Mutantes, 1972

Imagina o que era um show dos Mutantes em 1972? Peguei desse blog o seguinte relato:

O verão de 1972 em Salvador foi um dos mais efervescentes que se tem noticia. Em plena ditadura militar as coisas aconteciam num universo paralelo e a malucada sabia onde encontrar diversão e alternativas para o ambiente cinzento do Brasil da era Garrastazu Médici.

Andando pelas ruas do centro da cidade, cartazes colados nas paredes anunciavam um show dos Mutantes para o dia 28 de fevereiro daquele ano na Concha Acústica do Teatro Castro Alves e eles chamavam a atenção não apenas pelo colorido das letras, mas pela atração anunciada e pelo aviso que dizia: “1000 watts de puro som”. O burburinho daquela apresentação correu rápido naquele final do verão do underground.

Nesta altura dos acontecimentos, Rita Lee já tinha caído fora do grupo depois da gravação do LP Mutantes & Seus Cometas no País dos Baurets e de se separar de Arnaldo Baptista. Sem ela, o grupo mantinha a sua formação clássica com o próprio Arnaldo nos teclados e no vocal, seu irmão Sérgio Dias na guitarra e vocais, Liminha no baixo e Dinho na bateria..

O show estava marcado para as 21 horas e as arquibancadas da Concha já estavam completamente lotadas com mais de uma hora para o seu início. As encostas da Concha ali pelos fundos das Sacramentinas estavam repletas de invasores que pularam o muro do colégio e para lá se dirigiram.

Uma incrível ansiedade pairava no ar. As luzes da platéia se apagam, as luzes do palco se acendem e quando os Mutantes surgem o público vibra e fica de pé. Arnaldo com uma camisa de listras horizontais pretas e brancas se dirige ao teclado e fala ao microfone um sonoro “boa noite”. Dinho inicia uma marcação inacreditável, os vocais puxam “uláriii…uláriiii”… e a banda vai atrás. “Top top”. Pronto, o rock´n´roll baixou de com força na terra da magia e ninguém mais ficou parado. Os hits se alternavam e aqueles anunciados 1000 watts de puro som se confirmavam a cada segundo. Tudo perfeitamente equalizado – instrumental e vozes, e o carisma da banda impressionava todos os presentes.

O repertório selecionado a dedo não deixava a peteca cair. “Balada do Louco”, “Minha Menina”, “2001”, “Dunne Buggy”, “Não Vá Se Perder Por Aí”, “It’s Very Nice Pra Chuchu”, “Batmacumba”, “Panis et Circenses”, “Beijo Exagerado” e chegava ao ponto de ebulição com “Ando Meio Desligado”, “Posso Perder Minha Mulher Minha Mãe Desde Que Eu Tenha o Rock and Roll” sendo que esta era emendada com um medley de rockões antigos: “Blue Suede Shoes”, “Jailhouse Rock”, “Rua Augusta”, “Banho de lua”, “Johnny B. Goode”. Durante o show eles também inseriam covers: coisas dos Beatles, Stones, “You’re So Vain” de Carly Simon, “Listen To The Music” do Doobie Brothers, “Angel” de Hendrix. A banda não escondia a emoção pela calorosa recepção que recebia e alguns mais afoitos e doidões não hesitavam em pular de cabeça naquela rasa piscininha da Concha que separava o público do palco.

Dava para perceber que os caras da banda estavam completamente chapados e Arnaldo era o que dava mais bandeira. E já perto do final da apresentação quando eles tocavam “Meu Refrigerador Não Funciona”, ele começou a balançar violentamente a torre de teclados, moogs, mellotrons que se equilibravam numa base de um órgão Hammond. Os roadies corriam para segurar e Arnaldo, então, parecia se acalmar.

O show já tinha passado das três (!) horas de duração quando os Mutantes, depois de vários bis e voltas sucessivas ao palco, anunciaram a última música. O publico dançava e a banda dava tudo de si. E aí o Arnaldo num solo alucinado novamente começa a balançar a torre de teclados e desta vez nem deu tempo dos roadies se aproximarem. Tudo se espatifou no chão e o ruído provocado por isto se encaixava no som.

Arnaldo apanha uma vassoura largada ali por algum servente, a levanta e dá “voltas olímpicas” em torno do palco. Corre em direção ao equipamento que ele tinha derrubado e pisa e pula sem parar sobre eles. Os Mutantes continuavam mandando ver, os roadies também dançavam no palco, a platéia urrava de emoção. O show acaba. As luzes se apagam.

Poucos meses depois, a notícia: Arnaldo deixava os Mutantes por problemas de “saúde”. E, ali sim, a banda perdia sua força musical principal. Talvez seja precipitado afirmar isso, mas, certamente, aquela apresentação dos Mutantes em 28 de fevereiro de 1972, em plena Concha Acústica do Teatro Castro Alves tenha sido a mais memorável da carreira deles. Para mim, pelo menos, foi o melhor show que vi em minha vida. Uma espécie de iniciação ao que significa presenciar um verdadeiro concerto de rock´n´roll. E olhe que eu já assisti muito show bacana.

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14 Resultados

  1. Bruno disse:

    Meu pai foi em um nessa época, em BH, e o amigo dele sumiu por uma semana, doidão de ácido, literalmente viajando até o Rio.

    Abs,

  2. Bruno disse:

    Na verdade, um pouco antes, pois a Rita Lee ainda estava na banda.

  3. Strato disse:

    Sensacional isso!
    Só achei estranho não haver sequer menção ao “O A e o Z” no texto.
    Mas de repente é pq o disco devia ser uma parada nas internas e tal.
    Por essas e outras, não acho nada fora de propósito ter lido declarações do Arnowdo sobre o punk em sua música lá naquele período do final dos 70.
    Rock’n roll!
    abs

  4. rafa disse:

    3 horas de show!? Hoje empilham tantas bandas por noite em festival que raras delas tem repertório pra mais de uma hora. Ok que eles já deviam ter temas que rendiam 15 minutos quase cada. Mas enfim, túnel do tempo não existe nem como expressão mais!

  5. daniel disse:

    Minha nossa…
    Esse cirquinho que o Sérgio Dias andou promovendo nos últimos anos, com o nome de Mutantes, não deve chegar nem na unha do dedo mindinho do pé desse show de ’72!

    Off-topic: o layout com os comentários no canto superior direito era mais bacana… Não precisava dar scroll no texto todo de novo para ler os comentários e era um lance original, já que nenhum blog usava esse tipo de layout. O resto das novidades de diagramação ficou top.

  6. penas disse:

    Arrepiei com o achado, eu tava lá, foi assim mesmo, deflagrou uma geração bahiana, e teve mais que isso, uma casa na ilha, debates sobre a individualidade versus o coletivo gerado pelo acido (uma pessoa só), a volta deste show num barco de madrugada, linda lua e a vela cheia, nada de motor e acaba o vento e ficamos lá no meio do mar liso que nem espelho algumas horas com a ressaca da adrenalina.

    Todos os shows desta fase foram assim, abessolutos, incluindo um aqui em Sampa no Parque da Aclimação, com muita chuva.

  7. Putz, Pena, arruma isso pra nóis! Nao tem o audio disso, nao?

    E, Daniel, acredite se quiser: tinha gente q entrava no post e nao achava onde comentar… Por isso, de volta ao basico 😛

  8. Julio disse:

    também venho aqui declarar o meu apoio à volta da barra de comentários lateral, era muuuiito mais cool, hehe!

  9. penas disse:

    Não se gravava nada, quase nunca, e foto, só posando, muito pouco registro. Espero sobreviver com as cilibrinas vibrando até alguem conseguir fazer download de cérebro, tipo chingue lingue, baratinho.

    Mas juro que fico feliz de ouvir que o som estava perfeitamente equalizado…Meus 22 anos no capricho.

  10. Pablo disse:

    E tem gente na pilha pra ir no show do… Radiohead.

  11. Passamani disse:

    Putaquiupariu!! Obregado viu?!

  12. Rodrigo Edwards disse:

    Putz, me emoçionei lendo este post, que incrível deve ter sido esse show, gosto muito dos mutantes e para mim umas das melhores bandas de rock do mundo, sem exageros…

  13. Pazcheco disse:

    tudo isto aconteceu em 1973! E não em 1972… nome fo filme

  14. sidnei disse:

    Ei, eu estava nesse show ai dos Mutantes no Parque da Aclimação, debaixo de muita chuva, e sen tado na grama em frente a concha acustica, ao lado da Rita Lee e da Lucia Turbun, pré Cilibrinas, curtindo a banda tocando.
    Foi sim um dos melhores shows (chamavamos de festivais de rock, na época), pois alem dos Mutantes, teve tb Tim Maia , de cabelão black e bandaça suporte, o grupo Phenix e não me lembro quem mais, rsrs 🙂