Como foi o show dos Arctic Monkeys em Santiago

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Acompanho o trabalho dos Arctic Monkeys desde que eles eram revelação no MySpace, mas só fui respeitá-los de verdade a partir do show deles no Lollapalooza Brasil de 2012, quando começavam a rascunhar sua obra-prima AM, o melhor disco de 2013. Naquele show deu para sacar que Alex Turner não ficava só na teoria e encarnava um personagem arquetípico do rock – o rebelde galã que envelhece sem esmorecer como Elvis Presley. Apesar de não ter nem 30 anos, ele pisava firme como rocker clássico, misto de Gene Vincent com Johnny Cash, Joe Strummer com Brian Setzer, um Montgomery Clift com a sensibilidade de Buddy Holly. O completo domínio da platéia era semelhante ao que tinha de seu instrumento, tratando-o com reverência e desdém às vezes ao mesmo tempo. Os fãs de Queens of the Stone Age que me perdoem, mas considero os Arctic Monkeys a principal banda de rock na ativa – e grande parte desse título vem da postura de astro de seu frontman.

Por isso foi inevitável animar-se para assistir a um terceiro show deles aqui no Brasil – ao mesmo tempo que foi inevitável desanimar-se quando foram divulgados os preços dos ingressos. Pior não é apenas o valor das entradas, mas a existência dessa nefasta pista vip, um enorme curral de endinheirados que separa a banda de seu público de verdade. Paguei o vip para assistir ao show do Cure no Anhembi ao lado de um monte de gente que não estava nem aí pro show, conversando no celular, paquerando e tirando foto com os amigos. Dias depois, em Buenos Aires, sem a opção da pista vip, os verdadeiros fãs da banda haviam chegado no meio da tarde para garantir seu lugar na grade. Cercados por fãs de verdade, que cantavam todas as músicas de cor, a banda de Robert Smith se empolgou bem mais em Buenos Aires do que no show de São Paulo. Por isso quando soube do preço da área vip dos Monkeys em São Paulo resolvi gastar esse dinheiro num ingresso comum em Santiago, pagando bem menos pela entrada e usando o resto da grana para pagar parte da passagem de avião, usando a banda como desculpa para curtir um fim de semana esticado na capital chilena.

E as surpresas da noite começaram pelo local do show, o ginásio Movistar Arena, fechado, com seu teto abobadado como um globo e no meio de um parque, que além de ter tudo funcionando bonitinho (banheiro, filas, entrada) ainda proporcionou alguns momentos espetaculares graças à sua construção. Uma arena circular, ela é cercada por uma arquibancada à meia altura, que permite que se assista ao show da altura do palco principal. O Hives nem chegou a ser uma surpresa pois por mais desprezível que a banda possa ser em termos de importância, ela se garante em presença de palco, principalmente devido ao carisma de seu líder tagarela Pelle Almqvist, protagonista da segunda surpresa ao exibir um espanhol fluente o suficiente para desfilar piadas inteiras para o público chileno. Este por sua vez era uma surpresa ainda maior – já que a faixa etária do local não ultrapassava os 18 anos. O público do Arctic Monkeys no Chile era muito mais novo que a própria banda e a tratava com uma reverência religiosa, erguendo câmeras e celulares para registrar poucos frames daquele momento de catarse coletiva.

Calcado no disco do ano passado, o show é um desfile quase integral dos hits do disco preto e seu palco é ornado com globos de discoteca à frente de um enorme neon que reproduzia a onda de frequência que estampa a capa de AM. A iluminação e a disposição dos instrumentistas no palco deixava Alex Turner claramente no olho do furacão, com o baixista Nick O’Malley, o guitarrista Jamie Cook e o baterista Matt Helders assumindo algum protagonismo em certos vocais de apoio ou solos de seus instrumentos. A estrela da noite é o vocalista da banda, sua principal força-motriz, que domina o público enquanto canta suas baladas roqueiras. O show começa logo após de uma versão instrumental para uma nada acidental “Are You Lonesome Tonight?” e abre com três mísseis do disco do ano passado: “Do I Wanna Know?” já estabelece o clima pesaroso e grave da noite, acompanhado pelos fãs cantando o riff da música – uma tradição do rock latino. Mas basta Alex começar a cantar para nos lembrar que estamos em frente a um ídolo juvenil – e a imensa massa de vozes de adolescentes grita nos intervalos das letras de todas as músicas. O refrão da primeira faixa – “crawling back to you…” – é cantado como o refrão de uma missa. Mas qualquer ar messiânico ou clima religioso é deixado para trás a cada vez que Alex aponta para o público ou desvia o olhar como se estivesse desinteressado.

“Snap Out of It” segue cantada em uníssono pelo público, mas flutua no éter, numa câmera lenta lynchiana que pouco lembra a dinâmica pontiaguda da versão do disco. É no meio da faixa que o vocalista pela primeira vez interage com o público, arriscando algumas palavras em espanhol. De blaser azul e um topete impecavelmente engomado, Turner já não é mais o rebelde à James Dean que parecia encarnar há dois anos. Há uma segurança adulta, um ar de crooner e uma empáfia como se fosse um gângster júnior – quando larga a guitarra para cantar “Arabella” segurando apenas o microfone e seu cabo, ele caminha como um Chris Moltisanti dos Sopranos ou o Ray Liotta em Goodfellas: cheio de si, cercado por amigos de confiança, ele é o dono do pedaço, o rei da noite, um conceito de popstar bem diferente daquele que nos acostumamos a ver. Como se Elvis não tivesse engordado na fase Las Vegas e fosse o rei de lá até hoje, uma espécie de Frank Sinatra do rock. E isso é mais desconcertante quando lembramos que o sujeito é inglês. Antes da faixa acabar ele retoma a guitarra como se estivesse apenas experimentando a vida sem seu instrumento nativo.

E emenda uma sequência de hits de discos passados que começou com uma acelerada “Brianstorm”, passou pela lenta “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair” (com direito à coreografia discreta de macarena quando a canção é citada), uma versão quase latinizada para “Dancing Shoes” e “Teddy Picker” emendada com “Crying Lightning”. Depois foi a vez de voltar a AM com “No. 1 Party Anthem” protagonizando um dos momentos mágicos do show, quando o público tirou seu celulares para acender lanternas para o alto enquanto balançava os braços para acompanhar a balada. Não havia a referência do isqueiro aceso dos anos 70 para aqueles adolescentes, não era citação nem ironia, simplesmente a vontade de fazer parte de um instante apaixonado com milhares de fãs ao redor. E assim a Movistar Arena se iluminou como um céu estrelado, transformando-se num enorme bailinho dos anos 50. “Knee Socks” aproveitou-se do transe para impor seu ritmo marcial e a costura de guitarras em outro grande momento do show.

“All My Own Stunts” abriu outra sequência de músicas do passado e Alex deixou o blaser de lado, chamando devagar o hit “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, que ligou o público na tomada, deixando-o em ponto de bala para “Library Pictures”, quando Turner provocou o público, chamando o “Chi, Chi, Chi!” da torcida de futebol para que este repondesse com “le, le, le!”. Daí para o final foi uma série imbatível de clássicos modernos, começando com a irresistível “Why’d You Only Call Me When You’re High?”, passando pelo hino “Fluorescent Adolescent” e terminando a primeira parte do show com a reverente “505”, uma música que parece sintetizar essa fase adulta vivida atualmente pela banda.

O bis é o suprassumo do disco do ano passado e começa com a forte “One for the Road”, passa pela apaixonante “I Wanna Be Yours” (e em outro momento mágico da noite, os holofotes apontam para os globos de discoteca, transformando o ginásio em uma casa noturna dos sonhos) e termina com os golpes de machado desferidos no riff de “R U Mine?”, todas convocando o público para cantar em uníssono e desprender-se naquele universo frio e escuro do disco de 2013.

As luzes se acenderam e Joe Cocker começa a cantar “With a Little Help from My Friends” nas caixas de som, provocando um efeito dúbio, pois não sabemos se estamos vivendo um momento clássico como o Woodstock que registrou a versão definitiva para a música dos Beatles ou se acordamos de um flashback de um passado que não vivemos, como o Kevin Arnold de Anos Incríveis. Uma noite memorável, um dos grandes shows do ano, uma das grandes bandas deste século.

Abaixo os vídeos que fiz do show.

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