Fringe e a função do humor no cientista louco

No prefácio que fiz à nova seção do Trabalho SujoErudito x Popular -, um comentário do Hector me apresentou à revista Matéria Obscura, criada pelo Denis e pela Luciana para se aprofundar em assuntos que por via de regra não são tão aprofundados como deveriam. Pedi aos dois (um casal? Não sei) a liberação de dois textos de sua quarta edição (especial Fringe!) para dar cotinuidade à discussão entre a academia e o pop.

O papel de Walter Bishop
Luciana Silveira
Spoilers: O artigo traz informações sobre a terceira temporada da série “Fringe”.

“Fringe” não é comédia – longe disso. O questionamento ético dos estudos de Walter Bishop e William Bell, os traumas sofridos pela agente Olivia Dunham desde a infância e o choque entre os universos não são piada. Mas, como tantas outras produções de ficção científica, a série precisa se preocupar em mostrar um pouco de humor para funcionar.

Em um breve apanhado sobre o humor no gênero, Wilkins (1) defende que ele serve como uma forma de amenizar o esforço do público de acreditar naquela ficção. Uma risada abaixa as resistências do espectador, tornando-o mais receptivo para a proposta mirabolante daquela trama. Assim, uma piada bem colocada faz com que o debate ético, os abusos e o apocalipse de “Fringe” tornem-se sérios.

Mas o humor também desempenha outra função em “Fringe”: ele intensifica nosso relacionamento com os personagens.

Um pouco de loucura, um pouco de canela
Em 1985, após a morte de seu filho Peter no universo de cá, o brilhante cientista Walter Bishop viajou para o Outro Lado e acabou sequestrando o outro Peter, que foi então criado por ele e sua esposa.

Deve-se mencionar que a intenção original de Walter era apenas levar o medicamento que curaria o filho do Walternate (2), mas seus planos foram modificados porque o frasco do medicamento se quebrou na travessia, quando Nina Sharp tentou impedi-lo. Mesmo assim, o fato é que Walter sequestrou o filho de seu duplo.

Também deve-se mencionar que Walter se esforçou bastante para tentar devolver Peter para o Outro Lado. O problema é que os esforços de Walter foram a intensificação de seus experimentos com crianças, afetando de forma irreversível as vidas de Olivia Dunham, Simon Phillips, James Heath, Nick Lane, Susan Pratt e tantas outras.

E, como Walternate bem sabe, a viagem de Walter entre os universos foi catastrófica para os dois lados, iniciando a acelerada deterioração da Terra-2, que agora começa a afetar também a Terra de cá.

Walter não é um herói. Com todas as suas boas intenções, ele talvez seja um vilão maior que o Walternate. E, mesmo assim, torcemos pelo Walter. Gostamos do Walter.

Não porque ele está lutando do “nosso” lado – nós gostávamos dele muito antes que a disputa entre os dois universos estivesse escancarada na trama de “Fringe”. Nós gostamos do Walter porque ele é engraçado. Simplista? Talvez. Mas todos nós queremos aquela pessoa para dividir aquela longa caminhada pela praia e, principalmente, para nos fazer rir – e isso também vale para aquela noite de sexta-feira que você passa na companhia de uma série de TV.

Um bom exemplo foi o reencontro de Walter com uma de suas cobaias, Simon Phillips, que desenvolveu a habilidade de ouvir os pensamentos de outras pessoas:

Simon Phillips: Bacon, unicórnios, o aniversário do Peter, pitada de canela… Z2 = Z12 + C… Lago Reiden. O que isso significa, hein? O que você está tentando fazer comigo?
Walter Bishop: Nada. Minha mente apenas faz isso às vezes. (3)

A cena, a princípio, é um momento de tensão. Por causa de sua habilidade, Simon tornou-se incapaz de conviver com outras pessoas e sofre efeitos físicos severos quando exposto a elas. Seja por suas lembranças, seja por ter lido os pensamentos de Walter, Simon reconhece no cientista o responsável por sua condição. Walter, apesar de sempre mostrar-se um pouco maravilhado com a ciência, sabe bem que deixou sua obsessão levar sua pesquisa além do que é eticamente aceitável, e sente algum tipo de culpa pelas vítimas que fez.

Mesmo assim, a descrição do fluxo de pensamentos de Walter – misturando ciência, unicórnios e, claro, comida – é tão walteriana que a situação torna-se engraçada. Rimos em meio à tensão, da mesma forma que rimos com situações envolvendo uma vaca ou milk shake ou lembranças de LSD durante uma autópsia. E, enquanto rimos, perdoamos a culpa de Walter e vemos nele alguém com quem dividiríamos uma mesa de bar.

Analisando outro seriado – “Firefly”, coincidentemente enquadrado no mesmo gênero –, Natalie Haynes defendeu a mesma facilidade em simpatizar com os personagens:

Nunca questionamos por que deveríamos segui-los, porque estávamos do seu lado desde o início, e isso porque gostávamos deles e pagaríamos uma bebida para eles. (4)

No caso de “Firefly”, o humor estava distribuído entre todos os personagens. Já em “Fringe”, a situação é bastante diferente. O humor de Peter Bishop existe, mas é o sarcarmo desenvolvido ao longo de anos sentindo-se deslocado, no universo errado. E os traumas da agente Olivia Dunham fazem dela uma personagem mais fechada e séria (5). No trio central, apenas Walter carrega a obrigação de despertar a simpatia do espectador – e o faz muito bem.

Existem três fatores essenciais na definição do comportamento de Walter – ou quatro, se considerarmos o abuso de substâncias químicas recreativas. O primeiro e mais óbvio é o retorno de Peter a sua vida, e de forma relativamente harmoniosa (6).

Além disso, a longa internação na clínica para pacientes mentais teve efeito positivo em seu humor. Após 17 anos confinado e improdutivo, Walter parece se revitalizar com o retorno ao laboratório. Finalmente, temos sua condição mental: Walter teve partes do cérebro removidas para que o conhecimento da viagem entre dimensões se tornasse inacessível (7), e também mostra sequelas da longa internação. Suas excentricidades estão mais fortes, e sua auto-censura é praticamente inexistente.

Walter não é simplesmente louco – ele é radiantemente alegre.

Duplos e disputas
A importância do humor de Walter para o funcionamento de “Fringe” tornou-se mais clara com a terceira temporada da série, que teve episódios ocorridos no Outro Lado, na Terra-2. Nesse universo, encontramos duplos dos personagens centrais e uma divisão Fringe oficial e mais importante, já que a deterioração da Terra-2 acontece de forma muito mais rápida do que a daqui.

A divisão Fringe da Terra-2, aliás, é extremamente carismática. Embora Fauxlivia tenha cometido seus “pecados” trocando de lugar com Olivia, ela é também confiante, divertida e talentosa. Scarlie pode não ser o Charlie de antes, mas está vivo. E Lincoln, a novidade, mostra-se extremamente dedicado ao trabalho – mas um trabalho que ele adora, e não um que lhe causa sofrimento. E os casos da Terra-2 também não ficavam devendo nada ao lado de cá, com a vantagem de apresentar aquelas pequenas (ou não tão pequenas assim) diferenças que prendem a atenção dos fãs.

Mas Walternate, ainda que menos presente em cena, coloca sua sombra em todos os episódios do Outro Lado – reforçando a falta do Walter Bishop que conhecemos e amamos. Sofrendo a dor da perda do filho e a crescente instabilidade de seu Universo, tragicamente danificado no processo, Walternate lidera a “guerra” contra nossa dimensão, na condição de Secretário de Defesa dos Estados Unidos.

Walternate está pronto para fazer sacrifícios para defender a existência de seu universo, mas possui limites morais mais claros que o Walter de cá. E ele tem motivos para seu comportamento, e motivos para suas jogadas. Mas, mesmo que possamos compreender seus motivos, temos dificuldades em simpatizarmos com ele.

Isso não ocorre porque Walternate é o inimigo da “nossa” dimensão, mas porque é o inimigo da dimensão de Walter. Não sentimos nossa existência ameaçada pela guerra entre as dimensões – a imersão na ficção ainda não chegou lá – e até temos interesse nos casos do Outro Lado e nos agentes mais confiantes da divisão Fringe. Mas rejeitamos que a dimensão remanescente (ou vitoriosa) seja aquela em que o divertido Walter é substituído pelo amargo Walternate.

(1) “Why science fiction movies need a little comic relief
(2) Nome dado ao “duplo” de Walter Bishop na outra dimensão, chamada de “Terra-2”.
(3) “Concentrate and Ask Again” (“Fringe”, 3–12)
(4) “Girls, Guns, Gags – why the future belongs to the funny”, p.33
(5) A própria Olivia se diferencia de sua versão da Terra-2 descrevendo-a como “divertida” e de “sorriso fácil” em “Concentrate and Ask Again” (“Fringe”, 3–12).
(6) Adulto, Peter reconhece a fragilidade de Walter e mostra-se mais gentil, perdoando dívidas novas e antigas. Quando descobriu sobre sua verdadeira origem, Peter compreensivamente se afastou de Walter, mas foi capaz de reconstruir o relacionamento mais tarde.
(7) No episódio “Grey Matters” (“Fringe”, 2–10), Walter mostrou-se mais lúcido e sério quando teve as porções do cérebro reimplantadas.

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Sem Resultados

  1. 02/05/2011

    […] E esse é o texto do Denis, da mesma edição do Matéria Obscura dedicada ao Fringe que eu citei há pouco. […]