Impressão digital #133: Latino x Não Salvo

Na minha coluna do Link desta segunda-feira, falei sobre a rusga entre Latino e Maurício Cid, o capitão do Não Salvo.

O embate entre Latino e o blog Não Salvo: choque de realidades
Canal de Latino foi retirado do YouTube

Você conhece o Latino. Ele é um dos principais nomes da cena pop pós-funk do Rio e um de seus talentos é saber aparecer. Se isso, para a maioria das subcelebridades, é uma qualidade vazia, para ele – cujo outro dom é a capacidade de fazer músicas grudentas – é ouro.

Não à toa emplacou os hits “Baba Baby”, “Tô Nem Aí” e “Festa no Apê” – o último, uma infame versão da música “Dragostea Din Tei”, da boy band O-Zone, da Moldávia. Mas não é que Latino tenha faro para descobrir hits no leste europeu. A música estourou online a partir da coreografia irônica que um gordinho fez em sua webcam. “Dragostea” virou o webhit “Numa Numa” – e Latino achou mais uma mina de ouro. Em 2012, ele emplacou o reggaeton “Danza Kuduro”, que deu o refrão “oi oi oi” para a novela Avenida Brasil.

De olho no próximo sucesso, ele esbarrou com o hit avassalador do coreano Psy, “Gangnam Style”. Latino resolveu fazer sua versão e anunciou a adaptação no Twitter. A música, uma sátira ao estilo de vida de um bairro de novos ricos em Seul, virou a tosca “Despedida de Solteiro”. A decepção foi geral.

Eis que entra o segundo personagem desta coluna, o santista Maurício Cid, de 26 anos, que desde 2008 faz o blog de humor Não Salvo. Entre os vários exemplos de humor na internet brasileira, o herege Não Salvo (que usa Jesus como mascote) é um dos meus favoritos.

A principal qualidade do humor de Maurício é que ele não é produzido apenas por ele. E, no entanto, ele não se encaixa na extensa categoria de blogs que apenas cozinham conteúdo alheio (a escola Kibe Loco de produção). O método de produção de Maurício é típico da internet. Em vez de criar, ele prefere gerir a criação coletiva de seu público. E os 630 mil likes só no Facebook já dão uma amostra de sua enorme audiência. Ele joga uma ideia para seu público, que o alimenta diariamente com piadas infames, vídeos bizarros, sugestões improváveis e grosserias de todo o nível. Todos sentem-se parte de uma gigantesca comunidade que só quer saber de rir.

Assim, é comum que Cid lance alguns desafios. Depois de trocar farpas com Latino no Twitter sobre a adaptação de “Gangnam Style”, ele resolveu mostrar sua força coletiva. Descobriu qual era o vídeo brasileiro que mais tinha dislikes no YouTube (“Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, com 73 mil reprovações) e convocou seus pares para pegar no pé do clipe de “Despedida de Solteiro”. Em 18 de setembro, lançou o desafio. Algumas tantas horas depois, o clipe já tinha mais “joinhas invertidos” (como Cid se refere ao dislike) que o de Teló. Mas não parou por aí. O número ultrapassou os 100 mil e, em 20 de setembro, o site da emissora CNN trazia uma matéria sobre um certo “Brazilian protest”.

Corta para a madrugada da sexta-feira passada, e não apenas o clipe, como todo o canal de Latino no YouTube, foi tirado do ar. A justificativa do YouTube foi que o canal teria infringido direitos autorais. Será que ele não pagou direitos autorais ao autor original da canção? Até o fechamento da edição, nem a produção de Latino (que disse ter entrado em contato com o site para exigir explicações) nem o Google tinham esclarecido a situação.

Não acho que haja motivo para comemorar a queda do canal de Latino, pois tais restrições vão de encontro à legislação que tramita no Congresso brasileiro para regularizar a forma como a internet é tratada pela Justiça do País – o sempre adiado Marco Civil.

Latino poderia ser notificado da infração para que, ele mesmo, retirasse o conteúdo – sem prejudicar seu canal. Isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa – e há uma área cinzenta em relação à responsabilidade do conteúdo online.

É bem provável que o canal tenha chamado atenção do Google devido ao protesto de dislikes. E mais uma vez temos um exemplo do embate entre as realidades online e offline, protagonizada por dois de seus principais representantes no Brasil. Não vai ser a última vez que veremos choques deste tipo.

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8 Resultados

  1. Anderson Dias Lopes disse:

    Exemplo claro de protesto no sec 21, precisamos mais movimentos como esse. Se as pessoas do Facebook tivessem o minino de senso critico, o facebook não estaria com cara de orkut. Facebook é uma otima ferramenta e ninguem sabe usar.

    • Nathalia disse:

      Concordo e discordo. Ao mesmo tempo em que deveria ser uma ferramenta de protesto (e hoje vemos como propagação de banalidades), a rede já é criada como meio de comunicação m massa, e logo, influência em massa. Abraços.

    • Tiago disse:

      Desculpa mas… Que movimento é esse que precisamos? “Desgostar” do vídeo do Latino?
      Não é mais fácil ignorar e ser feliz?
      OU fazer algo REALMENTE produtivo – como exigir a votação do marco regulatório da internet (só pra não mudar muito de assunto)?

      O século XXI caminha a passos largos em formar uma geração de gente desinformada que acha que sabe mais do que realmente sabe.

      • Jiban disse:

        Mas isso não é coisa do século XVIII?

      • Nathalia disse:

        Justamente. Vê-se tudo se banalizando. A questão é que não eram nem protestos esses deslikes.

  2. Raid disse:

    O curioso foi com o Cauê Moura. Ele fez uma paródia de Gangnam Style (que aliás passou o Bieber como vídeo mais visto do Youtube) esculachando o Latino. O cantor não gostou e falou em processar, entrou Pânico no meio da briga e depois de bastante Ibope, quem acabou queimado foi a celebridade online, que ficou com imagem de amarelão.

    Nisso, o Youtube retira a paródia do Cauê no site, com uma mensagem de ordem do governo para a retirada, causando protestos por parte do autor.

    E agora ao invés de retirarem o vídeo do Latino, deletaram o canal inteiro do cantor. Acho que o Cauê não vai mais protestar, poderia ter sido pior pelo visto.

    • surfista fast food disse:

      quando voce acha uma barata, voce mata apenas ela (video do caue) … se voce acha uma colonia de baratas, voce tera de dedetizar todo o local (canal do latino) …

  3. Guilherme Caliman disse:

    O Latino não acompanhou a globalização digital e agora parece aqueles dinossauros da música americana, e seus paladinos, as gravadoras, que ficam processando gente que baixa mp3… lamentável.

    Aproveitando: Mathias, sempre acompanho seu blog e queria pedir pra vc votar na minha foto do concurso do Catraca Livre, por favor? hehe

    http://catracalivre.folha.uol.com.br/2012/11/finalistas-do-revela-sao-paulo-as-cores-da-primavera/

    Muito obrigado!