Impressão Digital #0099: Ficção científica e otimismo

Aproveitei a conversa com Nicolelis para falar sobre ficção científica na minha coluna desta semana:

Por uma ficção científica menos pessimista e apocalíptica
Nicolelis e Stephenson concordam num ponto

Ao entrevistar o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis para a capa desta edição do Link, perguntei sobre aplicações de suas pesquisas fora da medicina e ele falou que a neurociência já está no dia a dia das pessoas. Citou que a indústria do videogame está de olho em formas de interface que não necessitem de interferência táctil e falou que já existe até um aplicativo para iPhone que permite movimentar os ícones da tela do telefone apenas com o cérebro. E disse, mais de uma vez, que vivemos em uma realidade que parece ficção científica.

Foi quando o provoquei sobre o pessimismo da ficção científica atual. Os principais títulos do gênero no século 21 lidam com um futuro assustador. Séries como Terra Nova e Battlestar Galactica cogitam um futuro em que a civilização acabou. Filmes como O Preço do Amanhã e Contra o Tempo falam de governos que controlam a população usando alta tecnologia.

A lista inclui ficções em que invasões alienígenas ao planeta Terra são bem sucedidas, supercomputadores fogem do controle e ameaçam seres humanos. Até a Pixar anteviu o fim do mundo em Wall-E – isso sem contar todas as previsões apocalípticas que se aproveitam do mítico 2012 para cantar aos sete ventos que o fim está próximo.

“Uma das razões que me fez escrever o livro que eu lancei no ano passado (Muito Além do Nosso Eu, Companhia das Letras) foi mostrar um cenário otimista da ciência”, continuou Nicolelis, quando o questionei. “Hoje em dia você pega um filme de Hollywood ou um livro best-seller, é tudo assim: ‘Vamos destruir a raça humana… Vai acabar o mundo… Vamos criar um híbrido de não sei o quê… Os computadores vão nos deixar obsoletos…’”

A última afirmação é suficiente para que ele comece a desancar um dos principais nomes desta realidade de ficção científica que vivemos hoje, Raymond Kurzweil, que prega a inevitabilidade da fusão entre homem e máquina, que chama de singularidade.

“A singularidade é um absurdo, o Kurzweil ganhou muito dinheiro vendendo uma balela!”, enfatiza. “A singularidade nunca vai ocorrer, porque o cérebro humano é ‘copyright protected’, não pode ser reduzido a um algoritmo, portanto não pode ser copiado por um computador. Toda máquina de Turing – todos os computadores que a gente conhece – precisa de uma sequência de códigos para funcionar. Jogar xadrez é um algoritmo. Você tem regras muito definidas. Já apreciar Bach ou ser corintiano ou palmeirense… Isso não tem como definir, não tem como você por num algoritmo. Então, por definição, você não pode repetir o cérebro. Não há como você recapitular, num computador, a história coletiva da espécie e a história individual de cada um de nós. É uma impossibilidade matemática. As grandes empresas adoram a noção de que o ser humano vai se tornar obsoleto. É a terceira onda do capitalismo, em que o valor do trabalho humano é zero. Isso é um sonho e eles vão morrer sem ver isso ser realizado.”

Ele continua, lembrando quando falou em um encontro de escritores de ficção científica há dois anos: “Eu disse: ‘Pessoal, a coisa tá preta… para vocês! Nós, os cientistas, estamos chegando na realidade que vocês inventaram… Eu não faço ficção científica, vocês fazem. Mas estamos chegando perto!’”

A provocação de Nicolelis faz coro com a de outro grande nome do século 21, este escritor de ficção científica, o norte-americano Neal Stephenson. Autor de títulos como Nevasca (o único lançado no Brasil, pela Editora Aleph) e pela intricada série de livros reunidos sob o título de The Baroque Cycle, ele propôs no fim do ano passado um projeto chamado Hieroglyph que visa instigar autores a pensar em um futuro menos sombrio que aquele cogitado hoje em dia.

“Temos uma regra”, escreveu, “nada de hackers, nada de apocalipse, nada de hiperespaço”. O projeto é um manifesto para fazer novos autores cogitarem um futuro mais otimista para todos. Pois, uma vez cogitado por escritores, ele pode ser posto em prática pelos cientistas. E a ciência, como frisou Nicolelis, está chegando perto do que a ficção científica do passado propôs…

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  1. MMiguel disse:

    Muito bom o artigo, sou fã do Nicolelis e admiro a iniciativa de Neal Stevenson, mas se há uma defesa que pode ser feita à ficção científica “pessimista”, é a de que ela nos prepara para os piores cenários e nos permite reagirmos melhor a eles caso de fato aconteçam. Se não fossem “pesssimistas”, Admirável Mundo Novo e Neuromancer não teriam acertado tanto em suas previsões da realidade que vivemos hoje.
    Claro que uma verve otimista também pode, e deve acertar nas previsões e estimular novos caminhos, e é por isso que acho que as duas posturas devem coexistir.
    Abraço, Matias. Admiro muito seu trabalho também.

  2. silvio disse:

    Ainda acho que o que interessa mais na ficção científica são os questionamentos humanos gerados pela inclusão do estranho na realidade das pessoas. Não concordo com que segue a premissa de que FC deve, de alguma forma, tecer painéis sobre o futuro ou qual o próximo gadget hipotético que será usado daqui alguns anos.
    Sou partidário da FC onde uma boa história é contada, seja utópica ou distópica. O que interessa, no final, é a recompensa de receber uma dose de criatividade e de arte que faça a gente crescer. Se o futuro nessas histórias é uma desgraça, não importa. A arte não tem que ser bonita para ser bela.

  3. Bruno disse:

    Na verdade, a boa FC fala do presente, nao do futuro. O presente está pessimista…