Impressão digital #148: Kubrick, O Iluminado e uma linguagem para além da escrita

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E na minha coluna no Link Estadão dessa semana eu falo sobre o documentário Room 237, sobre O Iluminado de Kubrick, e como o diretor pode ter antecipado uma tendência que, na internet, é plena:

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Kubrick previu uma nova linguagem em ‘O Iluminado’
Filme de 1980 traz múltiplas referências

Stanley Kubrick é dessas poucas unanimidades. Seus filmes estão misturados ao inconsciente coletivo da segunda metade do século 20 e suas cenas de ficção são emblemáticas o suficiente para servir de parâmetro para outras cenas da vida real. Sua obra sempre cutucou parte do tecido comportamental de sua época e foi se tornando esparsa à medida em que sua reputação ia crescendo. Em 46 anos de atividade,o diretor fez apenas 13 filmes – em seus últimos 30 anos de vida realizou apenas quatro.

O Iluminado, de 1980, seu antepenúltimo filme, é festejado como uma das maiores obras-primas do terror no cinema. Os fantasmas de Kubrick eram cenas apavorantes e épicas: duas crianças gêmeas mudas no meio de um corredor, uma onda de sangue saindo de dentro de um elevador, o sinistro quarto 237 e a lenta transformação do personagem de Jack Nicholson – em sua maior atuação – de um correto pai de família a um psicopata enraivecido.

Entre os críticos, há quem reclame da liberdade poética tomada por Kubrick ao adaptar o romance de Stephen King, na época considerado um novo alento à literatura de horror nos Estados Unidos. Mas Kubrick nunca foi considerado fiel às obras originais que se dispôs a adaptar e sempre as usou como plataforma para explorar suas próprias ideias, cenas e concepções. Foi assim com Lolita de Vladimir Nabokov, com Laranja Mecânica de Anthony Burguess, com o conto de Arthur C. Clarke que inspirou 2001 e assim também seria com O Iluminado. Mas um documentário do ano passado une diferentes interpretações para chegar a uma conclusão impressionante sobre o filme de 1980.

Room 237 – ou Quarto 237 -, de Rodney Ascner, mostra que O Iluminado não é apenas um filme de terror. São várias camadas de interpretação que mostram que o filme conta não uma, mas várias histórias: há referências ao holocausto nazista escondidas no roteiro, à chacina do povo indígena norte-americano em diálogos e detalhes da direção de arte, referências à lenda que Kubrick teria forjado o filme da Apollo 11 pousando na Lua, jogos de óptica, a onipresença do número 42, quebra-cabeças, personagens que se superpõem, truques que só podem ser identificados depois que cenas são vistas múltiplas vezes, formas geométricas subliminares, takes que se repetem em referência. Somos apresentados a pontos de vista de críticos, acadêmicos e historiadores. Há evidências que muitas dessas camadas foram deixadas de propósito por Kubrick.

Até que, num dado momento do documentário, alguém cita o dono de um site chamado MSTRMND (“mastermind” sem as vogais) que conta com uma longa dissertação sobre o filme e, em texto, surge um aviso explicando que, mesmo procurado, ele não quis dar entrevista ao documentário. Visitei o site e li não apenas a tese sobre O Iluminado como as diversas reflexões sobre diferentes filmes e um dos pontos principais de suas análises é o fato de que diretores de cinema não lidam apenas com as histórias que cogitam em seus roteiros.

E num dado momento o autor cogita a possibilidade de Kubrick estar antecipando uma nova linguagem que não necessita de palavras – e sim que empilha imagem, som, movimento, referências e, também, texto, que poderia substituir a escrita num futuro próximo.

Lia esse texto no computador quando, num impulso quase inconsciente, acionei o alt+tab e pulei blogs, as timelines do Twitter e do Facebook, alguns tumblrs, páginas de notícias que intercalam texto, áudio e vídeo. E vi que já estamos indo rumo a esta nova linguagem – isso sem contar emoticons, emojis, gifs animados e diferentes tipo de fontes…

Kubrick, mais uma vez, tinha razão.

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