O fim de Lost por Marcio Padrão

Há seis anos um canal de TV norte-americano estreou mais uma série. As primeiras cenas mostravam os primeiros instantes após a queda de um avião em uma ilha aparentemente deserta. Há poucos dias, as cenas finais deste mesmo seriado apresentaram seus personagens principais se reencontrando amigavelmente, longe da ilha. Um final feliz, não há dúvidas. Mas o quanto os fins justificaram os meios neste caso?

Entre 22 de setembro de 2004 e 23 de maio de 2010, a indústria de entretenimento foi tomada de assalto por um dos universos ficcionais mais audaciosos de todos os tempos. Dentro e fora da ilha, J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse não tiveram a menor timidez em entupir o programa com mistérios, dúvidas, detalhes e referências das mais diversas naturezas, além de misturar gêneros e montar-desmontar-remontar enredos e estruturas narrativas. Se a pretensão foi muita e o sucesso também, seria evidente que as expectativas seriam imensas e as frustrações idem.

Este texto não pretende se alongar nessa “fase 2″ da discussão, que teve início assim que a tela preta com o logo “L O S T” surgiu pela última vez na ABC. Os significados e interpretações trazidos pelos fãs após o final merecem um cuidado próprio. Por enquanto, vamos nos ater às impressões mais imediatas deixadas pelo episódio duplo em questão.

Mistérios, dúvidas e expectativas à parte, todos os espectadores entraram na viagem de 104 minutos do desfecho querendo saber como o vilão-mor, o Homem de Preto, seria derrotado. A série teve início com o abrir e encerrou com o fechar dos olhos de Jack Shephard. E no penúltimo episódio, foi ele quem – pela enésima e última vez – chamou a responsabilidade, assumindo o cargo de Jacob. Portanto, nada mais natural que o “doc” fosse o artilheiro do gol decisivo, embora como Romário, não teria conseguido sem o passe irretocável do seu Bebeto, o bom escocês Desmond.

Daí em uma sucessão de cenas pouco claras – é “Lost”, lembre-se – Jack não se importou de ver o MIB-Locke executar seu plano de usar Desmond para “tirar o ralo” da ilha, façanha que só ele supostamente seria capaz por ser imune às grandes doses de eletromagnetismo emanadas daquele lugar. Jack sabia/sentia que isso faria a ilha começar a ruir, como o MIB planejara, mas também “desligaria” a mesma energia que transformou aquele homem em uma entidade sobrenatural o tempo suficiente para ele retornar à mortalidade. Era a última e única chance.

Vamos combinar: o quebra-pau entre Jack e o MIB foi arrepiante. Direção, montagem e atuações de primeira. E a conclusão com o tiro de Kate e o chute final de Jack à beira do precipício foi impecável. Um dos grandes momentos da série. A morte do monstro não poderia ter ocorrido melhor.

Uma das justificativas que mais ali a favor do polêmico episódio final é que, “no fim de tudo, a série era sobre aqueles personagens”. Não concordo inteiramente com essa afirmação, que pode ser interpretada como desculpa para negar sua própria insatisfação sobre o que não “deu certo” no programa, mas admito que os personagens foram um dos grandes ativos de “Lost”.

Dito isso, o final acertou em fazer o que a série sempre fez muito bem: dar atenção a quase todos os personagens minimamente cativantes. O “ex-flashsideway” teve seus pontos altos no despertar de memória de todos que ainda não se lembravam da ilha, com destaque para os cinco casais: Jack e Kate; Sun e Jin; Sawyer e Juliet; Charlie e Claire; e Sayid e Shannon. O amor foi fundamental. Nesse processo, os poucos personagens que ainda se sentiam na pior, como Sayid, Locke e o casal coreano, perceberam que o insight não era apenas um retorno de memórias: era em si a chave para sua própria redenção.

Novelesco? Não tenha dúvida. Vai de cada um acatar. Como a direção e as atuações estavam muito boas, pelo menos a mim conseguiram comover.

O complicado, porém, é que esse desfecho, culminando no reencontro na igreja, era falho diante das circunstâncias de produção. Afinal, por que alguns personagens mereciam estar naquele “lugar”, naquele “momento” e tantos outras pessoas que também “caminharam juntas” ficaram de fora? O papo do “eles ainda não estavam prontos” porque tinham “coisas a resolver” é aceitável até certo ponto, pois serve para o cheio de pecados Ben ou para o traíra Michael, mas por que não para Mr. Eko, por exemplo? Apesar da marra e de ter sido um assassino antes da ilha, ele sempre ajudou a todos por lá. Sem teorias aqui, meus caros: Eko “não estava pronto” simplesmente porque o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje não aceitou voltar à série. Isso sem falar de Miles, que conviveu com Juliet e Sawyer por anos…

Apesar de triste, achei adequado Jack morrer na ilha. Ele foi o herói trágico do início ao fim. Foi o cara que se sacrificou por todos, mesmo por quem questionava e desprezava sua liderança em todos esses anos. E a companhia de Vincent naquele último instante não foi menos que poética. O doutor descansou em paz porque seu lema – viver junto para não morrer sozinho – foi recompensado.

Não gostei, porém, de Hurley, Desmond e Ben ficarem por lá. Ben até entendo, pois a ilha sempre foi o seu lar mesmo. Mas no penúltimo episódio, Hugo falou claramente que estava aliviado de não ter sido ele o guardião. Daí porque Jack decidiu ficar, ele não só ficou também, como virou o novo Jacob? Não me convenceu. O diálogo dele com Ben ainda deu a entender que eles conseguiriam/conseguiram tirar Desmond da ilha, mas como e em quanto tempo, vai saber…

Aqui é terreno delicado e caro a muita gente. Até porque a própria definição de mistério é muito sutil em uma série como “Lost”, onde o mistério não era um gênero em si, mas uma ferramenta importante e usada à exaustão na série toda.

Todos divergem entre o que foi totalmente, parcialmente ou não explicado, sobre as possíveis interpretações das “respostas” ou mesmo o quão importante tais resoluções eram para curtir o programa. Por enquanto, vou me ater ao que considerei mais crucial na condição de fã.

Acredito, portanto, que os “mistérios” mais importantes foram “resolvidos” – as aspas existem porque, como falei acima, tudo é questão de interpretação e ponto de vista. No “Lostverso”, o planeta Terra concentra uma forte energia eletromagnética com benefícios e malefícios inúmeros. A ilha é o ponto de maior concentração desta energia, que precisa ser guardada por alguém que aceite a responsabilidade e o esforço de protegê-la da cobiça da Humanidade. Um mito moderno, enfim.

Talvez o eletromagnetismo seja o maior motivo da ilha ser tão difícil de ser encontrada. Como o físico Daniel Farady comprovou, essa energia, liberada sob certas condições, permite viagens no tempo. Mas apesar de difícil, não é impossível encontrar a ilha, e diversas gerações de visitantes passaram por lá. A mãe adotiva de Jacob e MIB, depois a mãe natural deles, o Black Rock, a Dharma, o barco Elizabeth, o voo Oceanic e o voo Ajira conseguiram, pois cada um teve a “sorte” de cruzar com as condições certas. Sim, o termo “Triângulo das Bermudas” acende em neon neste momento.

A explicação maior para os números foi mesmo o grau do ângulo de cada nome de candidato no observatório de Jacob. Além disso, no ARG de “Lost” falava-se que os números eram variáveis de uma equação matématica sobre o fim do mundo. Não explica inteiramente todas as coincidências envolvendo tais números, claro. Atribuo isso a traquinagem dos produtores mesmo.

Agora quem era a mãe adotiva de Jacob, por que a fonte emanava aquela luz, como a mesma fonte transformou MIB em um monstro, como Desmond não fritou o juízo com tanto eletromagnetismo, porque Walt tinha poderes, porque Richard pôde envelhecer de novo, que diabo era aquele cavalo de Kate, bla bla bla… enfim, tudo isso vai ficar em aberto mesmo. Se isso resulta na grande farsa dos produtores incompetentes ou em uma obra propositadamente aberta para que os espectadores a preeencham com suas versões, você decide. Mas voltarei a esse ponto crucial do debate em outro texto, como falei acima.

Para resumir muito bem resumido: gostei bastante do episódio final, mas não o considerei um desfecho satisfatório para a série como um todo. Não apenas por todos os pontos negativos já citados aqui, mas também porque não comprei muito terem transformado o flashsideway em um – na falta de um nome melhor – “purgatório”. Nem se trata da sensação de ser “enganado”. Mas acredito que, mais que resolver ou não mistérios, a grande falha de “Lost” foi se afogar nas águas navegadas por suas pretensões.

É, os produtores juraram por anos que a tese do purgatório era infundada. Só aí já dá pano pra muita manga. Mas a minha decepção vai por outro viés. Será que usar um recurso relativamente batido – “Ghost”, “O Sexto Sentido” e “Os Outros” só de relance – é mesmo digno para uma trama tão ambiciosa? E será que foi certo Lindelof e Cuse chegarem no começo da sexta temporada e mudarem o discurso de “as respostas virão no final” para “nem tudo será respondido“?

Apesar de meio “lei da compensação”, há tempos aprecio a ideia que muita gente também vem seguindo: de que o grande barato de “Lost” foi a viagem, não o destino. Não era importante para mim que a série acabasse com todos juntos felizes de volta à civilização – e antecipar esse momento no flashforward foi uma jogada de gênio. Também não era um maníaco por respostas de mistérios. Daí vejo que, assim como “Arquivo X” nos anos 90, “Lost” foi uma série que definitivamente marcou seu lugar no panteão dos grandes conceitos pop por diversos méritos, por mais falhas que tenham apresentado no processo.

Já falei um pouco os motivos disso aqui, mas falando especificamente da história, acho que o programa criou personagens incríveis e de fácil identificação, apesar de complexos nos detalhes. A sensação de estar sempre “perdido” a todo início de episódio, mesmo acompanhando toda semana, era semelhante a pular de 100 metros de altura no bungee-jump: por mais que se repetisse, era sempre um prazer inédito. A estrutura narrativa mutante desafiava positivamente nosso interesse pela trama.

E os detalhes? As frases impagáveis de Hurley, os apelidos de Sawyer, a fé insistente de John Locke, o heroísmo de Jack, a coragem de Kate, o medo de cada aparição do monstro, o (des)agradável cinismo de Ben, os dramas particulares, os romances, as cenas engraçadas… será que todas essas coisas boas não compensaram desastres como “Across the Sea”, os flashbacks chatos de Kate, a dupla Paulo e Nikki, o desfecho meia boca e todas as outras coisas ruins?

Não sei você, mas para mim compensou. No fechar de olhos de Jack Shepherd, é hora de manter os meus abertos. Que venha outro “Lost” em nossas vidas.

* Marcio escreveu este texto em seu blog.

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2 Resultados

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