O “parque do Bixiga” da Trupe Chá de Boldo

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Uma marchinha de carnaval para protestar contra a especulação imobiliária e popularizar uma luta que dura décadas: assim é “Parque do Bixiga”, que a Trupe Chá de Boldo lança em primeira mão no Trabalho Sujo. “‘Parque do Bixiga’ nasceu no meio de 2017, uma época em que Silvio Santos intensificou seus ataques reivindicando a propriedade do entorno do Teatro Oficina”, explica o vocalista Gustavo Galo, um dos autores da canção, ao lado de Peri Pane. “Em meio a esses ataques surgiu o que era originalmente uma marchinha de carnaval. Cantamos ela a primeira vez com a Trupe no carnaval que fizemos com Tatá Aeroplano e Gustavo Sousa em 2018. Para o carnaval desse ano, a convite de Magí Batalla, decidimos realmente arranjá-la, não mais como marchinha, embora ainda carnavalesca e disponibilizá-la como modo de apoiar a luta pelo Parque do Bixiga. A luta existe a quase quatro décadas e é formada por moradores do bairro, artistas, associações, visando defender a área tombada como patrimônio no início dos anos 1980.”

“A Trupe sempre teve uma relação próxima com o Oficina. Alem dos shows que fizemos lá, Gongon e Remi Chatain fizeram parte de algumas montagens. E Felipe Botelho segue por lá como diretor musical”, continua Galo. “Para nós os shows que fizemos naquele espaço foram realmente transformadores”. Ele fala também da importância da arquiteta Lina Bo Bardi, idealizadora do espaço, para o grupo. “Ela tornou-se uma referência para a banda precisamente antes do nosso primeiro show no Teatro. Lemos coletivamente alguns dos seus textos e a partir deles surgiu ‘À Lina’, gravada em nosso primeiro disco. Tudo isso para dizer que é difícil saber o que veio antes, uma marchinha que tornou-se pouco a pouco música para o parque ou, ao contrário, o parque inspirando a criação. De algum jeito essa música tinha que acontecer e agora. Como o parque tem que acontecer e agora.”

Pergunto sobre o carnaval ser resistência e Gustavo responde: “Carnavais são vários. E eles são resultado das forças em luta também. A história do carnaval de São Paulo, por exemplo, traz muitos exemplos de resistência, a Lavapés, madrinha Eunice, Geraldo Filme, a história de grande parte das escolas, o Ilu Obá… É só parar para ouvir o Geraldo Filme ou o Plínio Marcos do ‘nas quebradas do mundaréu’ e aprender um tanto dessas histórias. Em São Paulo, apesar do atual investimento publicitário, o carnaval segue como afirmação de resistência. É a experimentação da cidade como extensão do corpo – físico e coletivo – furando os limites do cotidiano restrito, metódico e esquemático da cidade estritamente produtiva. É a cidade usofruto, a cidade prazer se sobrepondo à cidade macroeconômica. E por conta disso muitas vezes a polícia e o Estado não demoram para reprimir e exibir sua rotineira violência visando determinar os limites para a realização da festa. Mas não tem jeito de conter o carnaval. Fora que os algoritmos ainda não dão conta da variedade dos sons. Quem quiser sair da bolha que saia às ruas disposto a se perder.”

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