Romulo Fróes, intérprete de si mesmo

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O sambista paulistano Rômulo Fróes chega a seu sexto disco fazendo um balanço de sua carreira, numa espécie de disco-pausa em que resgata composições próprias que nunca foram gravadas por ele, e sim por outras intérpretes. Por Elas Sem Elas reúne canções que ele escreveu para Mariana Aydar, Nina Becker, Juçara Marçal, Juliana Perdigão e Elza Soares, entre outras, reduzidas ao denominador mínimo da voz e do violão que, em se tratando de Rômulo – fiel devoto de João Gilberto que não compartilha da linha ortodoxa da música brasileira quem chamam de “MPB” – reduz tudo aos menores sons e tons, cercados de silêncios e pausas. Ele conta mais sobre o disco num texto escrito para o Trabalho Sujo, em que explica também porque escolheu a canção “Porto”, originalmente gravada por Mariana Aydar, para começar a divulgar o disco. A faixa – e a capa de Rodrigo Sommer, abaixo – também aparece pela primeira vez com exclusividade para cá:

Por Elas Sem Elas é quase um disco fora da curva na minha discografia até aqui. Digo isto porque, pela primeira vez na minha carreira, as canções escolhidas não se agruparam de um modo mais claro que as organizasse em torno do pensamento estético que venho desenvolvendo ao longo dos meus discos e que sempre determina para mim a hora de se lançar mais um novo trabalho. O mote aqui foi tão somente registrar na minha voz, canções que foram lançadas anteriormente por cantoras e que até aqui não haviam sido gravadas por mim. Talvez por isso, tenha optado por lançá-las na sua forma mais primitiva, do modo como todas as minhas canções nascem, no formato voz e violão. Tentei dessa forma, trazer alguma unidade a este conjunto de canções, a princípio, tão díspares. Pela primeira vez, deixei em primeiríssimo plano, o que para mim é o centro do meu trabalho: minha relação com a composição e minha busca por continuar a transformar a forma canção. Nunca meu trabalho ficou tão exposto quanto nesse disco. Com as canções despidas de qualquer aparato sonoro, amplia-se o foco do núcleo letra-melodia, facilitando o seu acesso, mas também a avaliação sobre seu êxito ou não. Escolhi como single deste álbum a canção ‘Porto’, porque acho que ela represente bem, alguns dos muitos caminhos que desenvolvi até aqui em busca de uma voz própria. Composta há muitos anos, ela faz parte de um período em que eu, atrás dessa voz, me propus a trabalhar com os diversos gêneros da cancão, fato que me levou, com o tempo, a me aproximar do samba, especialmente os sambas de caráter mais triste, mais rebaixado, menos luminosos, de artistas como Paulinho da Viola, Cartola, Batatinha e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Muito por conta de enxergar uma certa similaridade, digamos, negativa, com o samba, me lancei na tentativa de compor um fado. Porto, é essa minha tentativa de compor um fado, mas que por minha completa falta de intimidade com o gênero, mesmo com a linda letra de Nuno Ramos e sua geografia imaginária em que se aproximam as cidades de Lisboa e Salvador, ainda assim, esta tentativa acabou-se revelando, quando muito, um quase-fado. Por isso mesmo gosto muito desta canção, pelo quase, pelo entre, que ela contém. É este não-lugar que busco para a minha música. Um lugar em que não se reconhece com facilidade sua origem e que não realiza por completo seu destino. Como diz a letra da canção: ‘tava perto, quase lá, quase pus meu pé a areia’.”

Por Elas Sem Elas será lançado gratuitamente no site oficial do compositor a partir da sexta que vem.

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