Sobremusica

O nome do site é horrível (pensando bem, poucos nomes de sites são verdadeiramente bons) mas o conteúdo é classe – esbarrei neles em inevitáveis procuras pela web atrás daquela banda recém-hypada, daquele artista que pouca gente comenta ou de uma situação envolvendo música e indústria que não havia sido explorada a fundo por cadernos de cultura. Mas eis que um dos Sobremusica me abordou no fim do ano passado pra participar de um dos debates em um evento que seria realizado por eles – um bate-papo que aconteceria durante quatro quartas-feiras no começo de 2007. Foi o Bernardo Mortimer que iniciou a abordagem por email, listando alguns nomes que estariam presentes no evento (boa parte, broders meus de longa data: Lariú, Bruno, Gabriel, Nobre, Lucio, Ferla, Diego, Berna, Paulo André, Quinho, Marsiglia, além do mestre Sílvio Meira). Semanas depois, pessoalmente, trombei com Bruno Maia durante o Porto Musical em Recife (quando, horas antes da minha palestra matinal, eu estive discotecando com um pen-drive na I Love Cafusú, no Grêmio Recreativo Preto Velho, em Olinda) e estava armada a conexão. Uma vez que os BMs me foram apresentados, agora é a minha vez de apresentá-los e em vez de começar a teorizar pela enésima vez sobre um acontecimento em que participo deixo eles, curadores do Música Chappa Quente, que começa nesta quarta agora no Rio de Janeiro, fazerem o, er, trabalho sujo. O longo papo aconteceu por email e os dois deram uma bela geral sobre o que é esse papo de Chappa Quente, a quantas anda o jornalismo musical e a música pop brasileira hoje, as mudanças proporcionadas pela internet e suas histórias de vida, mashupando todos estes assuntos entre si. Deixa eles falarem, melhor:

O que é o Chappa Quente, além daquilo que tá no release?
Bernardo Mortimer – A idéia veio do fato que quem quer dominar o mundo precisa começar por algum lugar. Tem uma onda do Sobremusica que é a de falar sobre música – prometo evitar os trocadilhos daqui em diante – sem ser um tradicional veículo musical nem um querido diário de alguém que vive isso amadoristicamente, semiprofissionalmente e até pseudoprofissionalmente, dependendo do caso. Nisso, entram uma série de experimentações que foram dando certo ou errado – as que a gente acha que deram certo acabaram ampliando o leque da abordagem de música, para o que o Chico Science chamava de “diversão levada a sério” há mais de dez anos. Tipo onde está a paixão e o emprego, como funciona a engrenagem, quem são os personagens que não tão na capa dos discos, ou no que você digita lá no search do megaupload, sei lá. Nada de novo, mas nada que esteja por aí, fácil de achar.
O melhor exemplo disso é uma série bissexta de entrevistas que a gente resolver fazer com músico de banda, pra contar histórias a partir de um olhar que não é protagonista, mas que nos interessava muito. O melhor exemplo foi o Bidu, trombonista do Paralamas que toca na Orquestra Imperial, e tal. Ele foi crescendo, era uma figura que quem freqüenta a noite ia reconhecendo mais, jogando luz em um instrumento menos popular e tal. Enfim. Fizemos a entrevista e nos encontramos, no mesmo dia, na casa do Bidu, com Raul Mourão – que nos foi apresentado pelo Bi Ribeiro como o artista plástico das últimas capas do Paralamas. Um cara que também tava nessa de dominar o mundo. É da Tecnopop, parceira no Chappa.
Trocamos emails, e pra resumir a história, começamos a nos reunir para pensar/estudar alguma coisa que articulasse a cena do Rio. Nessa onda, Chappa Quente é o humilde início.
Bruno Maia – Além daquilo que tá no release é a realização de um trabalho pesado e lúdico que veio se desenvolvendo há um ano. A idéia do Música Chappa Quente é parte de um projeto maior e veio de um monte de outras idéias acumuladas que vão se misturando e virando uma só. A urgência inicial, como sempre, é uma observação da aldeia. Aqui no Rio, nós estamos vendo uma geração de gente da nossa idade criando coisas legais e que, por uma série de contingências não acontecia da maneira que nós achavámos que podia acontecer. É preciso dar uma sacudida na cidade, como o pessoal fez em Pernambuco há 12 anos, pra fazer os poderes público e privado voltarem a acreditar que a música é um bem, um patrimônio da cidade, não só no discurso eleitoral, mas na prática.
O movimento de discussões sobre a indústria vem crescendo no mundo todo e uma pesquisa rápida mostra isso. Nesse sentido, o Brasil começou a ensaiar alguma coisa mais forte no ano passado, mas ainda não vi um evento assumidamente disso, pensado para a discussão. Ir além daquele formato “fala-garoto” é a nossa meta. Por isso, valorizamos tanto os debatedores, quanto ter questionadores qualificados, que sabem bem daquilo ali, pra fazer as primeiras perguntas fortes e motivar o público a fazer o circo pegar fogo, esquentar o negócio. Música é um bem coletivo, todo mundo tem que cuidar.

Há uma série de eventos desta natureza sendo realizados hoje no Brasil e no mundo – será que um dos desdobramentos da indústria da música pós-internet é criar eventos para discuti-la?
Bernardo Mortimer – A única constante é a mudança, né? Acho que quando tem uma série de pessoas inventando formas de movimentar uma economia específica a partir de experiências fora do esperado, e tudo o mais, passa-se a criar uma curiosidade, uma busca por informação. Em tempos de incerteza, e a internet matou o chão onde a gente pisava, se você consegue organizar informação e contextualizá-la para alguém, isso é um negócio sim. Um negócio, como tantos novos, que ainda precisa chegar a um caminho para se comercializar, transformar potencial em fato.
Bruno Maia – Acho que isso é fruto da própria mudança da “indústria da música”. Até o advento do MP3, esse termo era muito confundido com “indústria fonográfica”. Hoje em dia, essa separação é clara. A “da música” ainda depende da fonográfica, mas também de muitos outros atores que já ocuparam decisivamente o setor, como os advogados, publicitários, marqueteiros, professores, jornalistas, telefônicas, portais de internet, setores de tecnologia. Steve Jobs, Shawn Fanning, Steve Chen e Adam Curry são estrelas pop hoje em dia. O Ronaldo Lemos é o pop-cult brasileiro, com todos os méritos pra isso. Essas coisas acontecem porque os setores que tangenciam a música ganharam muita importância e as manchetes de jornal começaram a se virar pra isso. O que essas pessoas tem a dizer passou a ser importante e algumas pessoas estão vendo que isso pode ser capitalizado como entretenimento também. Com toda razão, porque é divertido mesmo, hahaha!

E vocês nessa onda de “futuro da música”, como observam as transformações? Como a música vai – ou deveria – ser consumida daqui a uns anos? O que efetivamente mudou com a chegada da internet?
Bernardo Mortimer – A internet facilita a curiosidade. E no que todos podem ser curiosos, quem tem mais informação é mais legal, atrai a curiosidade dos outros, tem mais amigos, fica menos isolado – ou mais conectado. Música – e cada vez mais, vídeo – voltou a ser estilo e a ser substância.
Não dá pra ter certeza, mas burlar regras também ficou mais fácil, porque a tecnologia é cada vez mais subversiva – nesse sentido de dificultar as proteções de propriedades. O fato é que lugar de música agora é na rede, e a rede já tá saindo dos computadores para os celulares, e arrisca se espalhar mais ainda. Não sei se a publicidade vai ser o caminho pra tudo, acho que vai ser bem mais difuso mesmo.
Bruno Maia – Não vou falar daquele exemplo do Bowie de ter música saindo da torneira como se fosse água (os pais deste exemplo, na verdade, são a dupla de pesquisadores David Kusek e Gerd Leonhard, autora do livro The Future of Music, e David Bowie, sampleador que não dá créditos como sempre, sai por aí usando os caras como exemplo, sem dar a ficha completa… Mas já avisei ao Bruno, antes de colocar a entrevista no ar)… Mas acho que talvez um bluetoothzinho vá rolar. Eu acho essas transformações um tesão. Muito mais maneiro do que ter ouvido o Dark Side of the Moon em 1973 foi ver a briga do Metallica com um moleque que criou um software esquisito prum trabalho de faculdade. Pra mim, a indústria da música só vai sobreviver se conseguir aliar-se às outras que precisam de conteúdo, principalmente às tecnológicas. Tecnologia só serve para que algo a utilize. Ela por si só não se basta. Precisa da música, do filme, da informação, … Tecnologia é um canal. Além disso, as empresas que dependem de ter sua imagem associada a coisas positivas também devem chegar mais perto.
As próximas grandes gravadoras vão ser as telefônicas. Daqui a pouco, neguinho vai estar contratando artista, criando selo… A música vai continuar sendo paga, mas náo pelo consumidor final. Vai ser a Coca-Cola comprando milhões de downloads pra dar na tampinha, a Vodafone dando show de graça pra quem assinar um novo produto. A própria Ticketmaster anunciou a parceria com o iTunes pra dar uma música para cada ingresso comprado com ela no próximo verão europeu. Em troca, quem comprar um disco inteiro, vai poder comprar ingressos antes dos demais… Acho que esse tipo de parceria vai aumentar e deixar todo mundo feliz.

Há o aspecto multidisciplinar que a rede praticamente impõe a todos seus usuários. A própria natureza do Chappa pressupõe desdobramentos em diferentes formatos – festival, site e o próprio evento MCQ. Ou seja, vocês, como boa parte das pessoas que usam a internet de uma forma ativa, desenvolveram técnicas e hábitos que a profissão inicial dos dois (“jornalista”, pra ficar num termo vago) não desenvolveria em outros tempos. Falem um pouco sobre isso.
Bernardo Mortimer – Cara, para mim jornalista é quem pega a informação, os pedaços dela, os raciocínios incompletos, e transforma em algo claro para o público. Seja de que forma for. Apuração hoje se confunde com edição de olhares e de histórias. Isso serve para o repórter que tá no Planalto querendo anunciar primeiro quem é o próximo ministro e para quem tá preocupado com respostas para o futuro da música. O fato, às vezes, é resultado das histórias, e não dá para achar que isso é um dilema lógico. Fumaça pode ser mais legal e vir antes do fogo, ainda mais porque o funcionamento em rede muda as relações lógicas de tempo e espaço. Então especular ficou mais fácil, assim como desconfiar da especulação. A rede regula e fiscaliza essas coisas, embora sustos e armadilhas estejam previstas.
Quer dizer, a profissão inicial era uma quando eu entrei na faculdade, outra quando eu saí, e agora talvez seja uma atividade aberta. O leitor é parceiro e antagonista do texto. Ser jornalista e ser músico, por exemplo, ficou aberto a todos, e ser reconhecido assim também vai depender de uma série de encontros que só o trabalho pode legitimar. O Chappa Quente, na medida em que expõe visões e dados sobre oito temas dentro de um assunto maior, é para mim uma obra jornalística sim, aberta, com apuração, com confirmação de dados, agilidade, e espero que credibilidade.
Bruno Maia – Lógico que existe pra todo mundo que usa internet, esse aspecto multidisciplinar que você citou. Mas pra mim, isso vai além. Eu costumo dizer que sou formado em comunicação e escolhi o jornalismo porque era necessário escolher uma habilitação para seguir adiante a partir do 3º período. O que me motiva é a comunicação de uma forma plural. Acho triste ver que esse tipo de direcionamento que a faculdade dá parece que fecha a cabeça de muita gente, que passa a se ver, ou trabalhando numa redação, ou numa agência de publicidade. Ter essa distinção na cabeça me deixa muito confortável.

Voltando um pouco, eu queria que vocês falassem de como cada um de vocês se envolveu com jornalismo de música e como isso originou o Sobremusica.
Bernardo Mortimer – Desde a faculdade eu escrevo em sites pequenos, alternativos, de galera próxima. Já fui crítico de cinema, meio do-it-yourself. Mas sempre estudei pra caramba pra me meter nos assuntos. Eu gosto de música há muito tempo, tive bandas, etc. Meus trabalhos de fim de faculdade foram sobre o mangue beat, até em função disso acabei conhecendo o Bruno. Daí, trabalhamos juntos em um canal de TV – sem ser com música – e quando ele saiu veio com uma idéia de fazer um site/revista. Sugeri que começasse como blog e assim está sendo.
Bruno Maia – Jornalismo foi a tal escolha que eu fiz no terceiro período da faculdade. Música foi aos 15 anos, naquele início tradicional. O Sobremusica surgiu de uma viagem ao Abril Pro Rock, de 2005. Tinha acabado de sair de um GrandecaNal de jornalismo televisivo e estava um pouco cansado de ter passado muito tempo cortando ao máximo os textos para caber no espaço da televisão. Queria voltar a exercitar a escrita e, até então, toda minha trajetória tinha sido em canais de TV. Na tal viagem ao Recife, entrevistei Fred 04 – para um livro que ainda estou escrevendo sobre o rock brasileiro dos anos 90, que vai ficar pronto esse ano.Lá pelas tantas ele comentou da experiência dele quando era repórter de TV e disse que o Mundo Livre S/A era uma forma de ele exercitar a escrita para não ficar preso ao formato que a TV impunha. Bingo. Era a mesma situação que eu estava vivendo. Já escrevia algumas músicas, mas a necessidade daquele momento era maior do que isso. Voltei pro Rio, comecei a escrever. Inicialmente, tinha em mente criar um site grande, com alguém escrevendo só críticas de website de artistas, outro só para analisar DVDs de música, etc… Chamei uma galera. Só o Bernardo, que era companheiro de redação no GrandecaNal, topou. Algumas semanas depois, ele entrou e foi criando comigo essa entidade abstrata que se chama Sobremusica.

Qual é a do site? Vocês imaginam que ele tenha uma “proposta” (adoro “proposta”) tanto do ponto de vista musical quanto jornalístico (áreas abordadas, estilo) ou isso é algo que flui naturalmente à medida em que o site vai caminhando e vocês sequer pensam nisso?
Bruno Maia – Você adora “proposta” e o Bernardo adora “conteúdo”… hahah! O site tem um subtítulo que, acho eu, nos guia. “Experiências musicais em universos particulares”. Era pra servir de estímulo para elocubrar – essa o Bernardo adora de verdade!! – nossa relação com música. Nunca foi um site de críticas, apesar de nos metermos a fazê-las vez por outra. Não costumamos dar a “agenda” da cidade, pois achar que é importante viver as situações pra depois escrevê-las. Bernardo e eu somos muito diferente e nós respeitamos muito isso no Sobremusica. A formatação de texto que cada um usa é diferente. Os temas são diferentes. Os olhares então são muito diferentes e a liberdade para exercer isso é muito grande. Isso aparece no conteúdo. Acho que teve um fim-de-semana de novembro que mostrou bem isso. Fizemos o Hutúz Rap Festival, o show do Bravery e as apresentações da Bibi Ferreira vivendo Amália Rodrigues e Edith Piaf. Na semana seguinte, rolou Casuarina. Não é forçando a barra. Isso tudo nos interessa, seja pelo aspecto antropológico, musical, histórico ou comportamental. Nossa relação com a música se motiva por esses diversos aspectos e isso aparece no Sobremusica. Talvez essa seja a coisa que mais me envaidece no site.
Bernardo Mortimer – A proposta é de liberdade para falar do assunto com a preocupação que aquilo seja responsável, de interesse a alguém além de nós mesmos – mesmo que eu não tenha a menor idéia de quem seja esse alguém. Ou seja, na verdade vai fluindo. Só que a gente vive avaliando o que é legal e o que não é. Vira e mexe a gente sai na porrada, acho até que uma coisa legal é a administração da parada ser bem aberta. E assim tem caminhado. Quem é mais próximo vai reparar que tem texto do Bruno que é claramente uma provocação a mim. O contrário, eu não me lembro de ter acontecido. Rerrerrê.

Como vocês vêem essa “cena” de veículos de comunicação alternativos que se forma à medida que o jornalismo tradicional vai se ossificando por dentro? Queria que vocês misturassem essa resposta com o bookmark pessoal de cada um (o que cada um lê com regularidade), falando tanto de mídia gringa quanto nacional.
Bernardo Mortimer – Acho que é meio automático surgir a cena. Há uns sete anos, era fácil reclamar que você não se reconhece em lugar nenhum. Hoje, se você fizer isso, a culpa é só tua. Nem precisa saber inglês, embora ajude muito. Eu leio o Urbe, o Pedro Alexandre Sanches, o Trabalho Sujo, a Wired, a CNNmoney tem uma sessão de 2.0 muito legal, sempre dou uma corrida de olho no Brooklyn Vegan, no Pitchfork, no Stereogum. E sempre to descobrindo links novos, flanando pela internet. Gostava muito do Esquemageral e da Mood, aqui do Rio, enquanto eram ativos. E li muito a Contracampo, antes da cisão. Era um site com uma abordagem de crítica que me interessou muito antes de eu começar o Sobremusica. Só que no cinema.
Bruno Maia – Foda! Muita gente boa, mesmo! Eu tenho a sensação de que os veículos tradicionais vão se flexibilizar mais com o tempo. A ossificação que você diz é, pra mim, um comportamento natural de quem já está há muito tempo na estrada e tem, naturalmente, dificuldade de se aproximar do novo, até pela própria idade. Talvez a gente vá repetir isso quando estivermos com 50 e poucos anos… Mas eu vejo com bons olhos iniciativas como a do G1, que acompanha evidentemente de perto todas as novidades que os blogs estão caçando por aí, colocando repórteres no Second Life – apesar de eu ainda ter sérias dúvidas sobre a força real do SL, hehe.
Acho que o Overmundo também ajudou a linkar algumas experiências que estavam desconexas pelo Brasil. O PopUp, do Bruno Nogueira do Recife, é um grande nome, por exemplo. Aqui no Rio é importante falar do Bruno Natal, do URBe do Rio, que se tornou amigo ao longo desses últimos anos, mas que é um grande jornalista. Acho o Vitrine um belo esforço de se falar de música por outro viés. O Fabitosway é bem bacana. Tem também o Radiola Urbana. Lá de fora, a Wiredé a que eu mais curto. Citar o Trabalho Sujo e o Pitchfork nao vale, né?

E o jornalismo tradicional de música hoje no Brasil? Tem saída?
Bernardo Mortimer – Só se os cadernos de jornal/revista ficarem muito gordos, ou se se segmentarem muito. A gente quer muita informação e de muita qualidade, análise, elocubração. Sendo um suplemento de segunda importância, que fale a adolescentes e a aposentados, acho difícil. Em internet é outra história.
Bruno Maia – O tradicional não, porque a tradição está sendo reescrita com essas novas ferramentas. Mas se estivermos falando do jornalismo de música praticado nos grandes veículos, acho que sim. Tem uma geração nova chegando e isso vai fazer diferença. Recentemente vi o Marcos Sketch levantando um aspecto sobre as novas bandas, que eu acho também se aplica ao jornalismo. Estamos numa fase de transição entre uma galera que cresceu tendo um modelo consagrado como inspiração e que viu esse modelo cair. Os novos estão sendo criados e, aos poucos, a novíssima geração já não vai ter mais aqueles velhos paradigmas como referência. O que chamamos no Chappa de “pós-jornalismo” é esse lance de ninguém mais estar preso a um veículo grande para poder ser considerado fonte confiável. A maior credibilidade hoje é atribuída aos blogs, principalmente na parte de cultura. Os blogs trazem essa renovação que, inevitavelmente, já está chegando nas redações grandes. Tanto que dificilmente se vê uma postura hostil dos grandes veículos aos blogs. Pelo contrário, muitos adotam blogs para os seus principais jornalistas e vez por outra citam blogs independentes como referências. Acho que o cenário é positivo, sim.

Saindo do jornalismo pra música: o que vocês têm ouvido de legal que vêm sendo produzido no Brasil hoje?
Bernardo Mortimer – Gosto cada vez mais das bandas grandes. É uma contracorrente ao DJ, sozinho, que faz show barato. Nisso eu me lembro de Binário, de Móveis Coloniais, de Mombojó, da Seleção Natural do Lucas Santtana, e sou muito fã de Nação Zumbi.
Bruno Maia – De legal produzido no Brasil… Rapaz… Vamos lá. O cenário eletrônico me parece estar vivendo um momento mais renovador do que os outros. Mas eu não tenho uma relação muito boa com a música eletrônica, e aí me refiro ao sentido mais generalista que esse termo tem. Então, não saberia apontar grandes coisas. Também não sou um cara do hip hop, mas acho as batalhas de MCs que rolam no Rio algo muito sério. Uma geração talentosa, neguinho que tem o que dizer. Acho o João Brasil um cara divertido. Gosto muito do Moptop, o Gabriel é um puta compositor, que quando pararem de comparar com Strokes e se ligarem na pena desse cara e na facilidade dele de fazer hits, o rock brasileiro tende a ganhar. Acho essas bandas de eletrorock grandes bostas, apesar de reconhecer mérito no trabalho internacional dos caras e de ter curiosidade de ver um show do CSS… Que mais…Voltando aos bons… Os trabalhos paralelos da Nação Zumbi são quase todos são do carai.. Quando eles acertam, é golaço. Mas também quando erram, é foda de ouvir. Falando em Nação, lembrei de Pupilo, lembrei do último disco da Marisa Monte (o de sambas), que acho uma obra-prima. Vi dois shows da Mart’nália recentemente e me surpreendi positivamente. Acho que o disco do Jonas Sá vai ser fodão – se sair um dia, né… Que mais? “Se Ela Dança, Eu Danço” tá velho, mas é a música da década até agora. Gorila e Preto são a próxima grande descoberta do funk. O Gorila é tipo o Mussum pós-moderno. Acho que tá bom, né…

Como se sentem ao tocar um site sobre música nesta época específica que estamos vivendo? É um sufoco ou um privilégio?
Bernardo Mortimer – É os dois, né? Blog é uma angústia. Tem o medidor de audiência ali do lado, tem que ser atualizado pra não cair, você olha o mundo como editor de idéias para virarem textos, etc. Mas é bonzão. Quanta gente já não veio falar comigo só por causa do Sobremusica, quanta gente que eu conhecia se empolgou ao se ligar que o Bernardo do Sobremusica era eu. Acho que encontrar mais e diferentes pessoas, apesar de piegas, é que é a parada. Eu quis ser jornalista antes de saber da existência de blogs, mas é a realização. Realização que deve ser administrada, mantida, atualizada…
Bruno Maia – É um sufoco pois requer muito e não entra um puto, heheh… As contas ainda são em papel e não em conteúdo 2.0… Mas é mais que tudo um prazer. Tenho a plena consciência de estar vivendo um momento histórico. Por estar escrevendo um livro e sentir como o arquivo de cultura de música pop no Brasil é fraco – apesar de estar melhorando muito -, tento valorizar ao máximo meus textos pois pode ser que alguém procure informações sobre isso tudo que estamos vendo daqui um tempo. Acho que os blogs deviam se preocupar com essa “eternidade” e não só em postar quantidade de coisas, com grande rotação.

Planos para o site. Ou vão como a vida leva?
Bernardo Mortimer – Os planos são deixá-lo mais bonitinho, organizar os arquivos dele em sessões, fazer os textos que estão na fila, decupar entrevistas pendentes, esvaziar a gaveta de pautas, essas coisas.
Bruno Maia – A gente vai onde o Steves Jobs, o Steves Chens da vida nos levam. De vez em quando ainda dá tempo pra ir atrás do que um Bob Dylan nos leva – apesar de ter visto um show dessa última tour e achado chatinho demais -, do que um Cartola ou um Jorge Ben nos leva… O próximo grande plano já começou que é o Sobremusica iTV, que é a tentativa de fazer tv no blog, misturando câmera profissa com webcam, participação do entrevistado no processo de captação das imagens, redução de fronteiras… Fizemos a primeira, com o John do Pato Fu, e estamos viabilizando a segunda. Mas é foda, dá um trabalho escroto que eu não sei até onde vai, heheh.. Falando que nem “artista”, a intenção é levar o nosso trabalho para o maior número de gente possível… Tô quase na MTV… heheh

Considerações finais – dizaê.
Bernardo Mortimer – Acho que o mais legal desse momento Sobremusica/Música Chappa Quente é a idéia de que os novos tempos pedem novas posturas. Voltar para a universidade para palestras tem a ver com uma busca por ajudar a formar novos jornalistas, novos advogados, novos economistas, novos publicitários, novos ouvintes de música. As questões são novas, precisam de novas respostas, é uma busca por novidade. Espero que sem ser novidadeiro, né? Afinal, é uma volta também.
Bruno Maia – Depois de ser entrevistado por Alexandre Matias só falta a Marília Gabriela.

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Ih, ó cara… Enfim, o Música Chappa Quente começa agora dia 14 e a programação é a seguinte:

14 de março, PUC-RJ:

Cadeia Produtiva da Música no Estado do Rio de Janeiro
Bruno Levinson (Humaitá Pra Peixe)
Rodrigo Lariú (Midsummer Madness)
Sérgio Sá Leitão (BNDES)
Arthur Bezerra (SEBRAE-RJ)
Sydney Sanches (Cadeia Produtiva da Economia da Música)

Pós-jornalismo: blogs e internet 2.0
Diego Assis (G1)
Felipe Vaz (Overmundo)
Celso Fonseca (Terra)
Berna Ceppas (produtor musical)

21 de março, UFRJ:

Rádios on-lines e podcasts: de ouvinte a programador
Maestro Billy (ABPod)
Giuliano Djadjah (Rádio Janela)
Paulo Daudt (Multishow)

YouTube, MySpace, Napster, iTunes, etc.: as novas plataformas on-line
Alexandre Matias (Trabalho Sujo)
Marcelo Ferla (jornalista)
Gisela Castro (ESPM)
André do Valle (FGV)
Silvio Meira (C.E.S.A.R)

28 de março, ESPM:

Artistas S/A
André Barcinski (jornalista)
Mauro Benzaquem (empresário artístico)
Luciano Marsiglia (revista BIZZ)

Novos consumidores e novas formas de marketing
Lúcio Ribeiro (Popload)
Jerome Vonk (ESPM)
Léo Feijó (Casa da Matriz)
André Eppinghaus (Prole Inovações)

4 de abril, UERJ:

Mercado independente: experiências e viabilizações
Ricardo Cruz (Rolling Stone)
Fabrício Nobre (presidente ABRAFIN)
Paulo André (Abril Pro Rock)
Gabriel Marques (Moptop)
Gabriel Thomaz (Autoramas)

O direito autoral da nova música
Paulo Rosa (presidente da ABPD)
Felippe Llerena (iMúsica/ABMI)
Bruno Natal (URBe)
Antonio Carlos Miguel (O Globo)

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