Luís Fernando Veríssimo via Antonio Abujamra

abujamra

Tudo a ver com o que estamos vivendo.

Dica do Marcelo, valeu! A íntegra da crônica segue abaixo, ele linkou do Recanto das Letras.

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

– Violência, não!

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1 Resultado

  1. Bruno Maia disse:

    Guardam impressionante atualidade
    as palavras que RUY BARBOSA,
    proferiu, em 12 de abril de 1919, no Teatro Politeama, em Salvador, durante campanha presidencial por ele disputada, em conferência cuja realização só se tornou possível em virtude de “habeas corpus” que o Supremo Tribunal Federal lhe concedera, tanto em seu beneficio como de seus correligionários, assegurando-lhes o pleno exercício da liberdade de reunião e do direito à livre manifestação do pensamento, indevidamente cerceados por autoridades estaduais que
    buscavam impedir que o grande político e advogado
    brasileiro divulgasse a sua mensagem e transmitisse as suas idéias
    ao povo daquele Estado, com o objetivo de conquistar seguidores e de
    conseguir adesões em prol de sua causa, valendo reproduzir, no
    ponto, a seguinte passagem daquele pronunciamento:
    “Aqui venho dar com o direito constitucional de reunião suspenso. Por quem? Por uma autoridade policial. Com que direito? Com o
    direito da fôrça. Sob que pretexto? Sob o pretexto de que a oposição está em revolta, isto é, de que, contra o govêrno, o elemento armado e o Tesouro juntos estão em rebeldia os inermes, as massas desorganizadas e as classes conservadoras.
    Banido venho encontrar, pois, o direito de reunião,
    ditatorialmente banido. Mas, ao mesmo tempo, venho
    encontrar ameaçada, também soberanamente, de proscrição
    a palavra, o órgão do pensamento, o instrumento de
    comunicação do indivíduo com o povo, do cidadão com a
    pátria, do candidato com o eleitorado. Ameaçada, como?
    Com a resolução, de que estamos intimados pelo
    situacionismo da terra, com a resolução, que, em tom de
    guerra aberta, nos comunicaram os nossos adversários,
    de intervir em tôdas as nossas reuniões de propaganda
    eleitoral, opondo-se à nossa linguagem (…).
    ……………………………………………
    Mas, senhores, os comícios populares, os
    ‘meetings’, as assembléias livres dos cidadãos, nas
    praças, nos teatros, nos grandes recintos, não são
    invento brasileiro, muito menos desta época (…). São
    usos tradicionais das nações anglo-saxônicas, e das
    outras nações livres. Tiveram, modernamente, a sua
    origem nas Ilhas Britânicas, e nos Estados Unidos.
    Dessa procedência é que os recebemos. Recebemo-los tais
    quais eram. Com êles cursamos a nossa prática do
    direito de reunião. Com êles, debaixo do regímen
    passado, associamos a colaboração pública à reforma
    eleitoral, apostolamos e conseguimos a extinção do
    cativeiro. Com eles, neste regímen, não pouco temos
    alcançado para cultura cívica do povo. (…).
    ……………………………………………
    (…) O direito de reunião não se pronuncia senão
    congregando acêrca de cada opinião o público dos seus
    adeptos.
    A liberdade da palavra não se patenteia, senão
    juntando em tôrno de cada tribuna os que bebem as suas
    convicções na mesma fonte, associam os seus serviços no
    mesmo campo, ou alistam a sua dedicação na mesma
    bandeira. A igualdade no direito está, para as facções,
    para as idéias, para os indivíduos, no arbítrio,
    deixado a todos sem restrição, de congregar cada qual
    os seus correligionários, de juntar cada qual os seus
    comícios, de levantar cada qual o seu apêlo, no lugar
    da sua conveniência, na ocasião da sua escolha, nas
    condições do seu agrado, mas separadamente, mas
    distintamente, mas desafrontadamente, cada um, a seu
    talante, na cidade, na rua, no recinto, que eleger, sem
    se encontrarem, sem se tocarem; porque o contacto, o
    encontro, a mistura, acabariam, necessàriamente, em
    atrito, em invasão, em caos.”