O outro lado de Rosie

RosieMankato

Acompanho o trabalho de paranaense Rosanne Machado desde quando ela surgiu com seu Rosie & Me no meio pro fim da década passada, resvalando nos saudosos blogs de MP3 e emplacando alguns minihits das paradas de sucesso do Hype Machine e do Last.fm (quem viveu lembra). De lá pra cá, trouxe-a para São Paulo quando fui curador do Prata da Casa do Sesc Pompeia em 2012 e ela seguiu com a banda de forma bissexta, até que passou a compor e gravar sons por conta própria, deixando o antigo grupo em estado de hibernação para focar em uma nova persona, Rosie Mankato, há uns três anos. E quando soube que ela finalmente lançaria um disco com seu novo trabalho, marquei um papo em que ela terminava falando que “sempre vai ser uma honra participar do Trabalho Sujo. Você, sem saber, foi a primeira pessoa a lançar Rosie Mankato quando tocou um cover bizarrissimo que eu fiz de ‘You’re Laughing at Me‘ na rádio Eldorado, mil anos atrás”. É, realmente eu não sabia disso. Vai ver por isso que ela liberou o clipe de “Don’t be Mad”, faixa de trabalho do EP Palomino, em primeira mão para o Trabalho Sujo.

Aproveitei para conversar com ela sobre toda a transformação de vida que resultou nessa nova personalidade musical (e ela ainda descolou um cover que fez de Ru Paul lá no final do post).

Como aconteceu a transição Rosie & Me para Rosie Mankato?
Comecei a experimentar com gravações lo-fi quando tinha 11 anos de idade. Meu pai sempre foi um cara da tecnologia e, como o pai dele proibiu ele de qualquer envolvimento com música, ele sempre me apoiou a seguir essa carreira como podia. Sempre foi uma característica minha ser mais reclusa e brincar com música. O Rosie and Me me pegou de surpresa porque naquela época, 2006 e 2007, a internet era muito mais aberta, livre de algoritmos do mal – haha! – e as bandas tinham muito mais chance de viralizar. Foi o que aconteceu com a gente num ponto importante do meu desenvolvimento como produtora musical e acabei me prendendo demais à banda nesse processo e tudo que ele envolvia: shows, agentes, ouvintes, ensaios, drama… Claro que a banda foi extremamente importante pra mim, e sempre me emociono em pensar nas coisas incríveis que a gente viveu, mas eventualmente todo aquele profissionalismo frio começou a limitar minha criatividade e isso só não me servia mais.
O EP Palomino representa exatamente essa transição. Nesses últimos anos, aceitei minhas fragilidades e pontos fortes pra fazer música com minha “verdade” e, principalmente, me divertir com isso, com leveza. Não queria voltar a tocar e produzir sem antes concluir essas tracks que ficaram esquecidas – e só consegui quando parei de levar isso tão a sério.

O que muda em termos de sonoridade?
Tudo, principalmente minha voz. Quando comecei a cantar em público, algumas pessoas próximas comentavam que eu tinha uma voz muito estranha e que “parecia um homem cantando”. Isso me fez desenvolver uma pira errada de cantar agudo demais pro meu tom natural pra evitar ouvir coisas do tipo – erro terrível da minha parte que só me atrasou na vida. Demorei pra entender que aquilo não era uma crítica produtiva, e sim uma galera nada a ver que só queria me ver mal. Quando a gente cresce um pouco – e assiste todas as temporadas de RuPaul’s Drag Race -, é normal desenvolver uma surdez seletiva pra comentários negativos e o resultado disso é muito mais produtivo. A sonoridade sempre vai ter um toque de estranheza, com um fundinho de country, dreampop e futurepop.

Há uma personalidade Rosie Mankato?
Tô num ponto da vida que só quero voltar a ter a criatividade que tinha quando era criança. Faz sentido? Só posso esperar que minha personalidade transpareça nas minhas atitudes e nas coisas que faço. Todo mundo tem alguma característica especial e eu acho demais quando conseguem aplicar isso no mundo real.

Como o disco Palomino surgiu? Por que demorou para ser lançado?
Ele surgiu em 2012, pra me lançar como “solo”. Não sabia que ia virar uma jornada de desenvolvimento pessoal no caminho. O que mais pesava era a constante insatisfação com a qualidade. E é claro, o EP envolve áudios super antigos gravados de forma aleatória e fora dos padrões. Tive que fazer as pazes com isso e fazer o melhor com o que tinha disponível. Hoje moro num casarão/estúdio que é beeem mais adequado pra captar e experimentar num nível mais elevado e não vejo a hora de compartilhar o que tá saindo disso tudo – mas aí já é assunto pro próximo álbum.

Fale sobre o clipe de “Don’t Be Mad”.
O clipe é bem pessoal e foi gravado nos arredores do estúdio – que fica numa área rural no meio do nada. São lugares que visito sempre e significam muito pra mim. Como artista independente, não disponho de muitos recursos pra esse tipo de material, então quis fazer o melhor possível com o que tinha. A Raysa Fontana – fotógrafa de moda – é quem cuida de todas as minhas imagens e vídeos. “Don’t be Mad” é sobre um dia de inverno, em que ela me pediu pra ser modelo e entrar num lago pra uma foto mas eu não tive coragem – meu, tava 2 graus! A música era pra ser uma piada com essa história e acabou se tornando uma das minhas preferidas. Ela criou esse conceito de monstro que, quando a cabeça gira, os olhinhos dele ficam bravo/triste/bravo/triste e a gente quis se divertir com isso, filmar e envolver a família na construção da máscara e das fantasias. No fim, eu pulei na água e congelei meus cambitos.

Você irá apresentar-se ao vivo? Qual a formação?
Sim! Já tenho alguns músicos envolvidos pra shows futuros e sempre quero tocar com pessoas diferentes. Ainda toco com os meninos do Rosie and Me, pra quem tem saudade da banda. Sempre vou ter interesse em tocar com pessoas diferentes que gostem do som. Vão ter dois shows de lançamento do Palomino no Teatro Paiol, em Curitiba, dias 25 e 26 de maio. Quem vai tocar comigo nessa formação são os músicos: Gabriel Eubank na bateria, Felix Cecílio na guitarra e Fabrício Rossini no baixo.

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