Preguiça de Grammy

A marginal Tietê no horizonte foi um programa mais interessante

Não costumo ver o Grammy: acho chato e sem graça, como qualquer premiação de qualquer indústria. “E o prêmio de melhor radiologista do ano vai para…”. Poizé, bem nessas. Mas, depois de todo alarido sobre a edição deste ano (fãs do Arcade Fire em puro delírio Double Rainbow, que porra), me deparei com a reprise da premiação ontem à noite e, de vacilo, assisti. E nem precisava ter visto para saber que era uma premiação da indústria chata e sem graça como sempre. Lady Gaga agradecendo Whitney Houston? Cee-Lo Bornay com o hit da autocensura, Muppets e a mulher do Coldplay querendo abrir uma carreira de cantora? Norah Jones é um remédio pra dormir? E a Rihanna com o Eminem (zero química, música insuportável)? Katy Perry é tipo Hole disfarçado de pop. Mick Jagger soulman depois de velho? Nem Bob Dylan depois da tosse conseguiu segurar cantando sua própria “Maggie’s Farm” com os Avett Brothers e os Mumford & Sons (estes, vale frisar, fizeram bonito em seu momento). Não é nem que tudo estivesse errado – e esse era o problema -, tudo estava certo DEMAIS.

O grande momento da noite foi a apresentação de Justin Bieber e Usher, a própria indústria lustrando suas engrenagens e colocando dois jovens talentos do showbusiness pra exibir seus dance moves. É o momento Off the Wall/Thriller de Justin Bieber sendo preparado a fogo brando, mas se o moleque tem carisma o suficiente para sobreviver à sua falta de talento (Bieber é, basicamente, ensaio, ensaio e ensaio), ele devia não assumir o paralelo tão evidente com Michael Jackson, imitando vários de seus trejeitos no palco. Tudo bem que Michael ajudou a inventar este gênero, afinal toda coreografia teen pós-Take That é descendente direta do livro escrito por Michael, Prince e Madonna nos anos 80, mas é só ver Usher (ou lembrar de outro Justin – Timberlake), para lembrar que não é preciso citar o rei do pop para reverenciá-lo. Bieber ainda serviu de escada pro Jaden Smith, o filho do Will, brilhar. Enquanto preparam a maturação de Bieber, que aos poucos, er, “engrossa” a voz, esquentam a chegada desse mini Will Smith, que é um geninho do showbusiness. Sério, quando chegar a vez dele, aí sim temos um candidato ao trono de MJ em ação.

E entre estes medalhões e sumidades, um monte de prêmios sem graça pra artistas sem graça que só dizem respeito ao mercado norte-americano. Nesse sentido, o grande vencedor da noite não foi o Arcade Fire e sim o tal Lady Antebellum (quem?) e a dualidade entre artistas tão diferentes (quem porra é esse tal de Arcade Fire?, perguntam-se ouvintes por todos os EUA) mostra o verdadeiro tom da premiação. Desculpem-me os fãs, mas Arcade Fire é tão mingau de música quanto o Lady Antebellum ou qualquer outra cantora country desconhecida que subiu para receber seus prêmios. Não é à toa que ganhou o prêmio de álbum do ano.

Não me impressiona, porém, o fato de a decadente indústria da música recorrer ao indie rock para tentar preservar alguns de seus valores, muitos celebrados na festa de domingo. Na verdade, estão mordendo a própria língua. Afinal, o rock alternativo só começou a existir enquanto gênero e indústria depois que as grandes gravadoras se voltaram para um formato mais palatável e massificado para a música que merecia ser vendida, deixando para trás referências como autoria, arranjo, letras, personalidade e sensibilidade (qualidades que tiveram que fugir para um mercado menos competitivo para sobreviver). Começou com a disco music, teve o auge com Michael Jackson e Madonna nos anos 80, colidiu com o grunge (motivo da existência de nulidades como Nickelback e Creed) e depois misturou tudo com o caldo do hip hop.

No topo do pop, a música é cada vez menos personalizada e mais genérica, reduzindo-se a um meio-termo entre o ringtone, o jingle e o grito de torcida. Basta um refrão insistente com uma frase idiota repetida mil vezes sobre uma batida reta e coberta de efeitos especiais e, pronto, eis um hit, um popstar, um fenômeno, uma carreira, uma discografia. “Baby Baby”, de Justin Bieber, é o melhor exemplo do fundo do poço autoral em que se encontra a indústria musical. Então o jeito é apelar pros indies, para não ter que prever um futuro em que os principais hits da semana serão “ÔÔÔÔÔÔ”, o nome de um refrigerante repetido mil vezes e a regravação daquela música que já foi regravada tantas vezes que você nem mais lembra de quem era.

E, no meio da reprise do Grammy, lembrei que perdi o programa ao vivo porque estava na estrada, voltando da praia. Me pareceu um programa mais interessante – a Carvalho Pinto de noite, aquele monte de pedágios, a marginal surgindo no horizonte – e não tive dúvida: mudei de canal pra assistir o Land of the Dead, que também estava passando na TV. Show de horror por show de horror…

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Sem Resultados

  1. tati disse:

    só rick gervais pra salvar essas premiações. mas agora tá difícil.

  2. Nilton disse:

    Achei o novo do Arcade Fire meio fraco. Gosto mais do Funeral.
    Teve tb o Ray Lamontagne, q ganhou na categoria melhor album folk. Tudo bem que não tem nada de novo no som dele, mas ele faz direitinho e tem uma voz boa.

  3. Helio disse:

    Não é irônico que um dos maiores hits do Arcade Fire tenha um refrão com “ÔÔÔÔÔÔÔÔ”?

  4. COMO EH QUE EU NAO PENSEI NISSO ANTES?

  5. japaone disse:

    Cada vez mais bobas essas premiações, aposto que queria ter continuado na praia!

  6. ortega disse:

    “que porra é essa de Lady Antebellum, perguntam-se indies por todo o mundo” 🙂

  7. Fabio disse:

    Eu não entendi muito bem a sua opinião sobre o porquê do Grammy ter premiado o Arcade Fire. Foi para “preservar o valor da música”, só? A indústria fonográfica quer valorizar artistas indies para resgatar a complexidade, porque a indústria está cansada de refrãos bobos? Seria ótimo, mas é nobre demais pra ser verdade.

    O motivo deve ser outro. O Arcade Fire provavelmente tem fotos dos votantes do Grammy pelados.

  8. Vinicius Fiuza disse:

    Com licença,
    A música (a que respeitamos) foi a matéria-prima para o surgimento da indústria. Ninguém sabia – de verdade – o que estava sendo criado alí. Eram oportunidades pra todos os lados envolvidos. Hoje – há tempos – a matéria-prima já não é mais a música. A música criou a indústria e foi esquecida por ela. A música está livre.

  9. Vinicius Fiuza disse:

    Ah! claro, esqueci…
    Ótimo texto! Faz a gente sintetizar os pensamentos (reclamações) que temos na cabeça sobre a cena atual. Valeu.

  10. Tiago Dias disse:

    Vou começar sendo honesto e dizendo que sou fã de Arcade Fire, porém não vi a premiação, estava doente, e se não estivesse não sei se veria também – não por não achar que eles não fossem ganhar, mas por achar premiações chatas pelo mesmo motivo que você cita no texto.

    Porém discordo da parte em que você diz que o próprio Arcade Fire seria o mesmo mingau de música que os outros artistas premiados, como a tal da Lady lá. Penso eu que mesmo não gostando deles, (tudo bem não gostar do que eu gosto, não sou xiita :P), acho que eles se esforçam em fazer arranjos diferentes, e escrever letras diferentes. Não diferentes de tudo que foi criado, veja bem, mas diferente da maioria das coisas que vemos hoje no mainstream; diferente de grande parte das coisas que ouvimos nas rádios FM da vida. Não acho que eles tenham inventado a roda, pelo contrário, acho que eles são apenas uma banda de rock competente. E dentre todos os candidatos, provavelmente serão um dos poucos a conseguir manter-se como relevantes no futuro, tanto no patamar “artístico” quanto no patamar da “fama”. (E não, não acho que o Bieber vai conseguir se manter em nenhum dos dois, vai ser tal qual os Hanson da vida…)

    Quanto aos OOOOOOOOOO, só lembrar do UUUUUH HUUUUU do Blur em Song 2, dos LA LA LA LALA dos Beatles em Hey Jude. Onomatopéias são sempre usadas em músicas, o problema, a meu ver, é basear a música em onomatopéias…

    Enfim, obrigado pela atenção, mesmo morando longe atualmente, sempre procuro ler seus posts. Abraço

  11. Freddy disse:

    Concordo com boa parte do que foi dito, levo muito em conta suas opiniões, somente
    discordo a respeito do Arcade Fire (talvez por gostar muito da banda). Penso que se uma banda consegue agradar indies e americanos(nem tantos americanos assim) , trata-se de mérito, e não de algo que se deva
    tratar como música mingau, ou coisa parecida. Gosto é gosto, e música boa é música boa !
    E isso se discute,sim!

    Um abraço e parabéns pelo trabalho!