Nelson Motta

Domingo é sempre um dia bom pra tirar umas velhas do baú. Essa entrevista com o Nelsonmotta tem quase oito anos de idade…

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Nelson Motta tinha treze anos quando o compacto que lançou João Gilberto – o hoje histórico ” Chega de Saudade” – saiu. Instantaneamente infectado pela musicalidade simples e sofisticada de João, não foi difícil envolver-se com aquela música e a cena que gravitava em sua órbita. Morava no Rio de Janeiro em plena era JK, último suspiro de um Rio paradisíaco, intacto, turístico, que assistiu em seu próprio colo o nascimento da bossa nova. Seus pais eram abertos o suficiente para permitir que o filho assistisse aos primeiros shows do gênero, muitas vezes em sua companhia. E por intermédio de um primo, passou a freqüentar a mesma turma que contemplava o samba e Copacabana do apartamento de Nara Leão às tardes e atravessava as noites na casa de Vinícius de Morais, em Petrópolis.

Sorte, pura sorte. Mas Nelson não deixou escapar. Uma vez dentro de uma facção do universo musical brasileiro, assistiu o nascimento de toda uma geração de artistas que mudaria a cara da cultura de nosso país. Para trás ficariam a rádio Nacional e seus cantores de dicção perfeita e vozeirões, a dramaticidade quadrada de pequenas árias operísticas transformadas em canção. O Brasil percebia sua brasilidade quando João Gilberto determinava o novo cânone da música brasileira: entre o baiano Dorival Caymmi e o flamenguista Ary Barroso, um só ritmo – o samba. Ao assumir o samba como fator de identidade nacional, a bossa nova criava um novo estágio na música brasileira e coroava uma nova hierarquia, um novo panteão de divindades. Bom de meio-campo, o baixinho Nelson Motta conseguiu estar em vários lugares ao mesmo tempo – como jornalista, produtor, empresário, diretor artístico, apresentador de TV, crítico de música e compositor. Aos 55 anos, ele resolve dividir seu testemunho com os leitores de seu novo livro, Noites Tropicais (Objetiva), em que nos conta a sua versão da história da MPB.

Texto afiado, Nelson escreve como conversa. É o mesmo Nelson Motta do Sábado Som, do Jornal Hoje, das transmissões do Rock in Rio ou do Manhattan Connection. Sem firulas nem meias-palavras, ele conta seu papel de agente na história da música com a empolgação de um pescador em mesa de bar. Não importa se as histórias aconteceram exatamente como ele conta, pois é justamente a forma como ele conta que as tornam tão divertidas. Qualquer um com pouco menos de humor que o autor assistiria aquele monte de artistas como uma turma de ególatras insatisfeitos com a pouca bajulação. Mas Nelson não esquenta a cabeça fácil e sempre dá um jeito de estar no lugar certo na hora certa. Ele sabe que é preciso jogo de cintura para se manter de pé e seu texto tem a mesma energia com que busca a novidade.

Disposto a revelar o lado humano dos artistas, ele invade a privacidade dos envolvidos tirando-lhes apenas a aura mística que o tempo e a mídia puseram sobre todos eles, mostrando como esta é fruto da própria personalidade do artista. Vemos então Raul Seixas consciente de sua própria picaretagem, Roberto Carlos ouvindo os problemas de fãs como se fosse um santo, a fama de casanova tanto de Jorge Ben quanto de Jerry Adriani, João Gilberto brincando com a expectativa dos outros, Tim Maia esbaforido de medo de entrar no bondinho, Elis Regina atirando objetos nos outros, as Frenéticas quando ainda eram garçonetes e Sérgio Mendes conquistando os americanos.

No meio de sua aula de história, Nelson desfila seu invejável currículo junto à música brasileira, muitas vezes subestimado. Foi jurado de Flávio Cavalcanti, onde defendia a música nova que surgia com a bossa nova e a Jovem Guarda. Com uma coluna diária na Última Hora, de Samuel Weiner, e depois no Globo, esta mesma música ganhava um ávido divulgador. Compositor, chegou a tocar violão num grupo que não decolou, o Depois das Seis (o único referido no livro entre aspas). Criou o Sábado Som na TV Globo, onde passou a divulgar clipes das bandas de rock dos anos 70. Inventou a trilha sonora de novela com André Midani. Tinha uma coluna diária sobre música no Jornal Nacional e fazia matérias sobre o tema para o Fantástico. Sua equipe contava com Scarlet Moon e o futuro Gang 90 Júlio Barroso. Escreveu a música de fim de ano da Globo com Ivan Lins. Produziu discos de Elis Regina e espetáculos de Marília Pêra e criou a primeira discoteca do Brasil, o lendário Dancing Days no Rio de Janeiro (uma das melhores partes do livro), e a primeira danceteria do país, a Paulicéia Desvairada em São Paulo. Assistiu o nascimento do rock dos anos 80 como um dos sócios da famosa Noites Cariocas, no morro da Urca. Escrevia letras para Lulu Santos e produziu o seriado Armação Ilimitada. Lançou Marisa Monte e hoje é colunista – eletrônico e impresso – das organizações Globo em Nova York.

O livro é recheado com as histórias que Nelson viu no meio do caminho, todas dignas de serem contadas. Poucas fofocas, no entanto: no livro ele finalmente assume seu caso com Elis Regina enquanto ela estava casada com Ronaldo Bôscoli e corajosamente conta sua relação artística e afetiva com Marisa Monte. Mas o que interessam são os ‘causos’: Rita Lee perdendo a voz no Rock in Rio, Tim Maia discutindo com Raul Seixas sobre qual melhor droga (Raul defendia a cocaína e Tim, na fase Racional, a maconha), Lulu Santos tocando em circos no subúrbio do Rio, Erasmo Carlos fugindo do juizado de menores, a irresistível aventura do Dancing Days, seu primeiro encontro com Ângela Rorô, Carlos Imperial de sandálias disputando A Palavra É na televisão com Chico Buarque e Caetano Veloso na televisão, Tim Maia distribuindo LSD pela gravadora como se fossem hóstias, o menor de idade Lobão assustando Nelson com um termo de responsabilidade assinado pelo autor, que quase foi preso por fumar um baseado à saída do primeiro Rock in Rio.

Além disso, há esclarecimentos sobre a fama de dedo-duro de Wilson Simonal, o monopólio da TV Record e da gravadora Phillips nos anos 60 e 70, o surgimento e a consagração da Rede Globo e da Som Livre e depoimentos emocionados sobre as mortes de Elis Regina, Gláuber Rocha e Júlio Barroso. E há as passagens históricas, como um show de João Gilberto no alto do Rockfeller Center em Nova York, uma jam session em que Hermeto Paschoal participou do lado de fora do bar, a invenção do tropicalismo, o Opinião de Nara Leão, os festivais, Jorge Ben no Beco das Garrafas, os shows de Lennie Dale, Apesar de Você passando pela censura e a invenção de Julinho de Adelaide, o primeiro Hollywood Rock (em 1975, com Rita Lee & Tutti-Frutti, Mutantes, Veludo, Vímana, O Peso, Erasmo, Celly Campelo e Raul Seixas), a criação das Frenéticas e da grife Dancing Days, os primeiros shows do rock brasileiro dos anos 80. Escolha seus motivos e seus ídolos, mas não deixe de ler Noites Tropicais. Leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais sobre os bastidores – e, por isso mesmo, a história – da música brasileira.

Como surgiu a idéia de fazer um livro de memórias?
Queria escrever uma biografia do Tim Maia, mas por problemas com os herdeiros, como tudo de Tim Maia estava uma confusão danada, resolvi escrever sobre ele mas também sobre todos os grandes personagens da música que encontrei nesses meus 35 anos de vida musical. E a melhor forma era como memórias, na primeira pessoa, já que participei das diversas fases de nossa música como tiete, compositor, jornalista, produtor e empresário ao longo de cada fase. Achei que assim poderia contar as histórias de pontos de vista diferentes, ficaria mais rico e divertido.

Não é cedo para fazer um livro desta natureza?
Tenho 55 anos, um neto de três, já tenho muita estrada. Com 30 mil livros vendidos em um mês e as críticas maravilhosas (até da Folha!), acho que não.

Qual a dificuldade de se fazer um livro de memórias que ao mesmo tempo é um livro sobre a música brasileira? Como discernir lembranças pessoais de fatos históricos?
Usei lembranças pessoais quando achei que eram relevantes para o fluir da história, para esclarecer personalidades ou para situar melhor o narrador para o leitor, sobre os pontos de vista daquela pessoa que conta a história. Meu principal critério foi: histórias de que participei (como tiete primeiro, depois como compositor, jornalista, produtor e empresário – e finalmente escritor ) e a personagens dos quais eu estivesse próximo, sempre com o objetivo maior de traçar um painel dos últimos 35 anos de música brasileira. Então, certos artistas, como Edu Lobo, Elis Regina, Raul Seixas e Tim Maia tem grande destaque, porque em épocas diversas de minha vida estive muito próximo a eles, podendo portanto dar um testemunho exclusivo, diferente de uma ” história da música” ou de uma biografia jornalística.

Sua carreira é marcada por suas mudanças de papel na história da música brasileira. Em algum momento estas mudanças lhe causaram algum conflito?
Sempre. Sempre estive em conflito, buscando uma harmonia por contraste. Em cada uma das funções que desempenhei, aprendi muita coisa que me ajudou a trabalhar e compreender melhor outras. Estive dos dois lados do balcão, fui pedra e vidraça, e isto acho que acaba dando um certo equilíbrio. E banindo o tédio e a rotina para sempre. Hoje, por exemplo, o que mais gosto de fazer é escrever e de ler. Mais do que de música.

Você respeita a privacidade dos envolvidos, mas revela alguns podres. Qual o critério adotado?
Principalmente os meus podres, que procuro tratar com humor quando dá, e com autocrítica quando necessário – mas sem ressentimentos de nenhuma ordem. Conto episódios menos abonadores de alguns principalmente quando são divertidos, nunca por espirito de fofoca ou ressentimento, para mostrar ao leitor como eram, em sua complexidade, esses grandes talentos, humanos todos, e por isso ainda maiores.

Quase a fase de sua carreira mais te satisfez e por quê?
Todas, desde a bossa nova ate o final do rock Brasil, no final dos anos 80. A que menos gostei foi depois disso, com o Governo Collor e a onda sertaneja, quando decidi me mudar para Nova York. Mesmo nesta fase teve bons momentos, como os shows e discos que produzi com Djavan, Sandra de Sá, Elba Ramalho, Leila Pinheiro e João Gilberto.

O distanciamento geográfico (uma vez que você está em Nova York) ajudou ou atrapalhou na hora de escrever? Fale sobre isso…
Foi decisivo. Me distanciou mais ainda das memórias e das pessoas, me permitiu um distanciamento crítico decisivo para o livro. Alem de tudo, tive paz, conforto e tranqüilidade para trabalhar. Em Nova York ninguém me conhece, ninguém me enche o saco nem pede coisas, ninguém me aluga para besteiras. E tudo funciona, é rápido, não se perde tempo. No Brasil, levaria três vezes o tempo que levei, acho que estaria escrevendo ate hoje. Nova York é um dos melhores lugares do mundo para se esconder.

Por que se distanciar da polêmica num cenário musical que parece privilegiar tal atitude?
Detesto polêmica, gosto de harmonia. Ha muito tempo já desisti de tentar convencer alguém de qualquer coisa. Digo o que sinto e penso, com educação e respeito sempre, quem quiser aceitar, muito bem, senão, muito bem também.

Do mesmo jeito que a bossa nova suplantou a música brasileira tradicional, invertendo valores e criando um novo cânone na música atual (criando a MPB), um outro gênero pode surgir e fazer o mesmo com a MPB. Qual sua posição frente a à mudança neste sentido?
É natural, é parte do processo, o público consumidor precisa sempre de novidades. O interessante da música brasileira e’ que os gêneros não acabam, vão se sobrepondo, incorporando os que vieram antes. Hoje é tudo pop, existem apenas talentos individuais. Pagode, axé, sertanejo, tudo passa, tudo sempre passará – mas todos se lembrarão dos grandes artistas, indivíduos, muito mais do que de gêneros e escolas.

Letristas, compositores, personalidades, agitadores culturais, produtores, críticos, músicos… O que falta no cenário da música brasileira atual?
Dinheiro, eu acho. Tem muita gente de talento, muita vontade de fazer e de comprar música, mas os ups and downs da economia brasileira castigam o mercado de discos. Fora isto não falta nada. Com as tecnologias digitais e a internet nunca foi tão fácil fazer e vender um disco. Mas nunca foi tão difícil fazer sucesso.

Você tem alguma frustração na carreira? O que você gostaria de fazer, se pudesse ter controle total?
Escrever, porque não preciso de ninguém, nem de nada, só de minha cabeça. É um pouco solitário, reconheço, mas passei minha vida inteira trabalhando em equipe, algumas gigantescas e quanto mais gente, mais problemas. Gostaria também de pintar. Ate já comprei as telas e tintas e pincéis. Mas continuam na caixa.

Mesmo fora do Brasil, você tem acompanhado a música brasileira. Na sua opinião, qual é a lição que aprendemos nos anos 90 dominados pelo trio axé-sertanejo-pagode?
Aprendemos que foi uma grande década, que nos deu Marisa Monte, Ed Motta, Daniela Mercury, Cidade Negra, Gabriel o Pensador, Cassia Eller, Lenine, onde Caetano, Chico, Milton, Lulu Santos, Titãs, tantos outros, produziram grandes discos e shows. Nos 90 Zizi Possi e Nana Caymmi produziram seus melhores discos e shows. Tom Jobim produziu, ate morrer, grandes canções. Daqui a 10 anos ninguém lembrará de pagode-axé-sertanejo (ou pior, dos padres cantores) mas todos se lembrarão com orgulho e ouvirão com prazer esses artistas.

O rock está voltando de novo ao mercado, mesmo que ainda lentamente. Você diz no livro que as gravadoras optaram pelo rock nos anos 80 pelo barateamento da produção. E hoje, qual é o motivo?
Não sei, neste ultimo ano-e-meio fiquei trancado em casa escrevendo o livro. Talvez seja a decadência comercial do sertanejo-axé-pagode.

Arriscando uma bola de cristal, quem é o futuro da música brasileira na sua opinião?
O futuro é a nossa diversidade. Individualmente acredito em Marisa Monte, Ed Motta e Cassia Eller. E que Daniela Mercury será a primeira grande estrela pop brasileira a triunfar no exterior. Mas triunfar mesmo, big time.

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