O fim de semana de Bob Mould

BobMould

O pai do Hüsker Dü está entre nós e toca hoje e amanhã na choperia do Sesc Poméia. O Fernando Dotta, do Single Parents, o entrevistou antes de ele chegar ao Brasil e ele falou sobre método de composição, sua autobiografia e bandas novas (ele curte Toro y Moi!). Dá uma sacada:

A transcrição traduzida da entrevista segue abaixo:

Bob Mould: Olá, aqui é o Bob!

Oi Bob, aqui é o Fernando, como você está?
Estou bem, como você está hoje?

Não tomarei muito do seu tempo, ok?
Ok, obrigado!

Não sei se alguém te explicou, mas eu sou de um selo independente aqui do Brasil, chamado Balaclava Records e também músico da banda Single Parents e nós temos muita influência sua na nossa música.
Sério? Obrigado, fico lisonjeado.

Estou representando o Antiaereo, que é quem está promovendo essa entrevista. Então falaremos sobre sua carreira e seus shows no Brasil.
Ok, claro.

Quero começar perguntando: qual foi a chute inicial que te fez decidir fazer punk rock lá atrás?
Hahaha, provavelmente ouvindo Ramones. Quer dizer, eu nasci em 1960 e quando tinha 5 anos eu comecei a ouvir música, como fã de música. Ouvia The Beatles, The Monkees, The Birds, The Hollies, Dave Clark Five, The Who e toda boa música pop dos anos 60. Durante os anos 70, quando eu estava no colegial, comecei a ouvir o que meus amigos ouviam, como Aerosmith e Fleetwood Mac e eu não gostava muito daquilo, quer dizer, eu gostava mas não batia fundo em mim e quando eu ouvi os Ramones pensei “Uau, isso é diferente!”, e eu acho que os Ramones mostraram pra todos nós é que qualquer um podia ser músico, qualquer um podia fazer discos, não só rockstars que voavam em jatos particulares e tocavam em arenas. Então acho que isso deu pra todos nós, naquela época, um pouco de esperança. E aí comecei a pensar mais nisso e quando eu fui pra Minessota pra freqüentar a faculdade, eu tinha 17 anos, conheci outros caras que mais tarde se tornariam o Husker Du e começamos aí, o resto você acha na Wikipedia, ahahha!

Já faz 34 anos que você começou o Husker Du e 21 desde o álbum Copper Blue do Sugar, como você acha que isso influencia a música que você faz hoje? Considerando tudo que você já passou e a música que você faz hoje, o que é diferente hoje?
Acho que estou mais velho agora e tenho uma perspectiva diferente da vida, muitas coisas mudaram nesses 30 e vários anos. Quando eu acordo de manhã, eu tenho uma coisa a fazer: eu escrevo músicas, eu trabalho com música, eu leio sobre música, eu ouço música de outras pessoas. Essa sempre foi minha vida. Eu não acordo toda manhã querendo mudar o mundo com a música, eu costumava ser assim, eu costumava ter ambições diferentes. E depois que os Ramones nos mostraram que nem tudo precisava ser jatos particulares e cocaína, nós tivemos aquela luzinha que piscava e dizia que a gente podia mudar o mundo com nossa música. Agora, 30 anos depois, para mim é sobre fazer e contar histórias e a profundidade emocional que talvez eu não tinha com 20 anos e tentando mudar o mundo e provavelmente muita gente pensa que com 23 é quando você fez tudo, mas na verdade é quando você fez tudo que alguém de 23 anos faz. Mas a boa notícia é, que todo aquele trabalho parece ainda ter efeito nas pessoas e está tudo indo bem.

Quando voce decidiu fazer seu projeto solo e gravou “Black Sheets of Rain”, mudou a forma como você escrevia músicas, em comparação com o Husker Du?
Com o Husker Du, nós estávamos dentro de um grupo e sempre foi levado em consideração em como o grupo soava, o que os músicos podiam fazer e o que estava por trás das histórias as serem contadas e é isso que é estar num grupo onde todo mundo tem voz, é isso que você faz. Quando deixei o Husker Du e fui para uma fazenda e escrevi Workbook e Black Sheets of Rain, o conteúdo desses discos eram bem diferentes, era só uma voz contando a história de uma pessoa. Eu tive mais liberdade e mais responsabilidade e no fim tudo caia sobre mim e eu gostava daquilo e ainda gosto até hoje, quando escrevo minhas coisas.

Estava vendo algumas entrevistas e lendo resenhas sobre seus álbuns e as pessoas sempre mencionam que suas letras tem muita escuridão e as vezes soam um pouco depressivas de um jeito emocional e você diz que é uma pessoa mais introspectiva. Eu vejo que o Lou Barlow tem composições muito similares nessa perspectiva. E minha pergunta é, quando você está compondo, como você dosa a realidade e ficção e se você pensa nisso quando está compondo?
Não, pra mim, compor é como quando alguém bate na sua parte e você olha pra fora da janela e se você deixa a música entrar, você tem que fazer algo com aquilo. É um processo bem misterioso, eu acho que sempre escrevemos sobre nossas experiências, reais ou imaginárias e essa é a beleza de compor, você nunca tem que se comprometer com nenhuma das duas, mas tem um pouco de cada uma o tempo todo. Você escreve músicas, você sabe. Você abre a porta, deixa entrar e faz algo com aquilo. É engraçado você ter mencionado o Lou Barlow, pois quando estamos juntos tudo que fazemos é dar risada, hahaha.

Hahaha, geralmente as pessoas vêem vocês como dois caras tristes.
E nós rimos disso!

Sou muito fã dele também, Sebadoh é uma das minhas bandas preferidas nos anos 90.
Eu ainda não ouvi o novo álbum, quero fazer isso esse fim de semana, ouvi o single e estava muito bom.

Sobre sua autobiografia “See a Little Light”, quão difícil foi escrever sobre sua vida pessoal e você teve alguma preocupação em não parecer maior do que sua vida profissional?
Eu queria mostrar para as pessoas como a vida têm sido nos meus primeiros 48 anos e me levou uns 3 anos pra escrever sobre aquilo tudo e acho que no começo eu pensei que iria contar algumas histórias engraçadas, algumas tristes, algumas histórias desafiadoras e vai ser o suficiente. Gostaria que fosse fácil assim, hehehe! Quando eu estava mesmo trabalhando nisso e tendo o Michael Azerrad como meu “técnico”, meu “líder de torcida”, editor e tudo que ele trouxe pro trabalho, o desafio não foi contar histórias ou mostrar às pessoas minhas experiências, a parte difícil foi colocar tudo junto e encontrar a narrativa de tudo, o que me faz ser quem eu sou. Quando comecei colocar tudo junto, como foi minha infância e como ela me afetou, sobre minha sexualidade e as decisões que tomei, minha vida profissional, eu acho que o livro faz muito jus sobre quem eu sou. A parte difícil em contar minha história foi ter partes da história de outras pessoas que não foram uma experiência agradável, mas eu acho que fui muito cuidadoso com isso e tive que confiar no Azerrad quando ele dizia que tal coisa era demais ou tal coisa não era suficiente ou que poderia ser ofensivo pra alguém. Pensei várias coisas nesse livro, não foi uma experiência descuidada. Foi muito trabalho, estamos muito felizes com ele. E no fim das contas eu aprendi muito sobre mim mesmo, consegui perceber tudo que eu fiz e muitas coisas que aconteceram e que não tenho muito orgulho, mas é o que é. Você tenta ser uma pessoa melhor, aprendendo com seus erros.

Eu li que quando você ouviu pela primeira vez o “Loveless” do My Bloody Valentine, foi um grande impacto pra você e gostaria de saber se existe música atual que te dão a mesma sensação ou se você ouve e segue novas bandas.
Sim, eu sigo muitas bandas novas. Aquele álbum foi muito impressionante quando ouvi, música que eu nunca imaginei ouvir outras pessoas fazendo. Recentemente eu gosto de Toro y Moi, Chaz é um grande amigo meu, gosto muito da música dele. No Age, sou amigo deles também e acho que fazem boa música. Cloud Nothings também são ótimos, o The Men é muito bom, há muita coisa agressiva que eu tenho ouvido e também coisas diferentes…sou grande fã do Daft Punk, esta semana tenho gostado do novo álbum do Delorean, o Holy Ghost. Estou ansioso pelo novo disco do Arcade Fire, por eles terem trabalhado com o James Murphy, estou curioso para ouvir o resultado. Gosto do Best Coast, bom, eu tento ficar o mais antenado que posso.

Tenho algumas perguntas sobre o Brasil: durante sua carreira, imagino que você deve ter encontrado vários fãs brasileiros pedindo para você vir tocar no país. Porque você demorou tanto tempo para decidir vir ao Brasil? O que você conhece sobre a música daqui? Envie também uma mensagem para seus fãs.
Eu estou bem ansioso para ir tocar no Brasil. Essa será a primeira tour, porque é a primeira vez que um produtor da América do Sul me convidou para fazer uma tour aí. Nunca tinha recebido uma oferta antes, mas agora vai acontecer. Eu tenho recebido várias correspondências de fãs brasileiros ao longo dos anos e acredito que vou encontrar muitas dessas pessoas. Sei que o público brasileiro gosta de música alta e agressiva, há fãs no Brasil desde o Husker Du e principalmente desde os tempos de Sugar. Não sei exatamente o que esperar, mas tenho noção de que os shows serão bem empolgantes e divertidos.

Você conhece algum artista daqui ou alguém que você admire?
Infelizmente, não. Não conheço muito sobre a música popular do Brasil.

Então eu te darei alguns vinis e cds de música brasileira de qualidade que tenham um som parecido com a música que você faz.
Acho uma ótima idéia!

Obrigado pelo seu tempo Bob, espero encontrá-lo pessoalmente aqui no Brasil para conversarmos mais.
Ok, muito obrigado.

Você pode gostar...