Radiografia da alma

angelolsen-2020

Ao escolher lançar a versão suntuosa das canções que vinha trabalhando desde 2017 antes de mostrar seus rascunhos em público, Angel Olsen operou um pequeno milagre. Whole New Mess, o disco que releva quase um ano após apresentar seu deslumbrante All Mirrors, nos coloca em uma posição como se pudéssemos ver o processo de criação de trás pra frente – e como as canções de Olsen são joias de quilate ímpar, esta reversão criativa nos faz acompanhar um desabrochar ao contrário, para dentro, como se, a partir da beleza da flor, do deserto ou da borboleta, descobríssemos o esplendor da semente, do grão de areia, da lagarta. Gravado apenas com sua voz e guitarra, o conjunto de canções de Whole New Mess reescreve All Mirrors como uma confissão – e o que antes carregava Angel Olsen aos píncaros da exuberância emocional agora a arrasta em uma dolorosa sessão de terapia, revertendo completamente o brilho do disco que conhecemos inicialmente. E se a versão inicial começava falando em “esquecer é esconder” (na eterna “Lark”), a nova canta que “não demorará muito até que realmente se mostre” (na faixa-título), invertendo a expectativa a partir de seu próprio ponto de vista, mexendo na ordem e no título das músicas à medida em que retira maquiagem, penteado, figurino, pele, carne e osso, deixando apenas o registro espectral de sua alma, suspensa entre acordes e por seu timbre forte e delicado, que às vezes vem cru, outras embalsamado por reverb ou por algum teclado. Não é um All Mirrors do mundo invertido, mas um mergulho nos paradoxos propostos por quaisquer sentimentos, uma radiografia da alma de cada uma das canções, que se reverte de volta para nós, fazendo inclusive a faixa-título do disco anterior (que agora chama-se “(We Are All Mirrors)”, assim mesmo, entre parênteses) ganhar uma nova leitura: “De pé, de frente, todos os espelhos se apagam / A beleza se perde, pelo menos, por vezes, ela me conheceu”, canta o refrão logo depois de confessar, à abertura que “tenho visto todo meu passado se repetindo, não tem fim”. Que disco maravilhoso.

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