Neil Gaiman e o poder da leitura

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Neil Gaiman foi convidado a falar no segundo encontro da Reading Agency inglesa e escolheu falar sobre a natureza da leitura e seu incrível poder transformador, além da importância do livro e das bibliotecas em nossas vidas, na palestra que deu no Barbican Center, em Londres, há duas semanas.

Abaixo, segue a transição em inglês, se alguém se dispor a traduzir, basta postar na área de comentários que eu atualizo aqui. O site Index-a-dora já havia traduzido o texto, que reproduzo na íntegra abaixo. A seguir vem a íntegra em inglês:

É importante para as pessoas dizerem de que lado elas estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: eu sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E eu sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças de 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. As pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, RL Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, por que cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que eles precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma idéia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler RL Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos auto-obcecados.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google, e eles perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu. Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente.E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos e pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal, e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades e conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como JRR Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler, e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série, eles ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Ingaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

E a seguir, a íntegra em inglês:

It’s important for people to tell you what side they are on and why, and whether they might be biased. A declaration of member’s interests, of a sort. So, I am going to be talking to you about reading. I’m going to tell you that libraries are important. I’m going to suggest that reading fiction, that reading for pleasure, is one of the most important things one can do. I’m going to make an impassioned plea for people to understand what libraries and librarians are, and to preserve both of these things.

And I am biased, obviously and enormously: I’m an author, often an author of fiction. I write for children and for adults. For about thirty years I have been earning my living though my words, mostly by making things up and writing them down. It is obviously in my interest for people to read, for them to read fiction, for libraries and librarians to exist and help foster a love of reading and places in which reading can occur.

So I’m biased as a writer.

But I am much, much more biased as a reader. And I am even more biased as a British Citizen.

And I’m here giving this talk tonight, under the auspices of the Reading Agency: a charity whose mission is to give everyone an equal chance in life by helping people become confident and enthusiastic readers. Which supports literacy programs, and libraries and individuals and nakedly and wantonly encourages the act of reading. Because, they tell us, everything changes when we read.

And it’s that change, and that act of reading that I’m here to talk about tonight. I want to talk about what reading does. What it’s good for.

I was once in New York, and I listened to a talk about the building of private prisons – a huge growth industry in America. The prison industry needs to plan its future growth – how many cells are they going to need? How many prisoners are there going to be, 15 years from now? And they found they could predict it very easily, using a pretty simple algorithm, based about asking what percentage of ten and eleven year olds couldn’t read. And certainly couldn’t read for pleasure.

It’s not one to one: you can’t say that a literate society has no criminality. But there are very real correlations.

And I think some of those correlations, the simplest, come from something very simple. Literate people read fiction.

Fiction has two uses. Firstly, it’s a gateway drug to reading. The drive to know what happens next, to want to turn the page, the need to keep going, even if it’s hard, because someone’s in trouble and you have to know how it’s all going to end…

…that’s a very real drive. And it forces you to learn new words, to think new thoughts, to keep going. To discover that reading per se is pleasurable. Once you learn that, you’re on the road to reading everything. And reading is key. There were noises made briefly, a few years ago, about the idea that we were living in a postliterate world, in which the ability to make sense out of written words was somehow redundant, but those days are gone: words are more important than they ever were: we navigate the world with words, and as the world slips onto the web, we need to follow, to communicate and to comprehend what we are reading.

People who cannot understand each other cannot exchange ideas, cannot communicate, and translation programs only go so far.

The simplest way to make sure that we raise literate children is to teach them to read, and to show them that reading is a pleasurable activity. And that means, at its simplest, finding books that they enjoy giving them access to those books and letting them read them.

I don’t think there is such a thing as a bad book for children. Every now and again it becomes fashionable among some adults to point at a subset of children’s books, a genre, perhaps, or an author, and to declare them bad books, books that children should be stopped from reading. I’ve seen it happen over and over; Enid Blyton was declared a bad author, so was R. L Stine, so were dozens of others. Comics have been decried as fostering illiteracy.

It’s tosh. It’s snobbery and it’s foolishness.

There are no bad authors for children, that children like and want to read and seek out, because every child is different. They can find the stories they need to, and they bring themselves to stories. A hackneyed, worn-out idea isn’t hackneyed and worn out to them. This is the first time the child has encountered it. Do not discourage children from reading because you feel they are reading the wrong thing. Fiction you do not like is the gateway drug to other books you may prefer. And not everyone has the same taste as you.

Well-meaning adults can easily destroy a child’s love of reading: stop them reading what they enjoy, or give them worthy-but-dull books that you like, the 21st century equivalents of Victorian “improving” literature. You’ll wind up with a generation convinced that reading is uncool and worse, unpleasant.

We need our children to get onto the reading ladder: anything that they enjoy reading will move them up, rung by rung, into literacy.

(Also do not do what this author did when his eleven year old daughter was into R. L. Stine, which is to go and get a copy of Stephen King’s CARRIE, saying if you liked those you’ll love this! Holly read nothing but safe stories of settlers on prairies for the rest of her teenage years, and still glares at me when Stephen King’s name is mentioned.)

And the second thing fiction does is to build empathy. When you watch TV or see a film, you are looking at things happening to other people. Prose fiction is something you build up from 26 letters and a handful of punctuation marks, and you, and you alone, using your imagination, create a world, and people it and look out through other eyes. You get to feel things, visit places and worlds you would never otherwise know. You learn that everyone else out there is a me, as well. You’re being someone else, and when you return to your own world, you’re going to be slightly changed.

Empathy is a tool for building people into groups, for allowing us to function as more than self-obsessed individuals.

You’re also finding out something as you read vitally important for making your way in the world. And it’s this:

THE WORLD DOESN’T HAVE TO BE LIKE THIS. THINGS CAN BE DIFFERENT.

I was in China in 2007, at the first party-approved of Science Fiction & Fantasy Convention in Chinese history. And at one point I took a top official aside and asked him Why? SF had been disapproved of for a long time. What had changed?

It’s simple, he told me. The Chinese were brilliant at making things if other people brought them the plans. But they did not innovate and they did not invent. They did not imagine. So they sent a delegation to the US, to Apple, to Microsoft, to Google, and they asked the people there who were inventing the future about themselves. And they found that all of them had read science fiction when they were boys or girls.

Fiction can show you a different world. It can take you somewhere you’ve never been. Once you’ve visited other worlds, like those who ate fairy fruit, you can never be entirely content with the world that you grew up in. Discontent is a good thing: people can modify and improve their worlds, leave them better, leave them different.

And while we’re on the subject, I’d like to say a few words about escapism. I hear the term bandied about as if it’s a bad thing. As if “escapist” fiction is a cheap opiate used by the muddled and the foolish and the deluded, and the only fiction that is worthy, for adults or for children, is mimetic fiction, mirroring the worst of the world the reader finds herself in.

If you were trapped in an impossible situation, in an unpleasant place, with people who meant you ill, and someone offered you a temporary escape, why wouldn’t you take it? And escapist fiction is just that: fiction that opens a door, shows the sunlight outside, gives you a place to go where you are in control, are with people you want to be with(and books are real places, make no mistake about that); and more importantly, during your escape, books can also give you knowledge about the world and your predicament, give you weapons, give you armour: real things you can take back into your prison. Skills and knowledge and tools you can use to escape for real.

As J. R. R. Tolkien reminded us, the only people who inveigh against escape are jailers.

Another way to destroy a child’s love of reading, of course, is to make sure there are no books of any kind around. And to give them nowhere to read those books.

I was lucky. I had an excellent local library growing up. I had the kind of parents who could be persuaded to drop me off in the library on their way to work in summer holidays, and the kind of librarians who did not mind a small, unaccompanied boy heading back into the children’s library every morning and working his way through the card catalogue, looking for books with ghosts or magic or rockets in them, looking for vampires or detectives or witches or wonders. And when I had finished reading the children’s’ library I began on the adult books.

They were good librarians. They liked books and they liked the books being read. They taught me how to order books from other libraries on inter-library loans. They had no snobbery about anything I read. They just seemed to like that there was this wide-eyed little boy who loved to read, and would talk to me about the books I was reading, they would find me other books in a series, they would help. They treated me as another reader – nothing less and more – which meant they treated me with respect. I was not used to being treated with respect as an eight year old. But Libraries are about Freedom. Freedom to read, freedom of ideas, freedom of communication. They are about education (which is not a process that finishes the day we leave school or university), about entertainment, about making safe spaces, and about access to information.

I worry that here in the 21st Century people misunderstand what libraries are and the purpose of them. If you perceive a library as a shelf of books, it may seem antiquated or outdated in a word in which most, but not all, books in print exist digitally. But that is to fundamentally miss the point.

I think it has to do with nature of information.

Information has value, and the right information has enormous value. For all of human history, we have lived in a time of information scarcity, and having the needed information was always important, and always worth something: when to plant crops, where to find things, maps and histories and stories – they were always good for a meal and company. Information was a valuable thing, and those who had it or could obtain it could charge for that service.

In the last few years, we’ve moved from an information scarce economy to one driven by an information glut. According to Eric Schmidt of Google, every two days now the human race creates as much information as we did from the dawn of civilisation until 2003. That’s about five exobytes of data a day, for those of you keeping score. The challenge becomes, not finding that scarce plant growing in the desert, but finding a specific plant growing in a jungle. We are going to need help navigating that information to find the thing we actually need.

Libraries are places that people go for information. Books are only the tip of the information iceberg: they are there, and libraries can provide you freely and legally with books. More children are borrowing books from libraries than ever before – books of all kinds: paper and digital and audio. But libraries are also, for example, a place that people, who may not have computers, who may not have internet connections, can go online without paying anything: hugely important when the way you find out about jobs, apply for jobs or apply for benefits is increasingly migrating exclusively online. Librarians can help these people navigate that world.

I do not believe that all books will or should migrate onto screens: as Douglas Adams once pointed out to me, over twenty years before the kindle turned up, a physical book is like a shark. Sharks are old: there were sharks in the ocean before the dinosaurs. And the reason there are still sharks around is that sharks are better at being sharks than anything else is. Physical books are tough, hard to destroy, bath-resistant, solar operated, feel good in your hand: they are good at being books, and there will always be a place for them. They belong in libraries, just as libraries have already become places you can go to get access to ebooks, and audiobooks and DVDs and webcontent.

A library is a place that is a repository of, and gives every citizen equal access to, information. That includes health information. And mental health information. It’s a community space. It’s a place of safety, a haven from the world. It’s a place with librarians in it. What the libraries of the future will be like is something we should be imagining now.

Literacy is more important than ever it was, in this world of text and email, a world of written information. We need to read and write, we need global citizens who can read comfortably, comprehend what they are reading, understand nuance, and make themselves understood.

Libraries really are the gates to the future. So it is unfortunate that, round the world, we observe local authorities seizing the opportunity to close libraries as an easy way to save money, without realising that they are, quite literally, stealing from the future to pay for today. They are closing the gates that should be open.

According to a recent study by the Organisation for Economic Cooperation and Development, England is the “only country where the oldest age group has higher proficiency in both literacy and numeracy than the youngest group, after other factors, such as gender, socio-economic backgrounds and type of occupations are taken into account”.

Or to put it another way, our children and our grandchildren are less literate and less numerate than we are. They are less able to navigate the world, to understand it to solve problems. They can be more easily lied to and misled, will be less able to change the world in which they find themselves, be less employable. All of these things. And as a country, England will fall behind other developed nations because it will lack a skilled workforce. And while politicians blame the other party for these results, the truth is, we need to teach our children to read and to enjoy reading.

We need libraries. We need books. We need literate citizens.

I do not care – I do not believe it matters – whether these books are paper, or digital, whether you are reading on a scroll or scrolling on a screen. The content is the important thing.

But a book is also the content, and that’s important.

Books are the way that we communicate with the dead. The way that we learn lessons from those who are no longer with us, that humanity has built on itself, progressed, made knowledge incremental rather than something that has to be relearned, over and over. There are tales that are older than most countries, tales that have long outlasted the cultures and the buildings in which they were first told.

I think we have responsibilities to the future. Responsibilities and obligations to children, to the adults those children will become, to the world they will find themselves inhabiting. All of us – as readers, as writers, as citizens: we have obligations. I thought I’d try and spell out some of these obligations here.

I believe we have an obligation to read for pleasure, in private and in public places. If we read for pleasure, if others see us reading, then we learn, we exercise our imaginations. We show others that reading is a good thing.

We have an obligation to support libraries. To use libraries, to encourage others to use libraries, to protest the closure of libraries. If you do not value libraries then you do not value information or culture or wisdom. You are silencing the voices of the past and you are damaging the future.

We have an obligation to read aloud to our children. To read them things they enjoy. To read to them stories we are already tired of. To do the voices, to make it interesting, and not to stop reading to them just because they learn to read to themselves. Use reading aloud time as bonding time, as time when no phones are being checked, when the distractions of the world are put aside.

We have an obligation to use the language. To push ourselves: to find out what words mean and how to deploy them, to communicate clearly, to say what we mean. We must not to attempt to freeze language, or to pretend it is a dead thing that must be revered, but we should use it as a living thing, that flows, that borrows words, that allows meanings and pronunciations to change with time.

We writers – and especially writers for children, but all writers – have an obligation to our readers: it’s the obligation to write true things, especially important when we are creating tales of people who do not exist in places that never were – to understand that truth is not in what happens but what it tells us about who we are. Fiction is the lie that tells the truth, after all. We have an obligation not to bore our readers, but to make them need to turn the pages. One of the best cures for a reluctant reader, after all, is a tale they cannot stop themselves from reading. And while we must tell our readers true things and give them weapons and give them armour and pass on whatever wisdom we have gleaned from our short stay on this green world, we have an obligation not to preach, not to lecture, not to force predigested morals and messages down our readers’ throats like adult birds feeding their babies pre-masticated maggots; and we have an obligation never, ever, under any circumstances, to write anything for children to read that we would not want to read ourselves.

We have an obligation to understand and to acknowledge that as writers for children we are doing important work, because if we mess it up and write dull books that turn children away from reading and from books, we’ve lessened our own future and diminished theirs.

We all – adults and children, writers and readers – have an obligation to daydream. We have an obligation to imagine. It is easy to pretend that nobody can change anything, that we are in a world in which society is huge and the individual is less than nothing: an atom in a wall, a grain of rice in a rice field. But the truth is, individuals change their world over and over, individuals make the future, and they do it by imagining that things can be different.

Look around you: I mean it. Pause, for a moment and look around the room that you are in. I’m going to point out something so obvious that it tends to be forgotten. It’s this: that everything you can see, including the walls, was, at some point, imagined. Someone decided it was easier to sit on a chair than on the ground and imagined the chair. Someone had to imagine a way that I could talk to you in London right now without us all getting rained on.This room and the things in it, and all the other things in this building, this city exist because, over and over and over, people imagined things. They daydreamed, they pondered, they made things that didn’t quite work, they described things that didn’t yet exist to people who laughed at them.

And then, in time, they succeeded. Political movements, personal movements, all began with people imagining another way of existing.

We have an obligation to make things beautiful. Don’t leave the world uglier than we found it, not to empty the oceans, not to leave our problems for the next generation. We have an obligation to clean up after ourselves, and not leave our children with a world we’ve shortsightedly messed up, shortchanged, and crippled.

We have an obligation to tell our politicians what we want, to vote against politicians of whatever party who do not understand the value of reading in creating worthwhile citizens, who do not want to act to preserve and protect knowledge and encourage literacy. This is not a matter of party politics. This is a matter of common humanity.

Albert Einstein was asked once how we could make our children intelligent. His reply was both simple and wise. “If you want your children to be intelligent,” he said, “read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales.”

He understood the value of reading, and of imagining. I hope we can give our children a world in which they will read, and be read to, and imagine, and understand.

A foto que ilustra esse post é do Flickr da Reading Agency.

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4 Resultados

  1. Mais grande momento de lucidez. Obrigado por compartilhar, Matias!

  2. Carlos Messina disse:

    Lindo texto, quero lembrar dele quando ter meus filhos

  3. Mônica Zierer disse:

    Excelente palestra do Neil Gaiman!
    Obrigada por compartilhar.

  1. 11/02/2014

    […] . Neil Gaiman lecture in full: Reading and obligation – o texto que o Ponta (quase) leu . Neil Gaiman e o poder da leitura ————————— . Jogador consola o adversário […]