Impressão digital #0077: Steve Jobs e a Pixar

E a minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre como Jobs mudou o futuro da Pixar ao não se intrometer no que eles poderiam fazer.

A influência de Steve Jobs
E o que a Pixar tem a ver com isso

Quem ainda aguenta ouvir falar em Steve Jobs? Não vou repetir a ladainha que lemos e ouvimos após o anúncio de sua morte, na última quarta-feira, mesmo porque já havia falado de sua importância neste mesmo espaço no final de agosto, quando ele deixou o cargo de CEO da empresa que fundou em 1976. Sim, ele foi um visionário, talvez tenha sido o último grande líder norte-americano, um hippie capitalista, o primeiro hipster, o empresário que conseguiu transformar uma indústria num estilo de vida e mudar o curso de toda uma geração. Mas tudo isso você já deve estar cansado de ler.

Queria falar de outro aspecto, menor, da biografia de Jobs. Menor, mas tão importante quanto os aparelhos criados sobre sua marca. Que é a história de como ele transformou um estúdio de softwares no futuro do cinema. Ou melhor, de como ele viu o futuro da Pixar antes mesmo da própria Pixar.

Jobs não fundou a Pixar – a empresa já existia sete anos antes de ter sido comprada pelo pai da Apple. Jobs quis a empresa pois sempre se preocupou com a interface e o design de seus produtos. Ele comprou a empresa, que era parte da Lucasfilm de George Lucas, para criar gráficos mais realistas e charmosos para seus softwares. E era isso que era a Pixar antes da entrada de Jobs – um estúdio de animação 3D para softwares.

Até que, certa vez, o criador da empresa, John Lasseter, disse que queria fazer um filme inteirinho em computação gráfica. Era uma ideia que, no início dos anos 90, não animaria ninguém. Os registros de animação computadorizada até então nos remetiam a bonecos sem curva, como os do clipe de Money for Nothing, do Dire Straits, ou à estética 8-bit do filme Tron. Qualquer tentativa de fazer filmes sem atores apontava para desenhos (des)animados rústicos e conceitualmente duros, sem alma.

Foi quando Steve Jobs deu sua melhor contribuição ao estúdio: não se meteu. Meticuloso e cricri com as criações da própria empresa, Jobs sempre carregou consigo a pecha de chefe tirânico, difícil de agradar, pedindo para que as mesmas coisas fossem refeitas até atingir seu altíssimo nível de exigência. Mas, percebendo o potencial da ideia de Lasseter e vendo que suas intervenções poderiam atrapalhar o processo de criação da Pixar – que, mesmo após a ideia de lançar um longa-metragem, não via o próprio futuro no cinema –, fez o que os bons chefes fazem quando reconhecem o valor de seus funcionários e confiam em seu taco: deixou-os trabalhar. Fez apenas uma simples e crucial exigência, como lembrou o próprio Lasseter na página do Facebook da empresa.

“Jobs foi um visionário extraordinário, um amigo muito querido e um farol guia para a família Pixar. Ele viu o potencial da Pixar antes mesmo que o resto de nós – e muito além do que nós poderíamos imaginar. Steve apostou em nós e no nosso sonho maluco de fazer filmes animados por computador: a única coisa que ele dizia era repetir ‘seja ótimo’. Ele é o motivo da Pixar ter se tornado o que se tornou e seu amor pela vida nos tornou pessoas melhores. Ele para sempre fará parte do nosso DNA. Nosso amor vai para sua esposa Laurene e para seus filhos neste momento incrivelmente difícil.”

Até mesmo quando não se envolvia, Steve Jobs era genial. Delegava poder e assim ampliava sua influência e alcance. Gosta da Pixar? Agradeça a Jobs.

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Sem Resultados

  1. Jorge disse:

    “Qualquer tentativa de fazer filmes sem atores apontava para desenhos (des)animados rústicos e conceitualmente duros, sem alma.”

    Como assim! Tu matou 50 anos dos Estúdios Disney numa porrada só. Bambi, Fantasia, Branca de Neve, sem alma?!