Mais USP x PM


Foto: UOL

Mais gente falando sobre o caso da semana, em diferentes textos. Começo com o Matheus Pichonelli, da Carta Capital:

Ao que tudo indica, a ocupação da reitoria da USP foi de fato patrocinada por um grupo de aloprados, que atropelou o rito das assembleias realizadas até então e, num ato de desespero (calculado?), fez rolar morro abaixo uma pedra que, aos trancos, deveria ser endereçada para pontos mais altos da discussão.

Uma vez que essa pedra rolou, como se viu, tudo desandou. Absolutamente tudo, o que se nota pela declaração do ministro-candidato-a-prefeito (algo como: bater em viciado pode, em estudante, não) e do governador (vamos dar aula de democracia para esses safadinhos), passando pela atitude da própria polícia (tão aplaudida como o caveirão do Bope que arrebenta favelas), de cinegrafistas (ávidos por flagrar os “marginais” de camiseta GAP) e de muitos, mas muitos mesmo, cidadãos que só esperavam o ataque aéreo dos japoneses em Pearl Harbor para, em nome da legalidade, arremessar suas bombas atômicas sobre Hiroshima.

O episódio, em si isolado, é sintomático em vários aspectos. Primeiro porque mostra que, como outros temas-tabus (questão agrária, aborto…), a discussão sobre a rebeldia estudantil é hoje um convite para o enterro do bom senso. O episódio foi, em todos os seus atos, uma demonstração do que o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle chama de pensamento binário do debate nacional – segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”. Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”.

Vale analisar a tal dicotomia exposta por Safatle:

De fato, o Brasil tem de conviver atualmente com debates onde o mundo parece se dividir em dois. Não há nuances, inversões ou possibilidades de autocrítica.

Jean-Paul Sartre costumava dizer que o verdadeiro pensamento pensa contra si mesmo.

Este é, por sinal, um bom ponto de partida para se orientar em discussões: nunca levar a sério alguém incapaz de pensar contra si mesmo, incapaz de problematizar suas próprias certezas devido à redução dos argumentos opostos a reles caricatura.

Afinal, se estamos no reino do pensamento binário, então só posso estar absolutamente certo e o outro, ridiculamente errado. Daí porque a única coisa a fazer é apresentar o outro sob os traços do sarcasmo e da redução irônica. Mostrar que, por trás de seus pretensos argumentos, há apenas desvio moral e sede de poder.

Isso quando a desqualificação não passa pela simples tentativa de infantilizá-lo. Alguns chamam isso de “debate”. Eu não chegaria a tanto.

Infelizmente, tal pensamento binário tem cadeira cativa nas discussões políticas.

Se você critica as brutais desigualdades das sociedades capitalistas, insiste no esvaziamento da vida democrática sob os mantos da democracia parlamentar, então está sorrateiramente à procura de reconstruir a União Soviética ou de exportar o modelo da Coreia do Norte para o mundo.

Se você critica os descaminhos da Revolução Cubana ou a incapacidade da esquerda em aumentar a densidade da participação popular nas decisões governamentais, criando, em seu lugar, uma nova burocracia de extração sindical, então você ingenuamente alimenta o flanco da direita.

Esse binarismo só pode se sustentar por meio da crença de que nenhum acontecimento ocorrerá. Tudo o que virá no futuro é a simples repetição do passado. Não há contingência que possa me ensinar algo. Só há acontecimento quando este reforça minhas certezas.

Forastieiri olha por sobre os grupos envolvidos e procura os chefes:

O reitor da USP, João Grandino Rodas, iria ser diferente de seus patrões? As denúncias contra ele se acumulam, e vão da mera extinção de cursos e compra duvidosa de imóveis a atitudes francamente brucutus, como chamar a Tropa de Choque para resolver outra ocupação (em 2006) e realizar demissão em massa de 270 funcionários em janeiro de 2011.

Chamado pela Assembleia Legislativa para se explicar, simplesmente não apareceu. Chegou a ser declarado Persona Non Grata pela congregação da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, com apoio do Centro Acadêmico 11 de Agosto.
Este último foi só mais um enfrentamento. Outros necessariamente acontecerão. E não só entre os estudantes e as autoridades da USP. Porque o problema não é a USP, ou seus estudantes, ou a PM. O problema não é nem o reitor.
O problema é quem indica o reitor, a quem interessa a militarização do governo, e principalmente quem comanda os comandantes. Da próxima vez, sugiro à rapaziada começar a ocupação pelo Palácio dos Bandeirantes.

O Pablo Ortellado segue ampliando a discussão sobre a situação da USP:

Mas o elemento importante, ausente no debate, é a ameaça de uso da força policial para reprimir o movimento estudantil e o movimento sindical. Permitam-me uma breve digressão para argumentar como as duas coisas se juntam.

Maquiavel, teórico da política, defendia numa obra famosa (Os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio) que a causa da intensa e fratricida violência política da cidade de Florença era a não institucionalização dos seus conflitos. Em Florença, dizia Maquiavel, cada partido (os guelfos e os gibelinos, os negros e os brancos, os nobres e o povo) consolidavam a vitória com a expulsão do partido adversário da vida política da cidade – de maneira que só restava ao grupo derrotado atuar de fora do jogo político estabelecido, preparando um golpe de estado. O resultado era uma vida política violenta e sanguinária, sem estabilidade política e sem paz interna.

Guardadas as grandes diferenças de contexto histórico, essa é uma excelente explicação para a conturbada vida política da Universidade de São Paulo. Ao contrário das outras grandes universidades públicas, como a Unicamp ou as federais do Rio, Minas e Rio Grande do Sul, a gestão da USP é incrivelmente não democrática, o que, com os anos, empurrou todos os setores não alinhados com o grupo no poder para ação extra-institucional – simplesmente por falta de opção. As eleições para reitor na USP são definidas por um colegiado de apenas 100 pessoas – dessas, há 1 representante dos professores doutores (que compõem a maioria dos docentes), 14 representantes dos estudantes e apenas 3 dos funcionários. Os demais são representantes dos órgãos de direção que, com poucas exceções, se autoperpetuam no poder. Todas as comissões estatutárias são compostas pelas mesmas pessoas que se alternam nas diferentes funções há décadas. É um jogo marcado, viciado e sem qualquer espaço para que a comunidade de 80 mil alunos, 15 mil funcionários e 5 mil professores consiga se manifestar ou influir efetivamente nas decisões. Essa forma institucional excludente e arcaica empurrou as forças políticas para atuar por meio de greves, piquetes e ocupações de prédios, já que simplesmente não têm outra maneira efetiva de atuar.

Para complicar ainda mais a situação, nem mesmo esses injustos procedimentos de eleição de reitor foram honrados, já que na última eleição o governador escolheu o segundo colocado na lista tríplice. E esse segundo colocado, o reitor João Grandino Rodas, tem tido uma gestão fortemente confrontativa, impondo decisões injustas e ameaçando a dissidência com o uso de força policial. Quando ainda era apenas diretor da Faculdade de Direito, o atual reitor usou a força policial para expulsar o MST do prédio da faculdade e, noutra ocasião, fechou o prédio e suspendeu as aulas para impedir que uma passeata de estudantes entrasse no edifício. Ele também foi o principal articulador da entrada da polícia no campus para desocupar a reitoria, o que resultou numa abusiva ação policial que feriu professores e estudantes. Pois é exatamente este reitor que está agora autorizando a atuação ilimitada da polícia no campus o que, dado o seu histórico, não pode deixar de ser visto como uma ameaça do uso deste contingente para reprimir as únicas formas efetivas de atuação política do movimento estudantil e dos sindicatos.

Leonardo Borges Calderoni e Pedro Ferraracio Charbel aprofundam-se nesse tema:

Reconhecer os problemas da gestão Rodas é, sem dúvida, um passo importante. É fundamental, todavia, entendermos que o reitor que está sob investigação do Ministério Público encontrou na estrutura da própria universidade as possibilidades para assim atuar. Mais do que uma “persona non grata”, há na USP toda uma “estrutura non grata”. E no caso da Cidade Universitária, além da estrutura decisória, também a estrutura física precisa ser rearquitetada.

Quando o diálogo não for mais uma promessa vazia e a democracia uma propaganda enganosa, aí sim a USP poderá deixar seus dias de ilha e autonomia seletiva para trás. A USP não deve mais ser um enorme terreno desértico, hostil e sem iluminação; assim como deve se afirmar enquanto universidade pública à serviço da comunidade. A universidade deve ser permeável à sociedade em sua totalidade, não só no que diz respeito à polícia – cuja atuação e estrutura devem ser questionadas dentro e fora do campus. Só assim, a Cidade Universitária será um lugar muito mais seguro e, principalmente, muito mais útil à cidade que a abriga e aos cidadãos que a sustentam.

Fernando Henrique Cardoso, canabista e acadêmico, saiu pela tangente (embora condene a repressão):

Depende, porque a lei especifica quantidades diferentes… Mas eu acho que tem que ter um certo recato. O fato de você estar ali abertamente é uma provocação, não vejo razão para isso.

E tanto o Dafne, o Antonio Prata e o Marcelo Rubens Paiva lembram-se dos seus tempos de universidade para voltar ao tema principal. O melhor é que tudo isso está sendo posto em discussão – e os reaças de plantão seguem latindo sozinhos, sem participar desse diálogo.

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Sem Resultados

  1. Lucas Rodrigues disse:

    Matias, ótima compilação!

    Acho que o texto propõe um bom debate, e chama a atenção para as verdadeiras questões dos protestos, que passam longe da defesa do consumo de drogas na Universidade.

  2. Rafael disse:

    Cara, tu fala sobre maniqueísmo no teu texto e depois encerra ele com:

    “O melhor é que tudo isso está sendo posto em discussão – e os reaças de plantão seguem latindo sozinhos, sem participar desse diálogo.”

    Tu vai me desculpar pela expressão chula, mas vai te tratar. Assim como nem todo estudante da USP é maconheiro, nem todo mundo que NÃO concorda com essa manifestação é reacionário. Que tal fazer o que tu mesmo disseste e passar a argumentar de verdade e nao apenas considerar como ridiculas as opinioes contrarias?

    Não sou de SP e não sei a respeito da veracidade das reclamações estudantis e das acusações ao reitor. Contudo, por mais verídicas que sejam (e o fato de serem reais ou não são irrelevantes para a minha argumentação), qualquer motivo alegado NÃO justifica o circo que esses estudantes armaram.

    Tem gente séria no meio, é claro, mas ja tem algum tempo que o movimento estudantil descambou pra um lado tão cego em relação aos argumentos contrários quanto os referidos “reacionários”: atualmente em todo o país, o movimento estudantil tem cada vez mais orientações partidárias que definitivamente NÃO visam o bem universitário, servindo também como trampolim político para aqueles que do movimento sabem se aproveitar. O problema é que falta auto-critica aos estudantes para conseguirem extipar esse mal que só se alastra nesse meio e resulta nesse tipo de manifestação visto na USP. No momento em que esses baderneiros deixarem de comandar ações estudantis e as manifestações assumirem tons sóbrios e legítimos, aí sim o Movimento, agora com “M” maiúsculo, poderá fazer valer seus direitos.

    • Perae, Rafael, eu n tou dizendo q qm eh contra o q ta rolando na USP eh necessariamente reacionario, essa carapuca ce ta vestindo sozinho, e nao acho mesmo q seja o caso.

      Concordo com boa parte do q tu disse em relacao ao movimento estudantil partidarizado e acho-o tao reacionario qto os q tao aplaudindo uma acao policial maior do q a armada em qq classico de futebol na cidade. Vc tb deve concordar q houve um exagero na repressao e acho q a discussao deixa de ser “estudante quer fumar maconha e nao ser preso” (uma discussao ridicula, uma coisa eh protestar contra a lei, outra coisa eh ir contra ela) pra falar sobre a questao da forca repressora do estado em relacao a algum tipo de protesto.

      Mas ha os tais reacas de plantao (de esquerda ou de direita, gente q ainda trabalha numa logica velha de politica, vide o txt do Safatle) dispostos a latir alto para impor sua versao dos fatos. Perceba q estes sao os unicos atingidos na minha discussao. Nao sao as pessoas q sao contrarias ao q estou defendendo, mas os q transformam essa opiniao em causa ferrenha, a ser defendida a qq custo.

      Mais uma vez, nao acho q vc pertenca a esse grupo, pois soh me atacou de forma chula uma unica vez (e “vai se tratar” eh ate light), ao contrario da pregacao xiita desses arautos do apocalipse – seja o da esquerda ou da direita. Se o mundo ta indo pro buraco (e eu acho q nao ta), esses caras sao os q lideram a excursao. Eu prefiro deixa-los falando sozinhos.

      Certo? Sem crise, conversar eh o jogo.

      • Rafael disse:

        Certo, estava de acordo com o teu texto até chegar a ultima frase, imediatamente imaginei este como sendo um dos tantos textos que andei lendo e que possuem uma apelação a emoção! Fico feliz que tenha esclarecido o assunto e lamento ter me excedido.

        Quanto a questão repressora, existem 3 aspectos que considero digno de nota:
        1. Acho sinceramente dificil de qualificar a ação policial e do estado nesse caso específico, especialmente porque acho justa a desocupação da reitoria; como ja disse antes, discordo completamente deste tipo de atitude, por mais nobre que seja a justificativa – creio que perturbar a ordem publica e o funcionamento de um órgão diretor da universidade por tanto tempo tira a razão de qualquer protesto, só devendo ser feito em último caso. Te dou um exemplo com um movimento iniciado na minha faculdade aqui em porto alegre faz pouco tempo, tem uma descrição sucinta do que rolou aqui nesse site: http://portal.fenam2.org.br/portal/showData/396138

        2. Acho que a imprensa foi especialmente cruel com os alunos, principalmente a matéria publicada pela Veja. A cobertura em outros meios de comunicação também deixou a desejar. A manifestação, apesar de inadequada, faz parte de um contexto muito maior que foi ocultado do grande público, o que realmente abre espaço para que muita gente julgue erroneamente todo universitário da USP como maconheiro.

        3. Acho de grande relevancia saber se realmente houve algum tipo de violência física por parte da PM nessa ocupação, mas infelizmente existem relatos controversos de ambas as partes, creio que apenas um relatório do IML poderia responder esta questão.

        Um abraço

  3. Lucius disse:

    Quando o assunto passa a ser USPxPM ou EstudantesxPM ou alguma coisax PM tira do debate os reais problemas que possam haver ali na USP, não? A PM só foi lá porque foi chamada, certo? Quem mandou desocupar a reitoria foi o Judiciário. Como se desocupa um prédio sem força policial se os caras se recusam a sair? Invadiram, chamaram a mídia, o recado estava dado (não que eu concorde com esse tipo de ação) mas ficar lá até a polícia chegar pra mim já é burrice ou queriam criar justamente um confronto com a PM, quem sabe? Até porque as chances de um “excesso” é sempre grande, pois sempre um mané vai ficar provocando um policial e o cara que é policial ganha um salário de m* e tem um péssimo preparo para exercer a profissão e está ali com uma tensão danada sem saber o que vem na cara dele. A PM também é vítima da sociedade desigual, mas é mostrada apenas como “mecanismo repressor do Estado”, como se ali também não tivesse pais de família, estudantes etc.
    E não faz diferença que seja no Brasil, EUA ou Coréia do Sul, a PM vai usar de força pra afastar as pessoas. Você mesmo postou um vídeo em Los Angeles mostrando isso. Mais uma vez afirmo, não que eu concorde com isso, mas é o esperado.
    Enquanto UNE e DCE forem braço de partido político não vai funcionar. Não há pluralidade ali, não há debate. Os caras agem como se estivessem em 64.
    Acredito que precisamos melhorar a PM, mas também precisamos mudar a visão que temos dela. Levar a PM pra USP não seria uma forma de aproximar a sociedade dela? Uma forma de abrir um canal de diálogo entre a sociedade e ela? Um policial freqüentando, nem que seja a trabalho, o ambiente de uma universidade não seria uma boa?
    Porque ficar com esse discurso de segregação entre sociedade e PM só piora as coisas. Se é preciso “humanizar” a PM também não é preciso olhar pra ela de forma mais centrada, sem maniqueísmo?
    Abraço,

  4. Valeu Matias por essa reunião de texto sobre os acontecimentos da USP. Sabia que se tinha algum lugar que em algum momento ia trazer alguma visão palpável e relevante e menos tendenciosa seria o trabalho sujo!

    Abraço e mais uma vez obrigado…

  5. Dwarf disse:

    Menos tendenciosa?