Do #lingerieday ao #AgoraÉQueSãoElas, por Carol Moreno

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Continuando a série #AgoraÉQueSãoElas (a Manô Miklos, que puxou o coro, explica melhor a hashtag e a campanha aqui), em que mulheres tomam espaços abertos por homens para expor seus pontos de vista, me deparei com esse ótimo texto da Carol Moreno no Medium e pedi pra ela deixar que eu republicasse aqui – e ela topou. Com a palavra, Carol:

Parte 1: o machismo morreu?
O machismo não morreu, é claro. Está vivo, enorme, saudável, parrudo e muito bem armado, ainda que jamais poderá voltar a andar pelas ruas desse Brasilzão com a mesma cabeça e a alma tranquila. O machismo por dentro anda cabreiro, de vez em quando olha para os lados e titubeia. Não raro pensa em cruzar a rua se vê alguma movimentação estranha, achando que talvez alguém ali vá mexer com ele e, quando está sozinho, passou a fechar as mãos em punhos com as chaves de casa entre as juntas dos dedos em caso de ataque. Está certo ele: nós vamos mexer sim, e não vai ser pouco.

Tem gente chamando isso de revolução. Eu gosto mais da palavra onda. Primeiro porque soa mais aberto, mais breve, mais fácil. Segundo porque ela começa lá longe, no horizonte, onde a gente não consegue definir bem que contorno vai ganhar, com que força vai chegar, e a gente nunca sabe onde vai parar. Isso acontece também com a revolução, mas citando a onda não vamos ter que aturar os professores de história debatendo se vamos ou não derrubar as estruturas políticas e econômicas para merecer o título de revolucionárias. Na onda é só olhar pra direção que ela vem, levantar os braços e tirar os pés do chão.

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Foto: Marcha Mundial das Mulheres

Mas pode usar revolução. Não importa a palavra, importa é que aconteça.

Parte 2: Machismo vivão da silva
Há seis anos e três meses (parece muito, mas parece ontem), eu não tinha certeza de que um dia tudo isso aconteceria. Era meados de julho de 2009 quando inventaram o #lingerieday, um dia específico para mulheres se fotografarem vestindo lingerie e publicarem as fotos aglutinadas pela hashtag, para que todos pudessem acompanhar.

A princípio, a ideia me pareceu estapafúrdia. Em 2009, porém, as celebridades não usavam Twitter, o Twitter não pautava outras mídias, usavam muito a palavra “monetização” e ainda ficávamos com vergonha de dizer que conhecemos tal amigo/a ou namorado/a pela internet. Eu era abertamente feminista, mas a maioria das feministas que eu conhecia ainda estava nos protestos nas ruas no 8 de março, nas assembleias e colégios estudantis. Feminismo era palavrão.

Quando, nos dias seguintes ao anúncio do empreendimento, mais homens começaram a difundi-la, e nenhuma mulher que eu conhecia apareceu para criticá-la, minha primeira impressão foi substituída pela indignação. Há muitos assuntos complexos e subjetivos dentro dessa questão de liberdade de expressão. Não vou entrar neles (não vou mesmo), mas o que me chocava na época e ainda dificulta que eu aborde a questão sem ironia era por que diabos um bando de homens queria definir que dia as mulheres devem ou não ser livres. Alguns desses homens eu conhecia pessoalmente, já dividiram mesas de bares comigo, e me incomodava contemplar que, pra eles, parecia tão simples e lógico e natural que os homens tivessem esse tipo de controle-persuasão-sugestão-indicação (chame do que quiser) sobre o que eu faço ou não com o meu corpo.

Incomodava também o silêncio constrangedor por parte das mulheres, aquela hesitação de quem está andando pela calçada e dá de cara com um vespeiro. Eu morava na Espanha, não via ninguém pessoalmente mais, só lia os meus amigos e amigas de longe. Será que realmente está todo mundo achando legal essa ideia, e talvez eu apenas esteja sendo chata?

Passaram-se alguns dias e decidi que tudo bem se eu fosse de fato a única a gritar sozinha. Aceitei de antemão o rótulo de “chata” que viria automaticamente.

Antes do meu horário de almoço, escrevi em 20 minutos um breve texto questionando a história toda em um blog coletivo que (só descobri hoje) não existe mais. O título era “O #lingerieday não é uma coisa do outro mundo”, e ele pode ser lido no blog da Ana Frank. Relendo-o agora, achei que ficou com bastante cara-de-redação-do-Enem (que tiraria nota 600, porque faltou a proposta de intervenção social) e me espantei brevemente com a comparação dos homens a porcos (muito pobre, admito). Mas ainda assino embaixo dele.

Eu não tinha smartphone, então publiquei, fui almoçar e só soube da repercussão ao texto um pouco depois.
Os bem intencionados homens que iniciaram a campanha indignaram-se com muita dignidade e hombridade na caixa de comentários, apoiados pelos homens que queriam se sentir mais homens. Com eles aprendi ofensas inéditas sobre vaginas, e algumas mulheres pularam no lamaçal para defender meu ponto, e em poucas horas já eram mais de cem os socos e pontapés registrados por lá. Apaguei os comentários que ofendiam outrxs comentaristas, mas todos os que me xingavam eu fiz questão que ficassem visíveis, com o nome de cada cavalheiro que não aceitava que eu não concordasse publicamente com tal plano infalível. Fechei aquele campo de batalha e, nos anos seguintes, apenas repostava o link e seguia com meu dia.

Infelizmente o blog não existe mais para que vocês possam reler tudo, mas em 2009 já tinha Gmail, e todos os comentários dos meus posts eram enviados, um por um, ao meu Inbox. Reproduzo, na montagem abaixo, apenas o teor de alguns dos comentários. Preservei a identidade dos autores (se quiser saber quem é quem, pode me pedir as arrobas).

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Explicação: Não publiquei os comentários que me defendiam, mas alguns deles eram de homens. E houve mulheres que zombaram do meu texto (ofensas, porém, só dos mocinhos). Também não publiquei as DMs e os e-mails de meninas que me agradeceram em privado por falar o que eles não tinham coragem de dizer.

Parte 3: Como matar o machismo
Reconto esse episódio esporadicamente, não pra que sintam pena de mim ou ódio de quem me atacou, mas porque lembro dele quando perguntam minha opinião sobre “tudo isso que está aí”. Esse não foi o primeiro post feminista da blogosfera brasileira, nem sou eu a feminista mais xingada da internet, e muito menos esses comentaristas ganhariam grande destaque em uma retrospectiva de chiliques tupiniquins virtuais.

É certo que a época era outra, e hoje acho que estes senhores já pararam de usar seus nomes e e-mails pra assinar mensagens tão gentis. Hoje a ofensa virou negócio, já se dispõe de um exército de fakes pra fazer o trabalho sujo, são profissionais da falácia, talvez até remunerados, e reagem com mais virulência, violência e perseguição.
Mas isso só acontece porque hoje, hoje hoje, agorinha mesmo, mais um texto feminista, além desse aqui, acabou de aparecer na internet.

Hoje tem revista feminista pra adulta, revista feminista pra adolescente, tem think tank feminista, fake feminista (pra citar só uma página do Facebook), vlogueira feminista falando sobre relacionamento abusivo, assédio e coletor mestrual. Disse outro dia que “it’s raining feminists, hallelujah”, e é isso mesmo. Elas (e eles) não param de aparecer, inclusive as que antes zombavam das “feminazis”, inclusive as que já participaram do #lingerieday e hoje não querem mais um calendário pré-definido.

O barulho das feministas é alto e até pode parecer uma gritaria caótica. Mas a mensagem por trás dele é uma só: o machismo não morre, há de matá-lo. Ele vive dentro da gente, não vai decidir ir embora um belo dia, assim como não foram os homens que deram às mulheres o direito de votar, nem serão eles que darão às mulheres negras e pobres o direito de abortar com segurança. As mulheres é que vão arrancar esse direito da mão deles.

E o machismo não morre com uma bala no peito, estatelado na calçada. O machismo precisa ser asfixiado pouco a pouco, dia a dia, até murchar dentro da gente. Mesmo depois de a gente dizer “sou feminista” pela primeira vez em voz alta.

Dói apertar as mãos em volta dele e ficar segurando, dá trabalho. Mas às vezes temos ajuda. Ela pode vir disfarçada de uma amiga que menciona, por alto, que jamais faria o mesmo porque um homem pediu, quando você a encontra depois de meses e, por algum motivo, menciona que há tempos não pinta a unha com um esmalte de cor escura porque seu namorado prefere cores claras.

Ela vem fantasiada de vergonha daquela noite em que você, adolescente, a 800 km de casa, com todos os amigos esperando do lado de fora no táxi, foi agarrada contra a sua vontade por um colega em um encontro de alunos de colégios jesuítas que se conheceram em um retiro religioso!

Tem dia que ela chega em forma de corda vocal quando aquele homem mexeu com você discretamente, no pé do seu ouvido, numa rua cheia de gente, achando que você vai engolir quieta. Mas aí de repente todo mundo olha espantado ao ouvir um “CALA A BOCA SEU MACHISTA!” ecoar de algum lugar, incluindo ele, e incluindo você também, até descobrir que foi você quem gritou, transferindo a vergonha pro rosto do covarde.

Chega na voz masculina de outros países, que coloca em xeque suas perspectivas sobre a naturalização cultural. Como o espanhol, de um lado, que te explica casualmente como ele não faz piadas sobre TPM porque elas “son machistas”. Ou o angolano, do outro, que te explica casualmente como é moderno e respeitoso porque “permite que a esposa tenha a chave da casa”.

Sem que qualquer pessoa pudesse prever, ela chega de sopetão, avassaladora, na forma uma montanha de relatos alheios de traumas que soam tão intimamente seus, pra mostrar que a culpa não é sua, e em uma reação sufocante a comentários criminosos e à tentativa de abafar sua seriedade.

E essa semana está chegando em locais ainda mais improváveis, como os blogs e colunas de homens que também estão lutando contra seu próprio machismo.

Aos homens que aderiram à semana do #AgoraÉQueSãoElas, proponho que voltem a fazer isso na semana do 8 de Março. Que vire uma tradição e que vocês se assemelhem cada vez mais ao meu amigo espanhol, e cada vez menos ao meu conhecido angolano.

Aos homens e mulheres que dizem não ver nenhum machismo dentro de si, só um recado. Podem me ligar se um dia quiserem surfar na nossa onda. Eu empresto a minha prancha.

onda
Vida longa à Maya Gabeira

A foto que abre o post é da Gi Meira.

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1 Resultado

  1. Gostei do texto. Assim como os alcoólatras do AA, eu me defino como “um machista em descontrução”. Esse é mais uma dose do remédio o homeopático chamado “informação”. E de outro chamado “empatia”, que por definição, é capacidade de se colocar no lugar do outro.