclusive em áudio, pois gravou os próprios contos com sua voz e disponibilizou as gravações online. E, orgulhoso, lembrou ver milhares e milhares de pessoas produzindo arte a partir de uma ideia sua que, anos antes, seria impossível de ser realizada.

Citou casos de projetos de crowdfunding que deram certo porque foram citados por ele, ganhando um público que nunca iriam atingir por conta própria, mas sem esquecer outros tantos projetos que, mesmo com seu aval, não saíram do zero. Lembrou de quando ressuscitou uma graphic novel parada no tempo – a série Signal to Noise, escrita com o artista Dave McKean e originalmente publicada nas páginas da revista The Face nos anos 90 – para um pacote de conteúdo digital em que seus compradores pagavam o que quisessem, o que lhe garantiu 78 mil dólares. “Foi incrivelmente educativo”, disse, “e as pessoas perguntam: ‘Isso quer dizer que para que eu consiga dezenas de milhares de dólares basta que eu peça para que eles paguem o que quiserem?’. E eu respondo: ‘Não’. Isso não quer dizer que nem mesmo eu posso conseguir esse valor numa outra oportunidade. É como um dente-de-leão: as sementes voam e só algumas delas encontram algum lugar onde podem crescer”.

E terminou sua fala com um conselho que vale para todos: “A verdade é que, não o importa o que fizermos, é provável que estará certo. Vamos abraçar o velho da mesma forma que abraçamos o novo. Pois estamos na fronteira. E não há regras aqui. Podemos violar leis que ainda nem foram imaginadas, podemos entrar em portas que dizem ‘saída’, escalar janelas. O modelo para amanhã – que é um modelo que venho usando com enorme entusiasmo desde que comecei a blogar em 2001 e talvez o mesmo que uso desde que acessei a internet via Compuserve em 1988 – é tentar de tudo. Cometa erros. Surpreenda a você mesmo. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Seja bem sucedido em formas que não foram imaginadas há um ano ou há uma semana. É hora de sermos dentes-de-leão, soltarmos mil sementes para que percamos 999 delas. E se uma centena – ou mesmo uma dúzia – delas sobreviverem, crescerem e formarem um novo mundo, acho que isso é mais sábio que esperar que 1983 volte mais uma vez.”

Lamentar a espetacularização da cultura ou celebrar o fato de ela estar disponível para cada vez mais gente? Desculpe Vargas Lllosa, mas eu fico com a opinião de Neil Gaiman. Abaixo, a íntegra da palestra do inglês. Trechos da palestra com o escritor peruano deverão aparecer no site do Fronteiras do Pensamento.

Fotos: Vargas Llosa (Fronteiras do Pensamento / Greg Salibian) / Neil Gaiman (reprodução).

Bom saber #006: Otimismo racional

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Na minha coluna no site da Galileu esta semana aproveitei o gancho do início da edição 2013 do projeto Fronteiras do Pensamento para falar com o curador do evento, o gaúcho Fernando Schüller, sobre como o mundo tem melhorado.

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Otimismo racional
O projeto Fronteiras do Pensamento também aposta em um futuro melhor nos próximos anos

Começa, nesta quarta-feira, 17 de abril, a edição 2013 do projeto Fronteiras do Pensamento. O primeiro palestrante é o escritor peruano Mario Vargas Llosa e a GALILEU fechou uma parceria com o evento garantindo 50% de desconto nos ingressos para quem assina a revista. O tema deste ano é o cosmopolitismo: como as discussões sobre questões relacionadas à cidade grande são importantes para o mundo todo. Conversei com o curador do projeto, Fernando Schüler, no início do mês e ele falou sobre este tema, veja no vídeo abaixo:

“A humanidade vem superando padrões éticos progressivamente, geração a geração”, me disse o acadêmico, citando como temas tidos como certo – tais como a escravidão, a disputa por meio de duelos e a discriminação vem diminuindo gradativamente. Foi bom ouvir que o idealizador de um dos principais projetos intelectuais no Brasil hoje não é um pessimista e acha que o mundo está melhorando, principalmente graças aos avanços da ciência e da tecnologia. Reforcei este aspecto na pergunta seguinte, e Schüler confirmou, falando que intelectuais tendem ao que ele chama de “pessimismo metodológico”, explicando que nossa visão de mundo é pautada por sentimentos e impede que vejamos as melhoras significativas que tivemos em muitas frentes nos últimos anos, como a queda da pobreza e da mortalidade infantil e o aumento da longevidade, isso devido à ascensão das periferias do mundo, que vêm da transferência do conhecimento e trocas globais que só aconteceram devido à abertura nos últimos séculos. “Nunca houve na época da história um desenvolvimento harmônico”, reforçou, lembrando que este desenvolvimento historicamente é paradoxal. E lembrou que isso não significa que as pessoas serão felizes ou que a cultura deixará de ser trivial, mas que é inevitável percebermos que houve “progresso social, econômico e até mesmo político”, nos últimos anos. Assista a seguir:

A constatação de Schüler vai de encontro ao tema da palestra que abre o Fronteiras do Pensamento de hoje, em que Mario Vargas Llosa crucifica a sociedade moderna e a espetacularização de nossa cultura tendo como base seu livro mais recente, A Civilização do Espetáculo, que ainda não tem edição brasileira. Na próxima coluna eu comento como foi a palestra de Vargas Llosa e continuo esta discussão sobre se a civilização está melhorando ou piorando.

Você sabe de que lado estou.