Duplo complementar

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“Muitas músicas novas, conversas com meus compadres Ava Rocha e Negro Leo sobre como seria meu próximo disco, uma conversa iniciada com Maurício Tagliari – e uma porta aberta na YB – sobre a gravação de um álbum com a banda de meninas – eu, Mariá Portugal e Maria Beraldo Bastos, que inicialmente seria uma recriação do Macunaíma, porque a gente estava fazendo esse show e estava soando super original e impactante -, vontade de trabalhar de novo com Curumin”, Iara Rennó me enumera os vários motivos que fizeram que ela transformasse seu novo disco em dois: Arco, tocado com a banda de mulheres que ela descreveu, e o Flecha, produzido pelo Curumin. “Era uma vontade de tudo ao mesmo tempo, de fazer algo que mostrasse um espectro maior da minha produção atual – já que há algum tempo, desde quando morei no Rio, venho apresentando em diversos projetos concomitantes”. O resultado é um disco duplo que funciona em separado – disco-macho e disco-fêmea que se encontram e desencontram à vontade, podendo existir desta forma inclusive ao vivo. O lançamento dos discos acontece no próximo dia 16, no Auditório Ibirapuera, com as duas bandas completas. “Reuni o povo todo pra tirar um som, mas quando fui ouvir o que a gente fez tive a percepção nítida de que as músicas dividiam-se basicamente em dois grupos e que pediam sonoridades diferentes. Então um disco ficaria sob a produção do Curumin, e o outro do Maurício Fleury – que depois, por uma questão de agenda, acabou não produzindo de fato, mas acabou colaborando nos dois álbuns”, ela me explica, antes de falar um pouco mais sobre os discos – e como eles conversam com o momento em que estamos vivendo.

E como surgiu a idéia de ter uma banda para cada disco? Essas duas formações têm histórias diferentes?
Não foi propriamente a ideia das bandas que veio antes, mas as próprias bandas! De um lado o trio formado por mim e as meninas, do outro o som que vinha dessa cozinha – Curumin, Lucas Martins e Badé – com quem eu já tinha trabalhado no Oriki – projeto ainda inédito iniciado em 2009 -, mais Gustavo Cabelo, Fleury, e a metaleira do Bixiga 70 – o Gralha tocou comigo na época do Macunaíma também. Cada uma uma história.

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E de onde veio o nome do disco?
Quando percebi que o disco eram na verdade ‘os’, vi que eles tinham uma relação de complementaridade, como noite e dia, côncavo e convexo, subjetivo e objetivo, yin e yang. Cheguei em casa com isso na cabeça, procurando nomes que expressassem essa dualidade mas que não fossem banais, e Gustavo Cabelo – guitarrista do Flecha – acertou em cheio batizando os álbuns de Arco e Flecha. Esses nomes, além de conter a ideia de dual/complementar, tem relação direta com Oxóssi – o caçador de uma flecha só -, Orixá tema da música “Querer Cantar”, em parceria com Gustavo Galo, uma das primeiras a integrar o repertório. Os nomes também fazem uma ponte com meu primeiro trabalho solo lançado em 2008, o Macunaíma Ópera Tupi, que reflete a importância dos traços indígenas na formação da cultura brasileira. Indo mais fundo, o arco e flecha é um símbolo milenar universal – provavelmente a primeira arma engenhosa, complexa, criada pelo homem, na qual uma parte precisa da outra: uma é flexível a outra dura, uma arremessa a outra voa.

É um disco com muitas colaborações, que é uma característica dessa geração atual. Você pensou nele a partir disso?
Achei que estes nem tem tantas colaborações assim! Porque no Arco, além do trio, tem colaboração do Fleury e participação do Luca Raele. Já o Flecha é um pouco mais aberto, mas também quase se resume em uma banda, além das participações especiais de Ava e Ana Claudia Lomelino, a Mãeana. Claro, isso sem falar nas parceiras, que são várias.

E como funciona o disco ao vivo? O show tem duas partes? Duas bandas?
Bom, a idéia é fazer um show grande de lançamento assim, duas partes, duas bandas. Mas isso depende sempre de uma estrutura maior e por outro lado os shows também podem ser independentes um do outro. Então a idéia é seguir com eles em paralelo, intercalando um e outro. São mais três opções no menu: Arco, Flecha e Arco & Flecha!

O que você ouviu que inspirou esse disco?
Acho que não ouve algo específico… Sempre acho difícil responder a esse tipo de pergunta! Eu fico feliz em ver o momento da música brasileira tão rico, em variedade, qualidade e quantidade. Fico inspirada quando vou a um show bom e uso isso como estímulo pra compor. Mas na hora de produzir um disco eu procuro esvaziar a cabeça, porque quero que não se pareça com nada. Como se isso fosse possível…! Eu queria que o Flecha tivesse o poder do swingue do Curumin e o Arco já tava com a sonoridade rolando em show com as minas.

Esse disco é a sua resposta às discussões sobre gênero de hoje em dia? O que tem achado sobre esses temas vindo à pauta?
Muito bom ver que esse assunto está fervilhando, porque ele é fundamental para a libertação do indivíduo perante a opressão social em todos os âmbitos, e principalmente na desconstrução do machismo. De fato predomina uma força mais feminina em um e uma mais masculina em outro. Porém, fiquei numa dúvida cruel sobre qual seria o Arco – () – e qual seria a Flecha – î. O Arco é sobretudo um grito de libertação da Mulher, da buceta livre, do grelo duro, dos peitos nus, que já vinha dos meus poemas eróticos. É um feminine ativo, até agressivo em algumas músicas. Já o Flecha, é solar, tocado por homens, porém mais doce em muitos momentos. A sensação que fica pra muita gente é de que o Arco bem pode ser o masculino num corpo feminino e o Flecha o feminino num corpo masculino. Por isso gosto de dizer que os discos são transgênero. A verdade é que as duas forças estão nos dois, como podem coexistir num corpo, sem ter que ser isso ou aquilo, e nesse sentido, acho que podem enriquecer a discussão sobre gênero.

É um disco de alta conotação sexual. Foi assim desde o começo ou ele assumiu esse papel?
Acho que você fala do Arco, né? Ele tem esse lance porque, pra começar, traz três músicas compostas sobre poemas do livro que lancei ano passado, o Língua Brasa Carne Flor, pela editora Patuá, de poesia eróti-cômica – gosto de chamar assim. Mas não só, porque essas músicas foram parar no Arco justamente porque a química do trio já puxava pra esse lado. Porque o nosso encontro já tinha um tom subversivo por natureza: três mulheres tocando – atividade predominantemente masculina, sim, ainda -; três mulheres bastante libidinosas – sim e daí? -; três mulheres insubordinadas a tal opressão social, sexual, etc. Um fogo explosivo no palco, deu no que deu.

Quando lança? Como vai ser o show de lançamento?
Os discos foram lançados digitalmente em junho em todas as plataformas, inclusive no meu site para download gratuito www.iararenno.com. O disco físico acaba de chegar da fábrica, e sai graças à parceria com o Selo Circus, do Guto Ruoco, que pra nossa sorte é uma pessoa que ainda investe em música. O projeto gráfico completo – que só se pode ver no objeto físico – do Rodrigo Sommer está um escândalo de lindo! O show de lançamento vai acontecer no Auditório do Ibirapuera, que é um lugar mágico, dia 16 de setembro, uma sexta de lua cheia, às 21h. As bandas estarão completas na formação original. Não vou dar mais detalhes, pra não estragar surpresa, mas garanto que será especial, mesmo porque estarei muito bem acompanhada desses músicos incríveis e gente maravilhosa.

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