Vida Fodona #542: Trazer o sol

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Concentração.

Laura Lavieri 2016: “Deixa sempre uma saudade”

Foto: Daryan Dornelles

Foto: Daryan Dornelles

A indefectível voz feminina que compõe o universo musical de Marcelo Jeneci começa a alçar seu voo solo. Laura Lavieri trabalha pouco a pouco sua estreia musical e antecipa a primeira faixa desta fase de sua carreira aqui pro Trabalho Sujo, mostrando em primeira mão o clipe de “Quando Alguém Vai Embora”, a seguir:

A faixa, bucólica e retrô ao mesmo tempo, está cheia das impressões digitais de seu parceiro nesta nova etapa: o jovem prodígio carioca Diogo Strausz, que fortalece sua reputação de produtor, arranjador e músico ao mesmo tempo em que segue pondo em prática seu lado maestro. “O disco segue a linha desta primeira música porque sou eu no front, e Diogo ao lado”, ela me explicou em uma conversa online. “Depois de oito anos conhecendo tanta gente, circulando por tantos cantos musicais, bebendo de tanta fonte, tenho vários desejos pra dar voz”, continua. “Teremos diversos personagens e cenários nesse álbum, tudo que uma intérprete pode dar conta.”

A parceria começou em março do ano passado (“foi sintonia musical à primeira vista”, diz Laura) e se aprofundou quando a cantora mudou-se para o Rio de Janeiro para completar seu projeto individual: “Começamos gravando a faixa, e seguimos aprofundando a amizade e as afinidades musicais; fizemos alguns shows juntos, pra desenvolver arranjos e repertórios e a parceria foi o incentivo que faltava pra eu me mudar para o Rio.”

O trabalho, que deve ficar para o ano que vem, no entanto não é uma incursão solitária da dupla no estúdio. “Tenho muita sorte com isso, sempre bem acompanhada, tenho a colaboração de músicos fantásticos – a base, e que segue pra vida toda é do Jeneci, e com ele, vem toda a família que é aquela banda – Regis Damasceno!”, festeja. “Diogo foi a fagulha e é a nova chama. João Erbetta é outro amigo que conheci com Jeneci, e há alguns anos se tornou fiel escudeiro. Hoje toca na minha banda, e trocamos em absolutamente tudo que pode envolver o processo criativo musical.” Entre os outros colaboradores ela lista uma turma de peso, que mostra que seu pêndulo musical está cada vez mais carioca: Rafaela Prestes, Kassin, Stéphane San Juan, Alberto Continentino, Ricardo Dias Gomes, Bruno DiLullo e Domenico Lancellotti. Ela diz que antes do fim do ano lança outro single (“de ondas mais revoltas”) e mais um terceiro antes do lançamento do disco (“mais dançante e extrovertido”).

Tudo Tanto #016: Um 2015 espetacular

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Na edição de janeiro da minha coluna na revista Caros Amigos, eu escrevi sobre o grande ano que foi 2015 para a música brasileira.

A consagração de 2015
O ano firmou toda uma safra de artistas que lançou discos que reverberarão pelos próximos anos

Alguma coisa aconteceu na música brasileira em 2015. Uma conjunção de fatores diferentes fez que vários artistas, cenas musicais, produtores e ouvintes se unissem para tornar públicos trabalhos de diferentes tempos de gestação que desembocaram coincidentemente neste mesmo período de doze meses e é fácil notar que esta produção terá um impacto duradouro pelos próximos anos. O melhor termômetro para estas transformações são os discos lançados durante este ano.

Os treze anos de espera do disco novo do Instituto, o terceiro disco pelo terceiro ano seguido do Bixiga 70, os seis anos de espera do disco novo do Cidadão Instigado, o disco que Emicida gravou na África, um disco que BNegão e seus Seletores de Frequência nem estavam pensando em fazer, o surgimento inesperado da carreira solo de Ava Rocha, o disco mais político de Siba, o espetacular segundo disco do grupo goiano Boogarins, os discos pop de Tulipa Ruiz e Barbara Eugênia, a década à espera do segundo disco solo de Black Alien, o majestoso disco primeiro disco de inéditas de Elza Soares, os quase seis anos de espera pelo disco novo do rapper Rodrigo Ogi, dos Supercordas e do grupo Letuce e um projeto paralelo de Mariana Aydar que tornou-se seu melhor disco. Mais que um ano de revelação de novos talentos (o que também aconteceu), 2015 marcou a consolidação de uma nova cara da música brasileira, bem típica desta década.

São álbuns lançados às dezenas, semanalmente, que deixam até o mais empenhado completista atordoado de tanta produção. É inevitável que entre as centenas de discos lançados no Brasil este ano haja uma enorme quantidade de material irrelevante, genérico, sem graça ou simplesmente ruim. Mas também impressiona a enorme quantidade de discos que são pelo menos bons – consigo citar quase uma centena sem me esforçar demais – e que foram feitos por artistas jovens, ainda buscando seu lugar no cenário, o que apenas é uma tradução desta que talvez seja a geração mais rica da música brasileira. A quantidade de produção – reflexo da qualidade das novas tecnologias tanto para gravação e divulgação dos trabalhos – não é mais meramente quantitativa. O salto de qualidade aos poucos vem acompanhando a curva de ascensão dos números de produção.

Outro diferencial desta nova geração é sua transversalidade. São músicos, compositores, intérpretes e produtores que atravessam diferentes gêneros, colaboram entre si, dialogam, trocam experiências. Não é apenas uma cena local, um encontro geográfico num bar, numa garagem, numa casa noturna, num apartamento. É uma troca constante de informações e ideias que, graças à internet, transforma os bastidores da vida de cada um em um imenso reality show divulgado pelas redes sociais, em clipes feitos para web, registros amadores de shows, MP3 inéditos, discussões e textões posts dos outros.

A lista de melhores discos que acompanha este texto não é, de forma alguma, uma lista definitiva, mesmo porque ela passa pelo meu recorte editorial, humano, que contempla uma série de fatores e dispensa outros. Qualquer outro observador da produção nacional pode criar uma lista de discos tão importantes e variada quanto estes 25 que separei no meu recorte. Dezenas de ótimos discos ficaram de fora, fora artistas que não chegaram a lançar discos de fato – e sim existem na internet apenas pelo registros dos outros de seus próprios trabalhos. E em qualquer recorte feito é inevitável perceber a teia de contatos e referências pessoais que todo artista cria hoje em dia. Poucos trabalham sozinhos ou num núcleo muito fechado. A maioria abre sua obra em movimento para parcerias, colaborações, participações especiais, duetos, jam sessions.

E não é uma panelinha. Não são poucos amigos que se conhecem faz tempo e podem se dar ao luxo de fazer isso por serem bem nascidos. É gente que vem de todos os extratos sociais e luta ferrenhamente para sobreviver fazendo apenas música. Gente que conhece cada vez mais gente que está do seu lado – e quer materializar essa aliança num palco, numa faixa, num mesmo momento. Esse é o diferencial desta geração: ela vai lá e faz.

Desligue o rádio e a TV para procurar o que há de melhor na música brasileira deste ano.

Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema
BNegão e os Seletores de Frequência – TransmutAção
Barbara Eugênia – Frou Frou
Bixiga 70 – III
Boogarins – Manual ou Guia Prático de Livre Dissolução de Sonhos
Cidadão Instigado – Fortaleza
Diogo Strauss – Spectrum
Elza Soares – Mulher do Fim do Mundo
Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Guizado – O Vôo do Dragão
Ian Ramil – Derivacivilização
Instituto – Violar
Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thomas Harres – Abismu
Karina Buhr – Selvática
Letuce – Estilhaça
Mariana Aydar – Pedaço Duma Asa
Negro Leo – Niños Heroes
Passo Torto e Ná Ozzeti – Thiago França
Rodrigo Campos – Conversas com Toshiro
Rodrigo Ogi – Rá!
Siba – De Baile Solto
Space Charanga – R.A.N.
Supercordas – A Terceira Terra
Tulipa Ruiz – Dancê

As 75 melhores músicas de 2015: 73) Diogo Strausz – “Narcissus”

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“Myself with myself and I”

Os 75 melhores discos de 2015: 58) Diogo Strausz – Spectrum – Vol. 1

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Da surf music à música eletrônica, pela cabine do produtor.

Vida Fodona #518: Vida Fodona de amigo oculto

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Tirei a Carol no amigo oculto da firma e ela levou esse Vida Fodona de presente.

Bárbara Eugenia + Rafael Castro – “Pra Te Atazanar”
Ryan Adams – “Style”
Grimes – “Flesh Without Blood”
Weeknd – “Can’t Feel My Face”
Kendrick Lamar – “Alright”
Instituto + Karol Conká + Tulipa Ruiz – “Mais Carne”
Chairlift – “Ch-Ching”
Jamie Xx + Young Thug + Popcaan- “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”
Hot Chip – “Started Right (Joe Goddard Disco Remix)”
Tame Impala – “Let It Happen (Soulwax Remix)”
Mano Brown + Naldo Benny – “Benny & Brown”
Emicida – “Salve Black (Estilo Livre)”
Diogo Strausz – “Narcissus”
Elza Soares – “Pra Fuder”
BNegão + Os Seletores de Frequência – “Giratória (Sua Direção)”
Bixiga 70 – “100% 13”
Deerhunter – “Snakeskin”
Mark Ronson + Bruno Mars – “Uptown Funk”
Anitta – “Bang!”
Will Butler – “Anna”
Unknown Mortal Orchestra – “Ur Life One Night”
Toro y Moi – “Empty Nesters”
Supercordas – “Sinédoque, Mulher”
Siba – “Mel Tamarindo”
Cidadão Instigado – “Land of Light”
Ava Rocha – “Transeunte Coração”
Boogarins – “Mario de Andrade/Selvagem”
Yumi Zouma – “Second Wave”
Letuce – “Mergulhei de Máscara”
Anelis Assumpção + Amigos Imaginários – “Eu Gosto Assim (Dub Version)”

Vamos?

Vida Fodona #517: Ainda não tô em clima de retrospectiva

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Vamos lá que ainda tem muito 2015 pela frente….

Drake – “Hotline Bling (Instrumental)”
Mopho – “A Carta”
Erasmo Carlos – “Grilos”
Gorillaz – “Empire Ants (Miami Horror Remix)”
Kendrick Lamar – “The Blacker the Berry”
Wire – “Keep Exhaling”
Spoon – “Rainy Taxi”
Elza Soares – “Maria da Vila Matilde”
Rodrigo Ogi – “7 Cords”
Diogo Strausz – “Não Deixe de Alimentar”
Lana Del Rey – “High by the Beach”
Carly Rae Jepsen – “Run Away With Me”
Ryan Adams – “Style”
Siba – “O Inimigo Dorme”
Tulipa Ruiz – “Oldboy”
Wilco – “Pickled Ginger”

Vamo lá.

Vida Fodona #513: Quebrando a maldição

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E começo a anunciar as novidades dos 20 anos do Trabalho Sujo…

Iron Maiden – “Cross-Eyed Mary”
Jean-Luc Ponty – “Computer Incantations for World Peace”
Marina Lima – “Corações a Mil”
Meghan Trainor – “All About That Bass”
Todd Terje – “Preben Goes To Acapulco (Prins Thomas Remix)”
Bryan Ferry – “Don’t Stop The Dance (Idjut Boys Dub)”
Baiana System – “Playsom”
Groove Armada – “Superstylin'”
João Brasil – “Cheia de Dar”
Human League – “Don’t You Want Me”
Diogo Strausz + Ledjane Motta + Maria Pia – ‘Não Deixe De Alimentar”
Taylor Swift – “Style”
Tame Impala – “‘Cause I’m a Man”

Bora lá.

Strausz na penumbra

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Diogo Strausz tira mais um clipe de seu ótimo disco de estreia – o austero e dançante Spectrum – Volume 1 – e o timbre desértico de sua guitarra conduz a direção do vídeo (a cargo de Marcelo Mattina) para um sombrio cenário lyncheano, que conversa perfeitamente com o bucólico tom de “Ítalo”, a curtinha instrumental.

A primeira vez de Diogo Strausz em São Paulo

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“Confesso que estou um pouco nervoso porque o Sesc Pompéia é grande e por ser o meu primeiro show em São Paulo”, ri Diogo Strausz sobre sua apresentação nesta terça-feira, no Prata da Casa. “Então quem estiver lendo essa entrevista por favor não hesite em ir”, convida.

Strausz despontou na cena eletrônica carioca da virada da década passada e aos poucos foi forjando sua carreira como produtor, que culminou em seu primeiro disco de estreia, o ótimo Spectrum – Volume 1, lançado no início do ano. “Eram músicas que eu já imaginava enquanto produzia as faixas eletrônicas mas ainda não tinha coragem e recursos para meter bronca”, explica quando pergunto sobre o início do disco. “De qualquer maneira elas vinham surgindo ao longo dos dois anos anteriores à gravação do disco e em um dado momento me bateu aquela segurança ‘ih, dá pra fazer’. Mas a transição mesmo veio no disco do Castello Branco, quando percebi que gostava mais das músicas orgânicas que eu produzia do que das eletrônicas.”

Ele contempla o ponto de mudança da atual cena pop do Rio de Janeiro, que vive um ótimo momento com a expansão de artistas como Ava Rocha, Letuce, Do Amor, Tono e Alice Caymmi. “Espero que continue indo nessa direção, o Rio está se (re)tornando uma cidade muito musical”, continua. “Vejo cada vez mais músicos tocando nas ruas e colegas lançando ótimos discos: Stephane San Juan, Jonas Sá, Alberto Continentino, Marcelo Callado, Cícero, Grupo Cometa, Baleia e esses são só os que me vem primeiro a mente.”

Ao vivo, Spectrum reúne nomes conhecidos dessa mesma cena, como Pedro Garcia na bateria e Patrick Laplan no baixo, além de Thomás Jagoda nos teclados, da percussão de Tadeu Campany e os vocais que Ledjane Motta divide com a convidada Laura Lavieri, que participa do show em São Paulo. Diogo toca guitarra e dispara programações, regendo a banda com seu timbre de surf music músicas que passeiam por todo o espectro cogitado por sua produção, de canções líricas gravadas com Danilo Caymmi a produções de pista feitas com o ídolo Kassin, além de participações de nomes como o produtor Apollo, seu pai Leno (da dupla Leno e Lillian) e de Alice Caymmi, esta última produzida em seu disco solo pelo próprio Strausz, mas que não continuou com o músico ao ser contratada pela Universal. “Eu li no Mauro Ferreira outro dia dizendo que foi porque eu e a produção dela não entramos em um acordo financeiro”, explica a recente ruptura com a cantora. “Eu não sei da onde ele tirou isso, de mim é que não foi, mas adorei. Então estou usando essa como minha versão oficial também.”

“Estou empolgado demais com o show então quero refinar e aprimorar ele ao máximo ao longo desse ano, fazer poucos e bons”, continua. “De trabalho autoral é isso por agora. Me faz um bem danado revezar entre ele e os outros artistas e projetos que pintam, assim o ar permanece sempre fresquinho”, conclui. Como o show faz parte do Prata da Casa, ele é gratuito – e começa pontualmente às 21h, na choperia do Sesc Pompéia.