Sacerdotisa do agora

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Depois de se reinventar em Oyá Tempo, Luiza Lian dá seu salto mais ousado e congela o tempo em seu ótimo Azul Moderno, a versão remix de um disco que nunca foi lançado, que chega nesta quinta às plataformas digitais. Ela me chamou para escrever o release do disco, que reproduzo abaixo.

Luiza Lian não espera o disco começar para colocar-se pronta: “Tempo que escorre a louça pra lavar / Cheiro de café, resíduo que vingou / Esse vapor que lento lambe a parede não preenche o espaço que ele desmanchou”. Ela canta antes de qualquer instrumento (seguida primeiro de um piano e depois de efeitos sobre este mesmo piano) e com poucas palavras cria um ambiente ao mesmo tempo familiar e fragmentado, pensativo e melancólico, que nos convida para um mergulho em suas crenças e descrenças no que considera o registro de um encerramento de ciclo.

Seu terceiro disco, Azul Moderno, canta o fim da primeira fase de sua carreira, iniciada com o disco homônimo de 2015, mas também encerra uma série de ciclos pessoais e profissionais. Ele começou a ser composto em uma viagem que Luiza fez com uns amigos num fim daquele mesmo ano para Vale do Matutu, no interior de Minas Gerais, quando começou a exercitar algumas canções que já vinha rascunhando ao lado da amiga escritora Leda Cartum, que também estava nesta virada de ano. Começaram brincando com alguns versos e refrões numa música que aos poucos se tornava longa – e que mais tarde daria origem a três músicas do futuro disco. Outras – como a faixa-título – surgiram das primeiras incursões da cantora e compositora ao violão. O lento processo de criação ainda incluiria o lançamento de alguns EPs para pavimentar o caminho para o segundo disco, até que um deles fugiu de controle.

Primeiro álbum-visual brasileiro, Oyá Tempo a princípio seria apenas um registro curto de transição, mas ganhou corpo, forma e vulto para além do que esperava. Estimulada por Tim Bernardes pa gravar pontos de umbanda, ideia que desenvolveu ao lado de outro amigo, o produtor Charles Tixier, que levou o disco para um lado eletrônico. O experimento cresceu para um conjunto de oito canções que a cantora e compositora transformou em segundo degrau de sua discografia, embora ele ainda não exista fisicamente. Oyá Tempo ganhou uma inesperada vida própria – a começar por seu show, cujo cenário-instalação era um vestido transparente que funcionava como tela de projeção e isolava Luiza sozinha no palco. O disco que virou filme que virou show elevou Luiza para um outro patamar, levando-a para os principais palcos e festivais independentes do Brasil.

Enquanto isso, Azul Moderno seguia um rumo à parte e por um instante poderia se transformar em um disco falado, com Luiza recitando poesias sobre bases instrumentais, mas logo ela se voltaria para as canções. Antes mesmo do lançamento de Oyá Tempo, em abril de 2017, ela havia se isolado no sítio do produtor Gui Jesus de Toledo ao lado de seus novos produtores, Charles Tixier (que tocou bateria, MPC, baixo synth e teclados) e Tim Bernardes (que tocou violão, baixo e fez arranjo de vozes e sopros), para começar a gravação do dito segundo disco, convidando velhos conhecidos para gravar outros instrumentos – Gabriel Basile, Filipe Nader, Guilherme D’Almeida, Gabriel Milliet e Tomás de Souza. Mas o crescimento de Oyá não apenas o transformou no segundo disco de fato da cantora, postergando o lançamento de Azul Moderno por tempo indefinido, como abriu uma possibilidade arrebatadora para Luiza e Charles: Azul Moderno ainda não estaria pronto, ele precisava ser desconstruído.
É quando começa a segunda fase do disco, ainda no final de 2017, que o transforma no álbum que agora conhecemos – Azul Moderno é o disco remix de um disco que nunca foi lançado (a versão “unmix”, como brincam os dois), canções picotadas e reestruturadas a partir de pedaços de si mesmas ou de outras canções de Luiza e samplers das gravações iniciais e de fontes indecifráveis: trilhas sonoras, videogames, discos de efeitos sonoros, música clássica; tudo se misturava na paleta de sons que Charles assumiu após a primeira versão do disco estar pronta.

O resultado é um disco deslumbrante. Moderno e meticuloso, Azul Moderno é um passo além de Oyá Tempo e as relações de Luiza com um passado ancestral parecem mais refletir sobre a influência deste passado no presente e futuro do que na própria história. Se seu segundo álbum espalhava-se por toda a história ao tentar encapsular todo o tempo num momento, o novo álbum é mais espacial que temporal e busca justamente este lugar imaginário que criamos a partir de nossas relações pessoais. Como família, amigos, amores, conhecidos e ídolos se misturam em uma ambientação mental que acaba delimitando nosso horizonte físico.

Sob a batuta do maestro Tixier, Luiza se abre para anjos e exorciza demônios, enquanto ela sampleia o próprio passado, ainda que não-factual – um passado imaginado, que não existiu de verdade (justamente o disco não-remixado). É nesta região imaginária que o disco se encontra, entre o nascer ainda escuro do dia e a zona do crepúsculo pouco antes da noite. Esse aspecto líquido, volátil e pouco estável permeia todo o disco como se Azul Moderno fosse uma fábula, um sonho, uma alucinação. Do mesmo jeito que não sabemos se ainda é dia ou se já é noite, não dá pra saber o que realmente está acontecendo por todo o disco – como se ela nos obrigasse a refletir o que é real e o que não é a partir da constatação da beleza (ou da ausência dela).

Não por acaso, o disco começa com a palavra “tempo” dita sem nenhum acompanhamento, enfatizando a voz de Luiza como o timbre que nos guia por essa viagem. Pelo caminho, violões cristalinos e pianos invertidos, cordas gigantescas e teclados à espreita, graves escancarados e beats furtivos, timbres orgânicos e sintéticos – tudo convive num imenso e absurdo país das maravilhas em que Luiza passeia curiosa e decidida na mesma medida. Azul Moderno é brasileiro e internacional, atual e perene, novo com gosto de antigo, provocando sensações estranhas ao contrapor opostos improváveis – do violão Jorge Ben que conduz o groove de “Notícias do Japão” e as curvas sinuosas de “Iarinhas” ao samba-reggae eletrônico “Sou Yaba”, do lamento trip hop de “Pomba Gira do Luar” à bossa-grime “Mil Mulheres”, passando pelo chillwave manhoso de “Geladeira”, o tecno-afoxé de “Vem Dizer Tchau”, a balada “Mira” (música em homenagem a artista Mira Schendel que conecta-se com a “boca do céu” de Ava Rocha) e a oração de despedida que é a faixa-título. Ela encerra o disco num tom ao mesmo tempo amargo (“me perdoe pelas palavras cruéis”) e esperançoso, que localiza-se “entre as estrelas em volta de Andrômeda e meu manto azul moderno”, recuperando o nome do disco de uma valsinha escritapela poeta Maria Damião há cem anos (“A Rainha Me Ordenou”). Luiza Lian está pronta.

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