Laerte, Giron e o bullying à portuguesa

Esse cartum do Laerte harmoniza bem com esse texto do Giron:

Hoje em dia, a turma que entende das coisas adora falar que os estudantes “sofrem bullying”. Ô, palavrinha mais antipática… O tal do “bullying” está na boca do Brasil inteiro, e com pronúncia errada (as pessoas gostam de dizer “bãling”, o que as torna ainda mais ridículas). A palavra “bully” tem uma origem chã: provém de “bull”, touro, do inglês do século XVII e significava originalmente “fanfarrão”, “mata-mouros”. Só mais modernamente passou a designar perseguição e agressão, em português. O correto seria dizer: “Os estudantes sofrem perseguição nas escolas”. Não ouso afirmar que a língua portuguesa está sendo agredida. Para convencer meu interlocutor, tenho de “refrasear” (em vez de “refazer”) a afirmação para: “O português está sofrendo bullying”. Aí todos entendem, batem palmas e pedem bis – ou, como se diz em inglês, “encore”. Isso porque agora o correto já virou incerto. Eu não posso falar que temos um prazo final no fechamento desta edição. Para parecer mais sofisticado, tenho de alertar que não há prazo final, e sim um “deadline”. Sinto-me mais bacana por dizer “deadline” e “approach”, entre outras baboseiras do atual jargão do jornalismo.

Tenho a impressão de que todo mundo, inclusive eu, esqueceu-se das palavras precisas para designar determinadas situações e objetos. O bombardeio dos termos em inglês provoca amnésia linguística e tornou legítimos barbarismos como “provocativo” em vez de “provocador” e “basicamente” em vez de “fundamentalmente”. Ainda mais risível é quando usam “eventualmente” no sentido de “finalmente” – “eventually” em inglês. Realizou?

Nesse campo da prática de abusos, os críticos de música e cinema são tradicionalmente os piores: eles enxameiam seus textos de termos em inglês e expressões esdrúxulas. Só que agora andam a abusar do direito que se autoatribuíram (daqui a pouco vão dizer “se self atributiram” ou qualquer coisa do tipo). Ninguém mais estraga prazeres ao contar o desfecho de um filme; agora o que vale é o popular “spoiler alert”. Quando você vai contar a trama de um filme, terá de dizer assim: “Cuidado que tem spoiler!” Quando um crítico me diz isso me dá vontade de pular, pois a palavra soa como uma espécie de escaravelho ou baratagigante.

No dia a dia, o pessoal vive se metendo em “brainstorming”, vocábulo inglês que pode ser facilmente traduzido para confabulação. Que tal confabular em vez de “fazer um brainstorm”? Acho uma troca vantajosa, até porque é menos barulhenta, “brainstorm” evoca tempestades com raios e trovões. Nada melhor que confabular, trocar ideias e histórias. Além de tudo, soa melhor.

O português surgiu por volta do século XII (embora haja documentos de duzendos anos antes) a partir da evolução do latim vulgar na Península Ibérica, com contaminações de termos celtas, visigóticos e árabes. No começo, era chamado de “galego-português” porque a fala e a escrita apareceram no norte de Portugal, na fronteira com a Galícia. As poesias palaciana, de amigo e de escárnio e maldizer foram criadas e publicadas antes mesmo da consolidação de idiomas como espanhol, italiano, alemão e… inglês. Língua venerável, o português. Um idioma imperial do século XVI. Por isso, bonita como uma caravela engalanada, clara e solar como as igrejas góticas de Lisboa.

Amo os meios-tons que suas vogais contêm, aparentadas francês. É um grande prazer remexer no léxico riquíssimo do idioma, brincar com a possibilidade que ele oferece de alongar as frases quase ao infinito, pois o português flui como uma plácida corrente de rio. Adoro certas palavras que não constam de línguas irmãs, como a (quase) intraduzível “saudade”, ou aquelas que existem em outras, que ganham um sabor delicado no vernáculo, como “brisa”, “maçã” e “paixão”. Os ecos artísticos são grandes. Eu sei que blueberry consta de um belo filme de Wong Kar-Wai. Trata-se de My blueberry nights, traduzido em português pelo título pedestre Beijo roubado em vez de “Minhas noites de mirtilo”. Blueberry é uma palavra que a gente amassa com dois dedos. Mirtilo, não. O vocábulo está em Camões e Petrarca, que, por sua vez, beberam na fonte de Horácio e Virgílio. Mirtilo evoca pastores do Parnaso e da Serra da Estrela. É antigo e lírico, como o português.

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  1. retrógrado o pensamento do Giron. os idiomas estão em constante mutação, tal qual as pessoas que os falam. deixá-lo parado no tempo com expressões consolidadas por Camões e Machado de Assis é tosqueira, mente fechada, cabeça dura. termos estrangeiros consagrados na fala popular só tendem a aumentar o vocabulário do próprio povão (ou seria o vernáculo?).
    o estrangeirismo ajuda a entender melhor as coisas… no próprio caso do bullying, o Giron fala que na verdade os alunos estão sofrendo perseguição nas escolas. mas que tipo de perseguição? dos professores? dos funcionários? quando fala-se bullying, já se sabe que as agressões são entre pares, de aluno para aluno.

    a palavra “azeite” é um estrangeirismo também, vem do árabe. mas o Giron provavelmente nem sabe disso e sempre põe um azeitinho na comida dele. no final de semana ele vê o futebol (ludopédio?) e tira um xerox no trabalho (ou será que ele usa a fotocopiadora?).
    puta comentário comprido, eu sei, mas pô, reprovar o uso de estrangeirismos é burrice. conservadorismo. e se o caso é de expressões ridículas que não soam bem (“50% off”), os próprios falantes da língua se encarregam de não usá-las.

  2. silvio disse:

    Hum…sei não.
    Se fosse assim, a gente estaria falando tupi-guarani e não portugues.
    Mesmo o inglês sofreu influencia do latim. É inevitável essa mistura de idiomas. A língua portuguesa é rica o suficiente para adotar esses termos e modifica-los. Aconteceu antes, quando ela se misturou com a língua falada pelos índios, pelos negros africanos e pelos estrangeiros. Será assim. Mesmo o inglês está se modificando com o passar dos tempos. Ninguém pode segurar uma língua nem o desejo das pessoas de incorporarem os inglês na língua portuguesa. Esse policialismo todo cheira a ditadura dos “professores Pasquales” da vida.
    Deixa a lingua viver, gente….

  3. Bruno disse:

    A palavra existe e é BULIR, como todo o nordeste sabe.

  4. Bruno disse:

    E depois me enchem o saco porque eu abrasileiro “site” para “saite”. Não adianta dizer “sítio”, porque ninguém usa essa palavra. Como em “sutiã”, “abajur” ou “tênis”, absorve-se o estrangeirismo e abrasileira. O que não pode é “i” ter som de “ai”, prq está gramaticalmente errado.

  5. Bruno disse:

    já dizia Chico Buarque, em Geni e o Zeppelin: Quando vi nesta cidade/Tanto horror e iniquidade/Resolvi tudo explodir.

  6. Rodrigo disse:

    Eu acho elegante falar o português correto. Sempre gostei disso. O problema é que os estrangeirismos estão substituindo significados que já existem na nossa língua. Hoje, quase todo mundo faz questão de trocar palavras da nossa língua por palavras em inglês, sem motivo aparente.

    Mas cada um faz da sua língua o que quiser e o que bem entender… Desde que se consiga transmitir mensagens sem ruídos. :/

  7. É uma forma de ver e pensar sobre a língua. Mas devo dizer que é uma forma muito atrasada de conceber e entender todo o funcionamento e processos pelos quais passa a língua (ou as línguas).

    É mais ou menos aquela galera pretende (e continua pretendendo!): defender a língua portuguesa. Não existe isso. Ingenuidade a nossa achar que nós somos capazes de defender algo muito mais forte do que nós. A língua existe a mais tempo do que a nossa reflexão sobre ela. Se ela não está reclamando e não acha necessária essa “defesa” a ela, então para que nos preocuparmos? Ela não é criança; é mais adulto do que todos nós.

    Abraços.

  8. daniel disse:

    bom, a discussão é válida, mas levemente empertigada (heh). laerte traz o problema e a solução, munido do camões que lhe é recorrente, não sem seu humor peculiar. giron pesa um pouco a mão, mas é inegável que às vezes acontece certo exagero na invasão de estrangeirismos — “e aí, recebeu meu invite pro nosso brainstorm de search com o marketing? dá um accept!”.

    de todo jeito, a língua está sujeita ao trabalho dos falantes. e eles são muitos, plurais e, frequentemente, pecam na dose de bom senso. o mesmo vale pra democracia, espaço público, cordialidade etc. ou seja: mais hora, menos hora, as novidades incorporadas em massa viram realidade, se normatizam e entram para o repertório dos novos puristas que se formarão.

    o que nos resta é torcer pra que algumas iniquícias linguísticas como o gerundismo não cheguem a esse caminho da “glória”.