Os anos 10

A era da inocência?

E aí, como foi a virada, tudo certo? Os amigos, os amores, a família… tudo direitinho? Comigo, tudo ótimo – descansado, pronto pra nova década. Fechei ontem uma série de posts que deixei programados desde que saí de folga (que deram uma geral tanto nas 300 melhores músicas da década quanto nos 100 melhores discos dos anos 00), antes do natal, e gostei tanto desse papo de lista da década que emendarei este ano com mais uma outra: os 300 maiores nomes de nossos anos 00. Começou com uma lista dos artistas mais importantes (entre bandas, músicos e intérpretes), mas quando eu cheguei â conclusão de que Britney Spears era o nome mais importante da música destes dez anos, vi que tinha algo faltando. Britney passava, fácil, mestres como Daft Punk, LCD Soundsystem e Radiohead em importância, onipresença e constante reinvenção da própria personalidade – imagine um David Bowie sem alma, que sabe que é um personagem inventado por alguém. Aí depois lembre-se que este mesmo personagem – vazio, – protagoniza mais hits do que outros grandes nomes no quesito musical (como Strokes ou Amy Winehouse, para ficar em dois exemplos populares), músicas que traduzem bem a época em que vivemos: da sensualidade como parâmetro de status, de uma dance music que finalmente vê o hip hop diluindo-se na música eletrônica, de uma cobertura de celebridades que é o maior reality show da história da TV.


Britney Spears: artista da década?

Mas o fato de Britney Spears reinar solitária como principal artista musical da década é sintomático de outra característica desta década – a de como os valores de importância sentimental da cultura pop mudaram drasticamente. Ao mesmo tempo em que a internet tornou-se mainstream, música e cinema foram perdendo a importância em captar o imaginário coletivo mundial devido primeiro ao fato dos meios de produção e de divulgação terem se multiplicado em potências nunca vistas (criando uma quantidade gigantesca de novos artistas) e depois pelo fato do lucro de suas indústrias ter desabado graças ao download ilegal e irrestrito de discos e filmes. Na paralela, a televisão ganhou audiência planetária e assumiu uma maturidade que já vinha ensaiando na década anterior – e seriados ganharam uma importância inédita no cenário pop da década, em muito caso mais importantes que filmes de autores consagrados. A explosão dos reality shows veio acompanhada pela abertura do interesse por nichos recém-chegados à escala planetária (moda, gastronomia, decoração, turismo e até ciência tiveram dezenas de novos popstars apresentados ao público na década passada). O elemento de autopublicação da internet também permitiu um aparecimento de um novo tipo de artista, que, em vez de ser “descoberto”, ele mesmo se apresenta para o público. Complete isso com o refinamento e a complexidade que tanto os quadrinhos quanto os games, ambos em plena maturidade (como a própria televisão), inventando seus anos 60, atingiram nos últimos dez anos e você tem uma escala de valores virada do avesso, se compararmos com décadas anteriores.




Games, TV e quadrinhos: plena maturidade

Tudo isso para reunir numa mesma enorme lista nomes contemporâneos que são importantes para quem eu imagino que seja meu leitor. Você já deve ter percebido que o assunto do Trabalho Sujo não é música, nem cinema, nem modas da internet, quadrinhos, games ou minha própria vida. São só coisas que eu acho legais – simples assim. Me sinto confortável no papel de ímã deste tipo de informação – coisas legais – e diariamente sou bombardeado por amigos, leitores e desconhecidos com links de notícias, vídeos, discos e sites para coisas que estes acham que eu poderia achar legal. Eu bem podia só ficar recebendo isso, desfrutando estas novidades solitário em um pequeno círculo social, mas gosto de compartilhar, de passar para a frente, de eu mesmo mandar para os meus amigos – tanto que alguns deles ficam sabendo das notícias antes mesmo de eu abrir o post. E não é só online não, embora eu tenha decidido não mais exercer a minha onipresença fora da internet.




Animal Collective, Susan Boyle e Coldplay: melhor sem

Daí que esta lista – e todo o Trabalho Sujo, portanto – estar relacionado ao meu filtro pessoal do que eu considero legal ou não. Os anos 00 também foram bons para artistas como Coldplay, Susan Boyle e Animal Collective? Inegável. Mas não esperem que esse tipo de nome surja no meu dia-a-dia. Se não bateu, não tem porque eu passar para frente (e o mesmo vale em relação a falar mal destas coisas – quem gosta desse tipo de polêmica, no fim das contas tá mais querendo chamar atenção para si mesmo do que realmente discutir estes assuntos; por isso eu prefiro nem registra-los). Mas isso quer dizer que eu não queira conversar com quem gosta de coisas que eu não gosto? Nah, não tenho mais 16 anos há muito tempo e não defino minhas companhias pelo jeito que elas se vestem ou pelo tipo de músicas que elas ouvem – mas sim pelo fato de elas respeitarem o que eu gosto e não me julgarem por isso. É meio óbvio isso, mas às vezes precisa ser dito. Afinal, o que não falta é gente pagando de adulto e sofisticado com o discernimento de bebês.

Pra confundir, a lista que começa ainda hoje, mas pro final do dia, tem sim uma ordem de importância (completamente subjetiva, mas enfim), só que eu vou apresentá-la de forma um pouco diferente, randômica. E seu último deadline é o fim deste ano que acabou de começar. Me comprometo a 300 comentários feitos sobre estes 300 nomes durante todo 2010, na maioria de seus dias úteis, quase sempre que estiver de frente ao computador. Se alguém quiser depois colocá-la na ordem, fique à vontade. O mesmo vale para quem quiser juntar a lista dos melhores discos da década num mesmo torrent e ou a lista das melhores músicas dos anos 00 num mesmo zip. Pra mim, é muito trabalho, mas se alguém se dispor, linko aqui. E se alguma editora quiser juntar essas listas num livro, entre em contato por email, tou aberto a negociações (he).

Falando em aleatória, muda também o comportamento do meu Twitter. Ele oficialmente passa a twittar apenas os posts do Sujo, do resto dOEsquema e do Link como, ao mesmo tempo, entro no tal diálogo contínuo como havia prometido. Neste início de semana vem mais links do Link, que não parou durante as festas, e logo, logo pintam os posts do Sujo. Esta mudança significa também o fim da listagem dos últimos tweets aí na coluna do meio do site – ficando só com o link para o Twitter. A partir disso também começo também uma nova seção durante o miolo do dia, um post contínuo que junta notícias desde o fim da manhã até as já clássicas 4:20 (no caso, 16:20). Mas ele não vem de cara, é uma seção que criarei com o passar dos dias e que, presumo, estará prontinha ao final do mês. Isso quer dizer uma leve redução na velocidade de postagem, mas que caminha junto com um exercício de escrever mais para cá, coisa que deixei meio de lado desde que assumi a edição do Link, em maio (não sei se você percebeu, mas a quantidade de vídeos e JPGs deixou o site com cara de Tumblr, em 2009).

E essa lista dos melhores da década já é o início deste exercício – e de outro, que diz respeito à necessidade de se falar de algo na hora em que ele aparece. Cansamos de ver exemplos de obras que vão se mudando com o tempo, graças à interferência alheia direta na obra ou em sua divulgação. Quantos artistas e obras nos passaram batido pelo simples fato de não termos tempo? Ou de não estarmos com paciência para aquele assunto naquela hora, ou por ele se desdobrar ao mesmo tempo em que algo bem mais interessante parecia acontecer? De novo, volto ao tema deste novo “agora”, uma nova recontextuação deste período de tempo que tem muito a ver com o que eu estava falando há pouco sobre o “tema” do Trabalho Sujo. Nos últimos dez anos, como qualquer outra pessoa, pude desfrutar de momentos ótimos que só consegui compartilhar com pessoas mais próximas. Com essa lista, em vez de simplesmente linkar um vídeo ou uma imagem com um link (embora estes formatos aparecerão), vou falar um pouco sobre estas obras e personalidades que eu gostaria que você desse um tanto de sua atenção para tornar sua vida mais divertida.

Não, eu não vi todos os filmes, nem todas as séries, nem ouvi todos os discos – mais um gole da obviedade que precisa ser dita. Nem eu, nem ninguém que faz suas próprias listas pessoais. Se ouviu tudo, pode ficar tranqüilo, ouviu mal. Daqui a cinco anos, talvez minha lista das 300 melhores músicas dos anos 00 seja bem diferente dessa de hoje. Mas ninguém é uma estátua parada no tempo e se até as obras podem mudar (do bigode na Mona Lisa do Duchamp ao Grey Album, passando por “We Are Your Friends” e o ringtone do sapo), vamos deixar de bobagem e assumir que também mudamos. Apesar de termos nomes próprios que tratamos como substantivos possessivos, talvez devêssemos aceitar nossa natureza de verbo e assumir as próprias conjugações. Você era uma pessoa bem diferente há dez anos – talvez sinta vergonha, talvez orgulho -, mas aceite isso: mudamos o tempo todo. Não seja tão rígido com suas convicções, solte um pouco a respiração, ninguém está te vigiando por cima do seu ombro. E daí que o melhor disco de todos os tempos da sua vida já mudou umas cinco ou seis vezes? Não foi assim com seus amigos, amores e a família?

Fora que ninguém consegue acompanhar tudo. E esse tudo ainda exclui tudo aquilo que foi produzido antes de hoje, que pode e deve ser revisitado constantemente. Por isso, passo a dedicar mais a escrita ao Trabalho Sujo, posts curtos de não-ficção de coisas velhas e novas que estou lendo/vendo/ouvindo para equilibrar essa velha conhecida sanha de escrever textos gigantescos como este que você atravessa. Dá para pensar numa rotina de publicação que inclui dois destes posts curtos, a tal nova seção do meio da tarde, os dois tradicionais 4:20 diários e ocasionais vídeos e JPGs, sempre de segunda a sexta, fechado durante os findes. Mas, como sempre, eu não garanto nada.

Junto a isso, ainda abro a possibilidade de posts fotográficos e desenhados (e a transformação do Flickr do Trabalho Sujo em um Flickr de fato – as fotos talvez até renderão um post diário). O desenho é uma atividade que deixei em segundo plano em minha vida, mas que foi responsável pelo pagamento de minhas contas por mais de três anos durante os anos 90 e que, agora, espero voltar a praticar. Já venho desenhando bastante em casa (2009 foi um ano de rascunhos neste sentido inclusive) e começo a desovar esse tipo de produção no Sujo pela primeira vez online (já que o próprio Sujo impresso contou com desenhos meus). O coelho que ilustra este post é um deles. E isso sem contar um janeiro que tem a CES, a Campus Party e uma ótima novidade no Link nas próximas semanas – Link este que finalmente chegou a uma equipe concisa e fodaça, pronta para encarar 2010 com gosto -, e a possibilidade de duas Gente Bonita fora de São Paulo (fora a do meu aniversário, que vai ser aqui e eu tou vendo onde pode ser…).

Quando resenhei o Kid A no ano 2000 falei que estávamos às vésperas da década da verdade, em que todas as máscaras iriam cair, todas as verdades iriam ser ditas. Uma brusca reação à década anterior, da ironia. E, de fato, os anos 00 foram anos do desmoronamento da privacidade contra a transparência compulsória. O momento que melhor sintetiza isso talvez seja protagonizado por David Letterman, que abriu seu programa no final de 2009 para assumir que vinha sendo vítima de extorsão por ter trepado com funcionárias de seu programa. Em vez de se submeter ao escrutínio público, deu um cavalo de pau nas expectativas e veio ele mesmo contar o que houve. Mas isso esteve em todos os cantos da década passada, na Guerra do Iraque, na questão do aquecimento global, nas eleições de Lula e de Obama, nos reality shows, nos discos e filmes que vazaram antes de serem lançados. Goste ou não, verdades foram ditas, na sua cara.

É hora de, depois de uma década traumática e de auto-análise constante (pela primeira vez na história a humanidade se percebeu como uma só), abraçarmos o admirável mundo novo – e uma nova inocência. Essa é a minha aposta para os anos 10: as novas tecnologias que mudarão ainda mais nosso dia-a-dia, mas em vez de nos agarrarmos ao que vai sucumbir no novo processo, iremos abraçar o novo com mais curiosidade e menos preconceito. Isso parece se referir a hábitos digitais, mas no fim das contas está relacionado com diferentes facetas da rotina de cada um de nós. É claro que isso não significa abandonar o ceticismo, mas este virá com menos cinismo e com mais disposição.

E, antes de começar os trabalhos de verdade por aqui, lembro que dedico janeiro aos melhores discos e músicas de 2009. Para não me alongar como em 2008, repito o formato da retrospectiva da década: vídeos para as melhores músicas, capas de disco para os melhores álbuns. E também vou começar – ainda hoje – a perguntar o que já podemos esperar de legal para 2010. Alguns posts vão com especulações minhas (umas são óbvias, como o post a seguir), em outros vou convidar palpiteiros de fora. Mas eu queria ouvir também o que você, que lê o Sujo, tá esperando desse ano.

Acho que, por enquanto, é só. Feliz ano novo e se prepara: essa década vai ser ainda melhor que a anterior.

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  1. Denis disse:

    Ótimo que os textos voltam ao Sujo com tudo, Matias. E revisitar algumas coisas que passaram batidas – por vários motivos: muitos, devido à quantidade de novidades diárias – é essencial (falo no geral, pra todo mundo). Bacana se isso rolar, por aqui.

    No mais, a ironia abriu passagem pro cinismo (ocultando a hipocrisia, que várias vezes foi invocada pela expressão ‘politicamente correto’), agora espero que este saia de cena e os anos 10 tragam esse espírito novo e aberto (menos preconceituoso), que você sugere. Os 00 como transição pra uma nova era, que já vinha sendo anunciada nos 90, assim espero e torço, já acreditando que faremos por onde, aliando uma atitude crítica menos leviana a um poder de realização menos frágil. Por enquanto, realçando o ‘menos’ pior, pra quem sabe chegarmos ao melhor disso tudo.

    Grande abraço e vida ainda mais longa ao Trabalho Sujo.