Isley Brothers

Outro texto ressuscitado.

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“‘Shout’ faz parte do primeiro cânone do rock’n’roll. Influenciamos os Beatles. Tivemos hits na Motown. Jimi Hendrix tocou em nossa banda antes do festival de Monterey. Tivemos hits nas eras do funk e da discoteca. Rappers sampleiam-nos. Você pode ouvir nossa música em estádios, em filmes, em comerciais. Ninguém tem esse tipo de currículo”. Ernie Isley tem razão. Ninguém, na história do rock durou tanto tempo, passou por tantas mudanças e continuou importando em toda sua existência como os Isley Brothers. São quase 60 anos na ativa, ajustando-se à modernidade sempre com estilo e personalidade. Uma carreira finalmente festejada na belíssima caixa de três CDs It’s Your Thing: The Story of the Isley Brothers, lançada no final do ano passado.

A história dos Isley Brothers começa quando o chefe do clã Isley, um sujeito enorme e respeitável de fala mansa mas de objetivos bem definidos, chamado O’Kelly aproxima-se de Sallye Bernice em um encontro familiar, revela-lhe seu desejo de tornar-se seu marido e de dar-lhe uma tropa de filhos que se tornaria uma trupe de artistas. Vindo do emergente showbusiness, O’Kelly percebeu como poucos empresários o potencial da indústria de entretenimento no jovem século 20 e apostou a própria linhagem como estava certo. Precisava apenas encontrar a parceira correta. Naquele dia no meio dos assustadores anos 30 (que começara com uma falência financeira massiva e terminaria com uma guerra mundial), o patriarca Isley pousou o pesado olhar sobre a bela pequena e sabia que seu futuro estava começando. Mudaram-se para Lincoln Heights, um subúrbio de Cincinatti, Ohio.

E as crianças nasceriam. O’Kelly Jr., Rudolph, Ronald e Vernon entrariam no mundo da criação artística como muitos antes deles. Na igreja, foram apresentados não só ao gospel como à importância de se entregar à uma performance. Em casa, seu pai lhes alimentava com diferentes músicas, acostumando-os a todos os estilos para que retirassem o melhor de todos eles. Eram os Isley Brothers e logo estariam em programas de televisão ao lado de artistas como Dinah Washington, Erskine Hawkins e Nat King Cole. Inspirados no grupo Billy Ward and the Dominos, eram um quarteto vocal mirim que começava a fazer sucesso no circuito de doo-wop.

Mas algumas coisas fugiram dos planos do pai Isley. Primeiro foram os nascimentos dos caçulas Ernie e Marvin, uma década e meia após o nascimento da primeira safra. Depois veio a trágica morte de Vernon, atropelado por um caminhão quando andava de bicicleta. Finalmente, o velho O’Kelly previu que não estaria vivo para ver o sucesso dos filhos, para horror da família. Mesmo assim, fez com que seus filhos voltassem à vida artística mesmo após a morte do irmão, que havia suspendido suas apresentações.

Como havia previsto, O’Kelly morreu em 1956, o mesmo ano em que os irmãos decidiram embarcar para Nova York, tentar a sorte na cidade grande. Descobertos na rua por Richard Barrett (que havia descoberto artistas como Frankie Lymon and the Teenagers, Chantels, Crows, Little Anthony, entre outros sucessos da era pré-rock’n’roll), o trio foi contratado por George Goldner, que fez fama sobre os nomes encontrados por Barrett. Mas com os Isleys não seria tão fácil e o grupo gravou cinco singles que não deram em nada. Até que o próprio grupo sugeriu à sua nova gravadora (a RCA) que gravassem um número que fazia sucesso nos shows, chamado Shout. Não era nem uma música, era “uma coisa”, como eles mesmos diziam. Atiçando a multidão a gritar “shout!” (“grite!”), a faixa se limitava a um jogo de pergunta e resposta feito entre artista e platéia, um número conhecido das missas gospel. Os Isleys apenas traduziram-no para o rock e tiveram um hit instantâneo.

Mas um só não era suficiente. Depois de alguns singles sem sucesso, o grupo voltou à estaca zero. Havia mudado-se em definitivo para Nova Jérsei, ao lado de Nova York, mas os discos não estavam vendendo. Até que caíram nas mãos do empresário Bert Berns, que mais tarde seria responsável pela autoria de hits como “Piece of My Heart” (gravada por Janis Joplin e Dusty Springfield) e “I Want Candy”, além de descobrir talentos como o Them e os Drifters. Foi ele quem decidiu dar ao grupo um single que já havia gasto com o grupo Top Notes (numa versão produzida por um novato Phil Spector). Mas adaptá-los ao novo número era justo, afinal fora “Shout” uma das inspirações para “Twist and Shout” (a outra, claro, seria “The Twist”, de Chubby Checker). Com os Isley Brothers, “Twist and Shout” ganhou sua primeira versão notável – mas não sua definitiva. Esta chegaria através de um novo grupo inglês que incorporaria hits dos jovens Isleys em seu repertório. Mas seria a versão dos Beatles para “Twist and Shout” um dos principais carros-chefe para a invasão da Beatlemania. O sucesso puxado pela explosão dos Beatles afetou quase todos os artistas que eles gravavam e logo os Isleys estariam na Inglaterra, excursionando com um jovem pianista que mais tarde passaria a atender por Elton John.

Mas enquanto estavam na Inglaterra, as coisas mudaram. Com a Beatlemania veio a invasão britânica e vários grupos como Rolling Stones, Animals e Yardbirds se debruçariam sobre a música negra americana ganhando o mercado branco e tomando lugar nas paradas de rhythm’n’blues. Como todos os artistas negros no começo dos anos 60 (à exceção louvável de James Brown), os Isley Brothers tiveram que se adaptar ao rock inglês e logo montariam uma banda. Mais do que isso: montariam seus próprios shows e gravariam seus próprios discos. Fundaram a gravadora T-Neck e logo um novo talento em Rudolph e Kelly afloraria. Juntos, os irmãos mais velhos seriam responsáveis por toda a estrutura por trás do conjunto, procurando músicos, conversando com empresários, fechando contratos e shows. Ronald foi liberado para mostrar seu verdadeiro talento vocal, com sua voz macia que se tornaria marca registrada do conjunto.

Foi Rudolph quem descobriu o jovem Jimmy Hendricks e o trouxe ao convívio dos Isleys. Além de talentoso, Jimmy provara ser praticamente um irmão do conjunto. Passou a morar com o grupo e se tornaria o vínculo entre os três mais velhos e os dois mais novos, provocando-os a pegar nos instrumentos dos irmãos quando estes não estavam vendo. Fazia tudo com a guitarra em punho e desde o início provava seu talento no instrumento. Singles como “More Over and Let Me Dance” e “Testify” (este último o primeiro lançamento da T-Neck) mostravam que o jovem guitarrista tinha um futuro e tanto pela frente. Largou o grupo e continuou sua carreira, voltando aos holofotes poucos anos depois, com seu novo grupo, Experience, e mudando a caligrafia de seu nome. Agora se chamava Jimi Hendrix e nem o rock nem a guitarra jamais seriam os mesmos.

Enquanto isso, os Isleys baixavam a guarda à toda poderosa Motown, a principal gravadora negra americana nos anos 60, que vinha há tempos paquerando o grupo. Foram recebidos como astros e tiveram tratamento de primeiro time ao serem entregues às mãos dos mesmos Holland-Dozier-Holland que haviam produzido hits para Marvin Gaye, os Four Tops e as Supremes. Havia se tornado questão de honra para a Motown produzir mais um hit para os Isleys e este foi “This Old Heart of Mine”, uma baladaça no velho estilo da gravadora de Berry Gordy, em que Ronald deitou e rolou. Mas o grupo era a ovelha negra entre os ternos e vestidos claros da Motown, sequer moravam em Detroit e fugiam do padrão industrial que todo artista ali era submetido. O segundo single, “Take Me in Your Arms (Rock Me a Little While)”, mantinha a qualidade mas não teve o mesmo sucesso comercial. Percebendo que seu destino fosse andar com as próprias pernas, nunca com a ajuda dos outros, mais uma vez os irmãos deixaram seu antigo patrão para tentar a sorte com as próprias asas.

Enquanto isso, Ernie e Marvin cresciam ouvindo não apenas a música que os irmãos faziam, como todo o resto. Quando o primeiro disco de Jimi Hendrix viu a luz do dia, ele deu um estalo em ambos caçulas que passariam a dedicar-se a ensaios secretos com Ernie à bateria, Marvin no baixo e o cunhado Chris Jasper ao teclado, que metiam as canelas adolescentes no pegajoso pântano do funk. Procurando opinião da família para uma música que havia acabado de compor, Ronald desceu ao porão e encontrou os três moleques numa tremenda jam session. A atmosfera o inspirou a cantar a nova música sobre a base pesada dos irmãos e o resultado foi a contagiante “It’s Your Thing”, que batizaria o novo disco do grupo, o primeiro álbum pela ressuscitada T-Neck.

A música os colocou como pioneiros do funk, uma novidade que a música negra havia produzido nos anos 60 e que reinaria na década seguinte. O ano era 1969 e as duas principais gravadoras negras daquela década (a Motown e a Stax) mostravam que suas fórmulas estavam desgastadas. Era preciso reinventar-se e os Isley Brothers perceberam isso antes que todo mundo. Depois que os Isleys atravessaram a barreira entre a soul music e o funk, artistas como Isaac Hayes, Marvin Gaye, Temptations, Stevie Wonder, Booker T & the MGs, entre muitos outros atravessaram uma fronteira que poucos (James Brown, Sly Stone, George Clinton) haviam conseguido. O sucesso do agora sexteto (embora oficialmente ainda um trio) foi fundamental para que a música negra percebesse que era possível a transição para um novo gênero sem que o artista se descaracterizasse.

Mas era apenas o começo da era funk dos Isleys. Discos como The Brothers: Isley (com “I Turned You On” e “The Blacker The Berrie”), Brother Brother Brother (com a faixa-título, “Lay Away” e “Work to Do”) e Get Into Something (com a faixa-título, “Keep On Doin’” e “Freedom”) amadureceriam ainda mais o grupo, que aprofundava-se cada vez mais na alma humana, engajando-se numa política humanista que parecia ser uma conclusão de seu trabalho em família. Uma comunhão entre gêneros tão distintos quanto doo-wop, soul e gospel era encontrada por baixo do peso espetacular que a nova cozinha dava pro grupo. O grupo aceitou um desafio pessoal ao embarcar no disco Givin’ It Back, em que dava arranjos cobertos de melanina para hits de artistas brancos, como Neil Young (“Ohio”), Stephen Stills (“Love the One You’re With”), James Taylor (“Fire and Rain”), Carole King (“Nothing to Do But Today”) e Bob Dylan (“Lay Lady Lay”).

A participação dos novatos logo passou a ser importante o suficiente para comprometer o processo de criação e os irmãos mais velhos decidiram oficializar os outros três no grupo. Agora acompanhados pelo firme baterista George Moreland, os novos Isley Brothers agora eram seis elementos e a fusão das gerações foi orgulhosamente anunciada na capa e no título do álbum do grupo de 1973, 3 + 3. A nova formação trazia uma sutil mas importante mudança. Ernie havia deixado as baquetas para assumir a guitarra e o resultado deixou os irmãos mais velhos boquiabertos. Um improviso sobre a velha “Who’s that Lady?” (lançada pelo grupo em 1964) foi o suficiente para o grupo ter certeza de relançá-la, com o novo arranjo dado pela guitarra emborrachada de Ernie.

Os anos 70 continuaram com grandes discos, ajudando a criar a disco music competindo cabeça a cabeça com outros titãs da black music, o Earth Wind & Fire. “Competíamos pela atenção dos executivos de nossa gravadora. Competíamos contra o outro nas paradas. “That’s the Way of the World” contra “Fight the Power”. “I Love Music” contra “For the Love of You”. Era negócio sério”, lembra Ronald no encarte da caixa. Os hits vinham em discos como Live it Up (“Midnight Sky”, “Hello It’s Me” – de Todd Rundgren! – e a faixa-título), The Heat is On (“For the Love of You”, “Make Me Say it Again Girl” e “Fight the Power”), Go For Your Guns (com “Voyage to Atlantis”, “The Pride” e “Footsteps in the Dark”), Showdown (com “Groove With You”), Mission to Please, Harvest for the World e Between the Sheets (os três últimos sucessos com suas faixas-título). Até que o ano de 1985 assistiu o primeiro desfalque no grupo, quando os três caçulas saíram e lançaram o poderoso Caravan of Love como Isley Jasper Isley.

Novamente a morte uniu os irmãos, quando o primogênito Kelly morreu durante o sono em 1986. A morte de Kelly fez com que Rudolph passasse a se dedicar à igreja, deixando de lado o showbusiness. O som dos Isleys iria demorar para voltar a ter o brilho de outrora, mas este era polida por toda a nova geração do rap. Do Public Enemy ao Dr. Dre, os principais nomes do gênero da década de 80 deram ao grupo o respaldo artístico que a crítica dos anos 70 fingia não ver. O sucesso restaurado do grupo fez com que eles entrassem nos anos 90 como um dos primeiros nomes do Rock and Roll Hall of Fame, sendo indicados no mesmo ano que Hendrix, 1992.

Nada mal para uma família que passou por todas as etapas da história do rock quase incólume, tentando se adaptar e criando regras para cada novo gênero que o mercado parecia impor. Andando por conta própria, os Isleys cresceram ao apostar neles mesmos, num exemplo de autodeterminação e força de vontade contada por uma caixa com mais de três horas do melhor da música negra. “Até mesmo hoje, quando estou para cantar uma faixa, eu penso como será que Sam Cooke cantaria. Ou como Ray Charles deveria estar fazendo”, explica Ronald, “Então eu percebo: ei, não preciso esperar por eles. Posso fazer eu mesmo”. A síntese do pensamento de uma linhagem histórica, sangue bom que fez com que o mundo acompanhasse o ritmo que eles quisessem que o mundo dançasse. Afinal de contas, como eles mesmos disseram: “It’s your thing/ Do what you wanna do”.

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