Ronex (1978-2010)


Foto: Eugênio Vieira

Piracicaba já foi terra de rock. Há mais de uma década, a cidade do interior paulista que melhor simboliza o caipira destas paragens respirava ares carregados de eletricidade estática. Culpa de uma única banda, quatro malucos que resolveram encarnar o Sonic Youth antes que a banda de Thurston Moore virasse trilha sonora de volta de skate. Era o Killing Chainsaw, grupo que ligou o interior paulista na tomada na marra e fez que o rock alternativo dos anos 90 ganhasse algum sentido para além da Anhangüera ou da Bandeirantes. E dos nomes que mais prometiam entre as bandas que apareceram no rastro do Killing, uma delas era o Crush Hi-Fi, liderado pelo Ronex, que morreu entre ontem e hoje.

Lembro de quando ele me deu o disquinho, no tempo em que CD-R era novidade entre as bandas novas, que ainda registravam-se na fita K7. MP3? Hahahahaha, boa. Estou falando do final dos anos 90, antes do Napster liberar geral, quando banda larga era apenas um exercício de futurologia e baixava-se uma música em uma hora. Lá estava a banda, novata na cena do interior de São Paulo, que acompanhei neste período, exibindo não apenas um disquinho todo bonitinho no que dizia respeito ao acabamento gráfico, mas também sonoro. Era uma época em que o som que o Slint fazia ainda não tinha sido batizado de pós-rock – e havia um certo verniz de Slint por sobre a base noise característica da cidade-natal da banda.

O Crush Hi-Fi até segurou a bandeira do noise piracicabano por alguns meses, mas em pouco tempo o cenário indie brasileiro, ainda na idade da pedra, começava a mudar. Em poucos anos, cantar em inglês ou fazer barulho já não eram qualidades bem quistas entre este mercado – esta mudança pode ser epitomizada no Los Hermanos, mas era um processo lento, que já vinha se desdobrando desde 95, 96… A chegada da internet como veículo em que as pessoas podiam conhecer música não só acelerou este processo como enterrou de vez a geração Juntatribo, que teve de se virar para seguir fazendo sentido. E foi assim que o Pato Fu assumiu seu lado mais pop, os Raimundos acabaram, D2 saiu sambando em carreira solo, apareceram os Autoramas e o Bidê ou Balde. E foi assim que algumas dezenas de bandas (centenas?) foram varridas para baixo do tapete da história. Entre elas, o Crush Hi-Fi.

Ronex depois mudou-se para São Paulo, mais ou menos na mesma época em que vim para cá (primeira metade da década passada), e era figurinha onipresente nas hoje distantes noites de quinta-feira no Milo – e era companhia das melhores. Largo sorriso no rosto, uma empolgação contagiante e sempre um comentário sobre uma banda nova ou um projeto novo que estava começando. Tentou seguir na música o quanto pode e, depois que voltou para Piracicaba, há alguns anos, transformou seu Royales – uma das muitas encarnações posteriores do Crush Hi-Fi – em banda de baile, em que tocava todas as músicas que gostava – e até arriscava umas próprias.

Há mais de um ano não falava com ele direito, trocava apenas mensagens rápidas via rede social, email ou MSN, cumprimentos sinceros que serviam apenas para azeitar a amizade. Havia sumido da minha rotina faz tempo, mas havia a sensação, quase sempre acompanhada de boas notícias, de que a vida do compadre seguia bem.

Até que hoje cedo o Ronaldo me ligou para dar a péssima notícia (não se culpe, alguém tem de fazê-lo). Nem sei bem do que ele morreu, mas isso não importa. Fica o vazio de uma personalidade tão otimista, de alguém com pique e disposição para fazer o que achava certo, que eletrizava qualquer rodinha de cigarros ou cerveja e que era querido por muitos.

Fará falta, rapá. Fica bem onde você estiver.

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10 Resultados

  1. eugenio disse:

    impossível ser mais querido…

  2. Giovana disse:

    Ele ficaria feliz com esse texto com certeza.

  3. andre guedes disse:

    Era um bom menino do rock, é uma perda sem palavras.. faz tempo que não o via, apenas através de rede socias,mas mesmo assim sempre otimista, vai deixar muitas saudades…

  4. megssa disse:

    noticia muito triste mesmo. um talento que se vai. faz parte das boas lembrancas de uma epoca querida e que nunca se repetira.

  5. Dani disse:

    Alexandre, lindo texto… so peço licensa p mudar uma palavra: “ele era querido por todos”.

  6. Camila disse:

    Então me permita fazer outra correção: ele É querido por todos.

  7. Flavio Moraes aka balão disse:

    É Matias…
    belo texto…
    muita saudades…
    hoje ainda está sendo um dia dificil de tragar!

  8. Sig disse:

    Sempre será!

  9. Valeu Alexandre!!!
    Puta homenagem maravilhosa!!! Com certeza meu irmão Ronex tá por aqui curtindo demais essas belas palavras.
    Só o q consola agora é saber o quanto ele era querido, e q viveu intensamente esses 32 anos e deixou sua obra marcada nessa breve passagem entre nós.
    Abs.

  10. Olá
    Texto extremamente bem escrito, ainda mais por ser de um cara que tive o prazer de conhecer, dividir alguns momentos e aprender. Um abraço de todos nós a Ronex.
    Pedrão