A evolução dos Arctic Monkeys

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Os fãs chiaram com o novo disco dos Arctic Monkeys, Tranquility Base Hotel & Casino (que pode ser ouvido abaixo), mas vão agradecer a virada que Alex Turner deu em sua banda quando ficarem mais velhos. A leitura rasa é que ele ofuscou o talento dos outros integrantes do grupo, transformando-o a banda em apoio para seu disco solo, levando os Monkeys para o território de seu projeto paralelo The Last Shadow Puppets, mas Tranquility Base é muito mais do que uma versão grupal da fantasia Las Vegas de Turner e Miles Kane. É a evolução natural destes macacos, se eles pretendem seguir como um grupo nos próximos anos.

E não tem nada a ver com amadurecimento, com vida adulta, com deixar a adolescência pra trás… Todo esse movimento já havia sido feito nos discos anteriores da banda, à medida em que Alex Turner se estabelecia como principal vetor criativo do grupo. Também não há uma possível crise de identidade que transformaria o ex-indie inglês em um dândi crooner se autoimolando em público. O que acontece a partir de “Star Treatment”, a faixa de abertura do disco, é um esforço consciente em tornar a própria obra imortal.

Turner faz o disco apoiar-se em duas noções urbanas que ultrapassaram os ares de suas cidades originais: a ficção dramática de Los Angeles e a decadência opulenta de Las Vegas. Mas em vez de afundarem-se nas poltronas do showbusiness, os Arctic Monkeys miram num ideal de futuro do passado. “Aperte um botão e faremos o resto”, cantarola Alex numa faixa batizada de “A primeira cambalhota de frente feita por um caminhão-monstro do mundo”, num disco com músicas com titulos como “Science Fiction”, “The Ultracheese”, “Batphone” e que ecoa o meio dos anos 70 de David Bowie, as incursões blasés de Serge Gainsbourg, a postura esnobe de Jarvis Cocker e um senso irônico de autoimportância dos discos de Leonard Cohen nos anos 80.

Tranquility Base pegou a todos de surpresa ao determinar um ritmo mais lento e introspectivo para hits que, arranjados de outra forma, poderia pedir riffs e refrões berrados – seja à moda frenética dos primeiros discos da banda ou pela influência metal de Josh Homme nos discos mais recentes. Mas vai na contracorrente do século e exige atenção imediata do ouvinte, que pode simplesmente ouvir os primeiros segundos de cada canção, fazer caretas e nunca mais ouvir o disco, ou reclinar-se nesse chaise longue musical que é ao mesmo retrô e futurista, apocalíptico e romântico, glam rock e lounge, existencial e superficial como uma conversa com algum estranho em um decadente bar da moda. Entre falsetes de araque, guitarras decorativas e teclados à espreita, os Arctic Monkeys fizeram um disco tão memorável quanto Favourite Worst Nightmare, Humbug ou AM mas fugindo completamente de possíveis clichês e estereótipos, para mergulhar em outros, alheios, que podem funcionar como uma longa sobrevida para um grupo fadado à repetição ou lápide improvável para uma das bandas mais bem sucedidas deste século.

Aposto na primeira opção – e pode ser que só daqui a alguns anos poderemos reconhecer que Alex Turner salvou sua banda de ter se tornado uma caricatura de uma banda de rock ao, ironicamente, assumir que podem ser a caricatura do que eles quiserem. É o passo mais ousado de todas as bandas de sua geração.

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