O Monstro do Defalla

Os gaúchos voltam com a formação clássica e lançam seu possível melhor disco, que você escuta primeiro aqui

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O estalo me veio durante o show dos Pin Ups do ano passado. Mesmo que a banda-símbolo do indie paulistano dos anos 90 parecesse mais uma assembleia de pais e professores do que ícones cool d’antanho, aquele talvez tenha sido seu melhor show. Mesmo há séculos de distância de seu auge, há uma década e meia sem gravar e mais de dez anos sem tocar juntos, o grupo estava tocando num bom palco (o Sesc Pompeia), com instrumentos e equipamentos bem melhores do que os que haviam nos anos 90 e um público legitimamente interessado – e cantando todas as músicas! – na banda. A intimidade dos músicos com o público, com o palco e anos a mais de prática em seus instrumentos também transformou aquele momento de 2015 num dos principais acontecimentos de sua carreira.

E pelo mesmíssimo motivo Monstro, o novo disco do Defalla, que você ouve em primeira mão no Trabalho Sujo, periga ser o melhor disco da clássica banda gaúcha. Edu K já foi ao céu e ao inferno do pop brasileiro de todas as formas e hoje, mais do que nunca, entende a essência da banda que pariu ao lado do guitarrista Castor Daudt, do baixista Carlo Pianta e da baterista Biba Meira (baixista), todos da formação clássica da banda (dos dois primeiros discos) e todos de volta ao disco original. Aperte e o play e deixa Edu K falar:

“O engraçado que, sem querer ser autoindulgente, a maior influência desse disco é o próprio Defalla!”, me conta o gênio picareta Edu por email, ciente de como desvirtuou a carreira da banda em detrimento de suas próprias loucuras. “Durante os anos em que fui o único integrante original e legítimo na banda, muitas vêzes usurpando o sagrado nome do Defalla com mega hits pop como “Popozuda Rock N’ Roll” -segundo os fãs mais ardorosos, que me excomungaram e me desejaram as profundezas do último círculo do inferno por minhas heresias – pelo menos as festas devem ser uma loucura por lá, né? haha – houveram algumas tentativas de reunião. Mas, finalmente, em maio de 2011, o tão esperado reencontro tomou forma no show, Discografia do Rock Gaúcho, onde várias bandas da cena sulista tocavam, na íntegra, algum de seus discos clássicos. No primeiro acorde do primeiro ensaio com os 4 Cavaleiros do Após Calypsotech juntos na mesma sala, com seus instrumentos nas mãos e enormes sorrisos nas caras, soubemos: estamos de volta, mesmo sem nunca termos ido à lugar algum! Foi como se tivéssemos tocado juntos na semana anterior, não no século anterior. À partir daí, sabíamos: temos que gravar um disco novo!”

Produzido pelo próprio Edu K, Monstro soa como o clássico Defalla dos primeiros discos, mas traz um espírito de época (o final dos anos 80), que só parece ter sido digerido pelos quatro há décadas de distância. Há ecos de acid house, da cena Madchester, da fusão entre o rock e o rap, da fase pop do Gang of Four, da aproximação entre o rock psicodélico e a música eletrônica, da canonização do rock clássico, do distanciamento do R&B do hip hop e do nascimento do funk metal. É como se os Red Hot Chili Peppers tivessem gravado o Screamadelica ou como se o disco rock’n’roll do Primal Scream fosse o BloodSugarSexMagik – e, por mais indigesto que isso possa parecer, funciona. E bem. Edu enumera as referências: “temos de volta todos os clássicos que sempre nos acompanharam: de Tim Maia à James Brown, passando por George Clinton – o que sempre gerou comparações com os RHCP, por quem não faz seu dever de casa -; de David Bowie à Iggy Pop, passando, e parando, no Eno; toda aquela turma gótica dos anos 80, de Bauhaus à The Cure; e, claro, o groove branco enfezado do pós-punk do PIL e do Gang Of Four. Mas tudo de uma jeito muito característico, muito nosso e, de minha parte, também vem uma influência forte do pop eletrônico americano moderno, em especial no approach de produção.”

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Ele continua falando de suas influências:”Agora eu, pessoalmente, escuto de tudo em casa: todos os citados e mais um caminhão de coisas! Sou fissurado no trap hardstyle dos holandeses do Yellow Claw, acho o Diplo um gênio, apenas – tudo o que ele toca vira ouro; adoro o delicioso pop moderno de Justin Bieber; tenho uma queda delicia por cantoras pop como Ariana Grande, Demi Lovato e Charli XCX e, claro, continuo ouvindo muito Slayer, Pantera e Anthrax e hip hop dos anos 80/90 e ainda sou completamente obcecado pela obra prima do Teo Macero – grande inspiração, praticamente o cara que inventou esse tal approach de produção da música eletrônica moderna, que mencionei antes – e do Miles Davis: Bitches Brew, disco que escuto quase todos os dias.”

“Eu, pessoalmente, gosto muito de pop, e o POP brasileiro vem crescendo muito em qualidade e sacação!”, continua, desembestado. “Não posso falar pela banda mas sou muito fã da Anitta, ainda mais nessa nova fase Mestre Zen do Snapchat, em que ela se encontra. As produções dela estão num outro nível, e, sinceramente, prefiro ela à Rihanna. Comungo na igreja do Wesley Safadão também: me julguem, mortais! E a cena deep house brasileira também anda me deixando de queixo caído! Absolutamente original, gigante, em termos de público e absurdamente inspirada, essa turma que conta com os geniais Chemical Surf e Illusionize e os caciques já consagrados, Vintage Culture e Alok, só tem arrasado, cada vez mais, aqui e no mundo. No âmbito do rock, além dos parças da Cachorro Grande que, com minha ajuda, têm feito maravilhas pelo estilo no Brasil, um outro cara em que geral tem que se ligar é o Erick Endres! Esse moleque arregaça: pense na Mahavishnu Orquestra com a participação do Hendrix, com a produção do The Weeknd!”

O novo disco conta com participações prováveis e inusitadas ao mesmo tempo, como Pitty, Mario Bortolotto, Beto Bruno do Cachorro Grande e – pois é – Humberto Gessinger e levou quase meia década para se materializar: “Foi um processo longo e tortuoso, que durou quatro anos – e foi apelidado por amigos e fãs, de Paraguayan Democracy, numa clara e sacana alusão à epopeia de Axl Rose. O grande lance do Defalla é que a banda nunca acabou: apenas fomos cada um pro seu lado cuidar de suas coisas e lamber as feridas abertas dos anos 80 e 90. Neste ínterim, muito conjecturamos sobre a vontade louca de tocarmos juntos de novo.”

Como a volta se transformou num disco?
Fomos registrando as ideias por etapas: primeiro, nos trancamos por três dias em um estúdio de ensaio, com o rec e o play apertados e registrando tudo que ia saindo, espontaneamente. Nada foi discutido ou intelectualizado: apenas tune in – os instrumentos -, turn on – meu microfone – e drop out, motherfuckers. Este sempre foi nosso processo psicodélico: telepatia musical, elemento presente, e atuante, em todas as bandas que admiro, inclusive minha própria. Um ano depois, registramos o resultado destas jams, em 5 dias, novamente trancados em um estúdio de gravação. Na fase três do video game ‘Grave Um Disco, Seja Herói’, parafraseando nosso genial Oiticica, gravamos alguns overdubs, os vocais e fizemos as mixagens das faixas do nosso queridão, Monstro!

Vocês já tinham algo em mente sobre o que seria o novo trabalho?
Haha, minha telepatia tá se esparramando por aqui também: tô respondendo à pergunta seguinte na resposta anterior! Mas, em relação à criação, neste novo disco, ou em qualquer outro trabalho do Defalla: nada é pensado antes. Pensar é anti-intuitivo, anti-musical: sempre buscamos a máxima espontaneidade possível, em tudo que fazemos. É o que chamo de processo vegano-musical: 100% orgânico!

Qual a diferença entre os primeiros anos da banda no estúdio e a gravação do novo disco?
O Monstro é, como venho dizendo, uma ponte entre o Defalla de hoje e o Defalla dos dois primeiros discos, que definiram, para muitos desavisados, o que “era” o Defalla. Desavisados, digo pois, quem conhece mesmo a banda sabe que o estilo Defalla é não ter estilo. Fazemos música. Ponto. Porém, sim, os dois primeiros discos do Defalla, “Papaparty” e “It’s Fucking Boring To Death”, captaram e essência sônica dos quatro elementos da banda, a magia, em si. E neste Monstro, naturalmente, depois de anos de experiências malucas e decepções homéricas, para os fãs mais ligados ao que consideram representar a banda, este disco é um sopro de ar fresco, um alívio para este calejado povo da Terra Do Nunca: os fãs do Defalla! Pois, naturalmente, o panorama sônico remete bastante à essa fase inicial da banda, com sua mistura de funks James Brown com vitiligo via pós-punk, com um emaranhado de influências e inspirações, vindas do passado e do futuro, que sempre compuseram o som único e característico da banda. Dentro do estúdio de gravação, em si, somos a mesma banda dos primeiros discos, engajada na experimentação e no uso do estúdio como um instrumento, como um membro extra da banda.

Por que Monstro?

Existem dois caminhos que levam ao interior sombrio desta floresta negra assombrada: sempre trabalhamos com letristas, poetas e escritores que admiramos, na hora de criar algumas das letras de nossos discos: uma tradição similar à das bandas de Curitiba, como o Beijo AA Força e sua ligação genial com o saudoso poeta, Marcos Prado. Na hora de escolher alguns dos parceiros pro Monstro, pensei no escritor, ator e dramaturgo, Mario Bortolotto – que, não por coincidência, é um paranaense faca na bota -, que admiramos muito, e é nosso velho parça. Ele me apareceu com a letra da faixa “Monstro”, que fala de um sujeito muito particular e misântropo, numa cruzada particular contra a humanidade, desprezada pelo mesmo – e que representa muito o espírito de nossa banda – e, automaticamenten todo o conceito se encaixou como peças de Lego do Guerra nas Estrelas! O outro caminho foi a vontade da banda de fazer um disco que falasse sobre nosso contundente momento atual, um disco temático, um disco que tratasse da monstruosidade humana, enfim. Essa monstruosidade que remete aos monstros clássicos; ao mesmo tempo que fala do psicopata que mata por prazer; do cidadão comum que, sufocado pela opressão do sistema e da vida moderna, não suporta mais conviver com o próximo, que se amontoa à seu lado, para todos os lados – somos como formigas famintas nestas selvas de pedra a que chamamos de cidades -; a monstruosidades dos relacionamentos humanos em geral, mas também das convenções do amor romântico, usado para aprisionar as pessoas em “seus lugares”; a monstruosidade da velocidade do mundo moderno, a monstruosidade que habita as sombras da alma de cada um de nós. Enfim, nada mais apropriado para nossos monstruosos dias de escandalos políticos, indignação geral, pobreza financeira e de espirito: a ascenção apavorante da idiocracia.

Fala sobre as colaborações com os convidados, como rolou o contato em cada um dos casos?
Hehehehe, tô tipo a Britney Spears, “Oops, i did it again”: meio que respondi isso na pergunta anterior. Mas, em relação aos músicos que participaram do disco, também foi um processo orgânico, de afinidade mesmo: cada um participou na faixa que realmente tinha a ver consigo. O Beto participou de “Timothy Leary, e sendo ele, um estudioso dos anos 60 – além de amigo nosso de longa data -, sabendo tudo sobre a época e seus personagens coloridos, fez a junção de Leary e Dylan no olho do furacão, sobre uma base musical que reverencia a psicodelia dos anos 60, mas mesclada à era rave rock da Madchester dos Stone Roses, algo que já vínhamos desenvolvendo nos discos que tenho produzido da Cachorro Grande. O Defalla nunca teve um lado muito stoner/grunge, que resolveu dar as caras nesse disco! E a faixa que mais representa essa nossa nova tendência, “Delírios De Um Anormal”, inspirada no mestre Zé do Caixão, caiu como uma luva para uma participação estelar da Pitty, que é uma grande admiradora da banda – e isso é recíproco pra nós – e tem um histórico de lidar com temas mais pesados e obscuros e um grande, e sedutor, talento vocal pra essa pegada mais pesada e dark. Last but not least, Humberto Gessinger é um grande gênio do nosso pop brasileiro, que muito admiramos, e que eu sempre quis botar lado a lado com o talento pop do Castor Daudt, nosso guitarrista e guru psicodélico, o que gerou uma das faixas mais belas do disco, “Dez Mil Vêzes”, que junta o pop guitarreiro oitentista, filhote dos Byrds e dos Beatles, com uma verve soul da pesada, a la Tim Maia, outro de nossos grandes irmãos de alma. Fora ak ironia de que, muita gente nem sonha que EngHaw e Defalla sempre tiveram uma relação Beatles/Stones nos bastidores, apesar das alfinetadas em público: somos todos dedicados adeptos do Pão e Circo!

Qual a sua relação com a internet?
O Defalla já era uma banda da era da internet antes mesmo de a internet ter sido inventada, ou seja, estamos como pintos no cyber lixo! Sempre fomos partidários do acesso/excesso de informação, sendo nossa musicalidade esquizofrênica a maior tradução disso. E a internet está virando a própria realidade alternativa – já vivemos dentro dela – tão propagada pelos quadrinhos e escritores de ficção científica: olá, o futuro chegou, finalmente! E ele é dark, perigoso, inebriante e, mesmo assim ainda acha tempo pra ser, também, tedioso! Toda essa informação também vem gerando uma preguiça mental, um descaso, um desinteresse: será interessante ver, fazendo parte ativa disso tudo, onde isso vai dar. Agora, pessoalmente, depois de minha participação no reality show, A Fazenda, pelas redes eu descobri o fã, essa criatura pura, devota e sagrada, pela qual, e para a qual, nosso universo existe! Não que o Defalla não tenha tido sua alta dose de fãs xiitas e devotados, mas agora EU os entendo, e venero, melhor! E isso quem me deu foi a internet! Thanx, Zucka!

Sintetize o novo disco em uma frase.
“Viva o surrealismo!” Paris, maio de 68.

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1 Resultado

  1. patty Fang disse:

    Só não é a formação clássica, que tem o Flu (Flávio Santos) como baixista. O Carlo Pianta faz parte da formação original da banda, que não tinha o Flu, nem o Castor.