O Quinto dos Beatles

Mais uma resenha da Bizz do ano passado, sobre o Love dos Beatles.

Love – Beatles (EMI)
Sir George Martin escreve uma sinfonia mashup que conta a história definitiva sobre o legado de seus pupilos
Stones em Copacabana, Pink Floyd se move no mesmo ano em que Syd Barrett morreu, documentário sobre a fase política de Lennon, mais um grande álbum de Bob Dylan, o garoto-propaganda do iPod… Mas nenhum ano pode ser um grande ano para o Rock Clássico sem a presença da franquia Beatles. Dessa vez, deixa pra Sir George Martin (e filho) que, ao fingir escrever a trilha sonora para o espetáculo de Las Vegas que o Cirque du Soleil fez sobre o grupo, remixa um mashup gigantesco como se escrevesse uma sinfonia a partir de pedaços de 130 músicas do grupo, direto das fitas matrizes originais – vocais e instrumentos separados antes da mixagem, trechos que nunca foram utilizados, variações de temas conhecidos. Assemelha diferentes pontos da carreira do grupo entre si, e traça paralelos entre personalidades musicais, canções do mesmo autor e busca a coesão que o grupo deu para toda a sua carreira ao decidir encerrá-la com o disco-testamento Abbey Road. Assim, estende o conceito do lado B deste disco para toda a história do grupo, George Martin ainda sublinha que o grande legado da banda foi tirar o rock da repetição mecânica dos shows para a experimentação sem limites do estúdio, e escolhe os momentos mais ousados do grupo – entre Revolver (1966) e Abbey Road (1969). O disco é um crescendo de momentos brilhantes, onde cada nova releitura fascina mais que a anterior – de “Because” só com vocais a uma “Get Back” aberta pelo acorde inicial de “A Hard Day’s Night” e pelos solos de bateria e guitarra de “The End”, passa por “Sun King” de trás pra frente, os vocais fantasmagóricos de “Nowhere Man” subem sobre o transe de “Blue Jay Way”, o instrumental de “Why Don’t We Do It in the Road” abre “Lady Madonna” e por aí vai, sem nunca decepcionar. O detalhe é que ao excluir qualquer música de Let it Be (produzido depois do fim da banda por Phil Spector, o único oficial sem o tio George), Martin aproveita para alinhar-se aos quatro como o quinto Beatle definitivo, que incentivou e concretizou as idéias mais ousadas e impensáveis da banda. Ele pode, afinal de contas, e merece. E, assim, 2006 encerra clássico.

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